quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Tête-à-tête

Não é uma biografia sobre Sartre ou Beauvoir, a autora esclarece. Trata-se de um livro sobre a história de amor entre eles.

Se conheceram aos vinte e poucos anos, na época em que prestavam um exame de admissão ao cargo de professor de filosofia do Ensino Médio. Beauvoir flertava abertamente com Maheu, um amigo de Sartre que era bem casado e feliz. Foi Maheu quem deu a Beauvoir o apelido de “Castor” (porque “Beauvoir” se parece com “beaver”, a palavra inglesa que nomeia o roedor), apelido que Sartre e boa parte dos amigos usaram para se referir a ela durante toda a sua vida.

Sartre se interessou pela jovem Beauvoir, bela e extremamente inteligente, de fala rápida. Pediu a Maheu que marcasse um encontro entre os dois em um café. No dia marcado, Sartre sabia muito bem por que Beauvoir mandara a irmã em seu lugar para desculpar-se e dizer que ela não viria. Baixinho, zarolho e com a pele ruim, Sartre não causava uma boa primeira impressão nas mulheres. A consciência de Sartre sobre sua feiúra talvez tenha sido o primeiro passo em direção às suas concepções sobre o Existencialismo e a liberdade.

Superados os obstáculos iniciais, Sartre e Beauvoir logo viveram um encontro de almas e perceberam que se amariam durante toda a vida. Sartre, no entanto, tinha clareza de que jamais se casaria ou teria filhos. Dizia a Beauvoir que lhe daria o seu amor eterno e profundo, mas jamais poderia abrir mão de sua liberdade. Ele próprio estimulava que Beauvoir fizesse o mesmo.

Ao longo de suas vidas, Sartre e Beauvoir devotaram um amor um ao outro que consideravam “essencial”, enquanto experimentavam com outros parceiros amores “contingentes”. Para Sartre esse sempre foi o arranjo que melhor representava a ordem natural das coisas. Jamais demonstrava ciúme por Beauvoir e nunca a repreendeu por qualquer outro relacionamento.

Para Beauvoir, viver a liberdade pregada por Sartre não era tão fácil. Além de se consumir pelo ciúme, poucas vezes ela achava que as mulheres escolhidas por Sartre estavam à altura dele. De fato Sartre, um homem brilhante, costumeiramente se envolvia com mulheres frágeis ou pouco talentosas, que logo se tornavam dependentes financeiramente dele. Ele as sustentou até sua morte e chegou a adotar uma delas, que atualmente é detentora dos direitos autorais sobre toda a sua obra (e infelizmente não tem sido muito generosa para com o resto da humanidade).

Em poucas ocasiões Sartre e Beauvoir viveram sob o mesmo teto. Cada um deles viveu relacionamentos longos com outros parceiros. Beauvoir chegou a viver com um de seus homens por sete anos. Mas a condição para a sobrevivência desses relacionamentos paralelos era que os parceiros aceitassem que tanto Sartre quanto Beauvoir não eram um homem e uma mulher isentos de compromisso, livres e prontos para se entregar integralmente a uma relação. Eles tinham um ao outro e não abriam mão disso. É verdade que Beauvoir, mais do que Sartre, estava disposta a deixar tudo e todos, a qualquer momento, para estar com Sartre, e em algumas ocasiões isso lhe trouxe conseqüências amargas.

Foram parceiros sexuais durante os primeiros 15 anos dos 51 em que mantiveram o seu laço amoroso. Foram parceiros intelectuais durante os 51 anos de vida em comum. Fizeram da escrita o seu ofício. Era piada entre os amigos de Sartre e Beauvoir que “o Castor trabalhava como uma formiga”. Sartre também tinha uma urgência por escrever que jamais conseguia vencer. Durante toda a sua vida, escreveram durante seis a oito horas por dia. Sartre escreveu peças, romances, artigos e ensaios filosóficos. Beauvoir escrevia artigos, ensaios, romances e um volume significativo de obras autobiográficas.

Sartre e Beauvoir eram dotados de um enorme magnetismo. Eram admirados, lidos e venerados por pessoas ao redor de todo o mundo. Muitas das alunas de Beauvoir se tornaram suas amigas, depois amantes e, boa parte delas depois disso, amantes de Sartre também. Foi assim que Beauvoir acabou exonerada do seu cargo de professora; após a denúncia da mãe de uma de suas alunas. Todas essas pessoas com quem eles se envolviam e que, mesmo depois de findos os casos, continuavam em torno deles, dependendo financeira e emocionalmente dos dois, acabaram constituindo o que eles chamavam de “a família”.

Beauvoir, uma mulher inteligentíssima, articulada, esclarecida, cedo percebeu que a liberdade experimentada por Sartre jamais seria a mesma que ela vivia, por sua condição feminina. Abrir mão de se casar e ter filhos e viver esse relacionamento não oficial com Sartre causou grande desgosto à mãe de Beauvoir e fez com que ela não fosse considerada respeitável em muitos círculos sociais. Estimulada por Sartre a escrever sobre si mesma, sua vida, experiências e idéias, Beauvoir concebeu “O Segundo sexo”, até hoje uma de suas obras mais importantes e um grande ícone do feminismo.

Torturada por angústias permanentes que atribuía ao medo da morte, Beauvoir era dada a momentos de choro incontroláveis, que assustavam quem estivesse por perto por sua aparente fragilidade. Acostumou-se a fazer longas caminhadas para as quais dificilmente encontrava companhia. Sartre, em uma de suas cartas, chamou-a de “devoradora de quilômetros”. Essa era a maneira de Beauvoir de lidar com a sua sombra.

Alguns dos que se envolveram amorosamente ou sexualmente com Sartre e Beauvoir – particularmente as mulheres – consideravam sua forma de se relacionar doentia e destrutiva. Por vezes, Beauvoir e Sartre admitiram a si mesmos terem ido longe demais e causado danos permanentes a jovens a quem a liberdade à qual eles se dedicavam estava além do horizonte de possibilidades. Suas vidas não são impecáveis exemplos de moral e conduta; pelo contrário, refletem mais um exercício não acabado – mas profundamente vivido – de busca por essa tal liberdade, aquela que parece sempre um metro adiante de onde estamos, ou em nome da qual por vezes parecemos abrir mão daquilo que nos parece mais caro.

Tête-à-tête
não é uma biografia sobre Beauvoir ou Sartre. É sem dúvida uma história de amor. Um amor humano, tortuoso, ora egoísta, ora equivocado, mas sempre vivo. Alguém já disse que é a maior história de amor do século XX. A autora deixa ao leitor o veredicto sobre a verdade ou não dessa afirmação.

De minha parte, dentre tantas coisas que me deslumbraram nesse livro, talvez a mais cara tenha sido a velha conhecida lembrança de que existem tantas formas de amar quantas são as pessoas que amam.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Out of the closet

Se eu não posso culpá-la inteiramente, boa parte do meu sumiço se deve a uma certa ruiva. Antes de escorregar a caixa para as minhas mãos, alertou: “não abra na frente dos seus pais. Eles podem entender tudo errado...”.

E então eu descobri o fascinante mundo lésbico.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Vinte e nove

A amiga da rua. As amigas do primário e do ginásio. As amigas do colegial. As amigas do primário, do ginásio e do colegial. As amigas da faculdade. A amiga do ginásio que só ficou amiga mesmo depois da faculdade. A ex-professora da faculdade que virou amiga e sócia. A amiga da faculdade que virou colega de trabalho. A ex-namorada do amigo do ex-namorado da irmã que virou amiga e vizinha de mesa no trabalho. A amiga que não é mais do trabalho, mas continua amiga. Os amigos do ex que viraram amigos. O amigo da amiga que virou amigo e também ficou amigo da outra amiga. O amigo que veio do espaço. A irmã que virou amiga. A colega de faculdade que ficou amiga mesmo quando namorou um amigo do ex. A prima que sempre foi mais amiga do que prima. O namorado da prima que virou amigo. A mulher do amigo do ex que virou amiga, vizinha e colega de trabalho.

Um amigo para cada ano de vida. Assim é que é bom.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Dez mil

Este dia chegou mais cedo do que eu esperava. Já faz um tempo que eu comecei a ficar de olho no marcador de visitas do blog pensando “preciso preparar um post especial para os dez mil”. De repente chega um comentário da amiga e descubro que já estou nos dez mil e seis. Mesmo um pouco atrasada, estou aqui para a comemoração da marca.

O Mulher Solteira nasceu em 5 de julho de 2007, catorze meses depois do meu retorno à vida solteira, mais ou menos uma semana depois de ter vivido pela quinta vez consecutiva, em poucos meses, a famosa síndrome do “por que ele não me ligou?”. Naquela época, voltar a entender o funcionamento do “mercado” consumia boa parte da minha energia e fazia o meu cérebro ferver. Escrever era uma forma de tentar pôr um pouco de ordem no caos e apaziguar a angústia de não entender o que os homens queriam, por que agiam como agiam, o que realmente significavam as suas palavras e também os seus silêncios.

De lá pra cá a “linha editorial” mudou bastante. Afinal, o blog acompanha a minha vida de Mulher Solteira e nos últimos meses decidi sair do campo de batalha e empreender uma nova missão: aprender a ser só. De “mulher solteira navegando sem bússola pela selva dos solteiros” me coloquei “em um rinque de sumô, face a face com a solidão”. Eu bem desconfio que a melhor forma de aprender com a solidão não seja chamá-la para a briga como estou fazendo, e sim me tornar amiga dela. Mas o caminho é longo e ainda tenho muito chão pela frente.

E agora chegamos aos dez mil acessos. Talvez alguns estejam se perguntando sobre a receita do sucesso para atingir tal marca. Quero dividir generosamente com vocês o segredo dessa façanha:

De 5 de julho de 2007 a 16 de fevereiro de 2008 tivemos 227 dias. Isso significa cerca de 44 acessos diários. Vamos dizer que tenho aproximadamente cinco leitores fixos e diários (nem todos comentam, mas alguns me confessam na vida real) e outros dez flutuantes. Isso já explica mais ou menos dez acessos (porque os flutuantes se revezam) por dia. Outros cinco acessos diários são meus mesmo: entro pra ver se os textos continuam no mesmo lugar, para me convencer de que o tamanho e a cor das fontes estão bons, para reler o post do dia anterior e ver se 24 horas atrás escrevi algum absurdo de que me arrependa, para encontrar comigo mesma ou simplesmente para “lamber a cria”. Os outros cerca de 30 acessos são assim distribuídos:

- Cinco pessoas estão procurando alguma referência aos seus livros preferidos da infância ou adolescência: “Poliana” e “Poliana Moça”;

- Cinco pessoas estão querendo saber como cuidar de uma árvore da felicidade;

- Cinco pessoas estão tentando decidir se devem ou não usar aliança de compromisso;

- Cinco pessoas estão procurando informações sobre o samba da Praça Roosevelt;

- Cinco pessoas estão usando o google como oráculo, procurando respostas para perguntas como “ele vai me ligar amanhã?”;

- Cinco pessoas estão procurando pornografia e, ao digitar expressões como “mulher dando de quatro”, misteriosamente são remetidas à minha página.

Aos meus leitores fixos e flutuantes, o meu muito obrigada (não teria cabimento agradecer a mim mesma pelos meus cinco acessos diários). Aos interessados na Poliana, na árvore da felicidade, nas alianças de compromisso ou no samba da Praça Roosevelt, lamento não poder ajudá-los, mas espero que tenham usufruído de uma leitura interessante caso tenham decidido perder alguns minutos com esse blog. Àqueles que usam o google como um oráculo, espero que encontrem as respostas que estavam procurando (e que descubram logo que o google serve para quase tudo, mas certas respostas só o tempo pode trazer). Aos que procuram pornografia, não se sintam logrados pelo google. Aprendam também que as aspas são de grande ajuda para que ele não se confunda na busca. E aproveitem para parar e usufruir das confissões de uma mente feminina, que às vezes pode ser ainda mais erótica do que as partes íntimas de uma mulher.

E que venham os próximos dez mil!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Laço

- Oi, linda!
- Oi... tudo bem?
- Tudo, e você?
- Médio...
- Por quê?
- Solidão.
- Sei como é...

E isso já fez desgrudar as asas viscosas da mariposa pousada no meu coração.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Em nome da Ciência

Justificativa
Em nome do progresso científico, decidi entregar-me a um experimento. Meu interesse pelo tema surgiu de hipóteses do senso-comum que dizem que “quando menos se espera, aparece alguém interessante”, “quando você faz as coisas por você, e não pelos outros, se torna alguém irresistível” e “antes de gostar de alguém, é preciso aprender a gostar de si mesmo”. Assim, tomei a decisão de não realizar absolutamente nenhum movimento em direção à busca por um parceiro amoroso, ficante, rolo, paquera, one-night-stand, PA, ATT e similares, não significando, com isso, que eu estivesse fechada a qualquer uma dessas experiências. O coração do experimento consistia em não buscar, não procurar, não fazer nenhum esforço.

Objetivos gerais

- Fortalecimento da auto-estima
- Contemplação do vazio lúcido
- Aceitação do sentimento de solidão
- Exercício da paciência
- Aprendizado de auto-suficiência

Objetivos específicos

- Identificar se, de fato, “o universo conspira a nosso favor”
- Verificar se é possível conhecer homens interessantes na fila do banco, na padaria ou na locadora sem tomar absolutamente nenhuma iniciativa
- Investigar se “alguém de repente pode lhe oferecer flores”
- Constatar se é verdade que “o que é meu está guardado”

Metodologia

A metodologia utilizada consistiu na realização de absolutamente nada. Alguns comportamentos foram evitados:

- Entrar em sites de relacionamentos
- Sucumbir a blind dates patrocinados pelas amigas
- Enviar indiretas ao amigo gostoso da sua melhor amiga
- Procurar rolos, ficantes, one-night-stands, PAs ou ATTs do passado
- Sair para a balada com objetivos de caça
- Tentar conquistar o professor de violino da afilhada da sua amiga com um e-mail espirituoso

Resultados parciais

134 dias de seca

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Carnaval

Mulher Solteira informa: este blog está fora da área de cobertura ou desligado.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

And the Oscar goes to...

Eu sou um bicho teimoso, ou melhor, preguiçoso, ou melhor, randomicamente avoado. O vizinho cansou de buzinar no meu ouvido: Mulher, você tá marcando touca nessa 2001! A locadora da esquina de casa é muito mais barata...

E eu, afundando em dívidas e afundando a minha solidão nos filmes, levei quase um ano para finalmente me lembrar de colocar um simples comprovante de residência da bolsa para fazer o meu cadastro na locadora.

Confesso que logo de cara não notei uma diferença significativa nos preços. Pra falar a verdade, a minha ridiculamente obsessiva memória para eventos dramáticos e cultura inútil não é lá um grande prodígio na arte da comparação dos preços. Deve ser por isso que eu, afundando em dívidas e afundando a minha solidão em potes de requeijão, continuo fazendo compras no Pão de Açúcar. Ah, é. Também gosto de fazer supermercado de madrugada. Coisas de solteiros solitários.

Mas de volta aos fatos: comecei a freqüentar a locadora ocasionalmente, sem sentir, de imediato, nenhum grande alívio no bolso. Foi aí que o universo conspirou para que a minha gula de ficção atacasse em plena quarta-feira. Entrei, vasculhei as prateleiras (é verdade que a oferta não é tão variada, mas sempre há algo interessante se a gente procurar com afinco), escolhi uma fita (pra usar uma gíria em desuso e provocar raivinhas em amigas ruivas) e, ao passar pelo balcão, recebi a senha para a felicidade: não quer aproveitar e pegar mais um? Hoje é dia de promoção, cada locação por 3,50. Voltei para casa feliz da vida, com dois DVDs debaixo do braço e quarenta e oito horas para desfrutá-los, tudo pela bagatela de 7 reais.

Semana seguinte, a cena se repete. Mas dessa vez, com programação noturna na quinta-feira e intensa programação diurna no feriado de sexta, só consegui assistir a um dos filmes. Ainda assim, desfrutei do privilégio de ligar para a locadora vir buscá-lo na minha casa, sem taxa de “entrega”, e deixei para acertar tudo no dia seguinte quando fosse devolver o segundo.

Na hora de pagar, a surpresa: Deu 9,50. Como? 9,50. Sabe o que é, você está um dia atrasada... Pois é, sei disso, respondi surpresa. É que pensei que fosse ficar mais caro. Não, a diária em atraso custa 2,50. Ah... Desse jeito até vale a pena atrasar, não? Levemente constrangida, a atendente não teve como não concordar.

Hoje foi dia de cinema em casa de novo. E como a primeira sessão acabou cedo, estou me preparando para a segunda. Acontece que li em um cartaz em cima do balcão que os filmes locados na promoção de quarta, se devolvidos na quinta, saem por 2,50. Imaginem o cenário: na quarta-feira alugo quatro filmes. Com uma sessão dupla na quarta e outra na quinta-feira (uma meta conservadora para alguém que não vai para a cama antes das duas da manhã), terei assistido a quatro filmes por reles 12 reais. E o preço vale tanto para catálogo quanto lançamento!

Na pior das hipóteses, vendo um filme por dia de quarta a sábado, arremato a semana com quatro novas aquisições para o meu repertório filmográfico por apenas 4,50 cada. Calculem comigo: devolvo (ou melhor, mando buscar) o primeiro filme na quinta por 2,50; o segundo na sexta por 3,50 (não dá pra assistir e devolver um na própria sexta porque a locadora fecha às 23h); o terceiro e o quarto no sábado por 6,0 cada. Tã-dã! Conta final: 18 reais.

A quarta-feira, que costumava ser o limbo insosso entre o longínquo sábado que passou e o que ainda está por vir, acaba de receber o Mulher Solteira Award de noite mais divertida da semana.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Feira livre

Amiga 1 – Mulher, dei seu msn para um cara com quem eu estava me correspondendo no Par Perfeito! Agora que eu estou com o Sicrano, como achei que ele podia ser interessante, falei de você pra ele e ele ficou a fim de te conhecer. Ele já olhou o seu Orkut e te achou bem interessante. Ah, falando em Orkut, antes que eu me esqueça: também dei o seu Orkut para um amigo do Sicrano. Nossa, se você gostar dele vai ser ótimo, porque ele é mooooito legal!!!

Amiga 2 – Mulher! Olha só: uma amiga minha lá de Ribeirão se separou do marido há pouco tempo, não tem volta, eles ficaram amigos, tudo super bem resolvido. E o Beltrano é um partidão! Tô aqui pensando em um jeito de te apresentar para ele... Ribeirão nem é tão longe, vai!

Amiga 3 – Mulher, outro dia eu estava pensando e concluí que o professor de violino da minha afilhada é A SUA ALMA GÊMEA! Ele é interessante e bonito, tem estatura mediana, é hiper sensível, não é nada gay, me parece que não é casado nem tem namorada, é super culto, é simpático, aberto, comunicativo, e é MÚSICOOOO!!! Você acha que com o nome dele e a indicação de onde ele trabalha tem como chegar no e-mail dele???

Amiga 4 – Mulher, vem cá, quero te apresentar para o meu amigo Homem, Homem, Mulher, Mulher, Homem, pronto, estão apresentados! É que eu tava comentando com o meu irmão, vocês têm tudo a ver! Mulher, o Homem também é da USP, super inteligente, é físico, então é isso, vocês podem decidir agora se querem conversar ou não, que nem a Daniela Cicarelli, hahahahaha!!! Sabe, no Beija Sapo? Então é isso, ai gente, até eu fiquei com vergonha agora, então abafa o caso, vamos dar uma circulada e se for o caso depois vocês conversam...

Amiga 5 – Mulher, atenção! Acabaram de chegar dois amigos solteiros e super interessantes! (Algumas horas depois...) Ah, eu vou te contar! As mulheres solteiras dessa mesa não estão com nada!!! Eu trago três solteiros lindos, inteligentes, interessantes para essa balada e eles vão embora porque acharam o lugar meio parado? Vocês não estão com nada!!!

Amiga 6 – Mulher, o que você acha do meu amigo Fulano, rola??? Não??? Ah, que pena, porque eu já perguntei pra ele e ele disse que pra ele rola...

Mãe da Amiga 6 – Aê, Mulher! Vamos agitar o Fulano pra você, hein???

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Segredos de liquidificador

- Então, quebrou um ovo podre no meu carro, acredita? Agora está um cheiro péssimo...
- Hum, não faço idéia de como seja cheiro de ovo podre.
- Parece cheiro de pum.
- Ah, é? Mas cheiro de pum ruim, né? Ou cheiro de pum bom, tipo ovo frito? Não, deve ser cheiro de pum ruim, se o ovo estava podre.
- ... Cheiro de ovo frito???
- Você não acha que ovo frito tem um pouco de cheiro de pum? Mas não é ruim, é cheiroso... Cheiro de pum bom. Tem cheiro de pum ruim e cheiro de pum bom.
- ... [cara de monstra]
- ... Não tem?
- ... Sei lá!
- Quando você solta um pum, não fica com vontade de continuar sentindo o cheiro?
- ... Será???
- Ué, todo mundo gosta do cheiro do próprio pum!
- Nossa, nunca reparei! Será que o pressuposto é o mesmo que leva as pessoas a olhar para o próprio cocô?
- Ah, pode ser... Porque a gente gosta de olhar o próprio cocô, mas o cocô dos outros não, né? E com pum também é assim, o pum dos outros é sempre fedido, mas do nosso pum a gente gosta.
- Se bem que quando a gente olha o cocô é por uma certa curiosidade de saber o resultado da ingestão de certos alimentos. É, acho que quando o pum está com um cheiro diferente a gente também se sente estimulado a investigar...
- Pois é. Mas de qualquer jeito a gente gosta do cheiro do nosso pum, independente do que a gente comeu.
- ... Gente... eu nunca tinha pensado nisso!
- Nossa...
- Bom, vou começar a reparar então.
- Tá, depois você me conta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Sobre a espera

Certa vez uma prima disse que eu não deveria esperar. Esperar pelo quê? Perguntei. ‘Esperar por tudo, oras.’

Pequena Gafanhota,

Eu sei que dói, e como sei, e como dói. Dói dormir, acordar, comer, trabalhar, falar, respirar, viver. Quanta coragem é necessária para arrastar esse desarticulado conjunto de órgãos, membros, ossos e carnes para as mais banais e fundamentais atividades do cotidiano. A mais fugidia sensação de paz de espírito, experimentada em um ou outro momento de entrega a algum pensamento ou tarefa desvinculada do seu objeto de amor, parece durar poucos segundos ante toda a eternidade ainda por se viver sem a presença do ser amado. Impossível não se sentir errada, pequena, insignificante, desprovida de algum encanto fundamental que deveria ser original de fábrica e não se consegue em uma revendedora qualquer.

Mas tenha calma, cara amiga. Calma e fé. Siga a estratégia dos dependentes químicos e viva um dia de cada vez, estabeleça uma meta exeqüível de se manter a salvo pelo menos por hoje. Coloque o seu sofrimento em uma perspectiva cósmica. Pense em quantas pessoas no mundo, nesse exato momento, estão passando por essa mesma, exata e insuportável dor que parece ter sido forjada aí mesmo no seu peito. Em quantas outras já passaram por essa mesma sensação de aniquilamento e hoje podem contar que a história teve um final feliz, ainda que o roteiro original tenha sofrido significativas adaptações por força das circunstâncias. Em quantas, ainda, que nesse instante vivenciam aquela mesma intensa percepção de felicidade a dois que lhe parece ter sido roubada sem possibilidade de resgate, mas em horas, dias, semanas, meses ou anos também serão obrigadas a enfrentar a solidão em um rinque de sumô.

Aplique, ainda, a perspectiva cósmica à sua própria linha do tempo. Pense no que significa essa porção de dor no universo que representa a sua vida como um todo, visualize a sua diluição no caudaloso passar das horas, dias, meses e anos que você já viveu e ainda há de viver. Use os seus olhos, ouvidos e coração para perceber que o amor acaba a todo instante, mas também renasce a todo instante e se é assim com todos, não será diferente com você.

Não tenha a ilusão, no entanto, de que qualquer um desses pensamentos afrouxará sequer um milímetro do aperto que toma conta da sua caixa torácica. Não será nesse momento, justo agora, que você encontrará forças para fazer prevalecer a razão sobre a emoção. Eles servirão apenas para que você reúna as mínimas forças necessárias para seguir vivendo e esperando, esperando, esperando.

Sim, você precisa continuar esperando. Ainda que a idéia de tomar uma pílula mágica que te fizesse dormir durante três meses pareça agora a maior das possíveis invenções da humanidade, saiba que tal engenho seria inteiramente inútil. Você dormiria e acordaria exatamente da mesma maneira, e esse lapso de tempo nada teria feito por você. É preciso dormir e acordar em cada um dos dias desses três meses, seguir vivendo apesar de tudo, obrigar-se a executar as mais ínfimas tarefas necessárias a garantir a manutenção da sua vida, e depois fazer isso por mais três meses, e mais três, e mais três, e quantos mais sejam precisos até que finalmente o tempo tenha realizado a sua ação curativa (que só acontece na sua espera ativa, como tento agora te mostrar).

Então talvez você chegue ao ponto de poder não esperar nada. Talvez se desfaça, uma a uma, de todas as suas ilusões, submeta toda a sua existência ao crivo da sua filosofia pessoal e conclua que nada nem ninguém pode ser tomado como garantido. E, diante disso, decida viver de maneira errante e errada, tomando cada um dos seus dias como a oportunidade de se surpreender com o novo e o desconhecido sem jamais se aferrar a eles e simplesmente pulando de uma experiência a outra com a única certeza de permanente admiração em relação à vida.

Pode ser que nesse tempo você também dessacralize o seu corpo e o entregue ao bel-prazer do fluxo dessas experiências. Você vai se desapropriar de si mesma e doar-se à ciência da experimentação. Vai provar um pouco de cada coisa, abrir mão do seu gosto clássico e simplesmente colocar-se à disposição de cada um dos encontros, por mais descartáveis que eles sejam, que a vida possa te proporcionar. Em cada um deles você vai sugar até a última gota das sensações, percepções, reflexões, conclusões e também o avesso de todas elas. E a pequena dor que esses encontros poderão te infligir será apenas a taxa mínima cobrada pela vida a qualquer um dos seus usuários, simples tarifa de manutenção, franquia que cobre desde os gastos com um conserto de radiador até o desgaste do relacionamento com um chefe que muda de opinião a cada 15 minutos.

Como, até então, você talvez não tenha estado aberta a vivê-los, esses encontros trarão consigo a dose de praxe de deslumbramento. A quem nada espera, a vida presenteia com surpresas permanentes, pensará você. E se entregará cada vez mais ao exercício de não fazer planos, de não buscar encontros, de não procurar amores, de não alimentar ilusões e simplesmente apanhar nas mãos essas pequenas doses diárias de descoberta. Perceberá, com espanto, que as pessoas não entram em sua vida para garantir a sua felicidade ou apaziguar a sua dor. O que há vez ou outra é a mera coincidência entre esses estados de feliz ou infelicidade e a presença ou ausência de alguém, mas a sua dor e a sua felicidade, sabe, essas ficam por sua conta.

E aí chegará o dia em que você vai enfrentar o vazio. Porque a vida paradoxalmente é muito curta e também muito longa, e despida dos seus planos, sonhos e ilusões e disposta a se entregar também a essa vivência, as horas, dias, semanas e meses se escoarão lentamente, sem que nada se possa fazer a respeito a não ser entender mais esse momento como uma nova e importante aquisição para o seu repertório. Não há nada de mal em tomar o cinema, a música ou a literatura como companhias eventuais na vivência desse vazio. Você já tem nas mãos os seus pincéis e tintas; procure pensar como seria a representação no papel desse vazio lúcido. Alimente-se das histórias alheias, mate a sua fome de vida com a ficção. E, mais uma vez, aprenda a esperar.

Exercite a sua paciência. Ouça o ronco surdo que vem de dentro do seu coração vazio, do seu estômago vazio, da sua mente vazia. Observe. Veja que, afinal, nem mesmo o vazio é capaz de anular a sua existência. Lembra-se da História sem Fim? “O nada é o vazio que resta”. Aqui, do lado de cá, o vazio é só o vazio, o nada é só o nada. Convide-os para um bom cálice de vinho, se te apetecer, ou para aquele cafezinho de que você tanto gosta.

E depois de tudo isso, Pequena Gafanhota, o que eu mais espero é que você continue esperando, e não desista nunca de esperar. Esperar nos ponteiros do relógio que o universo conspire e esperar nos ponteiros do seu coração que os seus sonhos e desejos tão preciosos encontrem outros sonhos e desejos com os quais possam seguir viagem. Afinal, o que seria de mim, de você, dele, sem os nossos sonhos e desejos? O que é o homem sem o seu projeto? Então, espere sim. Oxalá eu possa continuar sendo sua amiga para ainda te ver roendo todas as unhas dos dedos esperando, sabe lá, por um telefonema, ou de coração acelerado esperando por um beijo, ou de boca seca esperando por uma boa notícia, ou de pés inchados esperando pela chegada de um filho.

Essa sua anatomia errada, esse seu todo-coração, é o bem mais precioso que você possui. Se você já sabe o quanto pode sofrer com a perda, tem que saber também que a única coisa que não pode perder nunca é a capacidade de amar, pois o seu amor não está nele nem em nenhum outro, mas em você. Essa capacidade é o único pré-requisito para a sua felicidade nessa vida.

Bons encontros com a sua dor e delícia. Estarei aqui.

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* Esta não é uma obra de ficção. Qualquer semelhança entre pessoas, lugares e acontecimentos terá sido fruto de uma dolorosa mas frutífera vivência pessoal e intransferível.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Olhos de cortar cebola

E ainda tem gente que duvida da tenacidade das cebolas.

Vejam, contrariando todas as expectativas, na casa da mulher menos habilidosa com os vegetais, ainda durante o período de luto de uma violetinha que desistiu de lutar pelos direitos das mulheres, fazendo inveja aos ovos da prateleira de cima, uma cebola teimou em germinar em plena geladeira, pôr os tentáculos pra fora e pedir passagem.

A mulher não ousou contrariar a força da natureza. Pediu licença à alma da finada violetinha e transplantou a cebola para o seu vaso. Mas muito mais não fez. Aguou quando lembrou de aguar, deixou o vaso mais perto da janela e ao sabor do vento, vez ou outra lembrava de conferir o resultado do experimento. Foi viajar por ocasião do ano-novo e a deixou entregue à própria sorte.

Dias, semanas se passaram e a cebola continuava exatamente do mesmo jeito. Os tais tentáculos pouco cresceram, não pareciam fazer muita questão de ganhar mundo para fora do vaso ou da janela.

Ocorreu à mulher que, tendo plantado a cebola inteira, talvez faltasse espaço para que ela se desenvolvesse em sua plenitude naquele vaso acanhado. Ainda temendo que o choque do segundo transplante fosse demais para a cebola, como outrora acontecera com o seu feijão de batata que não vingou na terra, a mulher arriscou a mudança para um pote de sorvete, duplex, arejado, 3 suítes, andar alto, cozinha e banheiros azulejados.

Foi tirar a cebola da terra e descobrir um viçoso maço de folhas compridas e espevitadas, que se ajeitavam como podiam no subsolo. Contavam causos de vidas passadas em peles de tomates, joaninhas e sabiás enquanto esperavam o bom-senso da mulher prevalecer e ela finalmente perceber: plantara a cebola de cabeça pra baixo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Édipo

No ano passado, em uma das inúmeras despedidas de solteira às quais fui convocada a comparecer (evento que se torna relativamente corriqueiro quando nos aproximamos dos 30), uma das amigas da “noiva” levou, para tornar a noite mais divertida, um texto escrito por Gisela Rao (escritora inspirada de dilemas femininos, feministas e afins) sobre “Coisas que você deve fazer antes de casar”.

Entre idéias cômicas e/ou inviáveis como “coma uma pizza de alho inteira”, “passe um mês sem fazer depilação” e “pose para a Playboy ou participe de um concurso de Miss”, uma delas me pareceu um tiro certeiro e fez soar o bom e velho sininho interno: “resolva sua relação com o seu pai”.

Eu não sei se ter problemas de relacionamento com o pai é um universal das mulheres, mas certamente foi algo que marcou a minha trajetória de forma importante. Meu pai é um sujeito brilhante, inteligentíssimo, extremamente musical, bem-informado, culto, ponderado, articulado, provocador. Junto com o pacote vieram um senso crítico bastante exacerbado, uma grande rigidez, uma enorme dificuldade de falar sobre sentimentos e uma carga de expectativa em relação às pessoas sempre um pouco além daquilo que elas são capazes de oferecer.

Uma amiga querida sempre se admirou da formalidade das nossas brigas e dizia que na minha casa todos discutiam “em cima do púlpito”. Ninguém era capaz de sacar um “não enche o saco!” ou “fico triste quando você me trata assim”; pelo contrário, todo e qualquer ponto de discordância era pretexto para um longo debate solidamente sustentado por argumentos, fatos, ilustrações e refutações.

Mas aquilo que realmente ia na alma de cada um, as tristezas, as frustrações e o desapontamentos nunca conseguiam ser claramente expressos e acolhidos pelo outro. Ficávamos rancorosos, cada um de um lado, sofrendo com o seu próprio sentimento de incompreensão.

A santa análise nos ajudou a aceitar um ao outro e a nós mesmos. No fundo somos muito parecidos. E o que ele viveu e sofreu serviu de modelo para que eu evitasse alguns equívocos importantes. Mas, curiosamente, o momento de maior abertura e transcendência (expressão emprestada do amigo blogueiro Gustavo Gitti) que vivemos em nossa relação aconteceu exatamente depois e em função do fim do meu namoro.

Quando disse que queria se separar, meu ex-namorado não expôs claramente os seus motivos. Acabou se apoiando em algumas frases-padrão do tipo “não está legal para mim” e “preciso viver outras coisas”. Eu, que sequer percebera que estávamos em crise, continuei alimentando durante algum tempo a esperança de que fosse apenas uma fase, um questionamento típico de alguém que vive um relacionamento longo que começa a se encaminhar para uma vida a dois.

Então, três meses depois, quando a minha melhor amiga veio à minha casa para contar que o ex estava namorando com uma de suas amigas, que ele havia conhecido graças a mim, o choque foi bem grande. Depois da nossa “conversa de despedida”, que já relatei em algum outro post deste blog, voltei para casa incapaz de comer, dormir, ver TV, ler ou fazer qualquer outra coisa que exigisse mais do que simplesmente respirar. Passei algumas horas catatônica na minha cama, esperando um horário minimamente decente para travar contato com qualquer ser humano da face da Terra.

(Foi nessa madrugada que percebi que uma das minhas cachorras estava com o rabo sujo e a coloquei em cima da máquina de lavar roupa para lavá-lo no tanque. Me virei para buscar o sabonete e no próximo segundo ouvi um baque surdo e encontrei a pobre criatura estatelada no chão, de barriga para cima, olhos esbugalhados e língua para fora. O desespero foi tão grande que, em câmera lenta, fiz tudo ao contrário do que manda o figurino dos primeiros-socorros: levantei-a do chão, sacudi, berrei “NÃÃÃÃÃO!!! MIIIMIIIIII!!!!”, balancei, virei de um lado, do outro, levei-a para a sala... Depois de alguns segundo andando em círculos como uma barata tonta, encontrei a caderneta telefônica com o celular da veterinária... O tempo que levei para conseguir encontrar os oito dígitos no aparelho de telefone foi o tempo que a Mimi precisava para começar a se recuperar do estado de choque, abrir os olhos e levantar a cabeça, ainda meio tonta. Depois de seguir as orientações da minha vet, seguir os procedimentos de praxe e constatar que não havia ocorrido nenhum grande dano, desabei a chorar e desabafei em plena madrugada com a Santa Cíntia: “Aa-aaaaaai, Ciiiiiiiii, tô pé-éééssima, bu-áááá!!!!!!!!! Acabei de descobrir que o R. tá namora-aaaando, UÁ-ÁÁÁÁÁ!!! Com uma amiga da minha melhor ami-ii-iiiiga, BU-UUUÁÁ-ÁÁ!!!”. Quem precisar de indicação de uma veterinária que não só zela pela saúde dos seus cães às 4h30 da manhã como ainda tem a humanidade de ouvir o seu desabafo histérico no meio da madrugada, pode mandar um e-mail para
blogmulhersolteira@gmail.com.)

Às 6h30 achei que já era possível encontrar alguns espíritos práticos com bons ouvidos de pé e comecei a telefonar. A primeira pessoa que procurei foi Manélson, mas ela ainda estava com o celular desligado. A segunda cotovia da minha lista era a minha mãe. O telefone tocou quatro vezes e quem acabou me atendendo, contrariando todas as expectativas do universo, foi meu pai. “Oi, filhinha... Tudo bem?” “Ai, pai, mais ou menos... posso falar com a mamãe?” “Claro... Mas será que eu posso te ajudar em alguma coisa, filhinha?”.

Eu já estava tão vazia, dilacerada e anestesiada pela dor que deixei de lado todos os pudores que fizeram com que, durante toda a minha vida, a minha mãe tenha sido a eterna intermediária nas minhas conversas sentimentais com o meu pai. Abri meu coração, expus minhas entranhas, proclamei o fim da minha crença nos homens, no Amor, na Felicidade.

Meu pai me ouviu pacientemente, amorosamente, com um cuidado, um carinho e uma cumplicidade que nunca antes haviam tido espaço para se manifestar entre nós. Disse, com todo o respeito, que sempre aceitara as minhas escolhas amorosas, mas se aborrecia com algumas coisas que minha mãe contava a ele a respeito do meu relacionamento com o R. Sentia-se chateado com atitudes que não lhe pareciam suficientemente amorosas, companheiras, cúmplices.

Quando eu disse ao meu pai que não acreditava que um amor pudesse durar para toda a vida e talvez as pessoas apenas se acostumassem umas às outras, ele iniciou a sua cura socrática: “Você acredita no amor da sua irmã e do seu cunhado? Acredita no amor do seu tio e da sua tia? Acredita no amor que existe entre mim e sua mãe?” Respondi com uma cortante sinceridade, contaminada pelo desolamento que eu sentia naquele momento, que às vezes me perguntava se o que havia entre eles não era o simples resultado do hábito de uma vida partilhada durante mais de três décadas.

Então meu pai me deu a mais bonita lição de vida: “Sabe, Filhinha, existe uma faceta da intimidade de um casal que nem sempre é visível para quem está fora da relação. Talvez por isso você não consiga perceber o quanto eu e sua mãe nos amamos”.

E acrescentou, colocando bálsamos nas minhas feridas: “Sua mãe é a pessoa mais altruísta e generosa que eu conheço. O cuidado e a atenção que ela tem com os seus avós, as suas tias, seus primos, comigo, com vocês, com a minha família, é algo ímpar. Eu sei que não fui um bom pai em boa parte do tempo, mas tenho certeza de que a sua mãe foi a melhor mãe do mundo para vocês. O que nós temos hoje é o resultado de um projeto de vida que nós criamos juntos e você e a sua irmã sem dúvida são a parte mais importante desse projeto. E acho que fomos muito bem-sucedidos”.

É difícil explicar o movimento de ordenação, ajustamento, encaixe, alinhamento que essas palavras provocaram em mim. Se eu algum dia tive alguma dúvida sobre a existência do amor, ela persistiu durante aquelas poucas (mas infinitas) horas entre a minha “descoberta” e a conversa com o meu pai.

A dor ainda durou muitos meses e foi preciso passar por muitos estados de ânimo antes de reencontrar o meu centro, minha identidade, meus desejos, sentimentos e sonhos individuais e a construção de sentido que hoje me acompanha e me faz uma pessoa feliz. Mas aquela conversa com o meu pai não apenas me reconciliou com a minha capacidade de amar como permitiu, finalmente, que eu e meu pai déssemos as mãos e nos tornássemos, para o resto da vida, companheiros de caminhada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Luto e superação

Inspirada pela mensagem de uma leitora, pela leitura de O Passado e uma esbarrada em antigos e-mails na minha caixa postal, voltei para casa mais uma vez pensando no fim do amor, enquanto dirigia no silêncio da madrugada.

Aconteceu de mais de uma amiga que não me via há algum tempo perguntar, recentemente: e então, você superou o R.?

Que pergunta complexa. Que palavra abrangente, “superar”. Durante as férias, enquanto caminhava sozinha pela praia, ou nos longos banhos de mar durante o pôr-do-sol, invadida por um bem-estar e uma sensação de semi-plenitude, senti que finalmente estava pronta para deixar o passado para trás. Se até algum tempo me perguntassem o mais íntimo dos meus desejos, confessaria que era voltar a viver aquele amor. Agora, porém, consigo desejar viver outros amores, experimentar, renovar, acreditar que há ainda muito amor dentro e fora de mim que precisa circular, acontecer.

Mas superar no sentido de esquecer, de apagar, de deixar de sentir falta, doer? Hum, difícil. E era sobre isso que eu pensava, lembrando das palavras da minha interlocutora enquanto narrava o seu lento processo de recuperação pós-separação.

Confessar a impossibilidade de superação completa de um término, quase um ano e meio depois que ele aconteceu, não me parece algo patológico, problemático ou passível de pena. No fundo, a equação é simples. Não acredito que seja exagero nenhum afirmar que o fim de um amor equivale a uma morte. Especialmente quando unilateral, mas mesmo quando se acaba lentamente, aparentemente sem causar maiores danos, como era o caso de Sofia e Rimini.

Uma separação amigável, bem-resolvida, consensual. Mas ainda assim uma morte, com a qual cada um tentava lidar à sua maneira. Rimini estacionou na fase da negação. Pensava no passado como um bloco, assim era mais fácil simplesmente deixá-lo para trás. Separar as fotos do casal, dividir aquela história ao meio, desmembrar as duas vidas lhe era impossível. Sofia, por sua vez, não podia abrir mão de continuar fazendo parte da vida de Rimini, de lhe ser especial, de ter privilégios, de continuar usufruindo da intimidade e do prestígio que o amor lhe conferira. Como diz a contracapa do livro, ela é a enterrada viva na cova desse amor. Não é à toa que o editor da Trip recomendava fugir das leitoras de O Passado. Ele dói do começo ao fim, é a anatomia da incompetência humana em lidar com o luto do amor.

Voltando, portanto, à questão da superação. Se a separação equivale a uma morte, será que a palavra “superar” dá conta de exprimir a real possibilidade de deixar o passado repousar e prosseguir com a vida, apesar da perda? Alguém “supera” a morte de um pai, de uma mãe, de um filho?

Esbarrar em uma mensagem escrita cerca de um mês antes do fim: “Doce, como você está, meu amor? Está melhor? Te amo. Beijos, R.”. Como duvidar da presença, da realidade, da corporeidade, da legitimidade desse amor? Como “superar” essa perda?

A única diferença a nos redimir no luto amoroso é que, diferentemente de um pai, uma mãe, um irmão ou um filho, que são únicos e insubstituíveis, aos humanos foi concedida a inestimável capacidade de amar mais de um parceiro amoroso durante a vida. A quem se apropria verdadeiramente da sua capacidade de amor, muitas são as chances, as oportunidades e os encontros que a vida proporciona.

Donde se conclui, então, que se nos é impossível verdadeiramente nos desapegarmos do que vivemos e de quem amamos de maneira espontânea, a possibilidade de redenção perante a morte não reside em outra coisa senão em amar, seguir amando, mergulhar sem reservas no fluxo do amor até que o passado possa dar lugar ao novo, ao vibrante, ao possível, ao inesperado, enfim, à vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Lado B

Manélson se convida para vir à minha casa comer uma pizza e assistir ao primeiro dia do Big Brother Brasil 8, no seu clássico estilo “que bom que eu liguei”.

O namô de Manélson não entende a graça do programa e ela explica, didaticamente: “vamos passar um tempo juntas, comer pizza e falar mal das pessoas, ora!”.

Amem ou odeiem, eis aqui um farto material para a análise do comportamento humano. “É divertido, ué!”, arremata Manélson, definitiva. E conclui [depois de comer quatro pedaços de pizza]: “acho que não vou comer chocolate de sobremesa... é que eu tô de regime, sabe?”

Pérolas da noite:

“Já sei, vamos esperar todo mundo entrar na casa e aí a gente faz um bolão de quem vai ficar com quem?”

“Putz, essa é mala!”

“Olha, a mala também é ruiva!”

“Será que ela é ruiva natural?”

“Meu, todo mundo vai me encher o saco se essa ruiva começar a causar confusão...”

“Você acha a ruiva bonita?”

“Olha, essa é humilde, vai durar.”

“Nossa, deve ser um saco namorar esse psiquiatra... fica analisando tudo!”

“Eu tô renegando tudo que é meu: os ruivos e os psis”

“Ah, essa é descolada, gostei dela... mas podia ter retocado as luzes antes de entrar na casa!”

“Análise do discurso: se ela disse ‘além do meu corpinho, quero mostrar também o que penso’, leia-se ‘quero mostrar o meu corpinho’.”

“Meu, o Pedro Bial é muito carismático!”

“Nossa, achei esse fio-dental totalmente dispensável...”

“Vou mandar um sms pra Moderninha ficar numa boa!”

“Essa aí deve ser a ‘Chatália!’”

E quem não tem um lado B(BB) que atire a primeira pedra.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Minha vida sem mim

As viagens de férias sempre exerceram esse estranho efeito sobre mim. Nos primeiros dias ainda muito conectada àquilo que havia acabado de deixar para trás, fazendo planos e saboreando a expectativa do que estava por vir. Aos poucos, lentamente, ia me desligando do meu cotidiano, da minha casa, das minhas coisas, como se minha vida nunca houvesse sido outra que não aquela que eu vivia naquele momento, naquele lugar e com aquelas pessoas.

Não era à toa que eu tentava adiar a volta para a casa até o último minuto. Era assim nos acampamentos (eu sempre tentava ficar uma segunda temporada, mas minha mãe só deixou uma vez), foi assim quando fui ao Peru, era assim sempre que ia passar o ano novo em São Gonçalo, com meu primeiro namorado, em Brasília ou Minas com o último. A estratégia da procrastinação, minha velha conhecida, não só se mostrava inócua diante do propósito de afastar tanto quanto possível o retorno como o fazia ainda mais sofrido. Chegando na segunda de manhã e indo direto para o trabalho ou a faculdade, o choque de civilização causava um bode tremendo. Tudo parecia sem sentido, minhas escolhas não pareciam minhas, me sentia sem lugar.

O tempo passou, as férias diminuíram, os bodes também ficaram mais administráveis. Já não é preciso viver tudo até a última gota porque a Era dos Extremos ficou para trás. Volto a São Paulo em plena noite de quarta-feira, ainda com quatro dias de férias pela frente. Apesar do tempo para tomar pé, aquele leve e paradoxalmente familiar estranhamento me toma assim que chego à casa de minha mãe.

Lá faço uma parada de dois dias enquanto espero o mecânico concluir a revisão do meu carro, parado em uma oficina do bairro (curiosamente mais barata do que a do meu bairro). Aproveito para testemunhar o absoluto à vontade das minhas periquitas na “Colônia de Férias da Vovó”. Elas dominaram a casa, estão mimadas, mal-acostumadas, com todas as suas vontades caninas satisfeitas.

Me entupo de TV a cabo nas duas noites em que passo lá. Agora é oficial, definitivo: PRECISO de TV a cabo. Também aproveito para ler a biografia do Tim Maia (biografias casam perfeitamente com férias de janeiro) e tirar longos cochilos no sofá da sala.

Na sexta à noite, possante nos trinques, coloco a turminha no carro e nossa modesta bagagem de cinco malas, me despeço da mama (“ela vai sentir falta das cachorras”, profetiza meu pai) e rumo para o meu apê.

É como se essa breve passagem pela casa da minha mãe, que deixei para trás há quase três anos, me preparasse para o retorno à minha própria casa. Essa casa que só faz sentido pra quem acredita que se bastar – em todos os sentidos – faz parte do caminho natural do ser humano. Uma casa que um dia já foi encarada também como ponto de passagem – e no fundo todas são – e acabou se tornando paragem definitiva. Casa, diga-se de passagem, entendida como entidade metafísica, já que fisicamente ela mudou de lugar há quatro meses.

Chego carregada de malas, lembrando da bagunça que deixei para trás na pressa de viajar. Uma chuva fininha molha o estacionamento descoberto. Carrego as periquitas no colo, menos para evitar que se molhem e mais para tê-las perto de mim no momento da chegada.

Ocupamos o espaço aos poucos, caminhas voltam para os seus lugares, tigelinhas de comida, de água, jornal. Elas logo estão dormindo, capotadas da farra que aprontaram no último dia de férias. Zapeio a TV, tomo um banho e vou para o sofá ler mais um pouco do Tim. Não fosse por esses dois pequenos corpinhos peludos respirando perto de mim, eu estaria me sentindo quase como quando passei minha primeira noite nesse prédio, em janeiro de 2004. O apartamento anterior era branquinho e a rua tão silenciosa que eu me sentia na Lua, distante de tudo e de todos. Uma solidão levemente aterrorizante.

Aqui já é e não é a minha casa. O chão é diferente, a paisagem mudou, os vizinhos de porta também, mas os móveis e os hábitos são os mesmos. O chuveiro mudou para melhor. A disposição para cozinhar, que viveu seus dias de glória durante o namoro, tirou um ano sabático em 2007.

Vou dormir tarde, acordo tarde, ouço o recado de uma amiga no celular. Penso na outra amiga que havia sugerido um cinema e jantar na noite anterior. Penso em levar as dogs para um banho no pet shop. Penso em comprar um presente de aniversário para o meu pai. Mas a inércia me puxa para o sofá e de lá não saio a não ser quase cinco horas depois, com a biografia do “rei do soul” devidamente terminada. Só então tenho disposição para procurar as amigas, mas todas já estão programadas ou fora da área de serviço.

Passo o primeiro sábado do ano como muitos que eu vivi em 2007: em casa e sozinha. Na época em que eu namorava, quando o ex, envolto em crises existenciais, me informava às seis da tarde que queria passar a noite em casa e sozinho, a perspectiva de um sábado como esse me parecia sombria. A maior parte das amigas se solidarizava, mas uma delas, mais velha e mais sábia do que as outras, me deu o chacoalhão: “desde quando o coração sabe o dia da semana?”.

Hoje os meus sábados solitários já não assustam nem doem. Aos poucos a minha vida vai se tornando minha, escolhida, apropriada, assumida, vestida, agarrada. Faço compras sem pressa no mercadinho do bairro. Passo na locadora e alugo três filmes, para me dar a liberdade de escolher entre o existencial, o de humor fino ou o sentimentalóide. Já em casa, cozinho amorosamente uma refeição para mim mesma. Nada de mais: arroz, bife e salada. Mas como com gosto, feliz enquanto vejo a novela das oito.

Antes de me preparar para a sessão de cinema, escrevo o primeiro post de 2008 com uma periquita dormindo refestelada na caminha que ganhou da vovó e outra pertinho dos meus pés, e penso: esse vai ser um ano danado de bom.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Balancete

Esse ano foi assim:

Primeiro eu tentei chegar um pouco mais perto de ser quem eu gostaria de ser.

Depois eu aproximei um pouco mais a idéia de quem eu gostaria de ser de quem eu realmente sou.

Então nós duas nos encontramos no meio do caminho e celebramos um final feliz.

Até 2008!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Bonança

Porque a vida é infinita em possibilidades. E isso é bom.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Divã

- Depois que fui embora naquele dia fiquei muito mal e passei umas duas semanas bem difíceis... não sei o quanto foi resultado da nossa conversa ou não... de qualquer jeito fiquei tentando entender o que havia acontecido e uma das coisas que me chamou a atenção é que eu nem mesmo conseguia reproduzir o diálogo que havíamos tido. Vou te dizer então o que é que eu pensei durante esses dias e como foi que interpretei o que aconteceu. Acho que talvez eu tenha sido infeliz na maneira como expus aquilo que eu queria te dizer, e talvez isso também se deva ao fato de os nossos encontros serem mensais e haver muita coisa para se dizer em muito pouco tempo. De qualquer forma, três semanas atrás eu ainda não tinha tanta clareza sobre o que estava tentando dizer, e pensar sobre isso me fez sistematizar um pouco melhor os meus pensamentos e chegar a uma síntese. O que eu estava querendo dizer, e não sei se você entendeu, é que todas aquelas leituras e aqueles questionamentos sobre a terapia, a psicanálise, as questões existenciais com as quais o homem se debate etc. me fizeram pensar o que se pode, de fato, esperar de um processo terapêutico. Qual é o ponto de chegada? Em que momentos estamos? Parei para pensar que, quando finalizamos a primeira etapa da minha análise, cinco anos atrás, você foi muito enfática na sua opinião de que eu ia me beneficiar daquele término, que eu já havia desenvolvido uma série de recursos dos quais não havia ainda lançado mão porque no fundo não queria me separar de você. E agora estamos juntas novamente já há quase quatro anos, é claro que em uma situação diferente, que não poderíamos chamar de análise, já que temos nos visto uma vez a cada quinze dias, três semanas, um mês... e durante todo esse processo você nunca mais tocou no assunto sobre concluirmos o trabalho. Então me peguei pensando sobre qual (ou quem) é o parâmetro para se concluir se o processo terapêutico foi satisfatório ou chegou a um termo. E concluí que esse parâmetro é o próprio paciente! (ou cliente, ou analisando, não importa)... Foi então que me dei conta de que eu estou satisfeita com o resultado do nosso trabalho. Ou seja, eu gosto de ser quem eu sou. E quando disse que estava “de saco cheio desse papo de Sherazade” não quis de forma alguma desprezar o longo caminho que percorri junto com você e nem dizer que a partir de agora vou sentar no pudim e simplesmente seguir os meus impulsos naturais... Quis dizer apenas que talvez as minhas armas de sedução não sejam as mesmas da Sherazade e eu estou ok com isso, gosto de ser profunda, sensível, da entrega, de intimidade, de abertura. E se isso não for o suficiente para atrair um homem ou se isso afugentá-lo, paciência... Não quero mudar, estou reconciliada com a minha história, com quem eu sou. E mesmo naquele episódio recente que discutimos, era isso o que eu queria dizer quando falei a fatídica frase “acho que ele fez um pouco de propaganda enganosa”. Eu não estava deixando de reconhecer a minha enorme parcela de culpa no fracasso da história, mas achei que já havíamos discutido isso suficientemente na sessão anterior, e o que eu estava identificando da parte dele é que talvez não estivesse em contato direto com os seus sentimentos, que deu uma impressão errada daquilo que queria ou esperava da nossa relação, mas não me relacionei com isso sentindo raiva ou desprezo; pelo contrário, foi exatamente identificando uma limitação dele e aceitando que as pessoas têm limites. Ou seja, tem uma parte que me cabe nesse latifúndio e tem outra que está para além do meu controle, que não me diz respeito. Mas estou ok em relação a isso. Gostei da maneira como lidei com toda a situação. É verdade que a consciência dessa vez veio junto com a ação mas não foi suficiente para freá-la, mas acho que ela já está vindo muito mais rápido. Enfim. Acho que o sofrimento foi administrável, suportável... E pensando também sobre a idéia de felicidade, que tenho discutido bastante com duas amigas do tempo da escola, argumentei com uma delas que felicidade não é ausência de sofrimento, dor... Felicidade tem muito a ver com a questão da liberdade, ou seja, com a nossa percepção sobre o fato de que somos apenas o resultado das nossas ações. E acho que a terapia tem muito a ver com isso também, com trazer para o paciente a percepção sobre a sua responsabilidade para com a sua felicidade ou infelicidade, que é o resultado da maneira consciente e voluntária com a qual ele interage com os dados imprevisíveis e inevitáveis da realidade. E fico satisfeita ao perceber que hoje, mesmo passando por momentos de grande angústia e sofrimento – e talvez aparentemente de forma paradoxal também por isso – me considero uma pessoa feliz.

E ela concordou.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sonhos de batata

Para meu amigo Marko Concá


Dia desses me lembrei que na quarta série trabalhamos com feijões. A idéia era montar um experimento científico – criar um procedimento, levantar hipóteses e buscar a sua comprovação ou refutação. A Simone G., por exemplo, plantou feijões na terra e no algodão e comparou o crescimento das duas plantinhas. Anos depois a Simone G. virou cientista.

Lembrei de tudo isso contemplando o vaso da minha finada violetinha. Ela está em glória já tem semanas e o vaso continua lá, vazio, seco, em cima da mesinha de centro, sabe-se lá se resultado de pura inércia ou cumprindo a sina de ser emblema de alguma coisa que às violetinhas não foi dado conhecer (mas que os humanos conhecem muito bem).

Enquanto olhava o vaso vazio e lembrava dos gordos pés de feijão obtidos pelo bem-sucedido experimento da Simone G. (e concluía que os feijões são a solução da lavoura para quem não nasceu vocacionado para a maternidade herbívora), me peguei tentando lembrar qual teria sido o meu experimento.

Lembrei. Decidi plantar o meu feijão dentro de uma batata. Não me perguntem por quê. Assim como na poesia, tem coisas na vida que prescindem de razão.

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O feijão germinou e cresceu viçoso dentro da batata. Era um orgulho só. Primeiro cortei a tampinha da batata, extraí o miolo, joguei o feijão dentro e tampei de novo. Depois que ele se fincou na base, criou raízes e espichou até começar a cutucar a hospedeira, espetei palitos de dente na borda do corte e lá fixei a tampa para que o feijão pudesse conhecer o mundo, mas ainda assim se sentir seguro no seu lar.

Tempos depois, quando o sonho do feijão se tornou grande demais para a batata, cortei as paredes em volta da base e o transportei, heróico, para a terra.

Ele não resistiu (nunca tive dedo verde). Resultado do experimento: sonhos de batata não vingam na terra.

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Lembrei de duas cebolas que há alguns meses estavam habitando a gaveta de legumes. Cada vez que abria a porta da geladeira, elas me olhavam de soslaio, como a denunciar o meu fracasso doméstico. Enquanto eu fechava a porta depressa, adiando o momento da confissão, as cebolas trocavam comentários maldosos com os ovos da prateleira (esses também abdicaram do seu promissor futuro de galinha “em prol de um destino que se revelou inútil!”).

Um dia marchei obstinada até a cozinha decidida a pôr fim àquilo tudo. Abri a geladeira e ataquei primeiro os ovos, que se renderam sem oferecer resistência (será que eu poderia doá-los para produção de vacinas? – pensamento ecológico em tempos de reciclagem).

Na seqüência abri a gaveta das cebolas e furei o saco plástico com o voyeurismo mórbido de quem procura a inexorável ação do tempo.

Lá descobri vida. Inúmeros feixes haviam brotado do topo de cada uma delas.

Com reverência, enchi um copo d’água e lá plantei a minha cebola de geladeira. Há que se celebrar a vida nas suas mais ínfimas manifestações.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Sísifo

Todo dia é assim. Eu vou dormir quando estão acordando, acordo quando estão almoçando, vou trabalhar quando voltam do almoço, trabalho quando estão jantando, janto quando vão dormir, vejo TV, escrevo, tomo banho e leio enquanto dormem.

Todo dia, antes de dormir, eu me prometo que no dia seguinte vai ser diferente. Vou acordar cedo, levar as cachorras para passear, voltar para a yoga, almoçar com a Helô, chegar no trabalho em horário civil, sair antes da novela, passar menos tempo na Internet, não ficar lendo até as cinco da manhã. E todo dia a mesma história se repete.

Houve um tempo em que eu tinha um namorado me esperando à noite. Uma mãe que me dava pito quando eu via TV de madrugada. Uma amiga que almoçava comigo todos os dias, religiosamente.Uma chefe que pegava no meu pé e me solicitava coisas de hora em hora.

Aí eu saí de casa, o namorado foi embora, a amiga engravidou e a chefe decidiu que eu dava conta do recado sozinha.

Me tornei prisioneira da minha própria liberdade.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Perto demais

O que havia para ser dito sobre Closer Contardo Calligaris já disse.

Revê-lo foi doloroso e revelador como um reencontro com um grande amor do passado.

domingo, 18 de novembro de 2007

Descartes

Ele tinha mesmo traços fortes como a amiga havia descrito. “Um turcão”. Alto, braços grossos, olhos grandes esverdeados, olheiras, barba mal-feita, cabelos crespos, orelhas grandes. Afável, mas olhava de um jeito levemente incômodo, embora lisonjeiro, e de quando em quando arriscava uma frase que podia tanto ser um flerte quanto um comentário ao acaso.

Ela, por motivo qualquer, estava às voltas com a sua necessidade de categorizar, classificar e pôr ordem no mundo. Foi parar no samba rindo de si e da sua incapacidade de poesia.

Lá pelas tantas ele a tirou para dançar. Tinha envergadura, braços firmes, condução certeira. Ela se sentia a mais leve das bailarinas do alto de seu metro e quase oitenta. O salão de baile era um estreito corredor, ladeado por mesinhas de metal, passagem para qualquer parte. O samba aconteceu assim, esbarrado, mas a graça do casal não escapava aos olhos do passante.

O sambista resolveu emendar na próxima música, homenagem involuntária àquela dança tão bem timbrada. Ela, saindo de crise de bronquite alérgica, respiração difícil mas foi até o fim, acompanhando o par no improviso, rosto bem encostado no dele pra facilitar a sincronia.

Fim do samba, ele deu o parecer:

- Você não é cartesiana. Você dança!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Hoje

Onde estão as palavras que ontem jorravam de dentro de mim? Sento diante do computador e nada me ocorre. Não é que eu não tenha sobre o que escrever. Não é que eu tenha deixado de pensar um segundo sequer sobre tudo e qualquer coisa, eu, eu e o outro, eu e o mundo, o outro e os outros, o outro e o mundo e toda a análise combinatória possível. Pelo contrário, andei colhendo conselhos amigos em busca de uma condição um pouco menos existencial, porque essa pílula vermelha às vezes me esgota a ponto de ter de dormir doze horas seguidas pra enfrentar a vida (ou o pensar sobre ela).

A resposta é singela. Estou à margem. Vejo tudo de longe. Há tempos que nada me toca profundamente. É por isso que nada espero desse texto, pois que a minha condição de escrita é o arrebatamento, seja por uma idéia, uma pessoa, um sentimento, uma lembrança, uma dor.

É uma triste constatação, mas no meu atual cenário mental, tendo a achar que o vazio também precisa ser vivido. Há o vazio leve, gaiato, vira-lata. Há o vazio existencial, aterrorizante. E há o vazio lúcido, cético e analisado.

Pra esse não há remédio a não ser esperar que a vida se encarregue de trazer novos amores.

sábado, 10 de novembro de 2007

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Humana, demasiado humana

Ao fazer a limpeza do Wanderley Cardoso das cachorras, topo com uma foto de Gael García Bernal e um artigo sobre O Passado, livro de Alan Pauls que inspirou o filme do diretor Hector Babenco. É assim que leio jornal, para o desgosto de minha mãe: de segunda mão, randomicamente, às vezes com um ou dois meses de atraso, fazendo a limpeza do Wanderley Cardoso das cachorras.

Ainda sob o efeito do filme de Babenco, salvo a folha de jornal de um destino inglório, guardando-a para uma rápida leitura antes de sair do trabalho. Os outros livros resenhados não terão a mesma sorte.

O primeiro parágrafo da resenha, escrita por um homem de cujo nome não me recordo, mas que, salvo engano, é editor da revista Trip, começa dizendo que o homem que encontrar esse livro na cabeceira da cama de uma mulher deve sair correndo.

Coro. Afinal, que livro está lá, na cabeceira da minha cama, na linha sucessória para ser o meu amante nas próximas madrugadas insones? O próprio. Em minha defesa, eu poderia dizer que ele não se tornou propriamente o meu “livro de cabeceira”; a cabeceira é apenas um intervalo entre duas estantes.

O fato é que O Passado me intrigou. A meu ver, é um filme com tantos espaços abertos para inferências que tive vontade de ler o livro e tentar ligar mais alguns pontos. Sempre me interessei, também, pelas especificidades das diferentes linguagens artísticas e pela possibilidade de ouvir uma mesma história contada de jeitos diferentes. Daí a Mãe Sereia ofereceu o empréstimo do livro (não perdendo a oportunidade de resmungar sobre todos os outros que fiz reféns em minha casa) e aceitei a oferta.

O curioso é que, embora a protagonista feminina do filme/livro, Sofia, seja mesmo de arrepiar os cabelos, eu jamais tomaria isso como ponto de partida se fosse resenhar o livro ou o filme. E, para além do constrangimento de ter o tal livro na cabeceira da minha cama, como se o resenhista levantasse um dedo de dentro da folha de jornal e me apontasse – ahá! –, senti uma certa solidariedade feminina por Sofia.

É verdade que Sofia tem uma dessas peculiares obsessões amorosas por seu ex-marido que faz com que ela se materialize em todos os lugares, nos momentos menos esperados, de uma forma horripilante. Mas também é verdade que Rimini, o ex-marido/vítima, é um exemplo desses homens ambivalentes e incapazes de colocar limites claros ao desejo do outro (no caso, da outra). O tempo todo me perguntava o que, realmente, queria aquele homem. Não consegui encontrar uma resposta.

Depois que saí do cinema, parei para pensar em quantas frases o personagem de Rimini falou ao longo de todo o filme. Pouquíssimas. E, embora todos tenhamos direito ao silêncio, é um fato que, onde faltam palavras, sobra fantasia.

Um amigo me disse há pouco tempo: “quando alguém não quer estar comigo, isso para mim já é, em si, o fato e a justificativa. Mais de uma vez disse às minhas ex-namoradas, quando tentavam explicar o motivo pelo qual queriam terminar: poupe-se do trabalho e do sofrimento. É por isso que, ao terminar um relacionamento longo, também não senti necessidade de dizer à minha namorada os motivos exatos pelos quais eu queria terminar. Achei que seria cruel e desnecessário.”

Eu admirei o comentário do meu amigo e pensei: “quero ser assim quando crescer”. Mas logo depois constatei, ao vivo e em cores, o quanto as palavras podem ser libertadoras. Nem todos são assim e às vezes é preciso aceitar o limite do outro, que simplesmente não consegue pôr em palavras aquilo que sente, embora consiga demonstrar em ações – nem sempre tão inequívocas quanto as palavras, mas que também podemos aprender a ler, com o tempo e a maturidade.

Mas essa digressão está ficando um pouco mais longa do que eu pretendia. Quero falar sobre O Passado, Sofia, mulheres à beira de um ataque de nervos e o editor da Trip. Enquanto assistia ao filme (cujos detalhes vou dar aos futuros expectadores a oportunidade de conhecer pela tela do cinema), via aquela mulher cada vez mais decadente, descontrolada e desequilibrada e sentia um misto de horror e... empatia. Era como olhar para o meu próprio passado, embora ele nunca tenha existido com aquele grau de intensidade e obsessão, e entender que, talvez, a única coisa que me separe de Sofia sejam os meus oito anos de análise.

Me lembro imediatamente da reportagem lida há dois dias sobre mulheres do Japão que mataram as coleguinhas de escola de suas filhas por se sentirem desprezadas pelas mães das meninas, a cujo grupo de mães pertenciam. A despeito do crime hediondo, essas mães assassinas receberam milhares de cartas de outras mães com manifestações de solidariedade, mostrando o quanto essas mulheres se reconheceram na loucura tantas vezes por elas arquitetada, mas apenas consumada pelas outras.

Uma amiga dona de um coração bovino me confessa, ao comentar sobre a maneira velada e cínica como uma colega de trabalho a critica: “minha vontade era dar um tiro nela!”. Uma outra, falando sobre o longo e difícil processo de separação e a descoberta de que o ex iniciou um novo relacionamento, comenta: “agora entendo por que as pessoas matam por amor”.

Uma linha de sanidade separa as pessoas que devaneiam sobre ou verbalizam o terrível desejo primitivo de matar um rival ou amante e aquelas que efetivamente o fazem (só os autores de novela ainda não perceberam isso. Por isso, na tentativa tosca de criar suspense sobre um crime, começam a colocar na boca de milhares de personagens secundários frases como “minha vontade era matar aquela Thaís!”, como se isso indicasse a natureza criminosa de alguém). Uma linha ainda mais tênue separa as pessoas que, vivenciando um término de relação amorosa não desejado, conseguem se relacionar com a perda de uma forma saudável ou alimentam eternamente aquele amor não-correspondido, impedindo-se de viver novas histórias, novos encontros, presas a um relacionamento morto cujo corpo elas se recusam a enterrar.

O fato é que, procurando bem, todo mundo tem dentro de si um pouco de Sofia, de Rimini, de mãe assassina do Japão, de capitão Nascimento, de Fernandinho Beira-Mar. Esse é, aliás, o princípio da relação terapêutica, se bem entendi o que disse o Contardo Calligaris: a terapia tem alguma chance de sucesso se, pra começo de conversa, o terapeuta conseguir, ainda que em um grau mínimo, sentir empatia pelas queixas e dores vividas pelo paciente. Se, ao contrário, para o terapeuta o paciente não passar de um ser enfadonho, desprezível ou desinteressante, nada acontecerá. É melhor até encaminhar o caso.

Foi com essa inspiração que escreveu Terêncio: “sou humano, nada do que é humano me é estranho”. E o que me ocorre como um pensamento curioso, que deixo no fim dessa divagação quase como uma nota de pé de página, é quanto sofrimento decorre da incapacidade que temos de nos colocarmos no lugar do outro. Paradoxo da condição humana que, se conseguirmos reverter a nosso favor, pode ser a chave para relacionamentos interpessoais produtivos, saudáveis e satisfatórios.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Encontros e ex-encontros

Vinte e vários anos, um blog e nenhuma certeza. Uma ou duas quebradas da vida e aprendeu a não esperar mais pelo certo. Encontros que a vida proporciona, certos e errados.

Assim se conheceram. Força de expressão. Acharam-se. Ele a leu, diz curtiu o romantismo, já a conhecia há muito tempo? Intrigado, resolveu dar as caras.

Ela respondeu animada. Valei-me, Nossa Senhora da Interatividade. De brinde um presente musical e a dica de que ele prestava atenção.

Palavras escritas às duas da manhã, laptop apoiado em caixas de papelão. Pensamento ainda sem forma que começa a ocupar boa parte do dia.

Pergunta pouco, fala muito, descobre mais ainda. Tantas semelhanças com o ex que até se assusta. Mas não esquece a lição: viver o encontro...

Cento e quarenta páginas. Setenta per capita. Menos de um mês. Começa a assustar. Mas a conversa é boa...

Quer ser safa, mas tem coração de moça. É romântica, mas cabeça é de mulher. Não sabe se fica ou se vai, se vai ou se fica. Entra na toca, mas espalha farelos de pão (que os passarinhos não comeram) indicando o caminho do esconderijo.

Ele espera, espreita. Responde em código morse: sabe quem ela é, e ela também. Está tudo certo.

Daí pros esse-eme-esses um pulinho. Dois, três, quatro por dia. Loucura, baby, loucura. Quem é? Que cara tem? O último, lá pelos idos do século passado, não tinha um dos dentes da frente. Ela educada demais para fugir pela janela do banheiro. Achou-se vacinada. Qual!

Quando do desencontro, sem saber direito a cara de um, o focinho de outro (com dente? Sem dente?), ela decide passar da rede à vida. Vai no susto, pega desprevenido, ele em bicas, ela em frouxos de riso.

Só a música salva. Ela mezzo-mussarela, mezzo-calabresa: o descompasso era inevitável – mas, afinal, ele era ele!

Ele queria ouvi-la cantar ainda por um bom tempo...

Coração de moça e cabeça de mulher solteira andam cada um para um lado. Escolha é renúncia... O sim é maior que o não? Ele tão menino...

Reciprocidade assusta. Mais: a certeza do outro aumenta a dúvida do um. Ele vem com energia... Vem menino, manso, mas afirmativo. Escreve, torpedeia, convida, pergunta, conta, fica perto. Ela responde, retorna, não vai, vai, embarca, hesita, fica perto.

E o medo? Ele sabe dela. “Minha vida é um livro aberto”. Ela, não obstante, teme. Ele não veio de passagem. E ela é auto-declaradamente “definitivamente a mulher certa”, mas queria errar! Só não à custa dele.

Incertezas conduzem a desfechos precoces. Ao som de “Eduardo e Mônica”, um dia ela racha, ele diz vem, ela vai, uma coisa leva à outra, a outra leva a outra ainda e essa ainda leva a uma terceira, mas depois essa última não leva a lugar nenhum. E diante disso, ela segue recomendações médicas e sorri um sorriso amarelo.

O que fazer quando se chegou perto demais? O impostor só fala sobre o tempo – persona ou self.

Ela tenta ser bad, bold, wiser, hard, tough, stronger, cool, calm, mas não calça 36. Entre o que se deve ser ou o que se é, fica com a segunda opção, torcendo pela múltipla escolha. Suas entranhas numa bandeja.

Altruísmo ou inconsciência, ele tenta, desajeitado, mas não nasceu equipado para tal (Ah, o curioso hiato existente entre o discurso e a ação!).

Por fim, jorra: “não quero!”.

Primeiro o alívio (mulheres amam palavras!), depois a mansidão e, por fim, o vazio. Vida irônica. Disse uma sábia: “cada um de nós assume um risco ao entrar em relação com o outro. Cuide do seu que ele cuida do dele”.

Palavras não quebram ossos. Silêncio de lado a lado. Quantos equívocos...

Resta um blog. Ela tem internet discada, mas desconfia que nem uma banda larga teria dado conta de tantos desejos velados.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Meditação

Nos meses de dor a amiga dizia: “é como ver uma cidade pela janela de um carro. Agora você acabou de sair dela, mas aos poucos vai começar a vê-la cada vez mais longe... daqui a um tempo você vai vê-la longe, longe... até ela ser só um borrão, uma mancha colorida no horizonte”.

A analista dizia: “tem pelo menos um ano para começar a doer menos. Você vai ter que atravessar todos os aniversários – o seu, o dele, o de vocês –, o Natal, o Ano Novo... não se assuste se você ficar um pouco regredida nessas datas.”

Eu dizia: “é como um espiral. A minha recuperação vai fazendo voltas, passando por momentos de dor e momentos de tranqüilidade. Não é uma linha reta, é circular, mas cada volta para a dor é menos doída do que a anterior.”

Todas tínhamos razão. Já faz quase um ano e meio. Cada vez fica mais longe. Os primeiros aniversários ainda doeram. A cada etapa da recuperação, uma pequena recaída, mas levantando cada vez mais rápido.

E o seu aniversário veio de novo. E sabe do que mais? Eu só lembrei dele quase no fim da tarde, fazendo um ofício apressado. Ainda me bateu uma dúvida: 18 de outubro? Era 18 de outubro? Ah, é, era no mesmo dia que o meu, só que em outubro...

Eu passei a madrugada da véspera quase sem dormir, com uma enxaqueca horrível. Mas não me lembrei do seu aniversário. Ele chegou, passou e a vida continuou.

Tento me projetar para o futuro como uma pessoa evoluída, que vai conseguir te encontrar de novo e sorrir, perguntar sobre as suas coisas, contar das minhas sem ficar amarga, sem parecer irônica e nem sentir as pernas bambearem. Será que um dia vai dar pé?

Eu não sei. Faço esse exercício mental quase diário de te ver de longe, como a cidadezinha da janela do carro. Às vezes consigo, às vezes não. Hoje, por exemplo, me peguei entrando no seu site e clicando no botão para a minha música.

As suas músicas são quase como filhas para mim. Filhas postiças, que vieram junto com você e, depois da separação, eu deixei de visitar porque não são minhas, só posso vê-las de longe, do outro lado da rua. Mas vira e mexe me pego distraída, cantarolando uma delas. E a música que você fez pra mim é como a filha que um dia a gente quis ter juntos, aquela com quem você sonhava e que agora vai ser de outra mulher.

A minha música faz o meu coração dar nó. Vem uma saudade que quase não cabe dentro da minha casa. Como o amor que você um dia teve por mim, aquele que não cabia dentro de você.

E por que eu continuo fazendo isso, mesmo com você lá longe, mesmo doendo cada vez menos, mesmo tendo aprendido a viver sem você?

Talvez para confirmar para mim mesma, como numa oração: eu vivi. Eu amei. Minha vida não passou em branco.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Fiat lux

Após uma semana nas trevas, finalmente a linha telefônica da minha casa foi restabelecida. E, por incrível que pareça, na minha casa é assim: sem telefone, não tem Internet. E sem Internet, nada de Mulher Solteira.

Lamentavelmente – ironia das ironias! – agora que tenho telefone e tempo, me falta inspiração.

sábado, 13 de outubro de 2007

Comédias da vida privada

Mudança de apartamento, uma novela que nunca termina. Domingo, final de tarde, traslado das roupas do bloco B para o bloco A. A mãe sereia já havia dado uma boa ajuda no dia anterior, carregando cabides e mais cabides pendurados em cabos de rodo e vassoura, mas vejam bem, a mãe sereia já é uma sessentona. Não dá mais para abusar.

A operação de guerra acontece a apenas duas mãos: junta caixa, abre elevador, põe caixa, fecha elevador, desce, abre elevador, atravessa do bloco A pro bloco B, abre elevador, põe caixa, fecha elevador, sobe, abre elevador, abre porta, tira caixa, põe caixa, fecha elevador, fecha porta, abre armário, põe roupa na caixa, abre porta, abre elevador, põe caixa, fecha porta, fecha elevador, desce, abre elevador, tira caixa, atravessa do bloco B pro bloco A, abre elevador, põe caixa, fecha elevador, sobe, abre elevador, tira caixa, abre porta, põe caixa, solta porta do elevador, ufa, entra em casa. Tudo isso repetido quatro vezes, a ponto de, após algumas idas e vindas, não saber mais se está no bloco A ou no bloco B, se tem que apertar o 11º ou o 4º, se a caixa deveria estar cheia ou vazia.

Lá pelo fim da terceira viagem, após, portanto, a segunda repetição de toda a tramitação supracitada, fecho a porta para descansar por alguns segundos. Toca o interfone na casa nova. Ih, deve ser a síndica reclamando que eu estou fazendo mudança em pleno domingo à noite. A síndica é gente boníssima, mas é linha dura. Atendo com a minha melhor voz:

- Alooou???
- Alô, Dona Mulher Solteira? É o Clayton.
- Oooi, Clayton, tudo beem?
- Tudo, obrigado. Viu... o cachorro da senhora desceu...

Três segundos de pausa. Radar materno procura focinhos, chucas e patinhas em volta e conta: um focinho, uma chuca e quatro patinhas. Temos um fugitivo.

- Meu Deus! Mas onde ela está?
- Ah, ela tá no elevador...

Abro a porta do apartamento em clima de resgate. Chamo os dois elevadores ao mesmo tempo – dane-se a política de economia energética. O primeiro a chegar é o social, cheio de gente, abro a porta esbaforida, peço desculpas e fecho novamente.

No segundo elevador encontra-se a fugitiva, com uma expressão corpo-facial que eu definiria entre “onde estou? Quem sou eu? Qual o sentido da vida?” e “xi, acho que fiz merda”. Sorte dela que o ataque de riso foi tão grande que a bronca ficou para outro dia.

Minha mãe é uma sereia II

I.

- Bereca, você precisa ver as fotos da viagem. As igrejas de São Petesburgo parecem a casinha de João e Maria!

II.

- Sabem, na semana passada o Pimpão [sobrinho canino da Mulher Solteira] começou a lamber a minha blusa de lã e primeiro eu achei que tivesse derrubado alguma coisa doce nela. Mas depois me dei conta de que ele deve ter achado que eu era um bicho com um pelo bem macio...

Rosa dos ventos

Após longo e tenebroso inverno, finalmente começo a retomar o ritmo das caminhadas com as cachorras pelo bairro.

Feriadão, visita marcada pra Comadre (alô, Comadre!), calor de rachar, voltinha rápida no quarteirão só para deixar as periquitas respirarem um pouquinho de ar fresco (ou morno).

Na saída do prédio, Lola puxando a caravana, Mimi cheirando cada cantinho da calçada, um par de olhos azuis cintilantes, desses que te fazem se sentir lambida, baixa o vidro do carro para pedir informação:

- Olá... você sabe me dizer onde fica a Rua Tal?

Pane no sistema. A minha ausência de bússola interna é pública e notória. Já faz anos que parei de dar informação na rua, pelo bem da Humanidade. Mas esses olhos, meu Deus, que olhos são esses... Sem me dar muita conta do que estou fazendo, balbucio algumas frases desconexas:

- Olha, a Rua Tal... é pra lá. Lá pra trás. Você tem que voltar pra lá, pegar por exemplo a Rua X, onde acaba essa... e depois ir mais pra lá... Eu sei que é pra lá...

Os olhos agradecem, tento reconjuntar o corpo e a comitiva para prosseguir o passeio, rosto quente, mãos suadas. Mas os olhos azuis voltam à carga, dessa vez acompanhados de um sorriso de derreter neve:

- Eu consigo voltar por aqui?

E a boca responde, automaticamente:

- Consegue, consegue sim... é só dar a volta no quarteirão.

Não preciso de mais de um minuto para me dar conta de que não dá para voltar pelo caminho que indiquei. Duas ou três quadras para cima a rua fica contramão. Aliás, a Rua Tal era para o lado de lá mesmo? Gelo. Acho que indiquei a direção oposta.

Ainda bem que provavelmente nunca mais vou vê-lo, penso eu, envergonhada do meu desserviço.

É. Provavelmente nunca mais vou vê-lo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Todos dizem eu te amo

Varei a noite assistindo ao Woody Allen.

Faz mal trocar a noite pelo dia.

Mas às vezes a vida precisa tanto de um pouco de ficção.

De manhã me deitei ao lado de uma lembrança doce e triste e dormi aninhada na minha pequena solidão.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A árvore da felicidade

Quando eu estava na segunda série, a tia Liginha se casou. A tia Liginha era a minha professora da segunda série. Como era de praxe naqueles tempos (será que hoje ainda é assim?), a auxiliar de classe organizou os alunos para decidirmos que presente de casamento daríamos à tia Liginha. Depois o presente seria rateado pelos pais dos pimpolhos e todos ficariam felizes.

Tenho lembranças borradas desse episódio, mas anos depois, pensando sobre isso, algumas das sensações voltaram vívidas. A auxiliar deve ter feito uma espécie de brain storming com a gente (fico me perguntando como elas conseguiam fazer a gente criar aquelas histórias coletivas, que elas iam escrevendo na lousa à medida que a classe ia chegando a um certo consenso. Que talento!) e chegamos a duas idéias: uma árvore da felicidade e um aquecedor elétrico.

Eu nunca tinha ouvido falar na tal da árvore da felicidade e muito menos vira uma na vida, mas soou como música aos meus ouvidos de “Laurinha” (“isso é tão romântico, professora Helena!”). Que presente poderia ser mais apropriado a um casal, por ocasião do seu enlace matrimonial, do que uma árvore, o símbolo da vida, do renascimento, da natureza, e ainda por cima da felicidade? (Se alguém duvida de que eu tivesse esse tipo de pensamento aos nove anos – embora provavelmente eles não fossem expressos nessas palavras –, posso mandar um exemplar do livro de mitos e lendas que escrevemos na quarta série; a minha se chamava “A lenda da árvore renascente”. Laurinha na veia!) Imediatamente me convenci de que o presente não poderia ser outro! E curiosamente cerca de metade da classe se posicionou da mesma forma.

A outra metade, como se pode imaginar, estava mais preocupada era com os pés gelados da tia Liginha naqueles dias frios de agosto, e achava que um aquecedor elétrico era um presente bem mais útil e prático de que uma planta que ia morrer em alguns meses largada em algum canto da casa. Aliás, a outra metade estava completamente convencida de que a árvore da felicidade seria um presente de grego.

Essa talvez tenha sido minha primeira experiência vivida sobre o embate entre o romantismo e o pragmatismo – e eu, como não podia deixar de ser, precocemente assumi a minha essência romântica. Sempre dou risada hoje em dia ao pensar sobre isso – um bando de crianças de oito anos tentando decidir entre a matéria e o espírito, entre o real e o simbólico, entre o utilitarismo e o fim-em-si-mesmo. Grandes lições aprendidas na segunda série!

Felizmente optamos pelo caminho do meio, contamos os vinténs dos nossos pais e decidimos que podíamos dar os dois presentes – assim a tia Liginha e o seu marido estariam quentinhos para apreciar a felicidade proporcionada pela sua árvore.

Pensando na minha finada violetinha e considerando que o meu chuveiro e a minha cama já me deixam suficientemente aquecida, me ocorreu: será que não está na hora de ter uma árvore da felicidade?

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Nota de falecimento

É com pesar que comunicamos o falecimento da violetinha da mesinha de centro. A despeito da mudança para um apartamento com sol direto, dos constantes ajustes na freqüência com que se molhava o seu pratinho (porque violetas não gostam de água que vem de cima), da poda sistemática das folhas, a violetinha, como a camélia, suspirou uma última vez e decidiu que não queria mais permanecer nesse mundo. Restou um vaso com terra e nada mais. Duas cachorras com franjas aprisionadas por um amor-em-tóquio velam o seu silêncio.

A violetinha deixa no mundo irmãs, mães e filhas que, no Dia das Mulheres, tiveram um destino mais promissor: foram morar em casas ou mesas de trabalho de gente que sabe como fazer as plantas viverem.

(Nessa casa as plantas não sobrevivem.)

(Pelo menos a capacidade de amar não morre nunca.)

domingo, 7 de outubro de 2007

Dor e delícia

Uma das coisas que a minha vida de solteira me mostrou é que eu sou macha pra caramba. Mesmo com o coração em frangalhos, consegui sustentar a minha independência financeira e emocional e administrar uma casa, um trabalho, um carro, uma faxineira, três estagiários, duas cachorras e, principalmente, a mim mesma.

Em um determinado momento do ano passado a minha mãe me jogou um canto de sereia (afinal, ela é uma sereia, não?) para que eu voltasse a morar na casa dela, mesmo que temporariamente. O convite não fez sentido para mim. Embora eu me sentisse um pouco sem chão e tudo aquilo que eu havia sonhado e desejado para o meu futuro tivesse deixado de existir de uma hora para a outra, assumi as minhas escolhas como sendo minhas e decidi que o caminho da independência era um caminho sem volta.

O mais importante, porém, é que para além de sobreviver e conseguir administrar as coisas, em pouco tempo eu consegui resgatar a minha alegria. Reencontrei o prazer de pensar e conversar sobre a vida e os relacionamentos; de escrever sobre isso; de ler um livro até de madrugada, sem vontade de parar; de ver um filme que me deixa leve, leve ou me conduz para os meus recantos mais sombrios; de sentir o meu corpo através da yôga, das caminhadas pelo bairro com as cachorras, da dança; de ouvir música, de cantar, de conversar sobre a música; de ajudar, prestigiar ou simplesmente estar na companhia dos amigos; de rir até a barriga doer e as lágrimas escorrerem; de me emocionar com a beleza que existe em cada pessoa. De estar viva, enfim.

E quanto mais eu resgatava essas alegrias, mais forte me sentia. Foi-se o tempo da melancolia, da fragilidade, da instabilidade. Veio o tempo do equilíbrio, da sabedoria, da maturidade. E então eu me deparei com esse grande paradoxo: o amor, o estar com o outro, o relacionamento amoroso, que me parece um dos encontros mais sublimes e necessários da vida, sempre despertou em mim o meu lado mais primitivo, regredido, infantil.

Pensando sobre isso, me dei conta de que um dos maiores aprendizados da minha vida até hoje foi esse aqui: as pessoas não existem para promover o nosso prazer ou aliviar o nosso sofrimento. Elas existem, simplesmente. E espera-se que possam, na maior parte do tempo, compartilhar conosco os nossos momentos de dor e alegria. Mas ser o responsável pela felicidade ou infelicidade de alguém é um fardo demasiado pesado para se carregar.

Eu sempre me perguntava, com curiosidade: como será que essa minha fase “mulher solteira” vai afetar os meus próximos relacionamentos?

Então alguém se aproximou. E gostou de mim. E quis saber mais e mais sobre a minha dor e a minha delícia. E me deixou entrar na sua vida. E por mais que tudo isso viesse acompanhado de uma grande dose de medo, dúvida e angústia, o meu coração começou a bater acelerado outra vez.

Infelizmente, junto com o frio na barriga e o suor nas mãos vieram, com toda a força, a fragilidade, a melancolia, a instabilidade. E a pergunta: Por que essa necessidade, ou, mais ainda, essa vontade de mostrar tudo isso para o outro? É quase como uma forma de dizer: “Olha, eu sou isso aqui. O pacote é esse. Vai encarar? Não é bolinho não, pensa bem...”. Aos olhos do outro aparece uma pessoa desmantelada, desmilingüida, esfacelada. E por mais que esse outro tenha continência, afeto, disponibilidade e queira encarar a empreitada, às vezes fica tudo muito, muito indigesto.

Conversando sobre isso com uma amiga (o que seria de nós sem os amigos?) veio a luz: “Mulher, você não precisa repetir esse padrão de fragilidade em todos os seus relacionamentos. Você é forte, não precisa disso”. É verdade, não preciso mesmo. E o mais estranho de tudo é pensar no quanto, no momento em que tudo aconteceu, isso era algo muito consciente para mim. Ainda assim, não consegui fazer diferente. (Auto-sabotagem?)

Eu tinha muita curiosidade em relação ao meu futuro e ele chegou. E eu rateei. Mas já estou aqui apertando uns parafusinhos de novo. Se a gente não aprender com a experiência, não sai do lugar.

Eu sinto que perdi uma coisa muito preciosa e me sinto triste por isso. Não sei o quanto eu fui responsável pelo que aconteceu, porque, afinal, para além das nossas ações, desejos e buscas, há o eterno parecer do imponderável – aquele deus que decide, aleatoriamente, lá de cima, a quem ele vai conceder o privilégio do encontro. Mas não posso me eximir da minha responsabilidade – para comigo mesma. Não posso me deixar desmantelar – por mim mesma. Ficou a lição. Na hora em que tudo começar a derreter como uma geléia e der aquela vontade de sentar no pudim, tem que vir de dentro o comando: “Mulher! Put yourself together!”.

Já dizia o meu amigo Riobaldo: “viver é muito perigoso”. Mas também é danado de bom, não é? Então vamos em frente que atrás vem gente. E sem perder a ternura jamais...

sábado, 6 de outubro de 2007

Máxima do dia

Todos nós merecemos ser profundamente amados – eu, você, todos nós. Perdidamente, desvairadamente, indubitavelmente amados.

Um meio-amor que se pretende amor inteiro não deixa de ser uma forma de morte em vida.

Quem somos nós?

Outro dia eu disse a alguém que, quando saí da casa dos meus pais, decidi morar sozinha, sem dividir apartamento com ninguém, porque queria saber quem eu era “longe de todo mundo”. Mas será que eu sou “eu mesma” longe de todo mundo? Ou será que, pelo contrário, eu só “sou” na e pela relação com o outro?

É claro que morar sozinha ajudou a confirmar algumas das minhas suspeitas fundamentais: eu sou mesmo uma bagunceira de marca maior – e não tenho pudor de criar fungos dentro da pia da cozinha –, sou péssima de planejamento doméstico – quando acaba o papel higiênico, apelo para o guardanapo, quando acaba o guardanapo, vou de papel toalha, quando acaba o papel toalha... enfim –, adoro dormir tarde, odeio acordar cedo, gosto de banho quente, cama quente e leite frio. Mas nada disso me diz, de fato, quem eu sou.

Há um texto belíssimo de Benveniste, chamado “Da subjetividade na linguagem”, em que ele demonstra que a linguagem só pode existir porque o sujeito se enuncia como “eu”, e ele só pode fazer isso quando e porque enuncia o “tu”. Ou seja, a linguagem já nasce do humano em relação.

Também já disseram que nenhum homem é uma ilha, e em todos os campos do conhecimento humano existem exemplos abundantes de que o homem é, por definição, um ser social.

Como, afinal, entender-se, perceber-se, emocionar-se, existir, sem a presença do outro? Sem um espelho?

Muitas vezes, quando nos apaixonamos, nos encantamos de fato por aquilo que vemos de nós mesmos através dos olhos do outro. O olhar apaixonado é um olhar que põe em relevo todos os predicados do objeto de desejo, que acolhe os seus defeitos, que minimiza as suas fraquezas. E pelos olhos desse outro nos apaixonamos por nós mesmos.

O problema é que as pessoas vêm e vão. Nem sempre, nem todas, não o tempo todo, nem sempre porque querem, mas muitas vezes quando a gente menos espera. E se a gente constrói a nossa imagem, a nossa beleza, a nossa delícia através do olhar do outro, quando ele vai embora, o que resta?

Quem sou eu sem o olhar do outro? Como não me esfacelar sem essa presença? O que resta de meu, de essencial, de perene, de necessário e não contingente? Talvez a dor de uma perda ou separação seja tão grande porque temporariamente a gente se perca da gente mesmo quando o outro se vai. Frases como “eu não existo sem você” e “minha vida não faz sentido” demonstram cruamente a dor de não se saber um “eu” sem o “tu” que foi embora.

Trata-se, então, de encontrar um centro de estabilidade em meio à instabilidade daqueles que vêm e que partem de nossas vidas todos os dias. Não é à toa que os gregos, lá atrás, já buscavam explicar o princípio que rege todo o universo. Seria o movimento? Ou, pelo contrário, o imobilismo? Ou, na verdade, o incrível e misterioso mecanismo que garante que as coisas mudem o tempo todo e, ainda assim, permaneçam?

Essa talvez seja uma pergunta para uma vida. Para muitas vidas, aliás, já que depois de Heráclito e Parmênides ainda gastamos uns bons séculos tentando decifrá-la.

Dentro de mim, no entanto, cada dia fica mais fácil gostar de quem eu sou, mesmo que “o que eu sou” seja, a cada dia, uma coisa diferente e, ao mesmo tempo, uma mesma coisa. As pessoas vêm, as pessoas vão, eu fico. Eu caio, mas levanto. Eu me entrego, mas me recolho e me acolho de novo.

Talvez aquela frase de que eu sempre gostei tanto – “o que é seu está guardado” – tenha sempre querido dizer o óbvio: o que é meu está guardado aqui, comigo, não é de mais ninguém, por mais que eu precise sempre dos outros para continuar sendo “eu”.

E, não importa o que aconteça, a minha grande lição eu nunca esqueço: existe algo dentro de mim que nunca vai se quebrar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Lição de casa

Quem espera sempre alcança.

Quem sabe faz a hora.

A pressa é inimiga da perfeição.

Quem fica parado é poste.

Quem tudo quer, nada ganha.

Quem não chora não mama.

O apressado come cru.

Quem não arrisca não petista.

Devagar se vai ao longe.

Bobeou, dançou.

De grão em grão, a galinha enche o papo.

Foi pra Portugal, perdeu o lugar.

Roma não se fez em um dia.

Um olho no gato, outro no peixe.

Panela olhada não levanta fervura.


Alô, pessoal, dá pra decidir???


Faxina

Tem cabimento ficar tanto tempo sem escrever? De jeito nenhum.

Afinal, o Mulher Solteira é uma das poucas coisas do mundo que é minha, só minha e nada mais que minha... e uma boa dose de auto-erotismo não faz mal a ninguém.

Ademais, escrever é uma boa maneira de tentar se manter sã. Tentar, é claro, já que, com o perdão do trocadilho, as tentações à loucura também abundam.

Vamos então pôr as cadeiras de pernas pra cima, passar uma vassourinha básica, espanar as teias de aranha e arregaçar as mangas.

Ao trabalho!