segunda-feira, 14 de abril de 2008

Homenagem a Manélson


Há controvérsias a respeito da data exata, mas especialistas avaliam que tenha sido por volta dos idos de 1990. Vez ou outra eu a avistava caminhando pelo bairro e pensava: “que menina colorida!”. Nunca havia conhecido alguém assim: cabelo laranja-cor-de-cenoura, olhos verdes, pele branquinha e bochechas coradas. Parecia que tinha saído de dentro de um desenho animado.

Vizinhas de rua, acabamos tropicando uma na outra aqui, ali e acolá (ela e minha irmã no balé, eu e a irmã dela na natação) e nos tornamos amigas. A pré-adolescência marcou o auge da primeira fase da nossa amizade, tempos de Sítio do Carroção, primeiro amor e frio na barriga.

Aos doze anos de idade eu queria ser estilista de moda. Gostava de desenhar e, quando alguém me contou que havia uma profissão em que a pessoa ganhava dinheiro para fazer isso, achei uma opção muito digna. Minha avó tinha uma amiga dona de confecção e, quando havia desfile de coleção nova na casa dela, lá ia eu de prancheta debaixo do braço, papel sulfite e lápis de cor registrar as últimas tendências e me inspirar para as minhas próprias criações.

Mas Manélson rapidamente me demoveu da idéia. Em uma das únicas discussões dos nossos mais de dezoito anos de amizade, ela argumentou que eu precisava escolher uma profissão mais útil, que pudesse ajudar a melhorar a sociedade. Pra me defender, ridicularizei o fato de ela querer ser psicóloga (como de fato se tornou alguns anos depois) dizendo que ela ia “cuidar de louco”. Nem preciso dizer que paguei a minha língua com oito longos anos de análise...

Meu pai ainda tentou salvar a lavoura, fazendo um contraponto à ruiva tão cheia de razão. “Aposto que quando vai comprar uma roupa no shopping a dona Joana não pensa que a profissão do estilista de moda é inútil. Todas as profissões têm o seu valor social!”. Mas não teve jeito... Ela sabe que é a maior culpada pela crise vocacional dos últimos quinze anos da minha vida! E apesar de ter aprendido a relativizar as suas certezas, de vez em quando ainda confessa que não se arrepende nem um pouco de ter plantado mais essa minhoca na minha cachola já tão fertilizada.

Há um buraco negro inexplicável nos nossos tempos de colegial. Mas quando entramos na faculdade, retomamos a amizade com força total e nunca mais desgrudamos. Manélson acompanhou cada etapa da minha vida e vice-versa, como expectadoras privilegiadas. Me apresentou a dois dos cinco namorados que tive – é uma pena que nenhuma das indicações tenha sido muito promissora, mas não podemos tirar o mérito da tentativa. E como a vida pode ser bem irônica, foi ela quem apresentou ao meu ex a sua atual namorada. Mas quando foi preciso me dar a má notícia, ela assumiu a incumbência com a sua característica integridade e passou o dia todo segurando a minha mão.

Manélson é minha terapeuta-adjunta. Quando tenho dúvidas em minha auto-análise (já que, tal como um fumante, venho tentando “parar” a terapia há anos), é para ela que ligo, despejo a minha bagunça emocional e aguardo o veredicto sempre amoroso e compreensivo. Nunca deixou de responder a nenhum dos meus e-mails lacrimosos das madrugadas em crise de namoro, de pós-namoro e de ausência de namoro. Manélson agüenta as minhas mesmas ladainhas existenciais há quase duas décadas com a mesma paciência e dedicação. Mais ou menos uma vez a cada cinco anos ela se permite entrar em crise e me dá a oportunidade de retribuir com um pouco de orelhão.

Fomos companheironas de balada durante uns bons anos. Como naquele tempo eu ainda era abstêmia, ficava com a incumbência de dirigir. Cabia a ela ser a Relações Públicas da dupla. Maria Joana, Dona Maria, Tipuana, Nias, Kintamani, Básico... Desses tempos temos histórias impagáveis e impublicáveis, que vão ficar para sempre no folclore da nossa amizade. Basta dizer que naquele tempo a pista de dança do Kintamani era escura, escura...

Quando achamos que não era suficiente morar na mesma rua, estudar na mesma faculdade, sair juntas no final de semana e jantar pelo menos uma vez durante a semana, inventamos de fazer aula de jazz. Foram poucos os privilegiados que tiveram a oportunidade única de nos assistir dançando a versão de Cake para “I’ll survive”, poderosas, de vermelho e com cara de más.

Manélson já me gravou fitas e fitas com músicas “para dançar e liberar a drag queen que existe em você”, “para dar beijo na boca ou ter vontade de fazê-lo”, “para pensar na vida e/ou curtir música”, “para sentir-se batuta e/ou ‘que bom que eu liguei!’” (uma expressão cunhada especialmente para designar a sua profunda modéstia). Também me gravou um “CD Prozac” em uma época em que eu estava bem tristinha. Vive me enchendo de blusinhas descoladas e brincões cheios de penduricalhos pra eu liberar a Gisele Bünchen que habita em mim.

Não existem duas como ela. Incapaz de comer um prato de comida sem espalhar uma trilha de grãos, gotas e farelos para todos os lados. Especialista em falar ao telefone enquanto faz um belo número dois (Manélson é a otimização do tempo em pessoa! Imaginem o quanto ela não teve que exercitar a paciência com a minha incomparável velocidade...). No quesito escatologias, faz questão de anunciar e comentar todos os seus episódios de flatulência. Manélson inventou a “raivinha”, aquela irritaçãozinha absolutamente irracional que a gente não sabe explicar muito bem por que sente, mas simplesmente não consegue evitar. Também não deixou passar o “homem-coxa” (aquele que usa camisa pra dentro da calça sens-tropeito) e o “cl-cl” (acompanhado de um sinal de “ok” sincronizado com a pronúncia de cada sílaba), pra designar as coisas carésimas, supérfluas, desprovidas de qualquer funcionalidade, mas consideradas bacanérrimas pela high-society.

Manélson sempre me chamou de “a não-behaviorista mais behaviorista que ela conhece”. Eu posso dizer que assisti de camarote à transformação dessa behaviorista radical em uma terapeuta brilhante, mas que acredita piamente em espírito, cartomante e astrologia. Taí uma pessoa que não tem o menor pudor em viver plenamente as suas contradições. E não está nem aí para quem achar algum problema nisso.

Foi Manélson quem diagnosticou o meu “Transtorno de Sinceridade Compulsiva”. Ela passou anos tentando me ensinar que uma boa mentirinha de vez em quando faz mais bem do que mal, mas acho que já desistiu de tentar me tornar uma pessoa menos “cerrrtinha”. O pior é que com o tempo ela foi pegando alguns dos meus piores cacoetes, tipo dizer pro namorado absolutamente tudo o que se passa naquela cabeça ruiva ou cismar com o menor sinal de anormalidade do pobre moço (“você tá estranho...”). Ainda bem que a gente tá sempre ali uma pra outra, pra sorte dos nossos pobres namorados, lembrando que há limites para a verborragia feminina!

Eu e Manélson somos fãs incontestes de Maryan Keyes e sempre compramos o livro novo dela nas férias de janeiro. Vamos lendo juntas e mandando torpedos uma para a outra para comentar as melhores partes. Também partilhamos o vício por seriados e a compulsão pelo Big Brother.

Às vezes tenho a impressão de que andamos meio afastadas e fico me perguntando se isso significa que mudamos e já não somos mais tão parecidas quanto antigamente (embora sempre tenha sido digno de nota o quanto as nossas semelhanças se disfarçassem sob um manto de absolutas diferenças!). Também me pergunto se essas mudanças seriam de fato na essência de cada uma ou apenas o resultado de momentos de vida desencontrados – ela namorandão, eu solteiraça, ela mais behaviorista do que nunca, eu flertando com a psicanálise, ela acordando com as cotovias, eu dormindo com as corujas.

Com mudança ou sem mudança, perto ou distante, uma coisa é certa: Manélson é e sempre será um dos maiores amores da minha vida.

Parabéns, Manélson!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dia da marmota


Em um dia como outro qualquer, o seu celular toca e você treme à medida que aqueles dígitos vão se revelando horripilantemente familiares: “Estou ligando para lembrá-la da consulta com o Dr. Danilo na próxima sexta-feira”. Resignada, você anota o dia e a hora em um pedaço de papel. Parece que foi ontem! Foram os seis meses mais rápidos da sua vida.

Então começa a operação-desespero: tentar recuperar em quatro dias tudo-aquilo-que-você-está-cansada-de-saber-que-deveria-fazer-todos-os-dias-antes-de-dormir, mas na prática consegue fazer mais ou menos uma vez por mês e olhe lá. A estratégia consiste em empregar simultaneamente todas as técnicas de limpeza de dentes, gengivas e língua aprendidas ao longo de duas décadas de ida ao dentista: escovar uma vez sem pasta, com a escova seca e posicionada no sulco gengival, em um ângulo de 45º (“esquecer que está escovando”); repetir a operação com a escovinha bitufo; aplicar o fio dental “desenhando um ‘c’ para dentro da gengiva, polindo o dente”; escovar a língua; passar o limpador de língua; limpar as bochechas e gengiva com gaze; bochechar com água de ratânia (meu deus, alguém realmente faz isso TODAS AS NOITES?).

Na noite anterior à ida ao dentista, gastar o dobro do tempo para realizar o ritual e, se preciso, repetir algumas operações mais de uma vez. Dormir com a língua formigando de tanta escovação. Na manhã seguinte, leite puro, sem nescau, nada de pão (trauma desde o dia em que o dentista berrou: “o que é isso???? Tem pão no seu dente!!!”) e repetir todo o ritual feito antes de dormir. Não esquecer de levar um pacote de gaze no bolso para passá-la novamente pelas bochechas e gengivas UM MINUTO ANTES DE TOCAR A CAMPAINHA (é incrível a velocidade com que se forma a placa bacteriana).

É de praxe chegar pelo menos 10 minutos atrasada (nem precisa de Freud para explicar...) e, ainda no carro, receber a ligação da secretária confirmando a sua vinda, com o neurótico do seu dentista bufando a um metro da coitada. Na chegada, o dentista invariavelmente vai se queixar do seu atraso, perguntar se você “ainda está namorando aquele músico” e pedir que você escolha o DVD que quer assistir durante a raspagem. Não adianta explicar a ele que você não gosta de estímulos sensórios no período da manhã (nem de DVD, nem de instrumentos de tortura medievais): ele acabará escolhendo aquele DVD chatíssimo do Toquinho, que é a única coisa que passa pela cabeça das pessoas quando você diz que gosta de MPB.

Então chegará a hora da verdade e, após a aplicação do corante de placa, os resultados dos seus esforços serão ou não recompensados. É verdade que ao longo dos anos a técnica vai se aperfeiçoando e os gritos primais emitidos pelo dentista durante a sua pós-adolescência (“isso está parecendo a Guerra do Paraguai!”) poderão gradativamente ser substituídos por leves comentários de incentivo. Mas, inevitavelmente, a sentença final será sempre a mesma: “a escovação está boa, mas precisa melhorar o fio dental”. E na seqüência: “Alessandra, passa o fio dental para ela ver. Aproveita e pega uma gaze para a gente mostrar como remover a placa bacteriana da bochecha”. É inútil afirmar que você vem seguindo as mesmas orientações durante anos, até um minuto antes de entrar no consultório. Placa bacteriana funciona mais ou menos como pane no computador: na presença do técnico, o problema desaparece e você passa por otário. Só que com a placa é ao contrário: basta a presença de um dentista em um raio de cem quilômetros para ela brotar em questão de segundos, independentemente dos seus esforços para debelá-la.

Você vai ganhar uma escova Oral B e o dentista vai pedir para você segurar o espelho em forma de dente e vai te mostrar mais uma vez como proceder à escovação: “escovar uma vez sem pasta, com a escova seca e posicionada no sulco gengival, em um ângulo de 45º (‘esquecer que está escovando’); não é o dente que você escova, mas a gengiva! Repetir a operação com a escovinha bitufo – você tem escova bitufo?; aplicar o fio dental ‘desenhando um ‘c’ para dentro da gengiva, polindo o dente’; escovar a língua; passar o limpador de língua; limpar as bochechas e gengiva com gaze; já te falei para experimentar o bochecho com água de ratânia?”

Com sorte ele vai te liberar do retorno de uma semana e te deixar marcar a próxima consulta só para dali a seis meses (mas você ainda precisa ficar esperta para ter certeza de que ele não vai mandar a secretária marcar para dali a cinco). Que chegarão como se apenas um dia houvesse se passado desde a sua última visita. A assistente, mais delicada e menos repetitiva, vai finalizar o polimento e entregar que o dentista tem os mesmos problemas bucais que você, enquanto ele vai aguardar no escritório ao lado ouvindo um bom CD de jazz e procurando no Livro de Bruxaria para Dentistas uma foto bem horrenda de gengivas retraídas para te assustar.

Finalizada a tortura, você passará ao escritório e ouvirá a mesma ladainha dos últimos dez anos: “como você é minha cliente desde criança, vou te fazer um preço especial. O valor do tratamento é cinqüenta e sete milhões, duzentos e vinte e quatro mil setecentos e oito reais, mas vou te cobrar só duzentos”.

E com um suspiro adolescente, de quem nunca superou aquela paixão platônica que os seus olhos azuis não deixam esquecer, ele fatalmente vai completar: “e não esqueça de contar para a sua mãe”.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Existencial



Será que o mundo me permite um minuto de irracionalidade?

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Por que é tudo tão difícil? Por que as pessoas são tão miseráveis, por que sofrem tanto?

Por que não conseguimos ter a vida que queremos ou simplesmente nos contentar com a vida que temos?

Por que é que não conseguimos saber qual é a vida que queremos ter?

Por que é tão difícil aceitar que merecemos aquilo que temos? Ou o que queremos?

Por que, mesmo quando tudo está bem, sempre falta alguma coisa?

Por que, quando tudo está mal, ainda pode ficar pior?

Por que alguém não pode me dizer que escolhas eu devo fazer?

Por que a escrita não pode ser suficiente para apaziguar a minha angústia?

Por que precisamos tanto de dinheiro e, quando o conseguimos, ele não é o suficiente para garantir a nossa felicidade?

Por que o amor acaba? Por que tudo acaba?

Por que o tempo passa tão rápido e, ao mesmo tempo, tão devagar?

Por que entender as coisas não faz com que elas sejam mais fáceis?

Por que só somos capazes de apreciar determinadas coisas depois que elas não existem mais?

Por que temos que ter uma consciência tão aguda sobre nossa própria morte e nem assim conseguimos preencher a vida com significado?

Por que estamos todos sozinhos? Por que ninguém é capaz de compreender inteiramente o outro?

Por que nos foi dada a capacidade de perguntar se não nos são concedidas as respostas?

Antes que me perguntem, não aconteceu absolutamente nada. Estou apenas doendo a minha existência. Então com licença, deixem-me sentir um pouco de pena de mim mesma e de todos nós.

(Acabo de descobrir que minha cachorra mastigou quatro rolos novinhos de papel higiênico enquanto eu despejava as minhas mágoas existenciais no computador. Um desfecho perfeito para atestar mais uma vez a grande banalidade das indagações humanas.)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Chá de sumiço


Federico, porto-riquenho radicado nos EUA, é agente funerário, tem cerca de 30 anos, é casado e tem dois filhos pequenos. Sua mulher, Vanessa, foi sua primeira e única namorada.

Após a morte da mãe, Vanessa embarca em um longo processo depressivo, ao qual Federico assiste, confuso e impotente. A presença da irmã de Vanessa em sua casa, estimulando-a a lidar com a depressão por meio do cartão de crédito e interferindo na educação dos filhos, é a gota d’água para que ele cometa a maior besteira de sua vida: envolver-se com uma prostituta.

O resto dessa história todos conhecem: mentira tem perna curta e logo a separação é inevitável. Arrasado, Federico ainda passa alguns meses “acampado” na mesa da sala de preparação de corpos da casa funerária onde trabalha, achando que a volta para casa é uma questão de tempo. Após uma “transa de recaída”, ele e Vanessa conversam seriamente e ela finalmente pede o divórcio.

Federico procura se conformar com o novo cenário. Arranja um quarto temporário na casa de seus sócios, que é também a casa funerária onde trabalha, e embarca na onda dos encontros virtuais. Um dia, durante o trabalho, uma janela “pula” de dentro do computador e Federico conta timidamente aos sócios que se trata de uma das garotas que ele conheceu pela internet. Antes de encerrar a breve relação digitando dez palavras apressadas, Federico explica a David e Nate que não houve química com a garota. Não parece perceber o espanto dos sócios quanto à objetividade com que deu o caso por encerrado.

Tempos depois, uma nova pretendente parece finalmente fazer o tipo de Federico. Depois de um ou dois encontros, Vanessa, com quem Federico ainda mantém uma relação amigável, convence-o a chamar o seu “date” para acompanhá-lo durante o casamento de seu sócio. Eles parecem realmente feitos um para o outro.

Alguns dias depois, Federico e a namorada estão na sala de TV. George, o novo marido da dona da casa (Ruth, que abrigou Federico por conta da separação) começa a se recuperar de um surto psicótico. George entra na sala em meio a um beijo ardente e, alheio aos acontecimentos, procura companhia por meio de assuntos irrelevantes e gestos de gentileza. Federico e a namorada não conseguem se desvencilhar do velho e ela decide que já é hora de ir para casa. Federico a convida para almoçar no dia seguinte e ela pede que eles combinem por telefone.

No dia seguinte, próximo à hora do almoço, Federico tenta falar com a namorada duas, três, quatro vezes. Mais tarde, deixa outros recados, concluindo que o horário do almoço já passou e ela provavelmente teve algum imprevisto. À noite, ainda sem notícias, Federico liga para a casa de Vanessa e avisa que não poderá levar os filhos para jantar, como haviam combinado, porque sua amiga está desaparecida. Vanessa se solidariza e aconselha Federico a ligar para a polícia.

Na porta da casa da moça, nem sinal. Não há resposta à campainha. O telefone continua tocando sem parar. Finalmente, Federico procura a síndica e implora que ela abra a porta do apartamento, temendo que algo sério tenha acontecido à namorada.
Por fim, porta aberta, a moça se assusta, se espanta e se irrita com a invasão: o que diabos vocês estão fazendo dentro da minha casa? Federico responde, com convicção: você sumiu! Fiquei preocupado... Combinamos de almoçar e você não atendia as minhas ligações!

A moça responde, entre incrédula e constrangida: pensei que você leria nas entrelinhas... Federico, ainda mais constrangido: ah, sim, claro... as entrelinhas.

Na noite seguinte, Federico tenta levar os filhos para comer uma pizza, mas Vanessa diz a ele que não pode marcar e desmarcar os programas com os filhos a toda hora. Aproveita para perguntar o que havia acontecido à moça que desaparecera durante todo o dia anterior. Federico, embaraçado demais para contar a verdade, diz que ela morreu de ataque cardíaco. Vanessa mal acredita na má sorte de Federico e acaba aceitando não apenas que ele leve os filhos para jantar, mas também lhes faz companhia durante a pizza.

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A seqüência de cenas descrita acima é um excerto da série Six Feet Under. Uma série cinco estrelas, que trata com profundidade e delicadeza o tema da morte e muitas outras questões e dilemas existeciais: o amor, a sexualidade, a solidão, a verdade, a identidade, a loucura, a arte...

Se a pincei dentre inúmeras outras que também me tocaram o fundo da alma, foi porque me vi nessa pequena tragédia do cotidiano de um coração romântico que, impelido pelas tormentas da vida (às vezes provocadas pelo seu próprio barco), volta a navegar sem bússola pela selva dos solteiros.

sábado, 29 de março de 2008

Laurinha e a nova professora


Dia desses, dirigindo meu jipinho pelas ladeiras de Perdizes, uma seqüência de associações livres que minha memória não foi capaz de reter me levou à seguinte pergunta: por que é que eu, uma cartesiana que dança – que, aliás, ama dançar – tive minha carreira no balé clássico tão precocemente abreviada?

Ao contrário da minha irmã, que fez anos e anos de balé, chegou a dançar com sapatilha de ponta e se aposentou compulsoriamente por conta de um problema na rótula do joelho (e cujas fantasias das apresentações de fim de ano – a florista, o fogo, a hippie, anos dourados, a cegonha... – animaram muitas das nossas brincadeiras infantis ao som dos discos do Balão Mágico), eu tive aulas durante um ano, dos seis aos sete, e depois parei.

Fui puxando pela memória até me transportar àquela época e o motivo veio claro como o dia: minha professora. Não, ela não era uma bruxa. Pelo contrário: era uma fada. Nem me lembro do seu nome (minhas memórias infantis são bastante imprecisas e surrealistas), mas seguramente me lembro dos sentimentos que me acompanharam naquele episódio.

Em um desses acontecimentos banais do cotidiano que não parecem sequer dignos de nota, minha professora de balé teve que mudar os horários das suas aulas. Ela lecionava no período da tarde e teve que mudar para o período da manhã. Simples assim. Eu, que estudava no período da manhã, não podia mais fazer aulas com ela. E simplesmente não pude aceitar que qualquer outra pessoa fosse minha professora de balé, apesar de todas as tentativas de argumentação da minha mãe, de uma ida à aula da nova professora com uma amiguinha, da perspectiva de não ganhar uma nova fantasia de balé no final do ano (a minha era de bebê – dancei junto com a minha irmã que era a cegonha).

Pensando bem, pode ser que tudo isso seja apenas fruto da minha imaginação. Foi mais ou menos nessa época que minha mãe me levou ao ortopedista para fazer uma avaliação e eu comecei a fazer fisioterapia para corrigir a lordose, a cifose, a escoliose, o pé chato, a ponta do cotovelo e o branco do olho (processo que se estendeu por longos dez anos da minha vida).

Mas, independentemente do fato de eu ter parado as aulas de balé por recomendação médica ou simplesmente por desgosto, tenho uma vívida recordação de um dia ter faltado à escola (com a anuência da minha compreensiva mãe psicóloga) e ido à escola de balé para visitar a antiga professora. Comemos juntas um ovo de páscoa que levei para ela.

Já lá se vão mais de vinte anos e continuo igualmente apegada às minhas professoras. Eu devia ter me lembrado disso quando assumi a minha primeira sala de aula aos 21 anos, como professora substituta de português de uma 7ª série. Provavelmente teria causado menos danos à minha auto-estima e talvez eu não tivesse tomado a decisão de não pisar novamente em uma sala de aula durante pelo menos uma década.

Há cerca de um ano e meio, naquela fase abominável da minha vida que inspirou o nascimento deste blog, decidi que queria começar a praticar yôga. Eu já tinha ouvido muitos relatos positivos sobre os benefícios da yôga (eu confesso: escrevo yôga mas falo “yóga” – não me acostumo), inclusive da minha analista, cuja opinião respeito profundamente. Sabia que precisava ter uma atividade física regular e, para além disso, estava disposta a buscar toda a ajuda possível para me sentir melhor.

Recebi de uma amiga a recomendação de uma escola que ficava a poucas quadras da minha casa e do trabalho. Entrei no site, fucei os horários das aulas e me rendi ao conforto da comunicação escrita, enviando um e-mail solicitando informações sobre a abertura de novas turmas de iniciantes, já que os horários existentes não eram convenientes para mim.

Logo veio uma resposta simpática da professora dizendo que havia uma turma de nível intermediário com poucos alunos e eu deveria experimentá-la, pois ela poderia me dar mais atenção individual. Eu repliquei dizendo que nunca havia feito yôga na vida e certamente não acompanharia uma turma intermediária. A resposta foi singela: ligue-me e conversaremos.

No telefone com a Adri, contei sobre o meu longo histórico de fracasso escolar no que diz respeito a esportes e atividades físicas em geral. Descrevi as minhas notas vermelhas em todos os quesitos de todas as avaliações físicas que eu já tinha feito na vida: zero de força, zero de flexibilidade, zero de capacidade aeróbica. Eu síntese: eu era uma bucha.

Ela não comprou a minha história. Repetindo a singeleza da primeira resposta escrita, disse simplesmente: venha até aqui e faça uma aula, quero te conhecer.

Fui, a conheci, recebi algumas breves instruções para conseguir acompanhar a seqüência da saudação ao Sol e, alguns minutos depois, tive a minha primeira aula intermediária de yôga. Suei como uma vaca, bufei, tremi, esconjurei, esbugalhei os olhos. Mas fiz a aula inteirinha, até o fim. No relaxamento, chorei um oceano de lágrimas.

Depois nos sentamos no chão e Adri me disse: você tem totais condições de acompanhar essa turma. Precisa trabalhar força? Precisa. Falta flexibilidade? Falta, mas isso é pura ferrugem... O mais importante é que você está extremamente aberta para o trabalho. E tem uma incrível percepção sobre o seu corpo. Por mim você já é aluna do nível intermediário.

Comecei a freqüentar duas aulas semanais e a yôga causou em mim uma transformação. Finalmente descobri que sou um corpo. A yôga é suficientemente exigente para que eu me sinta desafiada e precise me dedicar e me concentrar para fazer as posturas, mas não excessivamente exigente a ponto de eu me sentir desmotivada ou incapaz. Depois de um ano, me senti quase uma menina do circo ao conseguir fazer uma invertida sobre a cabeça pela primeira vez. Eu, que nunca na vida consegui dar uma estrela sequer.

E tudo isso acontecia sob o olhar atento, amoroso e estimulante da Adri. Ela conseguiu a façanha de mudar completamente a minha auto-percepção corporal, a ponto de me exibir para as alunas novas como exemplo de uma pessoa corajosa, que tinha conseguido vencer muitos limites em um tempo surpreendentemente curto.

No início desse ano, meu espírito vampiro despertou definitivamente das catacumbas e comecei a não conseguir levantar para ir às aulas de manhã. Mais do que simplesmente acordar e levantar da cama, constatei que não gosto de estímulos sensórios nas primeiras horas do meu dia. Não gosto de ouvir gente falando alto, não gosto de falar com ninguém, não gosto nem mesmo de tomar banho. À noite, pelo contrário, a yôga cai como uma luva para mudar a freqüência do dia de trabalho e preparar o caminho para casa.

À noite, comecei a não conseguir chegar a tempo para fazer aula com a Adriana. E acabei caindo em outra turma, com outra professora.

Eu a conhecia já há algum tempo, pois logo que comecei a fazer yôga fui experimentando outros horários durante a semana por conta de imprevistos no trabalho. Logo no primeiro dia em que conheci esta outra professora, fiz aula sozinha. Achei que ela falava demais e que insistia muito em que eu fizesse os movimentos com um requinte de perfeição que me desanimava. Me fazia sentir incapaz, como todas as academias de ginástica que já freqüentei na vida.

E é incrível o que acontece quando a gente não gosta de alguém. É como o cheiro que exalam as pessoas que têm medo de cachorro. As pessoas simplesmente começam a não gostar da gente também. Pelo menos era essa a impressão que eu tinha.

A minha pequena deficiência auditiva, que foi delicadamente contornada pela Adri com a recomendação de que eu não me prendesse muito ao que ela falava e simplesmente tentasse acompanhar o fluxo da aula, virou um grande problema para a professora nova. Se eu abria os olhos para fazer leitura labial, ela achava que eu não estava me concentrando o suficiente. Se eu pedia que ela falasse mais alto, ela elevava a voz a uma altura desagradável, como se estivesse gritando ou falando asperamente com toda a turma. Se eu me confundia em alguma postura, ela me perguntava se era porque eu não tinha ouvido direito.

Além disso ela nunca, nunca tocava em mim. A Adri sempre corrigia amorosamente as minhas posturas. Será que eu era invisível? Ou era tão ruim que ela preferia não tentar me corrigir para não me desencorajar? Isso sem mencionar que ela nunca, jamais me tratou pelo nome. Eu desconfiava que ela havia se esquecido como eu chamava.

Apesar de toda a minha resistência, insisti em continuar na turma (afinal, não tenho mais seis anos de idade para desistir de um curso por causa da professora, certo?). E, aos poucos, comecei a gostar dela. Passei a valorizar os seus comentários, que antes me pareciam um pouco maçantes. Encontrei um jeito confortável de lidar com a falta de jeito dela de lidar com a minha surdez. Sobretudo, me concentrei na minha relação com o meu corpo e com a yôga, mais do que na minha relação com ela.

Retomei o ritmo das duas aulas semanais e mergulhei fundo no trabalho. A cada dia, uma nova conquista: uma postura desafiadora da qual vou conseguindo me aproximar aos poucos, minha respiração que já não fica tão ofegante, cada vez menos necessidade de recorrer à postura da criança para acalmar os batimentos cardíacos. Enquanto isso, o cultivar de uma relação crescentemente afetiva com a “nova professora”.

Na última aula, ao me despedir e virar para a porta, recebi um sorriso e um “tchau, querida!”. Isso me fez pensar que a vida é um longo exercício de aprendermos que as separações são inevitáveis, mas sempre é possível estabelecer novas e gratificantes relações.

P.S.: O título desse post faz referência ao livro infantil “A nova professora”, cuja protagonista (Laurinha, uma porca-espinha) vive o drama da substituição da sua querida professora da escola. Toda a coleção da Laurinha marcou momentos felizes da minha infância passados na casa da minha avó Helô. Vó, um beijo!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Semibreves

Estóica
Desafio qualquer um a praticar yôga com os joelhos esfolados. Haja elevação espiritual.
Silogismo
Hoje vi um cachorro perseguindo um carteiro. O que prova que as histórias em quadrinho sempre estiveram certas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um corpo que cai

Caí. De maduro.

Jovem, saudável, inteligente, descolada, independente, articulada. (Acima de tudo, modesta.)

Mesmo assim, caí. De quatro. De boca. De sola. Como diriam os cariocas: me ishhhtabaquei no chão. E ishhhhcangalhei os joelhos.

Tombo daqueles de se olhar em volta para avaliar o tamanho do vexame. De sentir pena de si mesma pela sua fragilidade, vulnerabilidade e insignificância. Aqueles tombos que machucam principalmente a moral.

Não me lembro se no momento do tombo me ocorria algum pensamento de grandiosidade, mas o contraste foi grande: em um segundo eu era a dona da rua, a musa de Perdizes, a cidadã do mundo, a senhora do meu nariz; no segundo seguinte, beijava o chão, calças rasgadas no joelho, mãos esfoladas.

Nem sabe se quer que alguém ajude ou se prefere que todo mundo finja que não viu. Dói cair e dói saber que o mundo continua girando apesar do seu tombo. Se não há platéia, o negócio é engolir o choro e continuar a caminhada. Ver a dor diminuir aos poucos, com o caminho.

Não tem jeito. Cair, todo mundo cai. A questão é como se levanta.

sábado, 15 de março de 2008

TSC

Ela sofre de um severo quadro de Transtorno da Sinceridade Compulsiva.

Sendo assim, antes de partir para os finalmentes, achou por bem informar o moço:

- Olha, é bom você saber de uma coisa. A gente pode ficar, se curtir, numa boa, mas eu estou bem enrolada,viu? Já estou saindo com três caras... Então vê aí o que você quer fazer.

O rapaz se desconcertou, que história é essa, mulher minha é só minha. Ou então, ela tinha que escolher: ou ficava só com ele ou com os quatro!

Depois, capitulou: ela era uma montanha de areia, à disposição do seu caminhãozinho pelo confortável preço de não ter absolutamente nenhum compromisso. Algum homem pode sonhar com algo além disso?

Mas o diabo é que ele gostou dela. Quando pediu o telefone ela deu, mas quando disse que não ia ligar ela nem ligou (e ainda confessa que perdeu a paciência com homem que pede número de telefone só para fazer média).

A moça deu um nó no moço e o negócio foi apelar para os SMSs, santa pós-modernidade. Faz que vai mas não vai, faz que não está estando, comparece sem fazer pressão. E ela, que além de sincera é educada, respondeu. E foi a deixa pra ele ligar.

Com voz de Fábio Jr., ela conta, meio impaciente. Cheio de frases feitas, de elogios prontos e de rouquidão sedutora puxando para o brega. Mas além de sincera e educada, ela é boa. Achou que mesmo enrolada não custava dar mais uma chance para o moço, ruim não tinha sido, ele que se quisesse encontrasse com ela na festa do Fulano no Lugar Tal.

Mas se um é pouco, dois é bom e três é demais, quatro é quase impossível de administrar. E aos 45 do segundo tempo, sabendo que um dos outros três também havia sido convidado para a festa, ela resolve se emendar por SMS: “Xi! Um dos caras com quem eu estou saindo também vem para a festa... E agora?”. Desaforado, o moço responde do alto dos seus 24 anos com topete de 17: “Fica com ele”.

Ela tenta ligar, não falou por mal, só queria que ele soubesse que ela não poderia ficar com ele naquela festa. Ele não atende. Mas chegando no Lugar Tal, ela vai ao bar tomar alguma coisa e PUMBA! Tromba o dito-cujo. O número três não veio, mas os amigos do três sim. Sendo assim, o protocolo continua valendo.

Como é que ele ainda teve coragem de vir depois daquela troca de torpedos?, as amigas perguntam. Ela explica: ele já estava encostado no balcão do bar quando recebeu a triste notícia. Amigos em punho, acampamento armado, achando que aquela noite ia faturar.

As amigas incentivam: “vai, fica com ele!”. Mas ela não quer que os amigos do alheio vejam a cena. “Vai escondida!”. “Não quero ficar escondida!”. É sincera, educada, boa e tem lá os seus brios, vejam bem. Não está fazendo nada de errado. Tudo o que ela quer é usufruir da sua liberdade feminina, pero sín perder la teruna jamás.
Na saída do bar, pede cinco minutinhos para a amiga e finalmente se despede do rapaz com a devida eloqüência. Mas esclarece: ela não vai deixar de sair com nenhum dos outros três!

E durma-se com um barulho desses.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Um grito de liberdade

Uma rajada de tiros, uma salva de palmas, uma ola, um troféu joinha e um minuto de silêncio em homenagem a Thomas Edison, o mártir, herói e inconfidente dos notívagos solitários!

(...)

[um minuto depois...]

E três vivas ao elevador, à TV, ao DVD, ao computador, à Internet, à geladeira, ao fogão, ao microondas, ao chuveiro elétrico e ao secador de cabelos! Viva! Viva! Viva!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bolsa

Então.
Aproveitei a terça-feira para ir ao Na Mata, ouvir boa música e dar uma sondada no mercado.
Minha gente: o mercado tá fraco.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Pra titia

Falando em casamentos...

Minha prima vai casar. Minha prima linda, querida e amada vai casar. A idéia original era morar junto e fazer um test-drive antes de completar o serviço, mas titia deu uma chamada e os noivos resolveram se enquadrar. O casório é em janeiro de 2008. Vivam nos noivos!

Então me dei conta de que, depois do casamento de outra prima, por parte de pai, marcado para agosto desse ano, e do casório da minha prima querida no começo do ano que vem, me tornei a próxima na linha sucessória da família. E não vejo ninguém à minha frente!...

O pior de tudo é que até hoje absolutamente todas as minhas cinco primas mais velhas (e a minha irmã) se casaram (ou casarão) exatamente como manda o figurino: com um bom homem, na igreja, em cerimônia celebrada por um pastor (as duas famílias são protestantes), de branco, com direito a aliança e festão pra mais de 200 convidados.

Quando a minha irmã se casou eu pensei secretamente: “papai, mamãe, aproveitem bem esse momento, pois ele será único na vida de vocês...”. Eu já sabia que nunca me casaria na igreja e, mesmo namorando naquela época e curtindo a idéia de rituais, também desconfiava que morar junto seria o primeiro passo antes de pensar em algum tipo de celebração. E mesmo a tal celebração, se houvesse, certamente não seguiria os moldes dos casamentos tradicionais.

Hoje em dia, porém, já fui ainda mais longe nas minhas elucubrações sobre o futuro: será que algum dia eu vou sequer juntar os meus trapinhos com alguém? E isso não é um discurso amargurado e anticasamento, é apenas uma constatação sobre a imprevisibilidade da vida. Poucas pessoas que eu conheço são tão românticas quanto eu. Quase nenhuma das minhas amigas curte tanto a idéia de “se amarrar” quanto eu curto. Quando amo (reformulando: até hoje, quando amei...), nunca lamento o fato de estar comprometida e não sinto falta da liberdade da vida de solteira. E acho que, desde sempre, a idéia de casar e ter filhos é um dos meus maiores desejos e aquilo que talvez atribua mais sentido à existência.

Ainda assim, ao longo dos últimos 22 meses da minha vida, comecei a exercitar o pensamento sobre a possibilidade de isso nunca vir a acontecer e traçar rotas alternativas para que a minha vida possa vir a ter tanto ou mais sentido quanto eu encontraria se pudesse realizar aquele meu sonho original. Por mais que se diga “que é isso! Você só tem 29 anos!”, passei a sentir uma necessidade leonina de aprender a me pensar como uma pessoa completa mesmo sozinha.

Tenho certeza de que ainda vou viver muitos encontros nessa vida, e espero que cada uma das coisas que eu vivi até hoje esteja me preparando para vivê-los cada vez mais intensamente e extrair deles o máximo de prazer, dor e ensinamento. Mas quero também ter a certeza de que, se por uma falta de sorte nenhum desses encontros for mágico o suficiente para me fazer desejar dividir a minha vida com outra pessoa, ainda assim posso me sentir feliz e realizada.

Acho que tenho feito um bom trabalho até agora. Mas é inevitável, de vez em quando, se render a essas pequenas fantasias que acompanham as meninas desde sempre: pensar no seu vestido de noiva, na música que você queria que tocasse na sua entrada triunfal, em quem seriam os seus padrinhos... Só falta mesmo um pequeno detalhe para completar o quadro: o noivo!

Por que é que nenhuma das minhas primas resolveu fazer a Revolução antes de mim, casar com uma mulher, entrar para um harém, namorar um casal (acreditem, isso existe), enfim, romper com os paradigmas? Bem, simplesmente não aconteceu... E felizmente, cada uma delas, a meu ver, encontrou a felicidade ao seu modo.

Enquanto isso, estou aqui trabalhando com afinco para encontrar o meu...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Mulheres apaixonadas

“O dia do meu casamento foi um dia muito, muito feliz na minha vida. Embora a gente já morasse junto há algum tempo, resolvemos casar no civil. Eu e ele queríamos oferecer uma festa para os amigos, e alguém precisava pagar por essa festa... Mas, além disso, muito acima disso, eu quis dar esse casamento de presente para o meu pai. Eu era a filha mais nova, a única que ainda não tinha casado. E fiz questão que o meu pai me conduzisse até o juiz de paz diante de todos os meus amigos, que me levasse pelo braço e me entregasse para o meu futuro marido. Ensaiamos essa entrada milhares de vezes. Se você me perguntasse naquela época, eu não saberia te dizer por quem estava mais apaixonada: se por ele ou pelo meu pai...”.

terça-feira, 4 de março de 2008

Loucos

Eles estão por toda parte. Às vezes vestem terno e gravata, tailleurs, exibem cargos importantes e se escondem por trás de uma grande fachada institucional. Desses eu quero distância, embora seja impossível escapar de ter pelo menos um ocupando um papel importante na sua vida.

Os que me interessam mesmo são aqueles que vivem a céu aberto, dizendo suas verdades aos transeuntes, exibindo as entranhas que todos nós, ao longo da vida, aprendemos a ocultar.

No bairro da minha mãe havia um. Estava sempre descalço, sentado no chão em frente à padaria, em uma pose infantil com as pernas esticadas e abertas e um pedaço de papelão à sua frente. Falava muito sozinho. Tinha a pele morena e a cabeça calva. Às vezes, em meio ao seu solilóquio, parecia um pouco agressivo, por isso meu coração de menina nunca teve coragem de se aproximar. O que mais me atraía e aterrorizava eram os desenhos sempre iguais que ele fazia no pedaço de papelão, com uma velha caneta esferográfica: eram bustos de seres meio-homem, meio-macaco, como as figuras de 2001 – Uma Odisséia no Espaço ou do Planeta dos Macacos.

Aqueles homens-macacos exerciam em mim o mesmo fascínio e repulsa que as cobras. Não há como não olhar, mas não há como olhar e não se sentir repelido. Ele fazia parte da paisagem, do caminho de casa. Ele e sua caneta esferográfica, seu pedaço de papelão, sua pose infantil, seu monólogo agitado e seus homens-macacos.

O louquinho do meu bairro é de outro tipo. É aquele que a gente costuma chamar de “louco manso”. Idoso, sem um dente na boca, rosto enrugado, cabelos branquinhos. Está sempre caminhando e conversando, com alguém que pode ou não estar lá. Às vezes me diz frases incompreensíveis, desconfio que faz críticas a políticos ou defende alguma teoria conspiratória.

Ele adora as minhas cachorras e, acho eu, me adora também. Lembro muito bem da primeira vez em que nos encontramos, como ele exibiu a gengiva banguela e disse como elas eram bonitinhas. Desde então, sempre que o encontro, faço questão de parar, dar bom dia/boa tarde e esperar que faça uma festinha nas cachorras e o seu mini-discurso.

Uma vez fui tomar um lanche perto de casa com minha mãe e encontramos com ele. Eu a apresentei a ele como se apresenta a mãe a qualquer amigo. A mãe-sereia estranhou um pouco, mas entrou na história. Percebeu que ele era inofensivo.

Em outro dia quente e modorrento, topei com o “meu louquinho” no caminho de volta para casa. Ele sorriu de longe as gengivas vermelhas, se abaixou para aguardar a chegada das cachorras, me olhou com olhinhos brilhantes e saudou: “as bonequinhas!”.

Quando cheguei mais perto, dei boa tarde, esperei que concluísse os afagos nas chuquinhas e então ele disse, entre tímido e galante: “são três!”. Cogitei que ele estivesse enxergando uma terceira cachorra imaginária e resolvi entrar na brincadeira: “Três bonequinhas? Cadê a terceira?”. E ele respondeu, exibindo a banguela e me apontando o dedo: “É você!”.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Tête-à-tête

Não é uma biografia sobre Sartre ou Beauvoir, a autora esclarece. Trata-se de um livro sobre a história de amor entre eles.

Se conheceram aos vinte e poucos anos, na época em que prestavam um exame de admissão ao cargo de professor de filosofia do Ensino Médio. Beauvoir flertava abertamente com Maheu, um amigo de Sartre que era bem casado e feliz. Foi Maheu quem deu a Beauvoir o apelido de “Castor” (porque “Beauvoir” se parece com “beaver”, a palavra inglesa que nomeia o roedor), apelido que Sartre e boa parte dos amigos usaram para se referir a ela durante toda a sua vida.

Sartre se interessou pela jovem Beauvoir, bela e extremamente inteligente, de fala rápida. Pediu a Maheu que marcasse um encontro entre os dois em um café. No dia marcado, Sartre sabia muito bem por que Beauvoir mandara a irmã em seu lugar para desculpar-se e dizer que ela não viria. Baixinho, zarolho e com a pele ruim, Sartre não causava uma boa primeira impressão nas mulheres. A consciência de Sartre sobre sua feiúra talvez tenha sido o primeiro passo em direção às suas concepções sobre o Existencialismo e a liberdade.

Superados os obstáculos iniciais, Sartre e Beauvoir logo viveram um encontro de almas e perceberam que se amariam durante toda a vida. Sartre, no entanto, tinha clareza de que jamais se casaria ou teria filhos. Dizia a Beauvoir que lhe daria o seu amor eterno e profundo, mas jamais poderia abrir mão de sua liberdade. Ele próprio estimulava que Beauvoir fizesse o mesmo.

Ao longo de suas vidas, Sartre e Beauvoir devotaram um amor um ao outro que consideravam “essencial”, enquanto experimentavam com outros parceiros amores “contingentes”. Para Sartre esse sempre foi o arranjo que melhor representava a ordem natural das coisas. Jamais demonstrava ciúme por Beauvoir e nunca a repreendeu por qualquer outro relacionamento.

Para Beauvoir, viver a liberdade pregada por Sartre não era tão fácil. Além de se consumir pelo ciúme, poucas vezes ela achava que as mulheres escolhidas por Sartre estavam à altura dele. De fato Sartre, um homem brilhante, costumeiramente se envolvia com mulheres frágeis ou pouco talentosas, que logo se tornavam dependentes financeiramente dele. Ele as sustentou até sua morte e chegou a adotar uma delas, que atualmente é detentora dos direitos autorais sobre toda a sua obra (e infelizmente não tem sido muito generosa para com o resto da humanidade).

Em poucas ocasiões Sartre e Beauvoir viveram sob o mesmo teto. Cada um deles viveu relacionamentos longos com outros parceiros. Beauvoir chegou a viver com um de seus homens por sete anos. Mas a condição para a sobrevivência desses relacionamentos paralelos era que os parceiros aceitassem que tanto Sartre quanto Beauvoir não eram um homem e uma mulher isentos de compromisso, livres e prontos para se entregar integralmente a uma relação. Eles tinham um ao outro e não abriam mão disso. É verdade que Beauvoir, mais do que Sartre, estava disposta a deixar tudo e todos, a qualquer momento, para estar com Sartre, e em algumas ocasiões isso lhe trouxe conseqüências amargas.

Foram parceiros sexuais durante os primeiros 15 anos dos 51 em que mantiveram o seu laço amoroso. Foram parceiros intelectuais durante os 51 anos de vida em comum. Fizeram da escrita o seu ofício. Era piada entre os amigos de Sartre e Beauvoir que “o Castor trabalhava como uma formiga”. Sartre também tinha uma urgência por escrever que jamais conseguia vencer. Durante toda a sua vida, escreveram durante seis a oito horas por dia. Sartre escreveu peças, romances, artigos e ensaios filosóficos. Beauvoir escrevia artigos, ensaios, romances e um volume significativo de obras autobiográficas.

Sartre e Beauvoir eram dotados de um enorme magnetismo. Eram admirados, lidos e venerados por pessoas ao redor de todo o mundo. Muitas das alunas de Beauvoir se tornaram suas amigas, depois amantes e, boa parte delas depois disso, amantes de Sartre também. Foi assim que Beauvoir acabou exonerada do seu cargo de professora; após a denúncia da mãe de uma de suas alunas. Todas essas pessoas com quem eles se envolviam e que, mesmo depois de findos os casos, continuavam em torno deles, dependendo financeira e emocionalmente dos dois, acabaram constituindo o que eles chamavam de “a família”.

Beauvoir, uma mulher inteligentíssima, articulada, esclarecida, cedo percebeu que a liberdade experimentada por Sartre jamais seria a mesma que ela vivia, por sua condição feminina. Abrir mão de se casar e ter filhos e viver esse relacionamento não oficial com Sartre causou grande desgosto à mãe de Beauvoir e fez com que ela não fosse considerada respeitável em muitos círculos sociais. Estimulada por Sartre a escrever sobre si mesma, sua vida, experiências e idéias, Beauvoir concebeu “O Segundo sexo”, até hoje uma de suas obras mais importantes e um grande ícone do feminismo.

Torturada por angústias permanentes que atribuía ao medo da morte, Beauvoir era dada a momentos de choro incontroláveis, que assustavam quem estivesse por perto por sua aparente fragilidade. Acostumou-se a fazer longas caminhadas para as quais dificilmente encontrava companhia. Sartre, em uma de suas cartas, chamou-a de “devoradora de quilômetros”. Essa era a maneira de Beauvoir de lidar com a sua sombra.

Alguns dos que se envolveram amorosamente ou sexualmente com Sartre e Beauvoir – particularmente as mulheres – consideravam sua forma de se relacionar doentia e destrutiva. Por vezes, Beauvoir e Sartre admitiram a si mesmos terem ido longe demais e causado danos permanentes a jovens a quem a liberdade à qual eles se dedicavam estava além do horizonte de possibilidades. Suas vidas não são impecáveis exemplos de moral e conduta; pelo contrário, refletem mais um exercício não acabado – mas profundamente vivido – de busca por essa tal liberdade, aquela que parece sempre um metro adiante de onde estamos, ou em nome da qual por vezes parecemos abrir mão daquilo que nos parece mais caro.

Tête-à-tête
não é uma biografia sobre Beauvoir ou Sartre. É sem dúvida uma história de amor. Um amor humano, tortuoso, ora egoísta, ora equivocado, mas sempre vivo. Alguém já disse que é a maior história de amor do século XX. A autora deixa ao leitor o veredicto sobre a verdade ou não dessa afirmação.

De minha parte, dentre tantas coisas que me deslumbraram nesse livro, talvez a mais cara tenha sido a velha conhecida lembrança de que existem tantas formas de amar quantas são as pessoas que amam.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Out of the closet

Se eu não posso culpá-la inteiramente, boa parte do meu sumiço se deve a uma certa ruiva. Antes de escorregar a caixa para as minhas mãos, alertou: “não abra na frente dos seus pais. Eles podem entender tudo errado...”.

E então eu descobri o fascinante mundo lésbico.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Vinte e nove

A amiga da rua. As amigas do primário e do ginásio. As amigas do colegial. As amigas do primário, do ginásio e do colegial. As amigas da faculdade. A amiga do ginásio que só ficou amiga mesmo depois da faculdade. A ex-professora da faculdade que virou amiga e sócia. A amiga da faculdade que virou colega de trabalho. A ex-namorada do amigo do ex-namorado da irmã que virou amiga e vizinha de mesa no trabalho. A amiga que não é mais do trabalho, mas continua amiga. Os amigos do ex que viraram amigos. O amigo da amiga que virou amigo e também ficou amigo da outra amiga. O amigo que veio do espaço. A irmã que virou amiga. A colega de faculdade que ficou amiga mesmo quando namorou um amigo do ex. A prima que sempre foi mais amiga do que prima. O namorado da prima que virou amigo. A mulher do amigo do ex que virou amiga, vizinha e colega de trabalho.

Um amigo para cada ano de vida. Assim é que é bom.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Dez mil

Este dia chegou mais cedo do que eu esperava. Já faz um tempo que eu comecei a ficar de olho no marcador de visitas do blog pensando “preciso preparar um post especial para os dez mil”. De repente chega um comentário da amiga e descubro que já estou nos dez mil e seis. Mesmo um pouco atrasada, estou aqui para a comemoração da marca.

O Mulher Solteira nasceu em 5 de julho de 2007, catorze meses depois do meu retorno à vida solteira, mais ou menos uma semana depois de ter vivido pela quinta vez consecutiva, em poucos meses, a famosa síndrome do “por que ele não me ligou?”. Naquela época, voltar a entender o funcionamento do “mercado” consumia boa parte da minha energia e fazia o meu cérebro ferver. Escrever era uma forma de tentar pôr um pouco de ordem no caos e apaziguar a angústia de não entender o que os homens queriam, por que agiam como agiam, o que realmente significavam as suas palavras e também os seus silêncios.

De lá pra cá a “linha editorial” mudou bastante. Afinal, o blog acompanha a minha vida de Mulher Solteira e nos últimos meses decidi sair do campo de batalha e empreender uma nova missão: aprender a ser só. De “mulher solteira navegando sem bússola pela selva dos solteiros” me coloquei “em um rinque de sumô, face a face com a solidão”. Eu bem desconfio que a melhor forma de aprender com a solidão não seja chamá-la para a briga como estou fazendo, e sim me tornar amiga dela. Mas o caminho é longo e ainda tenho muito chão pela frente.

E agora chegamos aos dez mil acessos. Talvez alguns estejam se perguntando sobre a receita do sucesso para atingir tal marca. Quero dividir generosamente com vocês o segredo dessa façanha:

De 5 de julho de 2007 a 16 de fevereiro de 2008 tivemos 227 dias. Isso significa cerca de 44 acessos diários. Vamos dizer que tenho aproximadamente cinco leitores fixos e diários (nem todos comentam, mas alguns me confessam na vida real) e outros dez flutuantes. Isso já explica mais ou menos dez acessos (porque os flutuantes se revezam) por dia. Outros cinco acessos diários são meus mesmo: entro pra ver se os textos continuam no mesmo lugar, para me convencer de que o tamanho e a cor das fontes estão bons, para reler o post do dia anterior e ver se 24 horas atrás escrevi algum absurdo de que me arrependa, para encontrar comigo mesma ou simplesmente para “lamber a cria”. Os outros cerca de 30 acessos são assim distribuídos:

- Cinco pessoas estão procurando alguma referência aos seus livros preferidos da infância ou adolescência: “Poliana” e “Poliana Moça”;

- Cinco pessoas estão querendo saber como cuidar de uma árvore da felicidade;

- Cinco pessoas estão tentando decidir se devem ou não usar aliança de compromisso;

- Cinco pessoas estão procurando informações sobre o samba da Praça Roosevelt;

- Cinco pessoas estão usando o google como oráculo, procurando respostas para perguntas como “ele vai me ligar amanhã?”;

- Cinco pessoas estão procurando pornografia e, ao digitar expressões como “mulher dando de quatro”, misteriosamente são remetidas à minha página.

Aos meus leitores fixos e flutuantes, o meu muito obrigada (não teria cabimento agradecer a mim mesma pelos meus cinco acessos diários). Aos interessados na Poliana, na árvore da felicidade, nas alianças de compromisso ou no samba da Praça Roosevelt, lamento não poder ajudá-los, mas espero que tenham usufruído de uma leitura interessante caso tenham decidido perder alguns minutos com esse blog. Àqueles que usam o google como um oráculo, espero que encontrem as respostas que estavam procurando (e que descubram logo que o google serve para quase tudo, mas certas respostas só o tempo pode trazer). Aos que procuram pornografia, não se sintam logrados pelo google. Aprendam também que as aspas são de grande ajuda para que ele não se confunda na busca. E aproveitem para parar e usufruir das confissões de uma mente feminina, que às vezes pode ser ainda mais erótica do que as partes íntimas de uma mulher.

E que venham os próximos dez mil!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Laço

- Oi, linda!
- Oi... tudo bem?
- Tudo, e você?
- Médio...
- Por quê?
- Solidão.
- Sei como é...

E isso já fez desgrudar as asas viscosas da mariposa pousada no meu coração.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Em nome da Ciência

Justificativa
Em nome do progresso científico, decidi entregar-me a um experimento. Meu interesse pelo tema surgiu de hipóteses do senso-comum que dizem que “quando menos se espera, aparece alguém interessante”, “quando você faz as coisas por você, e não pelos outros, se torna alguém irresistível” e “antes de gostar de alguém, é preciso aprender a gostar de si mesmo”. Assim, tomei a decisão de não realizar absolutamente nenhum movimento em direção à busca por um parceiro amoroso, ficante, rolo, paquera, one-night-stand, PA, ATT e similares, não significando, com isso, que eu estivesse fechada a qualquer uma dessas experiências. O coração do experimento consistia em não buscar, não procurar, não fazer nenhum esforço.

Objetivos gerais

- Fortalecimento da auto-estima
- Contemplação do vazio lúcido
- Aceitação do sentimento de solidão
- Exercício da paciência
- Aprendizado de auto-suficiência

Objetivos específicos

- Identificar se, de fato, “o universo conspira a nosso favor”
- Verificar se é possível conhecer homens interessantes na fila do banco, na padaria ou na locadora sem tomar absolutamente nenhuma iniciativa
- Investigar se “alguém de repente pode lhe oferecer flores”
- Constatar se é verdade que “o que é meu está guardado”

Metodologia

A metodologia utilizada consistiu na realização de absolutamente nada. Alguns comportamentos foram evitados:

- Entrar em sites de relacionamentos
- Sucumbir a blind dates patrocinados pelas amigas
- Enviar indiretas ao amigo gostoso da sua melhor amiga
- Procurar rolos, ficantes, one-night-stands, PAs ou ATTs do passado
- Sair para a balada com objetivos de caça
- Tentar conquistar o professor de violino da afilhada da sua amiga com um e-mail espirituoso

Resultados parciais

134 dias de seca

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Carnaval

Mulher Solteira informa: este blog está fora da área de cobertura ou desligado.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

And the Oscar goes to...

Eu sou um bicho teimoso, ou melhor, preguiçoso, ou melhor, randomicamente avoado. O vizinho cansou de buzinar no meu ouvido: Mulher, você tá marcando touca nessa 2001! A locadora da esquina de casa é muito mais barata...

E eu, afundando em dívidas e afundando a minha solidão nos filmes, levei quase um ano para finalmente me lembrar de colocar um simples comprovante de residência da bolsa para fazer o meu cadastro na locadora.

Confesso que logo de cara não notei uma diferença significativa nos preços. Pra falar a verdade, a minha ridiculamente obsessiva memória para eventos dramáticos e cultura inútil não é lá um grande prodígio na arte da comparação dos preços. Deve ser por isso que eu, afundando em dívidas e afundando a minha solidão em potes de requeijão, continuo fazendo compras no Pão de Açúcar. Ah, é. Também gosto de fazer supermercado de madrugada. Coisas de solteiros solitários.

Mas de volta aos fatos: comecei a freqüentar a locadora ocasionalmente, sem sentir, de imediato, nenhum grande alívio no bolso. Foi aí que o universo conspirou para que a minha gula de ficção atacasse em plena quarta-feira. Entrei, vasculhei as prateleiras (é verdade que a oferta não é tão variada, mas sempre há algo interessante se a gente procurar com afinco), escolhi uma fita (pra usar uma gíria em desuso e provocar raivinhas em amigas ruivas) e, ao passar pelo balcão, recebi a senha para a felicidade: não quer aproveitar e pegar mais um? Hoje é dia de promoção, cada locação por 3,50. Voltei para casa feliz da vida, com dois DVDs debaixo do braço e quarenta e oito horas para desfrutá-los, tudo pela bagatela de 7 reais.

Semana seguinte, a cena se repete. Mas dessa vez, com programação noturna na quinta-feira e intensa programação diurna no feriado de sexta, só consegui assistir a um dos filmes. Ainda assim, desfrutei do privilégio de ligar para a locadora vir buscá-lo na minha casa, sem taxa de “entrega”, e deixei para acertar tudo no dia seguinte quando fosse devolver o segundo.

Na hora de pagar, a surpresa: Deu 9,50. Como? 9,50. Sabe o que é, você está um dia atrasada... Pois é, sei disso, respondi surpresa. É que pensei que fosse ficar mais caro. Não, a diária em atraso custa 2,50. Ah... Desse jeito até vale a pena atrasar, não? Levemente constrangida, a atendente não teve como não concordar.

Hoje foi dia de cinema em casa de novo. E como a primeira sessão acabou cedo, estou me preparando para a segunda. Acontece que li em um cartaz em cima do balcão que os filmes locados na promoção de quarta, se devolvidos na quinta, saem por 2,50. Imaginem o cenário: na quarta-feira alugo quatro filmes. Com uma sessão dupla na quarta e outra na quinta-feira (uma meta conservadora para alguém que não vai para a cama antes das duas da manhã), terei assistido a quatro filmes por reles 12 reais. E o preço vale tanto para catálogo quanto lançamento!

Na pior das hipóteses, vendo um filme por dia de quarta a sábado, arremato a semana com quatro novas aquisições para o meu repertório filmográfico por apenas 4,50 cada. Calculem comigo: devolvo (ou melhor, mando buscar) o primeiro filme na quinta por 2,50; o segundo na sexta por 3,50 (não dá pra assistir e devolver um na própria sexta porque a locadora fecha às 23h); o terceiro e o quarto no sábado por 6,0 cada. Tã-dã! Conta final: 18 reais.

A quarta-feira, que costumava ser o limbo insosso entre o longínquo sábado que passou e o que ainda está por vir, acaba de receber o Mulher Solteira Award de noite mais divertida da semana.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Feira livre

Amiga 1 – Mulher, dei seu msn para um cara com quem eu estava me correspondendo no Par Perfeito! Agora que eu estou com o Sicrano, como achei que ele podia ser interessante, falei de você pra ele e ele ficou a fim de te conhecer. Ele já olhou o seu Orkut e te achou bem interessante. Ah, falando em Orkut, antes que eu me esqueça: também dei o seu Orkut para um amigo do Sicrano. Nossa, se você gostar dele vai ser ótimo, porque ele é mooooito legal!!!

Amiga 2 – Mulher! Olha só: uma amiga minha lá de Ribeirão se separou do marido há pouco tempo, não tem volta, eles ficaram amigos, tudo super bem resolvido. E o Beltrano é um partidão! Tô aqui pensando em um jeito de te apresentar para ele... Ribeirão nem é tão longe, vai!

Amiga 3 – Mulher, outro dia eu estava pensando e concluí que o professor de violino da minha afilhada é A SUA ALMA GÊMEA! Ele é interessante e bonito, tem estatura mediana, é hiper sensível, não é nada gay, me parece que não é casado nem tem namorada, é super culto, é simpático, aberto, comunicativo, e é MÚSICOOOO!!! Você acha que com o nome dele e a indicação de onde ele trabalha tem como chegar no e-mail dele???

Amiga 4 – Mulher, vem cá, quero te apresentar para o meu amigo Homem, Homem, Mulher, Mulher, Homem, pronto, estão apresentados! É que eu tava comentando com o meu irmão, vocês têm tudo a ver! Mulher, o Homem também é da USP, super inteligente, é físico, então é isso, vocês podem decidir agora se querem conversar ou não, que nem a Daniela Cicarelli, hahahahaha!!! Sabe, no Beija Sapo? Então é isso, ai gente, até eu fiquei com vergonha agora, então abafa o caso, vamos dar uma circulada e se for o caso depois vocês conversam...

Amiga 5 – Mulher, atenção! Acabaram de chegar dois amigos solteiros e super interessantes! (Algumas horas depois...) Ah, eu vou te contar! As mulheres solteiras dessa mesa não estão com nada!!! Eu trago três solteiros lindos, inteligentes, interessantes para essa balada e eles vão embora porque acharam o lugar meio parado? Vocês não estão com nada!!!

Amiga 6 – Mulher, o que você acha do meu amigo Fulano, rola??? Não??? Ah, que pena, porque eu já perguntei pra ele e ele disse que pra ele rola...

Mãe da Amiga 6 – Aê, Mulher! Vamos agitar o Fulano pra você, hein???

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Segredos de liquidificador

- Então, quebrou um ovo podre no meu carro, acredita? Agora está um cheiro péssimo...
- Hum, não faço idéia de como seja cheiro de ovo podre.
- Parece cheiro de pum.
- Ah, é? Mas cheiro de pum ruim, né? Ou cheiro de pum bom, tipo ovo frito? Não, deve ser cheiro de pum ruim, se o ovo estava podre.
- ... Cheiro de ovo frito???
- Você não acha que ovo frito tem um pouco de cheiro de pum? Mas não é ruim, é cheiroso... Cheiro de pum bom. Tem cheiro de pum ruim e cheiro de pum bom.
- ... [cara de monstra]
- ... Não tem?
- ... Sei lá!
- Quando você solta um pum, não fica com vontade de continuar sentindo o cheiro?
- ... Será???
- Ué, todo mundo gosta do cheiro do próprio pum!
- Nossa, nunca reparei! Será que o pressuposto é o mesmo que leva as pessoas a olhar para o próprio cocô?
- Ah, pode ser... Porque a gente gosta de olhar o próprio cocô, mas o cocô dos outros não, né? E com pum também é assim, o pum dos outros é sempre fedido, mas do nosso pum a gente gosta.
- Se bem que quando a gente olha o cocô é por uma certa curiosidade de saber o resultado da ingestão de certos alimentos. É, acho que quando o pum está com um cheiro diferente a gente também se sente estimulado a investigar...
- Pois é. Mas de qualquer jeito a gente gosta do cheiro do nosso pum, independente do que a gente comeu.
- ... Gente... eu nunca tinha pensado nisso!
- Nossa...
- Bom, vou começar a reparar então.
- Tá, depois você me conta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Sobre a espera

Certa vez uma prima disse que eu não deveria esperar. Esperar pelo quê? Perguntei. ‘Esperar por tudo, oras.’

Pequena Gafanhota,

Eu sei que dói, e como sei, e como dói. Dói dormir, acordar, comer, trabalhar, falar, respirar, viver. Quanta coragem é necessária para arrastar esse desarticulado conjunto de órgãos, membros, ossos e carnes para as mais banais e fundamentais atividades do cotidiano. A mais fugidia sensação de paz de espírito, experimentada em um ou outro momento de entrega a algum pensamento ou tarefa desvinculada do seu objeto de amor, parece durar poucos segundos ante toda a eternidade ainda por se viver sem a presença do ser amado. Impossível não se sentir errada, pequena, insignificante, desprovida de algum encanto fundamental que deveria ser original de fábrica e não se consegue em uma revendedora qualquer.

Mas tenha calma, cara amiga. Calma e fé. Siga a estratégia dos dependentes químicos e viva um dia de cada vez, estabeleça uma meta exeqüível de se manter a salvo pelo menos por hoje. Coloque o seu sofrimento em uma perspectiva cósmica. Pense em quantas pessoas no mundo, nesse exato momento, estão passando por essa mesma, exata e insuportável dor que parece ter sido forjada aí mesmo no seu peito. Em quantas outras já passaram por essa mesma sensação de aniquilamento e hoje podem contar que a história teve um final feliz, ainda que o roteiro original tenha sofrido significativas adaptações por força das circunstâncias. Em quantas, ainda, que nesse instante vivenciam aquela mesma intensa percepção de felicidade a dois que lhe parece ter sido roubada sem possibilidade de resgate, mas em horas, dias, semanas, meses ou anos também serão obrigadas a enfrentar a solidão em um rinque de sumô.

Aplique, ainda, a perspectiva cósmica à sua própria linha do tempo. Pense no que significa essa porção de dor no universo que representa a sua vida como um todo, visualize a sua diluição no caudaloso passar das horas, dias, meses e anos que você já viveu e ainda há de viver. Use os seus olhos, ouvidos e coração para perceber que o amor acaba a todo instante, mas também renasce a todo instante e se é assim com todos, não será diferente com você.

Não tenha a ilusão, no entanto, de que qualquer um desses pensamentos afrouxará sequer um milímetro do aperto que toma conta da sua caixa torácica. Não será nesse momento, justo agora, que você encontrará forças para fazer prevalecer a razão sobre a emoção. Eles servirão apenas para que você reúna as mínimas forças necessárias para seguir vivendo e esperando, esperando, esperando.

Sim, você precisa continuar esperando. Ainda que a idéia de tomar uma pílula mágica que te fizesse dormir durante três meses pareça agora a maior das possíveis invenções da humanidade, saiba que tal engenho seria inteiramente inútil. Você dormiria e acordaria exatamente da mesma maneira, e esse lapso de tempo nada teria feito por você. É preciso dormir e acordar em cada um dos dias desses três meses, seguir vivendo apesar de tudo, obrigar-se a executar as mais ínfimas tarefas necessárias a garantir a manutenção da sua vida, e depois fazer isso por mais três meses, e mais três, e mais três, e quantos mais sejam precisos até que finalmente o tempo tenha realizado a sua ação curativa (que só acontece na sua espera ativa, como tento agora te mostrar).

Então talvez você chegue ao ponto de poder não esperar nada. Talvez se desfaça, uma a uma, de todas as suas ilusões, submeta toda a sua existência ao crivo da sua filosofia pessoal e conclua que nada nem ninguém pode ser tomado como garantido. E, diante disso, decida viver de maneira errante e errada, tomando cada um dos seus dias como a oportunidade de se surpreender com o novo e o desconhecido sem jamais se aferrar a eles e simplesmente pulando de uma experiência a outra com a única certeza de permanente admiração em relação à vida.

Pode ser que nesse tempo você também dessacralize o seu corpo e o entregue ao bel-prazer do fluxo dessas experiências. Você vai se desapropriar de si mesma e doar-se à ciência da experimentação. Vai provar um pouco de cada coisa, abrir mão do seu gosto clássico e simplesmente colocar-se à disposição de cada um dos encontros, por mais descartáveis que eles sejam, que a vida possa te proporcionar. Em cada um deles você vai sugar até a última gota das sensações, percepções, reflexões, conclusões e também o avesso de todas elas. E a pequena dor que esses encontros poderão te infligir será apenas a taxa mínima cobrada pela vida a qualquer um dos seus usuários, simples tarifa de manutenção, franquia que cobre desde os gastos com um conserto de radiador até o desgaste do relacionamento com um chefe que muda de opinião a cada 15 minutos.

Como, até então, você talvez não tenha estado aberta a vivê-los, esses encontros trarão consigo a dose de praxe de deslumbramento. A quem nada espera, a vida presenteia com surpresas permanentes, pensará você. E se entregará cada vez mais ao exercício de não fazer planos, de não buscar encontros, de não procurar amores, de não alimentar ilusões e simplesmente apanhar nas mãos essas pequenas doses diárias de descoberta. Perceberá, com espanto, que as pessoas não entram em sua vida para garantir a sua felicidade ou apaziguar a sua dor. O que há vez ou outra é a mera coincidência entre esses estados de feliz ou infelicidade e a presença ou ausência de alguém, mas a sua dor e a sua felicidade, sabe, essas ficam por sua conta.

E aí chegará o dia em que você vai enfrentar o vazio. Porque a vida paradoxalmente é muito curta e também muito longa, e despida dos seus planos, sonhos e ilusões e disposta a se entregar também a essa vivência, as horas, dias, semanas e meses se escoarão lentamente, sem que nada se possa fazer a respeito a não ser entender mais esse momento como uma nova e importante aquisição para o seu repertório. Não há nada de mal em tomar o cinema, a música ou a literatura como companhias eventuais na vivência desse vazio. Você já tem nas mãos os seus pincéis e tintas; procure pensar como seria a representação no papel desse vazio lúcido. Alimente-se das histórias alheias, mate a sua fome de vida com a ficção. E, mais uma vez, aprenda a esperar.

Exercite a sua paciência. Ouça o ronco surdo que vem de dentro do seu coração vazio, do seu estômago vazio, da sua mente vazia. Observe. Veja que, afinal, nem mesmo o vazio é capaz de anular a sua existência. Lembra-se da História sem Fim? “O nada é o vazio que resta”. Aqui, do lado de cá, o vazio é só o vazio, o nada é só o nada. Convide-os para um bom cálice de vinho, se te apetecer, ou para aquele cafezinho de que você tanto gosta.

E depois de tudo isso, Pequena Gafanhota, o que eu mais espero é que você continue esperando, e não desista nunca de esperar. Esperar nos ponteiros do relógio que o universo conspire e esperar nos ponteiros do seu coração que os seus sonhos e desejos tão preciosos encontrem outros sonhos e desejos com os quais possam seguir viagem. Afinal, o que seria de mim, de você, dele, sem os nossos sonhos e desejos? O que é o homem sem o seu projeto? Então, espere sim. Oxalá eu possa continuar sendo sua amiga para ainda te ver roendo todas as unhas dos dedos esperando, sabe lá, por um telefonema, ou de coração acelerado esperando por um beijo, ou de boca seca esperando por uma boa notícia, ou de pés inchados esperando pela chegada de um filho.

Essa sua anatomia errada, esse seu todo-coração, é o bem mais precioso que você possui. Se você já sabe o quanto pode sofrer com a perda, tem que saber também que a única coisa que não pode perder nunca é a capacidade de amar, pois o seu amor não está nele nem em nenhum outro, mas em você. Essa capacidade é o único pré-requisito para a sua felicidade nessa vida.

Bons encontros com a sua dor e delícia. Estarei aqui.

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* Esta não é uma obra de ficção. Qualquer semelhança entre pessoas, lugares e acontecimentos terá sido fruto de uma dolorosa mas frutífera vivência pessoal e intransferível.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Olhos de cortar cebola

E ainda tem gente que duvida da tenacidade das cebolas.

Vejam, contrariando todas as expectativas, na casa da mulher menos habilidosa com os vegetais, ainda durante o período de luto de uma violetinha que desistiu de lutar pelos direitos das mulheres, fazendo inveja aos ovos da prateleira de cima, uma cebola teimou em germinar em plena geladeira, pôr os tentáculos pra fora e pedir passagem.

A mulher não ousou contrariar a força da natureza. Pediu licença à alma da finada violetinha e transplantou a cebola para o seu vaso. Mas muito mais não fez. Aguou quando lembrou de aguar, deixou o vaso mais perto da janela e ao sabor do vento, vez ou outra lembrava de conferir o resultado do experimento. Foi viajar por ocasião do ano-novo e a deixou entregue à própria sorte.

Dias, semanas se passaram e a cebola continuava exatamente do mesmo jeito. Os tais tentáculos pouco cresceram, não pareciam fazer muita questão de ganhar mundo para fora do vaso ou da janela.

Ocorreu à mulher que, tendo plantado a cebola inteira, talvez faltasse espaço para que ela se desenvolvesse em sua plenitude naquele vaso acanhado. Ainda temendo que o choque do segundo transplante fosse demais para a cebola, como outrora acontecera com o seu feijão de batata que não vingou na terra, a mulher arriscou a mudança para um pote de sorvete, duplex, arejado, 3 suítes, andar alto, cozinha e banheiros azulejados.

Foi tirar a cebola da terra e descobrir um viçoso maço de folhas compridas e espevitadas, que se ajeitavam como podiam no subsolo. Contavam causos de vidas passadas em peles de tomates, joaninhas e sabiás enquanto esperavam o bom-senso da mulher prevalecer e ela finalmente perceber: plantara a cebola de cabeça pra baixo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Édipo

No ano passado, em uma das inúmeras despedidas de solteira às quais fui convocada a comparecer (evento que se torna relativamente corriqueiro quando nos aproximamos dos 30), uma das amigas da “noiva” levou, para tornar a noite mais divertida, um texto escrito por Gisela Rao (escritora inspirada de dilemas femininos, feministas e afins) sobre “Coisas que você deve fazer antes de casar”.

Entre idéias cômicas e/ou inviáveis como “coma uma pizza de alho inteira”, “passe um mês sem fazer depilação” e “pose para a Playboy ou participe de um concurso de Miss”, uma delas me pareceu um tiro certeiro e fez soar o bom e velho sininho interno: “resolva sua relação com o seu pai”.

Eu não sei se ter problemas de relacionamento com o pai é um universal das mulheres, mas certamente foi algo que marcou a minha trajetória de forma importante. Meu pai é um sujeito brilhante, inteligentíssimo, extremamente musical, bem-informado, culto, ponderado, articulado, provocador. Junto com o pacote vieram um senso crítico bastante exacerbado, uma grande rigidez, uma enorme dificuldade de falar sobre sentimentos e uma carga de expectativa em relação às pessoas sempre um pouco além daquilo que elas são capazes de oferecer.

Uma amiga querida sempre se admirou da formalidade das nossas brigas e dizia que na minha casa todos discutiam “em cima do púlpito”. Ninguém era capaz de sacar um “não enche o saco!” ou “fico triste quando você me trata assim”; pelo contrário, todo e qualquer ponto de discordância era pretexto para um longo debate solidamente sustentado por argumentos, fatos, ilustrações e refutações.

Mas aquilo que realmente ia na alma de cada um, as tristezas, as frustrações e o desapontamentos nunca conseguiam ser claramente expressos e acolhidos pelo outro. Ficávamos rancorosos, cada um de um lado, sofrendo com o seu próprio sentimento de incompreensão.

A santa análise nos ajudou a aceitar um ao outro e a nós mesmos. No fundo somos muito parecidos. E o que ele viveu e sofreu serviu de modelo para que eu evitasse alguns equívocos importantes. Mas, curiosamente, o momento de maior abertura e transcendência (expressão emprestada do amigo blogueiro Gustavo Gitti) que vivemos em nossa relação aconteceu exatamente depois e em função do fim do meu namoro.

Quando disse que queria se separar, meu ex-namorado não expôs claramente os seus motivos. Acabou se apoiando em algumas frases-padrão do tipo “não está legal para mim” e “preciso viver outras coisas”. Eu, que sequer percebera que estávamos em crise, continuei alimentando durante algum tempo a esperança de que fosse apenas uma fase, um questionamento típico de alguém que vive um relacionamento longo que começa a se encaminhar para uma vida a dois.

Então, três meses depois, quando a minha melhor amiga veio à minha casa para contar que o ex estava namorando com uma de suas amigas, que ele havia conhecido graças a mim, o choque foi bem grande. Depois da nossa “conversa de despedida”, que já relatei em algum outro post deste blog, voltei para casa incapaz de comer, dormir, ver TV, ler ou fazer qualquer outra coisa que exigisse mais do que simplesmente respirar. Passei algumas horas catatônica na minha cama, esperando um horário minimamente decente para travar contato com qualquer ser humano da face da Terra.

(Foi nessa madrugada que percebi que uma das minhas cachorras estava com o rabo sujo e a coloquei em cima da máquina de lavar roupa para lavá-lo no tanque. Me virei para buscar o sabonete e no próximo segundo ouvi um baque surdo e encontrei a pobre criatura estatelada no chão, de barriga para cima, olhos esbugalhados e língua para fora. O desespero foi tão grande que, em câmera lenta, fiz tudo ao contrário do que manda o figurino dos primeiros-socorros: levantei-a do chão, sacudi, berrei “NÃÃÃÃÃO!!! MIIIMIIIIII!!!!”, balancei, virei de um lado, do outro, levei-a para a sala... Depois de alguns segundo andando em círculos como uma barata tonta, encontrei a caderneta telefônica com o celular da veterinária... O tempo que levei para conseguir encontrar os oito dígitos no aparelho de telefone foi o tempo que a Mimi precisava para começar a se recuperar do estado de choque, abrir os olhos e levantar a cabeça, ainda meio tonta. Depois de seguir as orientações da minha vet, seguir os procedimentos de praxe e constatar que não havia ocorrido nenhum grande dano, desabei a chorar e desabafei em plena madrugada com a Santa Cíntia: “Aa-aaaaaai, Ciiiiiiiii, tô pé-éééssima, bu-áááá!!!!!!!!! Acabei de descobrir que o R. tá namora-aaaando, UÁ-ÁÁÁÁÁ!!! Com uma amiga da minha melhor ami-ii-iiiiga, BU-UUUÁÁ-ÁÁ!!!”. Quem precisar de indicação de uma veterinária que não só zela pela saúde dos seus cães às 4h30 da manhã como ainda tem a humanidade de ouvir o seu desabafo histérico no meio da madrugada, pode mandar um e-mail para
blogmulhersolteira@gmail.com.)

Às 6h30 achei que já era possível encontrar alguns espíritos práticos com bons ouvidos de pé e comecei a telefonar. A primeira pessoa que procurei foi Manélson, mas ela ainda estava com o celular desligado. A segunda cotovia da minha lista era a minha mãe. O telefone tocou quatro vezes e quem acabou me atendendo, contrariando todas as expectativas do universo, foi meu pai. “Oi, filhinha... Tudo bem?” “Ai, pai, mais ou menos... posso falar com a mamãe?” “Claro... Mas será que eu posso te ajudar em alguma coisa, filhinha?”.

Eu já estava tão vazia, dilacerada e anestesiada pela dor que deixei de lado todos os pudores que fizeram com que, durante toda a minha vida, a minha mãe tenha sido a eterna intermediária nas minhas conversas sentimentais com o meu pai. Abri meu coração, expus minhas entranhas, proclamei o fim da minha crença nos homens, no Amor, na Felicidade.

Meu pai me ouviu pacientemente, amorosamente, com um cuidado, um carinho e uma cumplicidade que nunca antes haviam tido espaço para se manifestar entre nós. Disse, com todo o respeito, que sempre aceitara as minhas escolhas amorosas, mas se aborrecia com algumas coisas que minha mãe contava a ele a respeito do meu relacionamento com o R. Sentia-se chateado com atitudes que não lhe pareciam suficientemente amorosas, companheiras, cúmplices.

Quando eu disse ao meu pai que não acreditava que um amor pudesse durar para toda a vida e talvez as pessoas apenas se acostumassem umas às outras, ele iniciou a sua cura socrática: “Você acredita no amor da sua irmã e do seu cunhado? Acredita no amor do seu tio e da sua tia? Acredita no amor que existe entre mim e sua mãe?” Respondi com uma cortante sinceridade, contaminada pelo desolamento que eu sentia naquele momento, que às vezes me perguntava se o que havia entre eles não era o simples resultado do hábito de uma vida partilhada durante mais de três décadas.

Então meu pai me deu a mais bonita lição de vida: “Sabe, Filhinha, existe uma faceta da intimidade de um casal que nem sempre é visível para quem está fora da relação. Talvez por isso você não consiga perceber o quanto eu e sua mãe nos amamos”.

E acrescentou, colocando bálsamos nas minhas feridas: “Sua mãe é a pessoa mais altruísta e generosa que eu conheço. O cuidado e a atenção que ela tem com os seus avós, as suas tias, seus primos, comigo, com vocês, com a minha família, é algo ímpar. Eu sei que não fui um bom pai em boa parte do tempo, mas tenho certeza de que a sua mãe foi a melhor mãe do mundo para vocês. O que nós temos hoje é o resultado de um projeto de vida que nós criamos juntos e você e a sua irmã sem dúvida são a parte mais importante desse projeto. E acho que fomos muito bem-sucedidos”.

É difícil explicar o movimento de ordenação, ajustamento, encaixe, alinhamento que essas palavras provocaram em mim. Se eu algum dia tive alguma dúvida sobre a existência do amor, ela persistiu durante aquelas poucas (mas infinitas) horas entre a minha “descoberta” e a conversa com o meu pai.

A dor ainda durou muitos meses e foi preciso passar por muitos estados de ânimo antes de reencontrar o meu centro, minha identidade, meus desejos, sentimentos e sonhos individuais e a construção de sentido que hoje me acompanha e me faz uma pessoa feliz. Mas aquela conversa com o meu pai não apenas me reconciliou com a minha capacidade de amar como permitiu, finalmente, que eu e meu pai déssemos as mãos e nos tornássemos, para o resto da vida, companheiros de caminhada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Luto e superação

Inspirada pela mensagem de uma leitora, pela leitura de O Passado e uma esbarrada em antigos e-mails na minha caixa postal, voltei para casa mais uma vez pensando no fim do amor, enquanto dirigia no silêncio da madrugada.

Aconteceu de mais de uma amiga que não me via há algum tempo perguntar, recentemente: e então, você superou o R.?

Que pergunta complexa. Que palavra abrangente, “superar”. Durante as férias, enquanto caminhava sozinha pela praia, ou nos longos banhos de mar durante o pôr-do-sol, invadida por um bem-estar e uma sensação de semi-plenitude, senti que finalmente estava pronta para deixar o passado para trás. Se até algum tempo me perguntassem o mais íntimo dos meus desejos, confessaria que era voltar a viver aquele amor. Agora, porém, consigo desejar viver outros amores, experimentar, renovar, acreditar que há ainda muito amor dentro e fora de mim que precisa circular, acontecer.

Mas superar no sentido de esquecer, de apagar, de deixar de sentir falta, doer? Hum, difícil. E era sobre isso que eu pensava, lembrando das palavras da minha interlocutora enquanto narrava o seu lento processo de recuperação pós-separação.

Confessar a impossibilidade de superação completa de um término, quase um ano e meio depois que ele aconteceu, não me parece algo patológico, problemático ou passível de pena. No fundo, a equação é simples. Não acredito que seja exagero nenhum afirmar que o fim de um amor equivale a uma morte. Especialmente quando unilateral, mas mesmo quando se acaba lentamente, aparentemente sem causar maiores danos, como era o caso de Sofia e Rimini.

Uma separação amigável, bem-resolvida, consensual. Mas ainda assim uma morte, com a qual cada um tentava lidar à sua maneira. Rimini estacionou na fase da negação. Pensava no passado como um bloco, assim era mais fácil simplesmente deixá-lo para trás. Separar as fotos do casal, dividir aquela história ao meio, desmembrar as duas vidas lhe era impossível. Sofia, por sua vez, não podia abrir mão de continuar fazendo parte da vida de Rimini, de lhe ser especial, de ter privilégios, de continuar usufruindo da intimidade e do prestígio que o amor lhe conferira. Como diz a contracapa do livro, ela é a enterrada viva na cova desse amor. Não é à toa que o editor da Trip recomendava fugir das leitoras de O Passado. Ele dói do começo ao fim, é a anatomia da incompetência humana em lidar com o luto do amor.

Voltando, portanto, à questão da superação. Se a separação equivale a uma morte, será que a palavra “superar” dá conta de exprimir a real possibilidade de deixar o passado repousar e prosseguir com a vida, apesar da perda? Alguém “supera” a morte de um pai, de uma mãe, de um filho?

Esbarrar em uma mensagem escrita cerca de um mês antes do fim: “Doce, como você está, meu amor? Está melhor? Te amo. Beijos, R.”. Como duvidar da presença, da realidade, da corporeidade, da legitimidade desse amor? Como “superar” essa perda?

A única diferença a nos redimir no luto amoroso é que, diferentemente de um pai, uma mãe, um irmão ou um filho, que são únicos e insubstituíveis, aos humanos foi concedida a inestimável capacidade de amar mais de um parceiro amoroso durante a vida. A quem se apropria verdadeiramente da sua capacidade de amor, muitas são as chances, as oportunidades e os encontros que a vida proporciona.

Donde se conclui, então, que se nos é impossível verdadeiramente nos desapegarmos do que vivemos e de quem amamos de maneira espontânea, a possibilidade de redenção perante a morte não reside em outra coisa senão em amar, seguir amando, mergulhar sem reservas no fluxo do amor até que o passado possa dar lugar ao novo, ao vibrante, ao possível, ao inesperado, enfim, à vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Lado B

Manélson se convida para vir à minha casa comer uma pizza e assistir ao primeiro dia do Big Brother Brasil 8, no seu clássico estilo “que bom que eu liguei”.

O namô de Manélson não entende a graça do programa e ela explica, didaticamente: “vamos passar um tempo juntas, comer pizza e falar mal das pessoas, ora!”.

Amem ou odeiem, eis aqui um farto material para a análise do comportamento humano. “É divertido, ué!”, arremata Manélson, definitiva. E conclui [depois de comer quatro pedaços de pizza]: “acho que não vou comer chocolate de sobremesa... é que eu tô de regime, sabe?”

Pérolas da noite:

“Já sei, vamos esperar todo mundo entrar na casa e aí a gente faz um bolão de quem vai ficar com quem?”

“Putz, essa é mala!”

“Olha, a mala também é ruiva!”

“Será que ela é ruiva natural?”

“Meu, todo mundo vai me encher o saco se essa ruiva começar a causar confusão...”

“Você acha a ruiva bonita?”

“Olha, essa é humilde, vai durar.”

“Nossa, deve ser um saco namorar esse psiquiatra... fica analisando tudo!”

“Eu tô renegando tudo que é meu: os ruivos e os psis”

“Ah, essa é descolada, gostei dela... mas podia ter retocado as luzes antes de entrar na casa!”

“Análise do discurso: se ela disse ‘além do meu corpinho, quero mostrar também o que penso’, leia-se ‘quero mostrar o meu corpinho’.”

“Meu, o Pedro Bial é muito carismático!”

“Nossa, achei esse fio-dental totalmente dispensável...”

“Vou mandar um sms pra Moderninha ficar numa boa!”

“Essa aí deve ser a ‘Chatália!’”

E quem não tem um lado B(BB) que atire a primeira pedra.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Minha vida sem mim

As viagens de férias sempre exerceram esse estranho efeito sobre mim. Nos primeiros dias ainda muito conectada àquilo que havia acabado de deixar para trás, fazendo planos e saboreando a expectativa do que estava por vir. Aos poucos, lentamente, ia me desligando do meu cotidiano, da minha casa, das minhas coisas, como se minha vida nunca houvesse sido outra que não aquela que eu vivia naquele momento, naquele lugar e com aquelas pessoas.

Não era à toa que eu tentava adiar a volta para a casa até o último minuto. Era assim nos acampamentos (eu sempre tentava ficar uma segunda temporada, mas minha mãe só deixou uma vez), foi assim quando fui ao Peru, era assim sempre que ia passar o ano novo em São Gonçalo, com meu primeiro namorado, em Brasília ou Minas com o último. A estratégia da procrastinação, minha velha conhecida, não só se mostrava inócua diante do propósito de afastar tanto quanto possível o retorno como o fazia ainda mais sofrido. Chegando na segunda de manhã e indo direto para o trabalho ou a faculdade, o choque de civilização causava um bode tremendo. Tudo parecia sem sentido, minhas escolhas não pareciam minhas, me sentia sem lugar.

O tempo passou, as férias diminuíram, os bodes também ficaram mais administráveis. Já não é preciso viver tudo até a última gota porque a Era dos Extremos ficou para trás. Volto a São Paulo em plena noite de quarta-feira, ainda com quatro dias de férias pela frente. Apesar do tempo para tomar pé, aquele leve e paradoxalmente familiar estranhamento me toma assim que chego à casa de minha mãe.

Lá faço uma parada de dois dias enquanto espero o mecânico concluir a revisão do meu carro, parado em uma oficina do bairro (curiosamente mais barata do que a do meu bairro). Aproveito para testemunhar o absoluto à vontade das minhas periquitas na “Colônia de Férias da Vovó”. Elas dominaram a casa, estão mimadas, mal-acostumadas, com todas as suas vontades caninas satisfeitas.

Me entupo de TV a cabo nas duas noites em que passo lá. Agora é oficial, definitivo: PRECISO de TV a cabo. Também aproveito para ler a biografia do Tim Maia (biografias casam perfeitamente com férias de janeiro) e tirar longos cochilos no sofá da sala.

Na sexta à noite, possante nos trinques, coloco a turminha no carro e nossa modesta bagagem de cinco malas, me despeço da mama (“ela vai sentir falta das cachorras”, profetiza meu pai) e rumo para o meu apê.

É como se essa breve passagem pela casa da minha mãe, que deixei para trás há quase três anos, me preparasse para o retorno à minha própria casa. Essa casa que só faz sentido pra quem acredita que se bastar – em todos os sentidos – faz parte do caminho natural do ser humano. Uma casa que um dia já foi encarada também como ponto de passagem – e no fundo todas são – e acabou se tornando paragem definitiva. Casa, diga-se de passagem, entendida como entidade metafísica, já que fisicamente ela mudou de lugar há quatro meses.

Chego carregada de malas, lembrando da bagunça que deixei para trás na pressa de viajar. Uma chuva fininha molha o estacionamento descoberto. Carrego as periquitas no colo, menos para evitar que se molhem e mais para tê-las perto de mim no momento da chegada.

Ocupamos o espaço aos poucos, caminhas voltam para os seus lugares, tigelinhas de comida, de água, jornal. Elas logo estão dormindo, capotadas da farra que aprontaram no último dia de férias. Zapeio a TV, tomo um banho e vou para o sofá ler mais um pouco do Tim. Não fosse por esses dois pequenos corpinhos peludos respirando perto de mim, eu estaria me sentindo quase como quando passei minha primeira noite nesse prédio, em janeiro de 2004. O apartamento anterior era branquinho e a rua tão silenciosa que eu me sentia na Lua, distante de tudo e de todos. Uma solidão levemente aterrorizante.

Aqui já é e não é a minha casa. O chão é diferente, a paisagem mudou, os vizinhos de porta também, mas os móveis e os hábitos são os mesmos. O chuveiro mudou para melhor. A disposição para cozinhar, que viveu seus dias de glória durante o namoro, tirou um ano sabático em 2007.

Vou dormir tarde, acordo tarde, ouço o recado de uma amiga no celular. Penso na outra amiga que havia sugerido um cinema e jantar na noite anterior. Penso em levar as dogs para um banho no pet shop. Penso em comprar um presente de aniversário para o meu pai. Mas a inércia me puxa para o sofá e de lá não saio a não ser quase cinco horas depois, com a biografia do “rei do soul” devidamente terminada. Só então tenho disposição para procurar as amigas, mas todas já estão programadas ou fora da área de serviço.

Passo o primeiro sábado do ano como muitos que eu vivi em 2007: em casa e sozinha. Na época em que eu namorava, quando o ex, envolto em crises existenciais, me informava às seis da tarde que queria passar a noite em casa e sozinho, a perspectiva de um sábado como esse me parecia sombria. A maior parte das amigas se solidarizava, mas uma delas, mais velha e mais sábia do que as outras, me deu o chacoalhão: “desde quando o coração sabe o dia da semana?”.

Hoje os meus sábados solitários já não assustam nem doem. Aos poucos a minha vida vai se tornando minha, escolhida, apropriada, assumida, vestida, agarrada. Faço compras sem pressa no mercadinho do bairro. Passo na locadora e alugo três filmes, para me dar a liberdade de escolher entre o existencial, o de humor fino ou o sentimentalóide. Já em casa, cozinho amorosamente uma refeição para mim mesma. Nada de mais: arroz, bife e salada. Mas como com gosto, feliz enquanto vejo a novela das oito.

Antes de me preparar para a sessão de cinema, escrevo o primeiro post de 2008 com uma periquita dormindo refestelada na caminha que ganhou da vovó e outra pertinho dos meus pés, e penso: esse vai ser um ano danado de bom.