domingo, 25 de maio de 2008

Vida bandida

Você pensa que nunca vai acontecer com você (e torce para isso também), o que é bom, já que sofrer por antecipação faz mal para o fígado e não prepara ninguém para a experiência real. Mas, eventualmente, pode acabar acontecendo. Em um feriado qualquer, você está sentado tranqüilamente com um casal de amigos na mesa de um simpático restaurante do seu bairro, aguardando o seu jantar enquanto joga conversa fora, e vê um homem se aproximando da sua cadeira e dizendo algo parecido com “bolsa”, “celular”. Sem entender o que ele diz, você se vira e pergunta “como?” e então ele levanta a blusa e mostra o revólver empunhado para não deixar nenhuma dúvida: “a bolsa, o celular, rápido”. Ainda tentando juntar as sensações com os pensamentos, você abre a bolsa em busca do celular, mas ele interrompe: “dá a bolsa inteira, rápido!”. Você entrega a bolsa e passa a ver tudo em câmera lenta, imaginando se o resto do restaurante vai se dar conta do que está acontecendo. Mas em dois segundos percebe que há mais dois homens igualmente armados que já renderam as mesas de dentro e também o caixa do restaurante. Eles não falam alto, evitam levantar o revólver, mas é difícil prever se o final da história já está perto ou longe e qual vai ser o desfecho. Uma cliente desavisada atravessa a rua em direção ao restaurante rendido. Uma mulher sentada na mesa ao seu lado tenta alertá-la: “vai embora, vai embora”. A mulher não dá ouvidos e rapidamente é abordada por um dos bandidos: “passa a bolsa”. Ela reage com indignação, “não vou dar!”, e quase é possível ouvir todos dentro do restaurante prendendo a respiração ao mesmo tempo. Dois revólveres apontados em direção à mulher fazem com que ela mude de idéia. Pronto, mais algumas bolsas e celulares (inclusive o do seu amigo, mas felizmente a carteira dele e a bolsa da sua amiga ficam intactas), eles mandam todos para a área interna do restaurante e dão o fora.

Ainda sem reação por alguns instantes. As crianças choram. Os garçons continuam circulando e levando os pratos às mesas, sem saber muito bem qual é o protocolo para situações com essa. A proprietária do restaurante convida os clientes a se sentarem e terminarem a sua refeição, afirmando que isso “jamais aconteceu antes”. Mas o apetite se foi. E ainda há muito a fazer: cancelar cheques, cartão do banco, bloquear celular. Quanto mais rápido, melhor. E, sem celular, só é possível fazer isso do telefone de casa.

Mas e a chave do carro? Estava na bolsa. Bom, você tem outra em casa. Mas e a chave de casa? Também na bolsa... Ah, que sorte você ter deixado uma cópia na portaria do prédio para a faxineira. Os seus amigos te dão uma carona para casa e sobem para te fazer companhia enquanto você inicia a operação-bloqueio. Depois vão te levar de novo até o seu carro para que você possa trazê-lo para casa.

Começa a epopéia dos assaltados. Vinte minutos andando em círculos pelo menu da Claro, que pede que você aguarde para falar com a operadora para em seguida repetir todas as opções do menu ad nauseum. Melhor tentar o Itaú. Primeiro você consegue navegar pelo menu eletrônico até a opção “bloquear cartão”. A gravação informa: “para bloquear o seu cartão SEM emissão de um novo cartão, digite 3. Para bloquear o cartão COM emissão de um novo cartão, digite 4”. Bem, você precisa de um novo cartão, o mais rapidamente possível. Após apertar o 4, a gravação alerta: “atenção! A emissão de um novo cartão está sujeita a cobrança de tarifa! Confirma a operação?” Já que nenhum ser humano se oferece para trocar uma idéia com você, o jeito é confirmar e pelo menos ter a tranqüilidade de que o seu cartão não será usado pelos bandidos.

Como você não consegue bloquear os cheques pelo menu eletrônico, desliga o telefone e liga novamente, digitando inúmeras teclas até ouvir a voz de um operador. Isso leva mais alguns minutos. Ao ser atendida pelo Rafael, começa a dizer “boa noite, por gentileza, eu fui assaltada...” mas rapidamente é interrompida com “Um minuto, por favor” e retorna ao menu eletrônico. Respira fundo, põe o fone no gancho e reinicia a operação. Dessa vez quem te atende é o Moisés. Você explica tudo o que aconteceu: “fui assaltada, levaram a minha bolsa, tudo dentro, inclusive cartão de débito e cheques, acho que já consegui bloquear o cartão, mas não os cheques...”. Você espera algum tipo de empatia, de humanidade, mas o atendente dispara, tal qual um menu eletrônico: “nome completo? Endereço? Diga APENAS o dia de seu nascimento. Nome completo de sua mãe? Nome completo de seu pai? Seu CPF? Seu nome completo novamente?” e depois de responder a todas essas perguntas, você ainda ouve atônita, pela terceira vez: “com quem eu falo?”. Exausta, você implora que ele bloqueie os seus cheques. Ele pergunta se são apenas algumas folhas ou o talão inteiro. Você explica que foi o talão inteiro, mas algumas folhas já haviam sido usadas por você. Ele diz: “então o motivo do bloqueio é oposição ao pagamento?”. “Não, meu senhor. O motivo do bloqueio é ASSALTO A MÃO ARMADA”. Suspirando profundamente, o atendente insiste: “minha senhora, existem duas formas de bloqueio: o bloqueio por oposição ao pagamento é para as folhas que já foram assinadas. O outro bloqueio é para as folhas ainda não utilizadas. Qual bloqueio a senhora deseja solicitar?”. “Meu senhor: eu fui assaltada. Algumas folhas já haviam sido utilizadas, outras estavam em branco. Cabe ao senhor me dizer qual é a categoria de bloqueio que se encaixa nessa situação.”. “Nesse caso, senhora, faremos o bloqueio por oposição ao pagamento, mas a senhora deve comparecer na agência bancária em até dois dias úteis para confirmá-lo, caso contrário o talão será automaticamente desbloqueado. Quanto ao seu cartão, consta que ele já foi bloqueado!” “Sim, eu disse ao senhor no início da ligação que já havia bloqueado o cartão pelo menu eletrônico...”. “Bem, a senhora está ciente de que a opção ‘bloqueio com emissão de novo cartão’ está sujeita a cobrança de tarifa?”. “Mesmo em caso de ASSALTO?”. “Bem, se a senhora quiser posso cancelar o pedido de emissão de um novo cartão e na segunda-feira a senhora vai até a agência e conversa com sua gerente...” “Não, não, eu pago a tarifa.”. Mais um assalto, dessa vez institucional.

É a vez da Claro novamente. Você consegue navegar pelo menu eletrônico até a opção “bloqueio de celular por perda ou furto”. Uma gravação informa: “ao abrir o seu chamado, você receberá um número de protocolo. Para que o seu bloqueio seja confirmado, deve enviar o número do protocolo via torpedo para a Anatel em até 24 horas”. Tá bom, mas como mandar torpedo se o seu celular foi ROUBADO??? Você explica a situação para o simpático atendente, que aparentemente percebe o absurdo da solicitação. Passa o telefone para o seu amigo, que também precisa bloquear o celular dele. Por fim, o seu amigo informa que para habilitar o seu número em um novo aparelho, será preciso apresentar um boletim de ocorrência – mas é possível fazê-lo pela internet, segundo o atendente da Claro.

Antes de dormir, você entra na delegacia virtual e, obedecendo às instruções do menu, abre dois boletins de ocorrência: um apenas para os documentos, outro para o celular. No dia seguinte, vem a resposta por e-mail: os dois boletins foram negados. Motivo da negação do segundo: a ocorrência já havia sido relatada pelo primeiro. Motivo da negação do primeiro: a delegacia só permite o registro de ocorrência de furto. Em caso de roubo, você deve se dirigir à delegacia mais próxima portando cópia do e-mail com a recusa dos boletins eletrônicos.

Como não tem impressora em casa, você ignora a ordem do e-mail, pede cinqüenta reais emprestados para a vizinha só para não ficar inteiramente desprevenida (sem cartão e sem cheque, nada de dinheiro, e o pouco que você tinha também estava na carteira) e se dirige à delegacia da Lapa.

Na recepção, explica ao oficial de plantão: “por favor, preciso fazer um boletim de ocorrência”. “O que aconteceu?”. Bem, você não imagina que vá contar toda a ocorrência de pé na mesa da recepção, então apenas indica: “assalto”. Como se você fosse surda ou burra, o oficial repete: “O que aconteceu?”. Pacientemente, você começa a narrar: “eu estava em um restaurante ontem à noite e fui abordada por um homem armado...” O oficial interrompe: “na Aimberê?” Diante da afirmativa, ele explica, cortês: “veja, este boletim de ocorrência já foi aberto na 23ª DP... A senhora pode abrir outro aqui, mas o IDEAL é que seja incluída no boletim que já foi feito lá”. Bem, que azar, mas de fato se o melhor a fazer é isso, você se dirige à outra delegacia.

Chega junto com dois dos três policiais de plantão, carregados de sacolas de lanchonete e copos de plástico. “Pois não?” “Parece que já abriram aqui um boletim de ocorrência sobre um assalto que ocorreu ontem em um restaurante na Aimberê...”. “Pode se sentar”. O policial se dirige até a televisão, muda de canal para sintonizar no jogo que está começando e some no interior da delegacia, seguido do outro que carregava as sacolas. Alguns minutos depois, o terceiro, que mexia no computador, também se dirige aos fundos da delegacia. Sozinha na enorme sala de espera da delegacia, você fica na companhia do Hino Nacional, pensando na sua “terra adorada”, no seu “povo heróico” na “clava forte da justiça”... O relógio marca a passagem do tempo: um minuto, dois, cinco, dez. O último policial, o mais bem-vestido, volta ao seu computador e continua o seu trabalho de digitação. O segundo se senta na cadeira em frente a ele. O terceiro, entre um arroto e outro do seu guaraná gelado, senta na sua cadeira e gasta mais alguns minutos assistindo ao jogo e fazendo comentários amigáveis para os seus colegas.

Imersa em pensamentos, você ouve o policial te chamar, mas ainda duvida de que finalmente tenha chegado o momento de ser atendida. Para não deixar dúvidas, ele bate palmas. Você se dirige até a mesa dele e informa quais foram os documentos roubados, enquanto ele digita lentamente os dados no computador e acompanha mais alguns lances do jogo de futebol. Em meio àquele deserto emocional, o outro policial finalmente se dirige a você e pergunta: “quantas pessoas estavam no restaurante?” “Ah, estava cheio... umas quarenta”. “Vixe... então vai longe essa história. Hoje passamos o dia atendendo esses casos. Se não fosse por isso, tava light...” O outro emenda: “bom, mas alguns devem ir até a delegacia da Lapa...” Esclareço: “eu fui até lá, mas eles me orientaram a vir aqui porque o boletim já tinha sido aberto”. Os três trocam olhares e um resmunga: “brincadeira, viu...”. Eu pergunto: “não precisava vir até aqui?” “Não, minha filha... boletim de ocorrência você pode abrir em qualquer delegacia. O que acontece é que um sempre chuta pro outro, pra falar português claro...”. “E vocês descobriram alguma coisa?”. O policial, sem tirar os olhos da tela do computador, estala a língua e resmunga: “esquece!”. Imprime o BO em três vias, você avisa que ele digitou o número da sua agência bancária errado mas ele afirma que não tem problema, não há necessidade de consertar.

Próxima parada: a loja da Claro, a única coisa que você consegue adiantar ainda durante o final de semana. Sendo cliente há dez anos e tendo adquirido o seu último celular (também por conta de um assalto) em setembro de 2006, você supõe que tenha alguma chance de conseguir um novo aparelho com a apresentação do BO. Ao pegar a senha na porta da loja, o atendente explica: “Se a senhora quiser pode ligar para a nossa Central e tentar negociar um aparelho...”. “Mas não posso fazer isso aqui mesmo na loja?” “Bom, poder pode, mas a senhora conseguiria condições melhores se negociasse com a nossa Central”. “Bom, como MEU CELULAR FOI ROUBADO, não tenho como ligar para a Central. E como já estou aqui, vou tentar negociar com a vendedora mesmo, obrigada.”

Cinqüenta minutos depois, o seu número é chamado. Você explica a situação para a vendedora, mostra o boletim de ocorrência. Ela confirma que você tem direito a um aparelho, afinal não está mais na carência, pode tirar por um real, dez reais ou até gratuitamente dependendo do modelo. Traz as opções, você escolhe e então ela pede: “preciso do seu RG e CPF originais”. Com um suspiro e o resto da sua paciência, você explica: “Então, justamente... como eu vinha te dizendo, fui assaltada e levaram toda a minha bolsa. Minha carteira, meu RG, CPF, carteira de motorista, título de eleitor, cartão do banco, talão de cheques, tudo. Inclusive, é por isso que preciso de um novo celular.” “Ah, mas a senhora não foi ao Poupatempo?” “O Poupatempo não está funcionando hoje, fui assaltada ontem às dez da noite”. “Bem, vou verificar com a gerente...”. “Olha, tenho aqui um xerox do meu RG e o documento do meu carro... isso foi tudo o que deu para salvar”. Alguns minutos depois: “infelizmente não vai ser possível... só mesmo com o original do CPF e do RG. Mas eu posso anotar num papel o número do modelo para a senhora e...” “Não se incomode, a sua anotação não vai evitar a minha dor de cabeça de ficar sem comunicação até segunda-feira e nem pegar outros cinqüenta minutos de fila para ser atendida novamente por você após ter passado o dia no Poupatempo”.

Já que não há o que fazer até a segunda-feira chegar, o jeito é pegar uma carona e ir até a casa de uma amiga para arejar a cabeça e relaxar. Mas não sem antes, no caminho, ter o carro abordado no sinal e ouvir: “cinco reais para eu não puxar o revólver...”. Que mundo cão. De um lado, os bandidos, pra quem a sua vida não tem absolutamente nenhum valor. Do outro, a lógica do mercado, eficientíssimo na hora de vender, lentíssimo na hora de resolver o seu problema; máquinas no lugar de pessoas, indiferença no lugar de humanidade. Do outro, a polícia, para quem a sua vida vale ainda menos...

Fica o gosto amargo na boca. Como diria José Simão: “hoje, só amanhã...”. Pátria amada, Brasil.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O último sonho

Estamos no seu consultório, eu sentada em minha cadeira e você na sua, que é um trono e fica em uma espécie de mezanino, bem acima do chão.

Eu: Primeiro eu queria te perguntar: você tem se sentido confortável aí no seu trono?

Você desce do mezanino e se senta na beira da minha cama.

Você: Uma pessoa me disse que eu tenho muita dificuldade de me expressar. Achei que o trono podia ajudar...
Eu: E você ficar mais desconfortável, né? Bom, vamos lá: fiz a minha lição de casa.
Você: Você sempre faz a sua lição de casa!
Eu: Sim, mas é justamente sobre isso que eu quero falar... Estou lendo o Freud e gostando muito.
Você: E o que você está achando do Freud?
Eu: Já li quatro textos: o caso Elisabeth (você fica espantada), Uma breve descrição da psicanálise, Seis lições elementares e agora estou lendo Sobre os Sonhos.

Você se deita na cama, apoiando a cabeça sobre o braço, como se fosse uma amiga.

Você: Cristina... Cristina...

Percebo que dormi. Estou coberta. Lembro do que você me disse uma vez, quando eu comentei em uma sessão que estava como sono, vontade de deitar e dormir: “Dormir na frente de alguém é sinal de muita confiança!”.

Eu: Mas até onde eu consegui contar para você?

Encontramos minha mãe, que fala alguma coisa sobre o Charcot.

Você: E o que você acha do Charcot?
Eu: Só vi o Charcot como apoio para o Freud. Meu curso é 100% orientado para o Freud. Mas minha mãe ficou tão encantada com o Charcot que achou que o Freud é que é apoio para ele.

Enquanto falamos, estou vendo um mostruário de bijuterias. Pego na mão um par de alianças de compromisso. Fico com medo de acharem na loja que estou roubando o anel que já estava comigo. Devolvo as alianças ao mostruário.

Estamos em uma sala de espera, eu você e mais uma pessoa. Estamos vendo TV. Minha mãe está sentada na cama dela, mexendo em sua agenda. Estou de pijama. Minha irmã entra na sala com um rapaz muito magro, ela também de pijama.

Por fim, você entra no quarto da minha mãe e vocês abrem a agenda e combinam um horário para um compromisso. Penso que preciso pagá-la, lembro que estou de pijama e fico me perguntando onde está o dinheiro.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Piada interna

Roupa? Jóia? Livro?

Que nada. Arranjei um presente muito mais supimpa de Dia das Mães: uma profissão bem simplinha, que ela consegue comunicar em apenas uma palavra, e um emprego que ela vai poder resumir em uma frase. Curta.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Ciclotimia


Cheio vazio cheio vazio cheio vazio madrugada e-mail móveis desejo dia de sol preguiça fotografia dor de cabeça cama fria escrita solidão homeopatia presente do bebê amiga sumiço pão caseiro divã boas novas comentários colação de grau saudade aquele livro novo é ótimo ausente correio sono msn sem gasolina no meio da rua mais dinheiro mais trabalho menos dinheiro mais trabalho sem trabalho sem tempo será que vou te conhecer tédio macarrão esperança língua portuguesa máscara internet acabou o jornal lembranças filme dublado contas depressão lâmpada queimada passado dedetização trabalho novo cadê você música sexo postura de equilíbrio trânsito um novo amigo cadê a bolinha notícia ruim euforia blog professora do colégio silêncio princípio do prazer distância promoção futuro leveza sapato furado espanhol medo cama nova luzes o sonho é a via régia para o inconsciente insônia minha planta cresce novela das oito cães sms festa de aniversário idéias vazio cheio vazio cheio vazio.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

13 de maio

Era um sábado frio, como o dia de hoje. 13 de maio. Não fosse a minha “memória ridícula”, como você carinhosamente costumava dizer, talvez a data estivesse gravada do mesmo jeito, pela ironia do seu simbolismo. Quatro anos antes, quando pela primeira vez você sentiu a sua liberdade ameaçada pela minha presença na sua vida, foi no mesmo 13 de maio que tentou partir de mim.

Diferente daquela primeira vez, essa nossa conversa durou menos de 15 minutos. Você foi direto ao ponto e, mesmo engasgada de susto (não era a nossa “melhor fase”?), tantas vezes já vivera essa cena na minha cabeça que foi mais fácil te deixar ir. Sem emoções ou energia, quis tratar de questões práticas: “quem vai ficar com a Mimi?”. Você achou que não era hora, queria pedir desculpas. Eu não queria ouvir desculpas, então pedi pra você ir embora.

Tudo o que aconteceu nas quarenta-e-oito-horas-seguintes faz parte de um quadro semi-abstrato na minha lembrança. O tempo chutou pedrinhas pela rua enquanto eu tentava juntar algumas partes de mim. Na segunda-feira, São Paulo parou; às quatro da tarde não se via mais viv’alma. Temi por você, sozinho, talvez distraído das notícias. Liguei, pedi para ficar em casa. O hábito de cuidar de você, a intimidade já não era mais minha. E todos pareciam silenciosamente se unir à minha dor: a guerra era fora e dentro de mim.

Não sei bem quando foi que o amor acabou (alguém sabe?). Nem você sabia. Às vezes achava que fazia tempo; outras, que ainda não tinha acabado. Mas, naquele sábado, alguma coisa que meus olhos tinham visto e a cabeça ainda não tinha percebido, o meu coração já sabia.

Dizem que leva metade do tempo que se passou junto. Se assim fosse, hoje eu finalmente me livraria de você. Mas não é. Você está em mim como eu estou em você, mesmo que a vida não seja mais a mesma. Já não dói, mas esquecer é impossível.

domingo, 11 de maio de 2008

Sereia

Ela me conta que nasci com uma icterícia muito forte e, por isso, ela teve alta antes de mim. Os primeiros dias de vida passei no hospital, tomando banho de luz, de olhos tapados, berrando a plenos pulmões, “sem nenhum paninho pra me confortar”. Na hora de mamar, era entrar no quentinho do colo dela e logo dormia. Por isso a minha primeira história de ninar foi a da mamãe gata e do gatinho no hospital. O gatinho miava, miava, miava, mas a mamãe gato aparecia e dizia: “a mamãe não foi embora, a mamãe está aqui e nunca vai te abandonar”.

Com cinco ou seis anos, desenhei uma menina com os cabelos cheios de laçarotes, mas sem os braços. Ela me mandou para um psicodiagnóstico. “Fique tranqüila, está tudo bem com ela”, foi o parecer da psicóloga. Mesmo confiando no veredicto, resolveu criar a “História da Velhinha Banguela”, livro infantil escrito e ilustrado por ela, em que a “Menina Sem-Braço” (esta que vos fala), o “Joãozinho Sem-Perna” (papi), a “Menina Sem-Orelha” (minha sis) e a “Velhinha Banguela” (uma mistura das duas herdeiras reais, que se recusavam a tomar sopa com pedaços: tudo tinha que ser bem batidinho no liquidificador e peneirado pra não ficar um fiapinho ou bolotinha) viviam numa casa administrada pela zelosa Polva (síntese da própria e da nossa babá), que “lavava, passava, cozinhava, encerava, ava, ava, ava” e, ao fim do dia, mal tinha forçar para assistir à novela das oito. Foi o seu jeito de mostrar pra gente que todo mundo tinha sua contribuição a dar...

Sempre alimentou a nossa imaginação com histórias fantásticas e, ao longo dos anos, se especializou em “aumentar um ponto” em cada conto que contava. Não é por mal, simplesmente não consegue refrear a sua criatividade. A surdez foi piorando com os anos e com isso o sinal de recepção ficou ainda mais sujeito a captar as informações de um jeito que é “só dela”. Foi assim que criei a expressão “randomicamente avoada”: ora a mais atenta dos ouvintes, ora a mais distraída dos mortais. A piada favorita do meu pai é pedir para a minha mãe explicar a alguém o que eu faço no trabalho (vamos dizer que não é muito fácil de contar, menos ainda de lembrar, mas ela consegue criar a cada relato uma versão mais interessante).

Pela sua total incapacidade de se lembrar do nome dos médicos e a sua total indiferença em gastar qualquer energia mental com algo que ela considera supérfluo, convencionou se referir a todos eles como “Dr. Coisorino”. Mas não se deixem enganar por essa pinta de mãe-bicho-grilo: me ensinou direitinho a passar protetor solar, evitar frituras e carregar sempre um guarda-chuva na bolsa. Com dez anos, me mandou fazer um curso de datilografia. Buzinava no meu ouvido: “tem que ler jornaaal!” e até hoje paga pra mim uma assinatura de revista semanal, com medo de eu ficar muito desconectada do mundo e da realidade. Também não deixa de me ligar pra anunciar a previsão do tempo quando sabe que vem vindo uma frente fria ou chuva forte. Quando eu ainda morava com ela, mais ou menos uma vez por mês tentava driblar a minha tendência natural à bagunça deixando um post-it na porta do meu quarto: “por favor, me arrume!”. Fechava a porta do meu banheiro pra eu perceber que por lá “parecia ter passado um filhote de São Bernardo”. Quando fui morar sozinha, me deu uma carta com instruções sobre como cozinhar feijão e algumas dicas de sobrevivência: “abriu, fechou; sujou, limpou; usou, guardou”. Infelizmente essa batalha ela não venceu, mas acabou por aceitar a minha bagunça (desde que bem longe dos olhos dela).

Sempre foi uma esteta. Não consegue olhar para um prato de frutas sem dizer: “que coisa maravilhosa! Parece um Cézanne!”. Na minha adolescência de contestação, eu a provocava dizendo: “estética, estética, estética!”. Não me conformei quando, na minha primeira ida ao Teatro Municipal, ela proibiu a minha calça jeans e me obrigou a usar uma saia. Aliás, ainda um cotoco de gente, quando voltava da escola coberta dos pés à cabeça com cola, areia e tinta guache, ela dizia: “Cris, você está limpérrima!!!” e eu revidava, ofendida: “não gosto que falem assim comigo!”. Minha adolescência chegou cedo... E dá-lhe jogo de cintura para lidar com o meu famoso “emburramento”, aquele que me fazia passar horas sem falar, sem interagir, sem reagir cada vez que eu me sentia contrariada. Ela morre de rir até hoje ao lembrar do rosto grave da professora de flauta, quando a chamou para conversar sobre esses meus “episódios”: “há alguma coisa errada com a Cristina...”.

Sempre se preocupou com a minha excessiva sensibilidade e me via no enredo mitológico da “Princesa e a Ervilha”, aquela que dormiu uma noite sobre vinte colchões, vinte lençóis, vinte cobertores, vinte travesseiros e ainda assim conseguiu sentir a pequena ervilha crua colocada pela rainha no estrado da cama (esse era um teste para detectar se a forasteira que batera no meio da madrugada no portão do castelo era mesmo uma “verdadeira princesa”). Quando criança eu era especialmente seletiva com relação a roupas (nada de babados, lacinhos, bolinhas, fitinhas, mangas bufantes, elásticos, detalhes “cheguei”) sapatos (não podiam apertar, nem ter lacinho, nem botão, nem fitinha e invariavelmente começavam a machucar o meu pé dois minutos depois que ela assinava o cheque na loja), comida (não gostava de salada, nem de legumes, nem de frutos do mar, nem de rabada, nem de língua, nem de fígado, nem de frutas, nem de bichinhos fofinhos) entre outros. Assim, ela criou em nossa fantasia a cadeia de lojas infantis “Para Meninas Enjoadas”, aquela que atenderia a todas as minhas intermináveis exigências e tornaria a vida dela um pouco menos complicada.

Vibrava junto comigo com as músicas do Balão Mágico. As suas preferidas são “É tão lindo” e “Tia Josefina”: adora cantar sobre os “bigodes de foca, nariz de tamanduá e orelhas de camelo” e sobre a tia que “dizem que é lelé da cuca, mas [..] é gente fina e companheira, bota a camisola e uma peruca, faz um baita chuca-chuca e toma mamadeira”. Aliás, em seu imaginário sempre habitaram os desenhos animados e as histórias em quadrinhos. Adora o desenho do Pica-pau barbeiro, deslizando perigosamente a lâmina sobre o rosto de Leôncio enquanto trina, esganiçado: “Fíííígaroooo!”. Quando me via em longas conversas no telefone sem-fio, dando voltas e voltas em torno do sofá, dizia que eu estava na “sala de preocupações do tio Patinhas”. Também morre de rir com o alter-ego de Luluzinha, a “Pobre menininha”. Despertador? Que nada. Quem me acordava de manhã eram as “pulgas sapateadoras”, que faziam hábeis coreografias no meu couro cabeludo até que eu conseguisse abrir os olhos e começar o dia. No auge da sua chocolatria, concebeu em sua imaginação um container caseiro que liberasse apenas um “chocolate Charge” por dia. Depois, capitulou: já podia se imaginar descontrolada, dando chutes de pijama na tal máquina às quatro da manhã.

Quando éramos crianças, ela abriu uma conta na Livraria Horizonte para comprarmos os livros que quiséssemos, a qualquer hora. É lógico que essa regalia não durou muito, pois o prejuízo foi grande. Mas ela continua sendo a minha maior fornecedora de livros. Quase sempre me esqueço de devolver e ela reclama: “os livros vão, mas nunca voltam...”, mas continua me emprestando. Não conheço ninguém que tenha uma sede de conhecimento maior do que ela. Lê jornal, revista, bula de remédio, qualquer coisa que cair na sua mão. Se interessa por física quântica, a história da Inglaterra, neurociência, Calvin e Haroldo, Doris Lessing, Guimarães Rosa, Amós Oz, García Márquez, literatura japonesa, israelense, americana, italiana, francesa, russa... Ao mesmo tempo, não tem o menor compromisso com a erudição. Escolhe muito bem o que merece ser absorvido e o que pode ser “deletado”. A soberba definitivamente não é um dos seus defeitos e o seu maravilhamento com relação à vida é inesgotável.

Essa é minha Mãe Sereia, minha referência e porto seguro. Foi o seu olhar amoroso, atento, respeitoso, generoso e compreensivo que primeiro me fez quem sou. Esse amor tão grande e ao mesmo tempo tão singelo que ela conseguiu resumir em uma canção de ninar feita para mim há tantos anos:

“Meu amor, meu amor
Eu gosto tanto de você
Eu vou ficar no seu pertinho
Meu amor, meu amor”

sábado, 10 de maio de 2008

O bom selvagem

Onde foi parar a paixão? Aquela dos olhos brilhantes, da boca seca e do coração acelerado? Será que ficou para trás, enterrada no passado junto com os nossos 18 anos?

Queria saber quando foi que nos tornamos todos tão comedidos, medrosos, arredios, secos, distantes, impenetráveis, indiferentes.

Será que as desilusões da vida nos embotaram? Será que perdemos a capacidade de simplesmente nos encantar com o outro? Será que perdemos a coragem de nos expor, de nos entregar?

Hoje todos os movimentos parecem meticulosamente calculados. Não há mais espontaneidade. Há sempre o cuidado para não assustar o outro, para não demonstrar demais. Ninguém se permite colocar em uma situação de vulnerabilidade.

Antigamente, a paixão nos dominava. Perdíamos a fome, o sono, não conseguíamos nos concentrar na escola, no trabalho. Éramos tomados de corpo inteiro, doentes, febris, como se fosse um caso de vida ou morte.

Dizíamos que a paixão era cega. A excitação crescia de forma mística, guiada pelas nossas fantasias. Entregávamo-nos às sensações: o leve arrepiar da pele ao toque, o frio-calor de bocas, línguas e salivas, o leve suor nas axilas, o rubor nas faces. Cheiro, gosto, toque, sussurro no pé do ouvido, olhos famintos.

Hoje andamos muito bem aparelhados com nossas lupas, buscando no outro as mais insignificantes imperfeições, cotejando-o com o nosso script, analisando os prós e os contras, apalpando e pondo de lado como uma fruta madura demais. Adiando eternamente o momento da verdadeira entrega, deixando-nos esmagar pelo tédio, pela falta de humor, pelo cinismo, pela monotonia.

Quando é que nos tornamos assim inatingíveis? Quando foi que penetrar a intimidade de alguém se tornou esse processo kafkaniano, repleto de pré-requisitos, guichês, carimbos, segundas-vias?

Pra onde foi o “tempo da delicadeza”? Sucumbiu ao “lirismo comedido, funcionário-público”? Onde estão as nossas “cartas de amor ridículas”?

Se isso é ser civilizado, saudável, bem-ajustado, sensato e ponderado, quero mais é voltar a ser selvagem.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Sobre a traição

Há muito tempo tenho vontade de escrever alguma coisa a respeito da traição, mas minha volta à vida solteira provocou de tal forma um processo de suspensão de todas as minhas verdades que passei a achar que certas perguntas não merecem ser respondidas hipoteticamente. Há questões que só podem ser inteiramente avaliadas e ponderadas quando vividas. Então, falar sobre traição, em última instância, implica estar em uma relação.

Mas Manélson me mandou um e-mail que eu considerei tão desaforado (o desaforo não foi de Manélson, é claro, ela só estava partilhando o tal manifesto com as amigas) que achei que estava na hora de colocar a minha voz no mundo sobre o assunto. Meus pais sempre acharam que eu devia ter feito Direito (mais uma pulga atrás da minha orelha vocacional). Ô vontade de argumentar que não acaba nunca... Enfim, senti vontade de organizar alguns pensamentos dispersos sobre o tema e achei que o texto oferecia vários ganchos para isso.

O tal texto é supostamente assinado pelo Arnaldo Jabor, mas nem vou levar isso em consideração, primeiro porque a quantidade de textos que circula pela internet e cuja autoria declarada é absolutamente fajuta é espantosa; segundo porque não pretendo fazer dessa reflexão um ataque pessoal ao autor (suposto ou real) desse texto, até porque tenho certeza de que ele representa a opinião de muitos homens e mulheres sobre o assunto.

Pra começo de conversa, é bom dizer que o texto se propõe a “ajudar as mulheres a entenderem os homens e, enfim, pararem de tentar nos mudar com métodos ineficazes” (parece que já li isso em algum lugar...).

Esse poderia ser mesmo um serviço de utilidade pública, já que os homens reais que queremos entender dificilmente se dispõem a esclarecer as nossas eternas – e mais do que justificadas – dúvidas. Além disso, dizer que tentamos mudá-los com métodos ineficazes leva a entender que há métodos eficazes para tentar modificá-los. Seria um começo bem promissor.

Infelizmente, na seqüência, e, sem fazer uso de meias-palavras, o autor desce o porrete: “não existe homem fiel” e “isso se aplica a 99,9% dos homens baianos e brasileiros”. Em seguida, diz que “a traição do homem é hormonal, efêmera. [...] Não é como a da mulher. Mulher tem que admirar para trair; ter algum envolvimento”.

Péra lá, minha gente. Se a situação realmente fosse essa, eu perderia completamente a minha fé no sexo oposto. Não vamos tapar o Sol com a peneira: todos nós estamos sujeitos a trair e a ser traídos em algum momento da vida (e vocês estão ouvindo isso da boca de alguém que nunca traiu e, verdade seja dita, nunca teve vontade de trair). Daí a defender que essa afirmação hipotética, condicional é uma verdade absoluta, há uma enorme distância. Também pode ser que a traição tenha se tornado algo banal, generalizado. Mas não concordo em torná-la um atributo essencialmente masculino e nem em aplicá-lo indiscriminadamente a todo esse contingente populacional.

Outra coisa que não pode ser afirmada de modo algum é que a traição masculina é “hormonal, efêmera” e a da mulher requer “admiração e envolvimento”. Eu não disponho de tantos recursos estatísticos para afirmar a porcentagem de homens e mulheres que se encaixam em cada categoria, mas me parece óbvio que um homem pode primeiro admirar e depois trair e se envolver e uma mulher pode ceder a uma tentação carnal, efêmera sem qualquer envolvimento. Isso, para mim, é um machismo às avessas. Os homens ainda não estão convencidos de que as mulheres também sentem desejo sexual por outros homens e podem, sim, trair sem um bom motivo que não seja o puro tesão. Não é orgulho para ninguém, mas também não dá pra fingir que não aconteça.

A próxima afirmação que merece destaque é que “a traição tem seu lado positivo. Até digo, é um mal necessário. O cara que fica [...] sem trair é infeliz no casamento, seu desempenho sexual diminui [...], ele fica mal da cabeça. Entenda de uma vez por todas: homens e mulheres são diferentes. Se quiser alguém que pense como você, vire lésbica [...] ou case com um viado enrustido que precisa de uma mulher para se enquadrar no modelo social”.

Me parece óbvio que o autor do texto quis usar o humor para defender o seu ponto de vista, mas confesso que não me diverti nem um pouco com esse parágrafo. Mais uma vez, é verdade que há casais que conseguem viver bem em um esquema de relacionamento aberto e se beneficiar do fato de terem experiências sexuais com outros parceiros. É verdade, também, que outros casais que não têm esse tipo de pacto já conseguiram superar uma dolorosa experiência de traição e usá-la em favor do relacionamento, tornando-o mais autêntico, assumindo-se como pessoas imperfeitas, abrindo-se para a imprevisibilidade da vida. É verdade, ainda, que há casais em que um trai sistematicamente e o outro é traído e, uma vez que a traição não é descoberta, isso não afeta o casamento. Todas essas afirmações são verdadeiras. Daí a afirmar que o homem que não trai é infeliz no casamento e seu desempenho sexual diminui é o fim da picada... É tentar usar os fins (infundados) para justificar os meios (torpes). Se o homem é infeliz no casamento ou não se sente satisfeito com a sua parceira sexual tem mais é que se separar. E “entendam de uma vez por todas”: ninguém “vira lésbica”. E ninguém é lésbica porque quer ter ao seu lado “alguém que pense como você”. Supor que não exista traição em relacionamentos lésbicos e que todos os motivos de tensão existentes em uma relação hétero sejam automaticamente eliminados em um relacionamento homo é de uma ignorância atroz. E nunca ouvi uma sugestão mais estapafúrdia do que casar com um “viado enrustido”. Toda a minha argumentação vai na direção da liberdade (não na sua acepção mais óbvia ou comum, como tento demonstrar mais adiante), por isso viver um casamento de fachada e não assumir a sua sexualidade é, definitivamente, um conselho de alguém que não preza essa fundamental dimensão da existência humana. (Mas lembrem-se: isso não é um ataque pessoal ao talvez-pseudo-Jabor!)

Mais adiante, nosso amigo filosofa: “Todo ser humano busca a felicidade, a realização. A mulher se realiza satisfazendo o desejo maternal, com a segurança de ter uma família estruturada e saudável, com um bom homem ao lado que a proteja e lhe dê carinho. [...] A realização pessoal dele vem de diversas formas: pode vir com o sentimento de paternidade, com uma família estruturada, etc. mas nunca vai vir se não puder acesso a outras fêmeas [...].”

Pra não soar repetitiva, retomo meus principais contra-argumentos: concordo que todo ser humano busca a felicidade, discordo de que a realização da mulher se limite à satisfação do desejo maternal, segurança, família e um bom homem. Mulher sente desejo sexual tanto quanto homem. E homem, tanto quanto mulher, também pode precisar dos itens anteriores para se realizar. Quanto a ter “acesso a outras fêmeas”, uma das principais chatices da vida adulta é constatar o fato de que escolhas implicam renúncias. Todo homem tem direito a ter acesso a quantas fêmeas quiser; basta não se comprometer com apenas uma. E o mesmo vale para as mulheres.

Vejam qual é a imagem de homem perfeito contemporâneo traçada pelo meu interlocutor: “Os homens perfeitos de hoje são aqueles bem desenvolvidos profissionalmente que traem esporadicamente (uma vez a cada dois meses, por exemplo), mas que respeitam a mulher [...].”

Se trair a cada dois meses é um exemplo de como se respeita uma mulher, quero esse homem perfeito longe de mim.

Há ainda outra máxima a respeito dos homens que as mulheres precisam conhecer: “90% dos homens não querem nada sério. Os 10% restantes estão momentaneamente cansados da vida de balada ou estão ficando com má fama por não estarem casados ou enamorados; por isso procuram casamento.”

É verdade que, para quem vive uma vida de mulher solteira, tem sido muito difícil encontrar um homem que queira levar um relacionamento a sério. Por outro lado, tenho a felicidade de contar com vários amigos que, embora obviamente não deixem de desejar sexualmente outras mulheres, vivem relações estáveis e apaixonadas com mulheres maravilhosas e definitivamente não querem abrir mão dessa vida. Se realmente há homens que procuram casamento por estarem com má fama, meu conselho para eles: não caiam nessa. Prefiro continuar sozinha e ver todas as minhas outras amigas solteiras ficarem para titia do que mal-acompanhadas. Vade-retro!

Por último, cabe lembrar a verdade ululante que nosso amigo fez questão de enfatizar em seu discurso: “O homem é capaz de te trair e de te amar ao mesmo tempo.”. Verdade inconteste. Assim como é possível amar duas mulheres (ou dois homens) ao mesmo tempo. Assim como é possível não amar sua mulher e traí-la com uma mulher que você ama, ou não amar ninguém, nem mesmo a você mesmo. O que está em jogo, para mim, não é o quanto ser fiel ou infiel é sinal de amor ou desamor, e sim o quanto a traição está ou não no campo das escolhas – e o que ela implica.

Embora não fosse a minha intenção comentar um por um cada um dos trechos do manifesto em favor da traição masculina, acabei sentindo necessidade de fazê-lo antes de partir para o que eu realmente gostaria de falar sobre traição. Vocês hão de concordar que esse e-mail dá um bom pano pra manga, paletó, colete e terno completo.

Tenho vontade de falar, primeiro, sobre uma impressão geral sobre esse tipo de argumentação. O que me impressiona é o determinismo que esse texto revela. Dizer que os homens “são assim” e que as mulheres “são assado” me parece uma generalização caricatural que ignora aquilo que é tão próprio da natureza humana: a singularidade. Aqui tenho que fazer um mea culpa: eu mesma vivo chamando a atenção para as famosas diferenças entre homens e mulheres, achando graça dessa querela insolúvel que se trava entre os de Marte e as de Vênus. E acho, mesmo, que via de regra homens e mulheres são diferentes. Acho, também, que essas diferenças dão conta de boa parte da graça da vida e dos relacionamentos. São o veneno e o remédio. Mas jamais aceitaria que me impingissem determinado comportamento sob a categórica afirmação: “ela é mulher, toda mulher é assim”. E o mesmo diria a respeito de qualquer homem.

Para além da singularidade humana, essa linha argumentativa parece ignorar uma das mais caras e inevitáveis dimensões da existência humana: a liberdade. Sem ter medo de soar repetitiva, cito Sartre, sempre ele: “o ser humano está condenado a ser livre”. Que ninguém atribua suas escolhas a determinadas características e condições pré-determinadas (por exemplo, hormônios!). Sartre também disse que cada um de nós nada mais é do que o resultado de nossas ações. Então, ninguém trai ninguém porque “é homem”, e sim porque escolheu trair.

Além disso, em seu artigo “O existencialismo é um humanismo?”, Sartre nos mostra que nenhum homem é livre se toda a humanidade também não o for, pondo por terra a definição mais tosca de liberdade que diz que “a de um acaba onde começa a do outro”. Isso não é liberdade, é demarcação de território. Liberdade é a infinita capacidade – e necessidade – de escolha que cada um de nós deve fazer a cada segundo da vida e a assunção das conseqüências que cada escolha implica. Corro o risco de simplificar demais um dos pilares mais significativos da obra de Sartre e do pensamento ocidental do século XX. Prefiro ficar por aqui e recomendar a leitura do artigo a quem desejar se aprofundar no assunto.

Vamos falar português claro: ser traído é uma merda. Ninguém deseja isso para si. Só isso já dá uma boa dica sobre se trair é ou não é legal. Ainda assim, as pessoas traem, e pelas mais diversas razões. Foi só quando ouvi da boca de uma senhora dos seus cinqüenta anos, casada, inteligente, coerente, articulada, que “é praticamente impossível pensar que alguém que viva um relacionamento estável e de longa duração não vá trair o parceiro em algum momento da vida” que a minha ficha caiu. A carne é fraca, às vezes o corpo pensa mais rápido do que a cabeça ou o princípio do prazer fala mais alto do que o da realidade. Às vezes é mais fácil acreditar que “é preferível trair minha mulher do que deixá-la”. Aliás, certamente há mulheres que pensam assim. E homens. E alguns deles (homens e mulheres) provavelmente têm razão: trairão esporadicamente (não uma vez a cada dois meses!) para suportar os momentos de crise do casamento e com isso conseguirão, em alguma medida, preservar a relação e seguir adiante.

Ainda assim, por mais que a traição – e o perdão – façam parte da vida, pra mim o que faz toda a diferença é a distância entre admitir a sua possibilidade (“todos nós estamos sujeitos a trair e ser traídos”) e afirmar a sua inexorabilidade (“todo homem é infiel”). Somos, sim, falíveis. Mas, assim como todo homem busca a felicidade, busca também a auto-superação. Que ninguém embarque em uma relação sem a convicção de que fará tudo o que está ao seu alcance para fazer deste um encontro verdadeiro, autêntico, honesto, digno, respeitoso.

E quando a vontade de trair se tornar insuportável, acho que isso deve ser tomado como um sinal de alerta e um bom pretexto para rever a relação. Às vezes o amor acaba. E só isso já é suficientemente doloroso, para quem não ama mais e para quem deixou de ser amado. Não há por que melar uma história de amor que deu certo (dar certo não é sinônimo de ser eterno) com um fim desrespeitoso por pura falta de coragem de partir ou deixar o outro ir.

Para concluir (sem nenhuma pretensão de ter esgotado o assunto), quero deixar registrado que nem tudo o que escreveu o tal defensor da traição masculina precisa ser descartado. Selecionei dois trechos do manifesto que me parecem cheios de sabedoria, e os deixo aqui como um convite à reflexão:

“O segredo é dar espaço para o homem viajar nos seus desejos (na maioria das vezes, quando ele não está sufocado pela mulher ele nem chega a trair, fica só nas paqueras, troca de olhares).”

O segredo é dar espaço para homens e mulheres vivenciarem os seus desejos. Casamento não é sinônimo de morte cerebral. Todos nós temos pensamentos íntimos, desejos secretos, fantasias que merecem ser preservadas e cultivadas no recanto da nossa privacidade. Isso sim, me parece algo fundamental para garantir a felicidade de um casal. E é também uma boa dica para os ciumentos patológicos que sufocam os seus parceiros com cobranças de uma irreal exclusividade de pensamentos e ignoram a necessidade que todo ser humano tem de, como bem disse o nosso amigo, “viajar”. Em pensamentos.

É bom lembrar que “desejo” é um conceito tão amplo e complexo quanto a “liberdade” (estou me lembrando da minha professora substituta de psicanálise perguntando para uma classe atônita: “vocês já viram desejo?” – como se perguntasse “posso considerar matéria dada?”). Por ora vale lembrar aquela famosa frasezinha que encerra uma boa dose de sabedoria: o desejo nasce da falta. Como ninguém nasceu grudado, cada um tem mais é que exercitar as suas atividades, ir atrás dos seus interesses, sair de vez em quando com os seus próprios amigos ou sozinho mesmo, viajar sozinho – por que não? – e continuar existindo como um indivíduo inteiro. Fácil falar, difícil fazer, algumas mulheres vão falar. Mas sem dúvida é algo vital não só para a saúde do relacionamento, mas para a saúde mental de qualquer pessoa.

“O que você procura pode ser impossível de achar, então, procure algo que você pode achar e seja feliz ao invés de passar a vida inteira procurando algo indefectível que você nunca vai encontrar.”

Concordo em gênero, número e grau. Como eu costumo dizer: viva os encontros que a vida lhe oferece, independente de eles parecerem certos ou errados.

I rest my case.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Em nome da Ciência - II

A equipe do Instituto Mulher Solteira de Pesquisa Aplicada aos Esportes Radicais de Compreensão da Mente Masculina decidiu empreender um novo experimento científico com o objetivo de verificar a topografia de resposta do sexo masculino a diferentes abordagens femininas. Para o experimento, foi utilizada a espécie masculina Arredius mutantis. Os principais dados obtidos por meio do experimento são brevemente relatados a seguir:

Abordagem A

Veículo: e-mail.
Tom da mensagem: amistoso.
Conteúdo da mensagem: pedido de informação com demonstração de interesse e afeto.
Tempo de demora da resposta: 2 dias, 20 horas e 30 minutos.
Tom da resposta: evasivo.
Conteúdo da resposta: fornecimento impreciso de informação, alusão a possível atividade sem data estabelecida.
Resultado final: nenhum.

Abordagem B

Veículo: e-mail.
Tom da mensagem: provocante.
Conteúdo da mensagem: ironia sobre a resposta evasiva e clara demonstração de interesse sexual.
Tempo de demora da resposta: 23 minutos.
Tom da resposta: direto.
Conteúdo da resposta: convite para atividade na mesma noite.
Resultado final: conteúdo impróprio para a audiência deste blog (alô, mamãe!).

Conclui-se, assim, que a Abordagem B aplicada à espécie Arredius mutantis apresentou resposta em tempo mais curto e com pleno alcance dos objetivos estabelecidos pela pesquisadora.


domingo, 4 de maio de 2008

Sempre ela

A vizinha reagiu com indignação quando eu disse que me sentia invisível e, pela primeira vez em muito tempo, finalmente começava a me sentir notada por um certo rapaz.

Ela tinha razão ao achar que a minha metáfora era um tanto autodepreciativa, mas pedi que ela não fosse tão literal e entendesse o que eu tentava lhe explicar: que em meio a uma vida tão ordinária e banal, finalmente alguém parecia ver em mim a riqueza interior que eu acreditava ter e tanto desejava compartilhar. Afinal, passamos a vida alimentando a fantasia de que somos especiais e desejando ardentemente que alguém de nosso agrado considere nossa “especialidade” irresistível. Ainda um pouco desconfiada, ela acabou engolindo a minha tese.

Só mais tarde, refletindo sobre a conversa, fui rir da minha santa ingenuidade e lembrar o que realmente nos torna visíveis perante os olhos masculinos: a bunda.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Hai kai

Tempo de falar.
Tempo de calar.
Tempo de ralar.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Enigma pós-moderno

Diz a esfinge: Queres que te devore? Torna-te tu indecifrável.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Guerra e paz

- Vó, quantos anos faz que você e o vovô são casados mesmo?
- Ih, filhinha... Séculos e séculos... Sessenta e dois anos!
- Uau... é muito tempo!
- Nem me fale, filhinha, nem me fale... Hoje em dia estamos assim: um fica aqui, o outro fica lá. Se os dois ficam juntos, ou dá sono, ou dá briga!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Marte X Vênus


Eles reclamam que nós dizemos “não” quando queremos dizer “sim”, “sim” quando queremos dizer “talvez” e “talvez” quando queremos dizer “não”.

Eu pergunto: eles nos dão alternativa?

domingo, 20 de abril de 2008

Um bonde chamado desejo


- Foi uma conjuntivite brabíssima! Deixou até seqüelas, estou enxergando embaçado e vendo pontinhos brancos com o olho direito! Ainda preciso consultar outro médico para ouvir uma segunda opinião...
- É mesmo? Que coisa!
- Pois é... Não imaginava que uma reles conjuntivite podia ser tão perigosa.
- Sim, eu ouvi falar de um caso semelhante. Mas e o Fulano, não pegou de você?
- Por enquanto não... Mas também, passamos uma semana inteira sem nos tocar, dormindo em quartos separados!
- Puxa...
- Bem... Quase uma semana... Quando não agüentávamos mais ficar longe um do outro, ele vestiu os óculos de natação e mandamos ver!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Comunicado importante

RRRRRRESPEITÁVEL PÚÚBLICOOOOO!!!!

É um prazer, um orgulho e uma honra informar que, a partir do dia de hoje, o MS passa a contar com a presença de finíssimo trato de uma distinta leitora da mais alta “catiguria”: a cenoura minha mãe!

É, portanto, nossa mais legítima obrigação, nos dias vindouros do porvir, manter elevado o nível dos debates e polêmicas, evitando a utilização leviana de termos chulos, a exposição inconseqüente de palavras de baixo calão, a ocorrência de comportamentos que possam porventura ferir a moral e os bons costumes e/ou ainda atentar contra o bom-gosto.

Façamos deste um blog de respeito, um ambiente aprazível e de bom tom, em nome da estética, da metafísica e da hermenêutica, em consideração à senhora minha Mãe Sereia.

Pela atenção, obrigada.

P.S.: Beijo, mãe!!!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Homenagem a Manélson


Há controvérsias a respeito da data exata, mas especialistas avaliam que tenha sido por volta dos idos de 1990. Vez ou outra eu a avistava caminhando pelo bairro e pensava: “que menina colorida!”. Nunca havia conhecido alguém assim: cabelo laranja-cor-de-cenoura, olhos verdes, pele branquinha e bochechas coradas. Parecia que tinha saído de dentro de um desenho animado.

Vizinhas de rua, acabamos tropicando uma na outra aqui, ali e acolá (ela e minha irmã no balé, eu e a irmã dela na natação) e nos tornamos amigas. A pré-adolescência marcou o auge da primeira fase da nossa amizade, tempos de Sítio do Carroção, primeiro amor e frio na barriga.

Aos doze anos de idade eu queria ser estilista de moda. Gostava de desenhar e, quando alguém me contou que havia uma profissão em que a pessoa ganhava dinheiro para fazer isso, achei uma opção muito digna. Minha avó tinha uma amiga dona de confecção e, quando havia desfile de coleção nova na casa dela, lá ia eu de prancheta debaixo do braço, papel sulfite e lápis de cor registrar as últimas tendências e me inspirar para as minhas próprias criações.

Mas Manélson rapidamente me demoveu da idéia. Em uma das únicas discussões dos nossos mais de dezoito anos de amizade, ela argumentou que eu precisava escolher uma profissão mais útil, que pudesse ajudar a melhorar a sociedade. Pra me defender, ridicularizei o fato de ela querer ser psicóloga (como de fato se tornou alguns anos depois) dizendo que ela ia “cuidar de louco”. Nem preciso dizer que paguei a minha língua com oito longos anos de análise...

Meu pai ainda tentou salvar a lavoura, fazendo um contraponto à ruiva tão cheia de razão. “Aposto que quando vai comprar uma roupa no shopping a dona Joana não pensa que a profissão do estilista de moda é inútil. Todas as profissões têm o seu valor social!”. Mas não teve jeito... Ela sabe que é a maior culpada pela crise vocacional dos últimos quinze anos da minha vida! E apesar de ter aprendido a relativizar as suas certezas, de vez em quando ainda confessa que não se arrepende nem um pouco de ter plantado mais essa minhoca na minha cachola já tão fertilizada.

Há um buraco negro inexplicável nos nossos tempos de colegial. Mas quando entramos na faculdade, retomamos a amizade com força total e nunca mais desgrudamos. Manélson acompanhou cada etapa da minha vida e vice-versa, como expectadoras privilegiadas. Me apresentou a dois dos cinco namorados que tive – é uma pena que nenhuma das indicações tenha sido muito promissora, mas não podemos tirar o mérito da tentativa. E como a vida pode ser bem irônica, foi ela quem apresentou ao meu ex a sua atual namorada. Mas quando foi preciso me dar a má notícia, ela assumiu a incumbência com a sua característica integridade e passou o dia todo segurando a minha mão.

Manélson é minha terapeuta-adjunta. Quando tenho dúvidas em minha auto-análise (já que, tal como um fumante, venho tentando “parar” a terapia há anos), é para ela que ligo, despejo a minha bagunça emocional e aguardo o veredicto sempre amoroso e compreensivo. Nunca deixou de responder a nenhum dos meus e-mails lacrimosos das madrugadas em crise de namoro, de pós-namoro e de ausência de namoro. Manélson agüenta as minhas mesmas ladainhas existenciais há quase duas décadas com a mesma paciência e dedicação. Mais ou menos uma vez a cada cinco anos ela se permite entrar em crise e me dá a oportunidade de retribuir com um pouco de orelhão.

Fomos companheironas de balada durante uns bons anos. Como naquele tempo eu ainda era abstêmia, ficava com a incumbência de dirigir. Cabia a ela ser a Relações Públicas da dupla. Maria Joana, Dona Maria, Tipuana, Nias, Kintamani, Básico... Desses tempos temos histórias impagáveis e impublicáveis, que vão ficar para sempre no folclore da nossa amizade. Basta dizer que naquele tempo a pista de dança do Kintamani era escura, escura...

Quando achamos que não era suficiente morar na mesma rua, estudar na mesma faculdade, sair juntas no final de semana e jantar pelo menos uma vez durante a semana, inventamos de fazer aula de jazz. Foram poucos os privilegiados que tiveram a oportunidade única de nos assistir dançando a versão de Cake para “I’ll survive”, poderosas, de vermelho e com cara de más.

Manélson já me gravou fitas e fitas com músicas “para dançar e liberar a drag queen que existe em você”, “para dar beijo na boca ou ter vontade de fazê-lo”, “para pensar na vida e/ou curtir música”, “para sentir-se batuta e/ou ‘que bom que eu liguei!’” (uma expressão cunhada especialmente para designar a sua profunda modéstia). Também me gravou um “CD Prozac” em uma época em que eu estava bem tristinha. Vive me enchendo de blusinhas descoladas e brincões cheios de penduricalhos pra eu liberar a Gisele Bünchen que habita em mim.

Não existem duas como ela. Incapaz de comer um prato de comida sem espalhar uma trilha de grãos, gotas e farelos para todos os lados. Especialista em falar ao telefone enquanto faz um belo número dois (Manélson é a otimização do tempo em pessoa! Imaginem o quanto ela não teve que exercitar a paciência com a minha incomparável velocidade...). No quesito escatologias, faz questão de anunciar e comentar todos os seus episódios de flatulência. Manélson inventou a “raivinha”, aquela irritaçãozinha absolutamente irracional que a gente não sabe explicar muito bem por que sente, mas simplesmente não consegue evitar. Também não deixou passar o “homem-coxa” (aquele que usa camisa pra dentro da calça sens-tropeito) e o “cl-cl” (acompanhado de um sinal de “ok” sincronizado com a pronúncia de cada sílaba), pra designar as coisas carésimas, supérfluas, desprovidas de qualquer funcionalidade, mas consideradas bacanérrimas pela high-society.

Manélson sempre me chamou de “a não-behaviorista mais behaviorista que ela conhece”. Eu posso dizer que assisti de camarote à transformação dessa behaviorista radical em uma terapeuta brilhante, mas que acredita piamente em espírito, cartomante e astrologia. Taí uma pessoa que não tem o menor pudor em viver plenamente as suas contradições. E não está nem aí para quem achar algum problema nisso.

Foi Manélson quem diagnosticou o meu “Transtorno de Sinceridade Compulsiva”. Ela passou anos tentando me ensinar que uma boa mentirinha de vez em quando faz mais bem do que mal, mas acho que já desistiu de tentar me tornar uma pessoa menos “cerrrtinha”. O pior é que com o tempo ela foi pegando alguns dos meus piores cacoetes, tipo dizer pro namorado absolutamente tudo o que se passa naquela cabeça ruiva ou cismar com o menor sinal de anormalidade do pobre moço (“você tá estranho...”). Ainda bem que a gente tá sempre ali uma pra outra, pra sorte dos nossos pobres namorados, lembrando que há limites para a verborragia feminina!

Eu e Manélson somos fãs incontestes de Maryan Keyes e sempre compramos o livro novo dela nas férias de janeiro. Vamos lendo juntas e mandando torpedos uma para a outra para comentar as melhores partes. Também partilhamos o vício por seriados e a compulsão pelo Big Brother.

Às vezes tenho a impressão de que andamos meio afastadas e fico me perguntando se isso significa que mudamos e já não somos mais tão parecidas quanto antigamente (embora sempre tenha sido digno de nota o quanto as nossas semelhanças se disfarçassem sob um manto de absolutas diferenças!). Também me pergunto se essas mudanças seriam de fato na essência de cada uma ou apenas o resultado de momentos de vida desencontrados – ela namorandão, eu solteiraça, ela mais behaviorista do que nunca, eu flertando com a psicanálise, ela acordando com as cotovias, eu dormindo com as corujas.

Com mudança ou sem mudança, perto ou distante, uma coisa é certa: Manélson é e sempre será um dos maiores amores da minha vida.

Parabéns, Manélson!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dia da marmota


Em um dia como outro qualquer, o seu celular toca e você treme à medida que aqueles dígitos vão se revelando horripilantemente familiares: “Estou ligando para lembrá-la da consulta com o Dr. Danilo na próxima sexta-feira”. Resignada, você anota o dia e a hora em um pedaço de papel. Parece que foi ontem! Foram os seis meses mais rápidos da sua vida.

Então começa a operação-desespero: tentar recuperar em quatro dias tudo-aquilo-que-você-está-cansada-de-saber-que-deveria-fazer-todos-os-dias-antes-de-dormir, mas na prática consegue fazer mais ou menos uma vez por mês e olhe lá. A estratégia consiste em empregar simultaneamente todas as técnicas de limpeza de dentes, gengivas e língua aprendidas ao longo de duas décadas de ida ao dentista: escovar uma vez sem pasta, com a escova seca e posicionada no sulco gengival, em um ângulo de 45º (“esquecer que está escovando”); repetir a operação com a escovinha bitufo; aplicar o fio dental “desenhando um ‘c’ para dentro da gengiva, polindo o dente”; escovar a língua; passar o limpador de língua; limpar as bochechas e gengiva com gaze; bochechar com água de ratânia (meu deus, alguém realmente faz isso TODAS AS NOITES?).

Na noite anterior à ida ao dentista, gastar o dobro do tempo para realizar o ritual e, se preciso, repetir algumas operações mais de uma vez. Dormir com a língua formigando de tanta escovação. Na manhã seguinte, leite puro, sem nescau, nada de pão (trauma desde o dia em que o dentista berrou: “o que é isso???? Tem pão no seu dente!!!”) e repetir todo o ritual feito antes de dormir. Não esquecer de levar um pacote de gaze no bolso para passá-la novamente pelas bochechas e gengivas UM MINUTO ANTES DE TOCAR A CAMPAINHA (é incrível a velocidade com que se forma a placa bacteriana).

É de praxe chegar pelo menos 10 minutos atrasada (nem precisa de Freud para explicar...) e, ainda no carro, receber a ligação da secretária confirmando a sua vinda, com o neurótico do seu dentista bufando a um metro da coitada. Na chegada, o dentista invariavelmente vai se queixar do seu atraso, perguntar se você “ainda está namorando aquele músico” e pedir que você escolha o DVD que quer assistir durante a raspagem. Não adianta explicar a ele que você não gosta de estímulos sensórios no período da manhã (nem de DVD, nem de instrumentos de tortura medievais): ele acabará escolhendo aquele DVD chatíssimo do Toquinho, que é a única coisa que passa pela cabeça das pessoas quando você diz que gosta de MPB.

Então chegará a hora da verdade e, após a aplicação do corante de placa, os resultados dos seus esforços serão ou não recompensados. É verdade que ao longo dos anos a técnica vai se aperfeiçoando e os gritos primais emitidos pelo dentista durante a sua pós-adolescência (“isso está parecendo a Guerra do Paraguai!”) poderão gradativamente ser substituídos por leves comentários de incentivo. Mas, inevitavelmente, a sentença final será sempre a mesma: “a escovação está boa, mas precisa melhorar o fio dental”. E na seqüência: “Alessandra, passa o fio dental para ela ver. Aproveita e pega uma gaze para a gente mostrar como remover a placa bacteriana da bochecha”. É inútil afirmar que você vem seguindo as mesmas orientações durante anos, até um minuto antes de entrar no consultório. Placa bacteriana funciona mais ou menos como pane no computador: na presença do técnico, o problema desaparece e você passa por otário. Só que com a placa é ao contrário: basta a presença de um dentista em um raio de cem quilômetros para ela brotar em questão de segundos, independentemente dos seus esforços para debelá-la.

Você vai ganhar uma escova Oral B e o dentista vai pedir para você segurar o espelho em forma de dente e vai te mostrar mais uma vez como proceder à escovação: “escovar uma vez sem pasta, com a escova seca e posicionada no sulco gengival, em um ângulo de 45º (‘esquecer que está escovando’); não é o dente que você escova, mas a gengiva! Repetir a operação com a escovinha bitufo – você tem escova bitufo?; aplicar o fio dental ‘desenhando um ‘c’ para dentro da gengiva, polindo o dente’; escovar a língua; passar o limpador de língua; limpar as bochechas e gengiva com gaze; já te falei para experimentar o bochecho com água de ratânia?”

Com sorte ele vai te liberar do retorno de uma semana e te deixar marcar a próxima consulta só para dali a seis meses (mas você ainda precisa ficar esperta para ter certeza de que ele não vai mandar a secretária marcar para dali a cinco). Que chegarão como se apenas um dia houvesse se passado desde a sua última visita. A assistente, mais delicada e menos repetitiva, vai finalizar o polimento e entregar que o dentista tem os mesmos problemas bucais que você, enquanto ele vai aguardar no escritório ao lado ouvindo um bom CD de jazz e procurando no Livro de Bruxaria para Dentistas uma foto bem horrenda de gengivas retraídas para te assustar.

Finalizada a tortura, você passará ao escritório e ouvirá a mesma ladainha dos últimos dez anos: “como você é minha cliente desde criança, vou te fazer um preço especial. O valor do tratamento é cinqüenta e sete milhões, duzentos e vinte e quatro mil setecentos e oito reais, mas vou te cobrar só duzentos”.

E com um suspiro adolescente, de quem nunca superou aquela paixão platônica que os seus olhos azuis não deixam esquecer, ele fatalmente vai completar: “e não esqueça de contar para a sua mãe”.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Existencial



Será que o mundo me permite um minuto de irracionalidade?

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Por que é tudo tão difícil? Por que as pessoas são tão miseráveis, por que sofrem tanto?

Por que não conseguimos ter a vida que queremos ou simplesmente nos contentar com a vida que temos?

Por que é que não conseguimos saber qual é a vida que queremos ter?

Por que é tão difícil aceitar que merecemos aquilo que temos? Ou o que queremos?

Por que, mesmo quando tudo está bem, sempre falta alguma coisa?

Por que, quando tudo está mal, ainda pode ficar pior?

Por que alguém não pode me dizer que escolhas eu devo fazer?

Por que a escrita não pode ser suficiente para apaziguar a minha angústia?

Por que precisamos tanto de dinheiro e, quando o conseguimos, ele não é o suficiente para garantir a nossa felicidade?

Por que o amor acaba? Por que tudo acaba?

Por que o tempo passa tão rápido e, ao mesmo tempo, tão devagar?

Por que entender as coisas não faz com que elas sejam mais fáceis?

Por que só somos capazes de apreciar determinadas coisas depois que elas não existem mais?

Por que temos que ter uma consciência tão aguda sobre nossa própria morte e nem assim conseguimos preencher a vida com significado?

Por que estamos todos sozinhos? Por que ninguém é capaz de compreender inteiramente o outro?

Por que nos foi dada a capacidade de perguntar se não nos são concedidas as respostas?

Antes que me perguntem, não aconteceu absolutamente nada. Estou apenas doendo a minha existência. Então com licença, deixem-me sentir um pouco de pena de mim mesma e de todos nós.

(Acabo de descobrir que minha cachorra mastigou quatro rolos novinhos de papel higiênico enquanto eu despejava as minhas mágoas existenciais no computador. Um desfecho perfeito para atestar mais uma vez a grande banalidade das indagações humanas.)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Chá de sumiço


Federico, porto-riquenho radicado nos EUA, é agente funerário, tem cerca de 30 anos, é casado e tem dois filhos pequenos. Sua mulher, Vanessa, foi sua primeira e única namorada.

Após a morte da mãe, Vanessa embarca em um longo processo depressivo, ao qual Federico assiste, confuso e impotente. A presença da irmã de Vanessa em sua casa, estimulando-a a lidar com a depressão por meio do cartão de crédito e interferindo na educação dos filhos, é a gota d’água para que ele cometa a maior besteira de sua vida: envolver-se com uma prostituta.

O resto dessa história todos conhecem: mentira tem perna curta e logo a separação é inevitável. Arrasado, Federico ainda passa alguns meses “acampado” na mesa da sala de preparação de corpos da casa funerária onde trabalha, achando que a volta para casa é uma questão de tempo. Após uma “transa de recaída”, ele e Vanessa conversam seriamente e ela finalmente pede o divórcio.

Federico procura se conformar com o novo cenário. Arranja um quarto temporário na casa de seus sócios, que é também a casa funerária onde trabalha, e embarca na onda dos encontros virtuais. Um dia, durante o trabalho, uma janela “pula” de dentro do computador e Federico conta timidamente aos sócios que se trata de uma das garotas que ele conheceu pela internet. Antes de encerrar a breve relação digitando dez palavras apressadas, Federico explica a David e Nate que não houve química com a garota. Não parece perceber o espanto dos sócios quanto à objetividade com que deu o caso por encerrado.

Tempos depois, uma nova pretendente parece finalmente fazer o tipo de Federico. Depois de um ou dois encontros, Vanessa, com quem Federico ainda mantém uma relação amigável, convence-o a chamar o seu “date” para acompanhá-lo durante o casamento de seu sócio. Eles parecem realmente feitos um para o outro.

Alguns dias depois, Federico e a namorada estão na sala de TV. George, o novo marido da dona da casa (Ruth, que abrigou Federico por conta da separação) começa a se recuperar de um surto psicótico. George entra na sala em meio a um beijo ardente e, alheio aos acontecimentos, procura companhia por meio de assuntos irrelevantes e gestos de gentileza. Federico e a namorada não conseguem se desvencilhar do velho e ela decide que já é hora de ir para casa. Federico a convida para almoçar no dia seguinte e ela pede que eles combinem por telefone.

No dia seguinte, próximo à hora do almoço, Federico tenta falar com a namorada duas, três, quatro vezes. Mais tarde, deixa outros recados, concluindo que o horário do almoço já passou e ela provavelmente teve algum imprevisto. À noite, ainda sem notícias, Federico liga para a casa de Vanessa e avisa que não poderá levar os filhos para jantar, como haviam combinado, porque sua amiga está desaparecida. Vanessa se solidariza e aconselha Federico a ligar para a polícia.

Na porta da casa da moça, nem sinal. Não há resposta à campainha. O telefone continua tocando sem parar. Finalmente, Federico procura a síndica e implora que ela abra a porta do apartamento, temendo que algo sério tenha acontecido à namorada.
Por fim, porta aberta, a moça se assusta, se espanta e se irrita com a invasão: o que diabos vocês estão fazendo dentro da minha casa? Federico responde, com convicção: você sumiu! Fiquei preocupado... Combinamos de almoçar e você não atendia as minhas ligações!

A moça responde, entre incrédula e constrangida: pensei que você leria nas entrelinhas... Federico, ainda mais constrangido: ah, sim, claro... as entrelinhas.

Na noite seguinte, Federico tenta levar os filhos para comer uma pizza, mas Vanessa diz a ele que não pode marcar e desmarcar os programas com os filhos a toda hora. Aproveita para perguntar o que havia acontecido à moça que desaparecera durante todo o dia anterior. Federico, embaraçado demais para contar a verdade, diz que ela morreu de ataque cardíaco. Vanessa mal acredita na má sorte de Federico e acaba aceitando não apenas que ele leve os filhos para jantar, mas também lhes faz companhia durante a pizza.

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A seqüência de cenas descrita acima é um excerto da série Six Feet Under. Uma série cinco estrelas, que trata com profundidade e delicadeza o tema da morte e muitas outras questões e dilemas existeciais: o amor, a sexualidade, a solidão, a verdade, a identidade, a loucura, a arte...

Se a pincei dentre inúmeras outras que também me tocaram o fundo da alma, foi porque me vi nessa pequena tragédia do cotidiano de um coração romântico que, impelido pelas tormentas da vida (às vezes provocadas pelo seu próprio barco), volta a navegar sem bússola pela selva dos solteiros.

sábado, 29 de março de 2008

Laurinha e a nova professora


Dia desses, dirigindo meu jipinho pelas ladeiras de Perdizes, uma seqüência de associações livres que minha memória não foi capaz de reter me levou à seguinte pergunta: por que é que eu, uma cartesiana que dança – que, aliás, ama dançar – tive minha carreira no balé clássico tão precocemente abreviada?

Ao contrário da minha irmã, que fez anos e anos de balé, chegou a dançar com sapatilha de ponta e se aposentou compulsoriamente por conta de um problema na rótula do joelho (e cujas fantasias das apresentações de fim de ano – a florista, o fogo, a hippie, anos dourados, a cegonha... – animaram muitas das nossas brincadeiras infantis ao som dos discos do Balão Mágico), eu tive aulas durante um ano, dos seis aos sete, e depois parei.

Fui puxando pela memória até me transportar àquela época e o motivo veio claro como o dia: minha professora. Não, ela não era uma bruxa. Pelo contrário: era uma fada. Nem me lembro do seu nome (minhas memórias infantis são bastante imprecisas e surrealistas), mas seguramente me lembro dos sentimentos que me acompanharam naquele episódio.

Em um desses acontecimentos banais do cotidiano que não parecem sequer dignos de nota, minha professora de balé teve que mudar os horários das suas aulas. Ela lecionava no período da tarde e teve que mudar para o período da manhã. Simples assim. Eu, que estudava no período da manhã, não podia mais fazer aulas com ela. E simplesmente não pude aceitar que qualquer outra pessoa fosse minha professora de balé, apesar de todas as tentativas de argumentação da minha mãe, de uma ida à aula da nova professora com uma amiguinha, da perspectiva de não ganhar uma nova fantasia de balé no final do ano (a minha era de bebê – dancei junto com a minha irmã que era a cegonha).

Pensando bem, pode ser que tudo isso seja apenas fruto da minha imaginação. Foi mais ou menos nessa época que minha mãe me levou ao ortopedista para fazer uma avaliação e eu comecei a fazer fisioterapia para corrigir a lordose, a cifose, a escoliose, o pé chato, a ponta do cotovelo e o branco do olho (processo que se estendeu por longos dez anos da minha vida).

Mas, independentemente do fato de eu ter parado as aulas de balé por recomendação médica ou simplesmente por desgosto, tenho uma vívida recordação de um dia ter faltado à escola (com a anuência da minha compreensiva mãe psicóloga) e ido à escola de balé para visitar a antiga professora. Comemos juntas um ovo de páscoa que levei para ela.

Já lá se vão mais de vinte anos e continuo igualmente apegada às minhas professoras. Eu devia ter me lembrado disso quando assumi a minha primeira sala de aula aos 21 anos, como professora substituta de português de uma 7ª série. Provavelmente teria causado menos danos à minha auto-estima e talvez eu não tivesse tomado a decisão de não pisar novamente em uma sala de aula durante pelo menos uma década.

Há cerca de um ano e meio, naquela fase abominável da minha vida que inspirou o nascimento deste blog, decidi que queria começar a praticar yôga. Eu já tinha ouvido muitos relatos positivos sobre os benefícios da yôga (eu confesso: escrevo yôga mas falo “yóga” – não me acostumo), inclusive da minha analista, cuja opinião respeito profundamente. Sabia que precisava ter uma atividade física regular e, para além disso, estava disposta a buscar toda a ajuda possível para me sentir melhor.

Recebi de uma amiga a recomendação de uma escola que ficava a poucas quadras da minha casa e do trabalho. Entrei no site, fucei os horários das aulas e me rendi ao conforto da comunicação escrita, enviando um e-mail solicitando informações sobre a abertura de novas turmas de iniciantes, já que os horários existentes não eram convenientes para mim.

Logo veio uma resposta simpática da professora dizendo que havia uma turma de nível intermediário com poucos alunos e eu deveria experimentá-la, pois ela poderia me dar mais atenção individual. Eu repliquei dizendo que nunca havia feito yôga na vida e certamente não acompanharia uma turma intermediária. A resposta foi singela: ligue-me e conversaremos.

No telefone com a Adri, contei sobre o meu longo histórico de fracasso escolar no que diz respeito a esportes e atividades físicas em geral. Descrevi as minhas notas vermelhas em todos os quesitos de todas as avaliações físicas que eu já tinha feito na vida: zero de força, zero de flexibilidade, zero de capacidade aeróbica. Eu síntese: eu era uma bucha.

Ela não comprou a minha história. Repetindo a singeleza da primeira resposta escrita, disse simplesmente: venha até aqui e faça uma aula, quero te conhecer.

Fui, a conheci, recebi algumas breves instruções para conseguir acompanhar a seqüência da saudação ao Sol e, alguns minutos depois, tive a minha primeira aula intermediária de yôga. Suei como uma vaca, bufei, tremi, esconjurei, esbugalhei os olhos. Mas fiz a aula inteirinha, até o fim. No relaxamento, chorei um oceano de lágrimas.

Depois nos sentamos no chão e Adri me disse: você tem totais condições de acompanhar essa turma. Precisa trabalhar força? Precisa. Falta flexibilidade? Falta, mas isso é pura ferrugem... O mais importante é que você está extremamente aberta para o trabalho. E tem uma incrível percepção sobre o seu corpo. Por mim você já é aluna do nível intermediário.

Comecei a freqüentar duas aulas semanais e a yôga causou em mim uma transformação. Finalmente descobri que sou um corpo. A yôga é suficientemente exigente para que eu me sinta desafiada e precise me dedicar e me concentrar para fazer as posturas, mas não excessivamente exigente a ponto de eu me sentir desmotivada ou incapaz. Depois de um ano, me senti quase uma menina do circo ao conseguir fazer uma invertida sobre a cabeça pela primeira vez. Eu, que nunca na vida consegui dar uma estrela sequer.

E tudo isso acontecia sob o olhar atento, amoroso e estimulante da Adri. Ela conseguiu a façanha de mudar completamente a minha auto-percepção corporal, a ponto de me exibir para as alunas novas como exemplo de uma pessoa corajosa, que tinha conseguido vencer muitos limites em um tempo surpreendentemente curto.

No início desse ano, meu espírito vampiro despertou definitivamente das catacumbas e comecei a não conseguir levantar para ir às aulas de manhã. Mais do que simplesmente acordar e levantar da cama, constatei que não gosto de estímulos sensórios nas primeiras horas do meu dia. Não gosto de ouvir gente falando alto, não gosto de falar com ninguém, não gosto nem mesmo de tomar banho. À noite, pelo contrário, a yôga cai como uma luva para mudar a freqüência do dia de trabalho e preparar o caminho para casa.

À noite, comecei a não conseguir chegar a tempo para fazer aula com a Adriana. E acabei caindo em outra turma, com outra professora.

Eu a conhecia já há algum tempo, pois logo que comecei a fazer yôga fui experimentando outros horários durante a semana por conta de imprevistos no trabalho. Logo no primeiro dia em que conheci esta outra professora, fiz aula sozinha. Achei que ela falava demais e que insistia muito em que eu fizesse os movimentos com um requinte de perfeição que me desanimava. Me fazia sentir incapaz, como todas as academias de ginástica que já freqüentei na vida.

E é incrível o que acontece quando a gente não gosta de alguém. É como o cheiro que exalam as pessoas que têm medo de cachorro. As pessoas simplesmente começam a não gostar da gente também. Pelo menos era essa a impressão que eu tinha.

A minha pequena deficiência auditiva, que foi delicadamente contornada pela Adri com a recomendação de que eu não me prendesse muito ao que ela falava e simplesmente tentasse acompanhar o fluxo da aula, virou um grande problema para a professora nova. Se eu abria os olhos para fazer leitura labial, ela achava que eu não estava me concentrando o suficiente. Se eu pedia que ela falasse mais alto, ela elevava a voz a uma altura desagradável, como se estivesse gritando ou falando asperamente com toda a turma. Se eu me confundia em alguma postura, ela me perguntava se era porque eu não tinha ouvido direito.

Além disso ela nunca, nunca tocava em mim. A Adri sempre corrigia amorosamente as minhas posturas. Será que eu era invisível? Ou era tão ruim que ela preferia não tentar me corrigir para não me desencorajar? Isso sem mencionar que ela nunca, jamais me tratou pelo nome. Eu desconfiava que ela havia se esquecido como eu chamava.

Apesar de toda a minha resistência, insisti em continuar na turma (afinal, não tenho mais seis anos de idade para desistir de um curso por causa da professora, certo?). E, aos poucos, comecei a gostar dela. Passei a valorizar os seus comentários, que antes me pareciam um pouco maçantes. Encontrei um jeito confortável de lidar com a falta de jeito dela de lidar com a minha surdez. Sobretudo, me concentrei na minha relação com o meu corpo e com a yôga, mais do que na minha relação com ela.

Retomei o ritmo das duas aulas semanais e mergulhei fundo no trabalho. A cada dia, uma nova conquista: uma postura desafiadora da qual vou conseguindo me aproximar aos poucos, minha respiração que já não fica tão ofegante, cada vez menos necessidade de recorrer à postura da criança para acalmar os batimentos cardíacos. Enquanto isso, o cultivar de uma relação crescentemente afetiva com a “nova professora”.

Na última aula, ao me despedir e virar para a porta, recebi um sorriso e um “tchau, querida!”. Isso me fez pensar que a vida é um longo exercício de aprendermos que as separações são inevitáveis, mas sempre é possível estabelecer novas e gratificantes relações.

P.S.: O título desse post faz referência ao livro infantil “A nova professora”, cuja protagonista (Laurinha, uma porca-espinha) vive o drama da substituição da sua querida professora da escola. Toda a coleção da Laurinha marcou momentos felizes da minha infância passados na casa da minha avó Helô. Vó, um beijo!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Semibreves

Estóica
Desafio qualquer um a praticar yôga com os joelhos esfolados. Haja elevação espiritual.
Silogismo
Hoje vi um cachorro perseguindo um carteiro. O que prova que as histórias em quadrinho sempre estiveram certas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um corpo que cai

Caí. De maduro.

Jovem, saudável, inteligente, descolada, independente, articulada. (Acima de tudo, modesta.)

Mesmo assim, caí. De quatro. De boca. De sola. Como diriam os cariocas: me ishhhtabaquei no chão. E ishhhhcangalhei os joelhos.

Tombo daqueles de se olhar em volta para avaliar o tamanho do vexame. De sentir pena de si mesma pela sua fragilidade, vulnerabilidade e insignificância. Aqueles tombos que machucam principalmente a moral.

Não me lembro se no momento do tombo me ocorria algum pensamento de grandiosidade, mas o contraste foi grande: em um segundo eu era a dona da rua, a musa de Perdizes, a cidadã do mundo, a senhora do meu nariz; no segundo seguinte, beijava o chão, calças rasgadas no joelho, mãos esfoladas.

Nem sabe se quer que alguém ajude ou se prefere que todo mundo finja que não viu. Dói cair e dói saber que o mundo continua girando apesar do seu tombo. Se não há platéia, o negócio é engolir o choro e continuar a caminhada. Ver a dor diminuir aos poucos, com o caminho.

Não tem jeito. Cair, todo mundo cai. A questão é como se levanta.

sábado, 15 de março de 2008

TSC

Ela sofre de um severo quadro de Transtorno da Sinceridade Compulsiva.

Sendo assim, antes de partir para os finalmentes, achou por bem informar o moço:

- Olha, é bom você saber de uma coisa. A gente pode ficar, se curtir, numa boa, mas eu estou bem enrolada,viu? Já estou saindo com três caras... Então vê aí o que você quer fazer.

O rapaz se desconcertou, que história é essa, mulher minha é só minha. Ou então, ela tinha que escolher: ou ficava só com ele ou com os quatro!

Depois, capitulou: ela era uma montanha de areia, à disposição do seu caminhãozinho pelo confortável preço de não ter absolutamente nenhum compromisso. Algum homem pode sonhar com algo além disso?

Mas o diabo é que ele gostou dela. Quando pediu o telefone ela deu, mas quando disse que não ia ligar ela nem ligou (e ainda confessa que perdeu a paciência com homem que pede número de telefone só para fazer média).

A moça deu um nó no moço e o negócio foi apelar para os SMSs, santa pós-modernidade. Faz que vai mas não vai, faz que não está estando, comparece sem fazer pressão. E ela, que além de sincera é educada, respondeu. E foi a deixa pra ele ligar.

Com voz de Fábio Jr., ela conta, meio impaciente. Cheio de frases feitas, de elogios prontos e de rouquidão sedutora puxando para o brega. Mas além de sincera e educada, ela é boa. Achou que mesmo enrolada não custava dar mais uma chance para o moço, ruim não tinha sido, ele que se quisesse encontrasse com ela na festa do Fulano no Lugar Tal.

Mas se um é pouco, dois é bom e três é demais, quatro é quase impossível de administrar. E aos 45 do segundo tempo, sabendo que um dos outros três também havia sido convidado para a festa, ela resolve se emendar por SMS: “Xi! Um dos caras com quem eu estou saindo também vem para a festa... E agora?”. Desaforado, o moço responde do alto dos seus 24 anos com topete de 17: “Fica com ele”.

Ela tenta ligar, não falou por mal, só queria que ele soubesse que ela não poderia ficar com ele naquela festa. Ele não atende. Mas chegando no Lugar Tal, ela vai ao bar tomar alguma coisa e PUMBA! Tromba o dito-cujo. O número três não veio, mas os amigos do três sim. Sendo assim, o protocolo continua valendo.

Como é que ele ainda teve coragem de vir depois daquela troca de torpedos?, as amigas perguntam. Ela explica: ele já estava encostado no balcão do bar quando recebeu a triste notícia. Amigos em punho, acampamento armado, achando que aquela noite ia faturar.

As amigas incentivam: “vai, fica com ele!”. Mas ela não quer que os amigos do alheio vejam a cena. “Vai escondida!”. “Não quero ficar escondida!”. É sincera, educada, boa e tem lá os seus brios, vejam bem. Não está fazendo nada de errado. Tudo o que ela quer é usufruir da sua liberdade feminina, pero sín perder la teruna jamás.
Na saída do bar, pede cinco minutinhos para a amiga e finalmente se despede do rapaz com a devida eloqüência. Mas esclarece: ela não vai deixar de sair com nenhum dos outros três!

E durma-se com um barulho desses.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Um grito de liberdade

Uma rajada de tiros, uma salva de palmas, uma ola, um troféu joinha e um minuto de silêncio em homenagem a Thomas Edison, o mártir, herói e inconfidente dos notívagos solitários!

(...)

[um minuto depois...]

E três vivas ao elevador, à TV, ao DVD, ao computador, à Internet, à geladeira, ao fogão, ao microondas, ao chuveiro elétrico e ao secador de cabelos! Viva! Viva! Viva!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bolsa

Então.
Aproveitei a terça-feira para ir ao Na Mata, ouvir boa música e dar uma sondada no mercado.
Minha gente: o mercado tá fraco.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Pra titia

Falando em casamentos...

Minha prima vai casar. Minha prima linda, querida e amada vai casar. A idéia original era morar junto e fazer um test-drive antes de completar o serviço, mas titia deu uma chamada e os noivos resolveram se enquadrar. O casório é em janeiro de 2008. Vivam nos noivos!

Então me dei conta de que, depois do casamento de outra prima, por parte de pai, marcado para agosto desse ano, e do casório da minha prima querida no começo do ano que vem, me tornei a próxima na linha sucessória da família. E não vejo ninguém à minha frente!...

O pior de tudo é que até hoje absolutamente todas as minhas cinco primas mais velhas (e a minha irmã) se casaram (ou casarão) exatamente como manda o figurino: com um bom homem, na igreja, em cerimônia celebrada por um pastor (as duas famílias são protestantes), de branco, com direito a aliança e festão pra mais de 200 convidados.

Quando a minha irmã se casou eu pensei secretamente: “papai, mamãe, aproveitem bem esse momento, pois ele será único na vida de vocês...”. Eu já sabia que nunca me casaria na igreja e, mesmo namorando naquela época e curtindo a idéia de rituais, também desconfiava que morar junto seria o primeiro passo antes de pensar em algum tipo de celebração. E mesmo a tal celebração, se houvesse, certamente não seguiria os moldes dos casamentos tradicionais.

Hoje em dia, porém, já fui ainda mais longe nas minhas elucubrações sobre o futuro: será que algum dia eu vou sequer juntar os meus trapinhos com alguém? E isso não é um discurso amargurado e anticasamento, é apenas uma constatação sobre a imprevisibilidade da vida. Poucas pessoas que eu conheço são tão românticas quanto eu. Quase nenhuma das minhas amigas curte tanto a idéia de “se amarrar” quanto eu curto. Quando amo (reformulando: até hoje, quando amei...), nunca lamento o fato de estar comprometida e não sinto falta da liberdade da vida de solteira. E acho que, desde sempre, a idéia de casar e ter filhos é um dos meus maiores desejos e aquilo que talvez atribua mais sentido à existência.

Ainda assim, ao longo dos últimos 22 meses da minha vida, comecei a exercitar o pensamento sobre a possibilidade de isso nunca vir a acontecer e traçar rotas alternativas para que a minha vida possa vir a ter tanto ou mais sentido quanto eu encontraria se pudesse realizar aquele meu sonho original. Por mais que se diga “que é isso! Você só tem 29 anos!”, passei a sentir uma necessidade leonina de aprender a me pensar como uma pessoa completa mesmo sozinha.

Tenho certeza de que ainda vou viver muitos encontros nessa vida, e espero que cada uma das coisas que eu vivi até hoje esteja me preparando para vivê-los cada vez mais intensamente e extrair deles o máximo de prazer, dor e ensinamento. Mas quero também ter a certeza de que, se por uma falta de sorte nenhum desses encontros for mágico o suficiente para me fazer desejar dividir a minha vida com outra pessoa, ainda assim posso me sentir feliz e realizada.

Acho que tenho feito um bom trabalho até agora. Mas é inevitável, de vez em quando, se render a essas pequenas fantasias que acompanham as meninas desde sempre: pensar no seu vestido de noiva, na música que você queria que tocasse na sua entrada triunfal, em quem seriam os seus padrinhos... Só falta mesmo um pequeno detalhe para completar o quadro: o noivo!

Por que é que nenhuma das minhas primas resolveu fazer a Revolução antes de mim, casar com uma mulher, entrar para um harém, namorar um casal (acreditem, isso existe), enfim, romper com os paradigmas? Bem, simplesmente não aconteceu... E felizmente, cada uma delas, a meu ver, encontrou a felicidade ao seu modo.

Enquanto isso, estou aqui trabalhando com afinco para encontrar o meu...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Mulheres apaixonadas

“O dia do meu casamento foi um dia muito, muito feliz na minha vida. Embora a gente já morasse junto há algum tempo, resolvemos casar no civil. Eu e ele queríamos oferecer uma festa para os amigos, e alguém precisava pagar por essa festa... Mas, além disso, muito acima disso, eu quis dar esse casamento de presente para o meu pai. Eu era a filha mais nova, a única que ainda não tinha casado. E fiz questão que o meu pai me conduzisse até o juiz de paz diante de todos os meus amigos, que me levasse pelo braço e me entregasse para o meu futuro marido. Ensaiamos essa entrada milhares de vezes. Se você me perguntasse naquela época, eu não saberia te dizer por quem estava mais apaixonada: se por ele ou pelo meu pai...”.

terça-feira, 4 de março de 2008

Loucos

Eles estão por toda parte. Às vezes vestem terno e gravata, tailleurs, exibem cargos importantes e se escondem por trás de uma grande fachada institucional. Desses eu quero distância, embora seja impossível escapar de ter pelo menos um ocupando um papel importante na sua vida.

Os que me interessam mesmo são aqueles que vivem a céu aberto, dizendo suas verdades aos transeuntes, exibindo as entranhas que todos nós, ao longo da vida, aprendemos a ocultar.

No bairro da minha mãe havia um. Estava sempre descalço, sentado no chão em frente à padaria, em uma pose infantil com as pernas esticadas e abertas e um pedaço de papelão à sua frente. Falava muito sozinho. Tinha a pele morena e a cabeça calva. Às vezes, em meio ao seu solilóquio, parecia um pouco agressivo, por isso meu coração de menina nunca teve coragem de se aproximar. O que mais me atraía e aterrorizava eram os desenhos sempre iguais que ele fazia no pedaço de papelão, com uma velha caneta esferográfica: eram bustos de seres meio-homem, meio-macaco, como as figuras de 2001 – Uma Odisséia no Espaço ou do Planeta dos Macacos.

Aqueles homens-macacos exerciam em mim o mesmo fascínio e repulsa que as cobras. Não há como não olhar, mas não há como olhar e não se sentir repelido. Ele fazia parte da paisagem, do caminho de casa. Ele e sua caneta esferográfica, seu pedaço de papelão, sua pose infantil, seu monólogo agitado e seus homens-macacos.

O louquinho do meu bairro é de outro tipo. É aquele que a gente costuma chamar de “louco manso”. Idoso, sem um dente na boca, rosto enrugado, cabelos branquinhos. Está sempre caminhando e conversando, com alguém que pode ou não estar lá. Às vezes me diz frases incompreensíveis, desconfio que faz críticas a políticos ou defende alguma teoria conspiratória.

Ele adora as minhas cachorras e, acho eu, me adora também. Lembro muito bem da primeira vez em que nos encontramos, como ele exibiu a gengiva banguela e disse como elas eram bonitinhas. Desde então, sempre que o encontro, faço questão de parar, dar bom dia/boa tarde e esperar que faça uma festinha nas cachorras e o seu mini-discurso.

Uma vez fui tomar um lanche perto de casa com minha mãe e encontramos com ele. Eu a apresentei a ele como se apresenta a mãe a qualquer amigo. A mãe-sereia estranhou um pouco, mas entrou na história. Percebeu que ele era inofensivo.

Em outro dia quente e modorrento, topei com o “meu louquinho” no caminho de volta para casa. Ele sorriu de longe as gengivas vermelhas, se abaixou para aguardar a chegada das cachorras, me olhou com olhinhos brilhantes e saudou: “as bonequinhas!”.

Quando cheguei mais perto, dei boa tarde, esperei que concluísse os afagos nas chuquinhas e então ele disse, entre tímido e galante: “são três!”. Cogitei que ele estivesse enxergando uma terceira cachorra imaginária e resolvi entrar na brincadeira: “Três bonequinhas? Cadê a terceira?”. E ele respondeu, exibindo a banguela e me apontando o dedo: “É você!”.