terça-feira, 14 de agosto de 2007

I could definitely live with that!

Conversando com uma amiga ao telefone, me dei conta de algo que vinha percebendo há alguns dias, mas a que ainda não havia conseguido dar forma.

Enquanto me contava como tem sido difícil chegar a um diagnóstico a respeito de um problema de saúde com o qual convive há anos, minha amiga comentou o quanto tem sentido que as coisas e as pessoas são previsíveis. Não apenas os médicos ou terapeutas – cujas falas monótonas ela quase consegue antecipar – mas até mesmo filmes, amigos, livros.

Então contei a ela que comigo tem acontecido exatamente o contrário. Seja por um motivo ou por outro, ou por uma conjunção de fatores, não me lembro de haver me sentido tão surpreendida e deslumbrada com a vida e as pessoas como agora.

Odeio drogas sobre todas as coisas, nunca pus um cigarro na boca e conto nos dedos das duas mãos as vezes em que bebi na vida (ainda estou devendo um post sobre minha relação com o álcool). Mas se tivesse o mau-gosto de querer relacionar o meu temperamento ao efeito de uma droga, diria que ele está muito mais próximo à viagem da maconha. Sempre fui tranqüila, calma, paciente, levemente melancólica e um pouco pendente para um comportamento depressivo. Sempre brinquei que, de todas as perebas psiquiátricas que eu poderia vir a ter, jamais me enquadraria num quadro de TOC e provavelmente de nenhum outro transtorno de ansiedade.

Ultimamente, no entanto, me sinto num momento “with or without you” (com a diferença de que, nesse caso, eu definitivamente poderia viver com isso para sempre). Isso, é claro, eu só diria se tivesse o mau-gosto de usar os efeitos das drogas como metáfora para alguma coisa. (O melhor de tudo é pensar que isso está acontecendo sob o mais genuíno efeito da caretice.) Fato é que o mundo nunca me pareceu tão colorido, sonoro, vibrante, excitante.

As pessoas, particularmente, me parecem fascinantes. Desejo conhecer a história de vida de cada uma delas. A cada dia me surpreendo encontrando afinidades com alguém, fazendo um novo amigo, redescobrindo um antigo. É uma incrível sensação de conexão com as pessoas.

Meus problemas com o trabalho – e até mesmo com a minha profissão – me parecem perfeitamente administráveis. Não tenho medo do futuro, nem me sinto ansiosa para que ele chegue rapidamente. Simplesmente vivo um dia de cada vez extraindo deles todas as pequenas alegrias que podem me proporcionar, e também as grandes lições.

Essa percepção é tão exacerbada que ouço minha mãe contando algo sobre o seu projeto de pesquisa e penso: “que mulher brilhante!”. Assisto à nona temporada de Friends e a cada risada penso: “que cena genial! Como alguém é capaz de escrever algo tão espirituoso?”. Minha analista me analisa como faz há anos e eu me pego matutando: “Bingo! Como é que ela consegue?” Minha cachorra aciona acidentalmente o alarme do meu carro para rastreamento via satélite e eu simplesmente penso: “Que danada! Ela é mesmo incrível...”.

Contando à minha analista sobre o meu episódio de insônia de sexta para sábado – e como isso reverteu em uma inacreditavelmente egotrípica entrevista ao Jô Soares –, tentei enumerar rapidamente alguns motivos que poderiam estar contribuindo para esse momento de euforia: criei um blog, fechei um novo apartamento para morar, estou gostando de um mocinho (platonicamente, e mesmo assim me sinto feliz)...

Realmente todas essas coisas têm me tirado o sono e demandado algumas horas diárias (e noturnas) de elucubração. Mas tendo a achar (e desejo acreditar) que é mais do que isso – embora nada disso seja pouco.

Quando fui terminada do meu último namoro, depois de algumas semanas mandei um e-mail a um amigo pedindo que me jogasse um botinho salva-vidas. Ele havia passado havia cerca de um ano por uma situação muito parecida (talvez um pouco pior), se separando de uma namorada com quem estivera junto por cinco anos e inclusive morado junto. Perguntei a ele, do fundo das minhas cobertas: “existe vida após o fim do namoro?”

A resposta me pareceu alentadora na época, mas só alguns meses depois fui realmente entender o significado daquelas palavras. Mais de uma vez tive de escrever a ele para dizer: “você não faz idéia de como tudo aquilo que me disse faz sentido... é EXATAMENTE isto”.

Seguem aqui os melhores momentos daquelas inspiradas mensagens:

“Existe sim, e como, e é uma vida melhor, sem dúvida.
O luto vai durar meses, infelizmente.
A tristeza e a saudade se diluem mas não vão embora.
Desculpe falar assim tão cruamente.Parece loucura o que vou dizer mas você ganhou uma oportunidade de se transformar.O momento que você está vivendo exije isso de você e você escolhe qual vai ser a transformação.
Eu senti muita raiva da pessoa que me disse isso na época e ri da cara dela.
Pode ficar com raiva mas a primeira frase do email é fato: existe vida e é muito melhor. A sua vida nova vai ser mais verdadeira, mais sua e mais próxima do que você sonha pra você.
Sem dúvida as minhas palavras soam abstratas e sem dúvida a sensação é de que as coisas fogem do controle. Senti muito isso.É muito difícil explicar por que a vida vai ser melhor mas você vai vivenciar isso, eu aposto.
É um tipo de experiência que forja o caráter, sabe?
Sabe aço temperado? Quando ele está incandescente o ferreiro põe na água gelada e ele fica mais resistente (que não significa duro).Acho importante você olhar muito pra você e para o que você quer pra você. Momento só ‘eu’.
Quando você se permitir sentir muita raiva (não sei se já é o caso) você vai ter um combustível precioso para realizar o que estiver desejando.”

Ao amigo, peço desculpas pela reprodução das suas palavras sem a prévia e devida autorização. Mas agradeço, mais uma vez, profundamente, pela sabedoria.

Felizmente ou não, nunca passei efetivamente pela parte de sentir “muita raiva”. Talvez eu simplesmente não tenha vindo ao mundo equipada para isso. Mas todo o resto está acontecendo e o que posso dizer é que é muito, muito bom.

Vejam como a vida é incrível. Eu gostei de levar um fora? Não. Superei totalmente o ex? Não. Deixei de sentir falta? Não. Deixei de amá-lo? Tendo a achar que não (e digo isso confessionalmente apenas para vocês – não contem a mim mesma). E, ainda assim...

Ah... A vida é bela!

Pequena epifania em uma segunda-feira qualquer

Basta de comer no escritório. Falta luz do dia, sol, pessoas, movimento. Faltam folhas, suco de laranja, comidinha do Di Nóca. Caminho devagar, não tenho pressa, há tempo para tudo. Não há de ser nada, o pé agüenta (já agüentou até agora).

Na volta do almoço, meus olhos dobram a esquina e se encontram com os de um moço, já a uns três metros de distância (de proximidade). São três segundos de olhar sustentado com coragem, não sei se ele é bonito ou feio, sei que os olhos grudam em mim e também não consigo desgrudar deles, até não ter como continuar olhando sem virar o pescoço e então sigo andando e mirando logo adiante na calçada.

Que coisa. Dei pra fazer isso de vez em quando, olhar profundamente, insistentemente, até o rosto corar e as orelhas esquentarem e a vergonha ser mais forte do que a curiosidade e o frisson.

E muitos olham de volta (outros desviam no ato). E sempre fico me perguntando até onde agüentaria sustentar o olhar e se alguma história poderia nascer disso (oi! Não pude deixar de reparar nos seus olhos...).

Venci já uns bons metros e quase um minuto se passou. Me pergunto: será que ele virou para trás para me olhar novamente? Me sentindo a uma distância segura, ainda caminhando, viro o pescoço para trás, apenas o tempo suficiente para perceber que o moço está novamente a três metros de distância, caminhando logo atrás de mim.

Volto o rosto para a frente com o coração aos pulos. Ele voltou! Está me seguindo! Será que vai ter coragem de falar comigo? Pensei que essas coisas só acontecessem em novelas...

Ando mais alguns passos com a respiração ofegante. Talvez ele simplesmente me siga mais um pouco para tentar descobrir onde vou, quem sou, se trabalho aqui perto.

No farol, aproveito a deixa para olhar para trás, casualmente.

Ele sumiu.

Talvez tenha simplesmente se dado conta de que esqueceu alguma coisa, resolveu fazer um caminho diferente ou mudou de idéia quanto ao que estava para fazer.

Eu e você jamais saberemos, porém.

sábado, 11 de agosto de 2007

Programa do Jô – delírios egotrípicos numa madrugada insone

(Amiga, esse vai pra você. Olha a birutéia que a nossa troca de e-mails de hoje fez brotar na minha cachola)
******************************
Jô: Eu vou conversar com a Mulher Solteira, que tá lançando pela Editora Planeta o livro “Mulher Solteira: manual da proprietária”. Vem pra cá, Mulher...

[APLAUSOS]

Jô: Como é que surgiu a idéia de escrever o livro?

Mulher: Então, Jô, na verdade o livro nasceu de um blog que eu criei na Internet no ano passado, que se chamava Mulher Solteira...

Jô: ... chamava? Não existe mais?

Mulher: É, por questões contratuais encerrei esse blog depois da publicação do livro, mas já estou bolando alguma coisa nova para os próximos meses. Não dá, agora não consigo mais ficar sem escrever...

Jô: E quanto tempo levou para escrever o “Mulher Solteira: manual da proprietária”?

Mulher: Ah, eu já tinha muitos textos prontos quando a editora me convidou para lançar o livro... na verdade foi mais uma questão de escolher os melhores, de tentar fechar um conjunto relativamente coeso, que “ornasse”...

Jô: E a proposta do livro é realmente ser um manual, tem dicas, instruções?

Mulher: Não, Jô, na verdade esse título é só uma brincadeira... o livro é bem auto-biográfico, são relatos pessoais escritos em forma de crônicas, todas de alguma forma relacionadas à condição da mulher solteira... na verdade, à minha condição de mulher solteira na época em que criei o blog...

Jô: Conta um pouco pra gente como foi que nasceu o blog.

Mulher: Então, Jô, eu na verdade vivi uma situação bastante comum, ordinária até... eu tive um namoro longo...

Jô: ... de quanto tempo?

Mulher: ... quatro anos... aproximadamente quatro anos.

Jô: Sei.

Mulher: Então, e quando eu achei que estava tudo nos conformes, que a gente ia juntar as escovas de dente e tal, levei um pé na bunda sem aviso prévio e sem precedentes na história da civilização ocidental...

[RISOS]

Jô: ... como assim?

Mulher: Não, eu tô exagerando, não foi nada grave... eu digo isso brincando porque realmente não tive nenhuma percepção de que o relacionamento fosse terminar, foi meio chocante mesmo... passei uns meses catatônica antes da ficha cair de vez.

Jô: Mas você comenta, em alguma passagem do livro, que o seu ex já havia terminado outras vezes com você, não é? Como que de repente esse término te pegou tão desprevenida?

Mulher: Ah, Jô, na verdade esse era um relacionamento fadado ao fracasso desde o início. Quer dizer, era claramente uma roubada: saca homem com medo crônico de compromisso? Com síndrome de filho único?

Jô: Não... eu sou filho único e não faço a menor idéia do que você está falando... Explica...

[RISOS]

Mulher: Ah, filho único não sabe dividir, acha que o outro tem sempre que se amoldar ao seu desejo, acha que fazer alguma coisa para agradar o parceiro é se agredir, passar por cima de si mesmo... minha experiência me diz que é muito mais difícil estabelecer parcerias amorosas duradouras com filhos únicos. Não é que seja impossível, mas olha... dá trabalho, viu?

Jô: Mas e aí, então quer dizer que o namoro já ia terminar de qualquer jeito... ainda não entendi a sua surpresa.

Mulher: Então, eu vou explicar. Acontece que o namoro começou fadado ao fracasso, tanto que rolaram vários términos... e não vou dizer que tenha sido tudo culpa do ex, eu também tinha milhares de problemas, evidentemente... quem é normal que atire a primeira pedra, né?

Jô: Tem uma senhora ali no canto se preparando pra atirar, cuidado...

[RISOS]

Jô (para a senhora da platéia): Como é o seu nome?

Senhora: Sônia...

Jô: Sônia, você acha que você é normal? Gente, nesses casos é melhor não contrariar...

[RISOS]

Jô: Brincadeira, viu, Sônia? A gente sabe que você é normalíssima, como todos nós, não é Mulher?

Mulher: Com certeza...

[RISOS]

Jô: Bom, mas continuando...

Mulher: Então, o que eu ia dizer é que lá pelas tantas, depois de a gente bater muita cabeça, se descabelar, chorar, se desesperar, a partir de um certo momento as coisas pareciam ter entrado num prumo... cê vê, Jô, a gente já estava namorando com relativa estabilidade há dois anos e meio quando ele resolveu terminar.

Jô: Sei... mas então conta pra gente do blog.

Mulher: pois é, tudo isso pra chegar no blog... o fato é que eu fiquei meio catatônica com esse término e tive uma certa dificuldade pra me reinserir no mercado amoroso, até porque não imaginei que um dia precisasse voltar a navegar pela Selva dos Solteiros... e foi a partir disso, das minhas dificuldades, das descobertas, que eu comecei a pensar na idéia de escrever esse blog. Na verdade eu sempre gostei de escrever, mas nunca tinha tido uma motivação forte pra criar um projeto de um livro ou coisa do tipo. O blog é bacana por isso, é mais descompromissado, mas também é bem interativo, as pessoas entram, comentam, se identificam...

Jô: É verdade que o seu blog já chegou a ter mais de 500 acessos diários?

Mulher: É sim, na época em que a editora se interessou em publicar o livro o blog estava bombando, e muita gente entrava pra ler por meio de outros blogs, ou mesmo de alguma busca no google ou outros sites de busca, e acabava se identificando, gostando, dando risada... e aí muita gente dizia “Mulher, isso devia virar um livro”... mas até então eu não achei que estivesse fazendo alguma coisa realmente original, tem muita gente boa na blogosfera e escrevendo com um “estilo” muito parecido com o meu...

Jô: E aí pintou o convite da editora...

Mulher: Pois é, pintou e eu resolvi arriscar... é uma coisa engraçada porque os textos acabam tratando de coisas muito, muito íntimas... mas eu sempre vivi um pouco esse paradoxo, eu sou do tipo que precisa falar à exaustão sobre um problema ou uma mágoa para conseguir superar, sabe? E a coisa mais fácil pra mim é falar sobre as minhas entranhas com um perfeito desconhecido. Só que do blog pro livro parece que a coisa fica mais séria, você sabe que o seu pai vai ler, a sua mãe... até o ex, a namorada do ex, né? É pesado!

Jô: E o ex leu?

Mulher: Imagino que sim, mas hoje em dia não tenho contato com ele.

Jô: E seus pais?

Mulher: Leram e deram a maior força, mas não tive coragem de entrar em muitos detalhes com eles...

Jô: É mesmo? Eles descobriram que você não é mais virgem, é isso? Ih! Falei!

[RISOS]

Jô: Como é o nome da sua mãe?

Mulher: Mulher Casada.

Jô (olhando pra câmera): Dona Mulher Casada, não é nada disso que a senhora tá pensando... a sua filha é uma moça pura, direita... é tudo calúnia, não acredita no que disserem pra senhora, viu?

[RISOS]

Mulher: Não Jô, acho que essa parte eles já superaram, viu? Eu me lembro que na época em que comecei a namorar, meu namorado morava no Rio e na primeira vez que eu viajei pra lá pra encontrar com ele o meu pai veio se despedir de mim e falou, bem sério: “Minha filha... não faça nada que você não esteja preparada pra fazer ou de que vá se arrepender depois...” e eu só consegui pensar “ih, pai, agora é tarde...”.

[RISOS]

Jô: Que maravilha...

Mulher: Jô, mas sabe que uma vez um amigo fez um comentário interessante sobre o blog, ele disse que gostou do jeito que eu abordava a questão do sexo, porque não deixava um leitor mais acanhado se sentir constrangido, acuado... e eu achei super bacana esse comentário porque realmente não sou das pessoas mais desbocadas, embora seja super sincera, e brinquei com ele que se um dia meu pai ou minha mãe descobrissem o blog eu não queria ter que cavar um buraco no chão de vergonha...

Jô: Conta pra gente como é a história do PA e do ATT.

Mulher: Ai, Jô... agora você vai me deixar com vergonha...

Jô: ...

Mulher: Vamos deixar a platéia matar a curiosidade lendo o livro, não é?

(Jô olhando atônito para a câmera)

Platéia: NÃÃÃÃÃÃO!!!

Jô (com ar de piada): Bom, eu conversei aqui com a Mulher Solteira...

Mulher: Tá bom, Jô, eu conto. Na verdade PA e ATT são duas modalidades de relacionamento típicas da pós-modernidade entre pessoas solteiras, mas do ponto de vista das mulheres. O PA... pode falar?

Jô: Claro, aqui pode tudo!

Mulher: Então, o PA é a abreviação de Pinto Amigo...

Jô (olhando para a câmera): Dona Mulher Casada, a senhora não quer ir buscar um copo d’água na cozinha?

[RISOS]

Jô: Tô brincando... continua...

Mulher: Então, o PA é aquele cara que a mulher conhece, rola uma química, eles dormem juntos e depois mantém uma relação casual para satisfazer as suas necessidades, vamos dizer, biológicas, né? Mas de um jeito bacana, o PA é justamente um Pinto Amigo porque rola um carinho, uma amizade...

Jô: Sei. E o ATT...

Mulher: Teoricamente o ATT também pode significar a mesma coisa, mas eu acabei dando uma conotação um pouco diferente. ATT é a abreviação de “Amigos Também Transam”...

Jô: Amigos Também Transam... que maravilha isso.

Mulher: Pois é, mas o ATT em geral começa quando duas pessoas já são amigas e acaba rolando uma energia gracinha e a amizade fica mais colorida... Só que eu, na verdade, nunca tive um ATT. É que dependendo do cara eu usava a teoria do ATT pra ele ficar mais confortável, pra não se sentir usado, um objeto sexual, né? Achei que ATT era mais digno do que PA...

[RISOS]

Jô: E me diz uma coisa (com ar de galã)... você continua solteira?

Mulher: Não, graças a Deus... encontrei um homem pra chamar de meu (risos)...

Jô: E ele tá aqui hoje?

Mulher: Sim, tá ali na platéia, é aquele homem moreno maravilhoso, charmoso, gostoso...

Jô: Boa noite, tudo bem?

Homem: Tudo bem, Jô...

Jô: Quer dizer que ela te fisgou?

Homem: Me enquadrou total! Não teve como dizer não.

Mulher: Mentira, Jô... ele me deu um trabalho danado... eu cheguei cheia de amor pra dar e ele disse que a gente podia ser amigos... foram meses de luta!

Jô: Mas valeram a pena... parabéns, viu? Vocês formam um lindo casal.

Mulher: Obrigada...

Jô: Agora, mata aqui a minha curiosidade... e o ex?

Mulher: Ah, acho que ele tá lá com a namorada dele... nunca se sabe, esses homens instáveis sempre acabam surpreendendo a gente.

Jô: É verdade que ele era músico e fez várias músicas pra você?

Mulher: É verdade... ter ex namorado músico é fogo, viu... imagina um dia você abrir o You Tube e dar de cara com uma gravação do ex cantando a música que fez pra você. É de cortar os pulsos...

Jô: E parece que você canta também, né?

Mulher: Ai, Jô, eu sabia que você ia fazer isso comigo... eu sou super tímida...

Jô: É nada, sua danadinha... eu sei que você está louca pra cantar alguma coisa!

Mulher: Ai, mas o meu pai deve tar assistindo e eu tenho certeza que vou desafinar!

Jô: Canta só um trechinho de uma música que o ex fez pra você.

Mulher: Ai meu Deus... tá bom, vai... olha, vocês vão ver como não foi por falta de aviso do ex... mas eu me encantei com o refrão e acabei não prestando atenção na primeira estrofe. O sexteto pode acompanhar?

Jô: Claro... Maestro Osmar, por favor…

Mulher:

“E o que vai ser de nós amanhã, meu amor
Eu não sei, eu não posso saber
Ah, só me resta viver esta chama
Desistir de tentar entender

Porque esse amor é coisa lá do céu
Luz de uma estrela que varre o universo
E me aquece inteiro

Então já posso abraçar o céu
Porque a saudade é vida latejando
É o meu coração esperando
O porto azul dos olhos teus...” E por aí vai...

[APLAUSOS EMOCIONADOS]

Jô: Wow! Olha, gente, eu conversei aqui com essa gracinha da Mulher Solteira... que além de ser inteligente e carismática, também é uma simpatia... Mulher, muito obrigada pela sua presença, e daqui a pouco a gente volta.

Mulher: Obrigada, Jô...

[VINHETA DE INTERVALO]

Curtas

I

Orgulho de mamã

Acabo de ir e voltar da Praça Roosevelt de carro. Sozinha. Quem falou, falou certo: é ridículo.

II

Mulherzinha


Compra-se espírito prático de segunda mão. Pagamento à vista e em espécie.

III

Dois exercícios de paciência


Um pé e um coração.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Devaneio

Eu havia me esquecido o quanto uma soneca em uma viagem de ônibus pode clarear os pensamentos. Há que se observar a duração certa da viagem, é claro. Nos meus tempos de namoro à distância, quando voltava destruída para São Paulo sem saber quando encontraria meu namorado novamente, as seis horas que separam o Rio de São Paulo quase me aniquilavam. É verdade que o choro ia amansando, as lágrimas secas iam endurecendo as bochecas e aos poucos o sono amortecia um pouco a percepção das distâncias. Mas a cada despertar, a consciência de estar a meio caminho entre ele e a minha vida era igualmente dolorosa.

De São Paulo a Campinas se vai em uma hora e meia de ônibus. Sai um carro da rodoviária a cada vinte minutos; não há ansiedade na compra da passagem. Pegando o ônibus das 11h35, aproveito o interminável sono da manhã para chegar mais rápido. Nem abro a revista. É um sono pesado, de vez em quando perturbado pelo incômodo no pescoço que não se ajeita no encosto da poltrona, mas de cochilo em cochilo se vai ao longe. E o despertar após a primeira perda de consciência já me traz a cabeça clareada, as idéias renovadas.

Porque afinal não cheguei a te conhecer. Então me despeço não de você, mas de uma idéia de você. Essa dor que eu sinto não é por alguém real, por alguém que verdadeiramente me conheceu, me amou e não me quis mais. Eu já vivi essa dor e essa, sim, pode destruir uma pessoa. Mas não a dor de perder a idéia de alguém. Essa é dor passageira, incômoda, mas inofensiva. É uma decepção pela perda de um ideal, mas não de alguém de carne e osso.

E porque, afinal, você também não chegou a me conhecer. O que você recusa é uma idéia de mim, mas não eu. E se você não quis me conhecer, paciência. Sei que vai haver alguém que queira. Em algum lugar, em algum dia, mais cedo ou mais tarde.

E assim tudo fica mais fácil. Porque não dói tanto deixar partir a idéia de alguém, e nem dói tanto que alguém rejeite uma idéia sobre mim (mas não a minha essência).

Entre uma viagem e outra, um dia e uma noite na companhia da família. Tempo para conversas, boa comida, reencontros, carinha doce da Yasmin, filme gostoso com a prima, descanso. E na volta, outro sono restaurador, que me traz de volta para São Paulo mais perto do meu centro a duras penas conquistado.

O metrô de São Paulo não tem o mesmo glamour em uma segunda-feira de manhã. As pessoas parecem mais cansadas, resignadas. Mais sofridas, mal-ajambradas. Ainda assim, a vida continua, porque tem que continuar.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Desenterrando pré-posts

Agora que já delineei um pouco as “quatro estações” do meu último ano amoroso, vai ficar mais fácil localizar no tempo alguns textos que escrevi antes do Mulher Solteira nascer. Eu queria fazer isso para que os leitores não se sentissem muito compadecidos da minha pessoa, querendo me consolar ou se preocupando com a minha falta de rumo no retorno à solteirice. Gente, águas passadas! Tô muito mais safa. Mas o texto abaixo, originalmente escrito em outubro de 2006 e um dos precursores desse blog, dá um pouco uma idéia de como andava a minha cabeça nos tempos da “reambientação”.
************************************************
Reaprendendo a jogar
Depois de levar um pé na bunda sem aviso prévio do meu namorado de quatro anos apenas um mês e meio depois de termos comprado um cachorro juntos, uma semana depois de termos concordado que dali a algum tempo iríamos morar juntos e dois meses depois de ele dizer que se sentia cada vez mais feliz com o nosso namoro, eu definitivamente concluí que a minha vasta compreensão a respeito da maneira como ele pensava ou sentia era pouco mais extensa do que uma folha de alface.

Convenhamos que, para além da dificuldade de compreensão natural entre duas pessoas que se relacionam, é um fato que compreender a cabeça dos homens é um dos grandes mistérios que rondam a existência feminina, assim como os homens se debatem tentando compreender o que pensam as mulheres. Marte X Vênus talvez seja uma das grandes questões estruturais, atávicas, arquetípicas que sustentam a existência humana.

Já que a vida, contra a minha vontade, me empurrou de volta ao mundo dos sem-parceiro, decidi, apenas por hobby, voltar a praticar esse esporte radical que é tentar compreender a cabeça dos homens solteiros.

A primeira e grande pergunta que não quer calar e acomete dez entre dez solteiras, no estágio 1 de busca pela metade-da-laranja, é a clássica “por que ele pede o meu telefone e não me liga depois do primeiro encontro?”. Que fique claro que eu não fui pra balada achando que encontraria a minha metade-da-laranja e nem tive essa ilusão depois de ter ficado com os mocinhos que fiquei. Mas nesse momento de retorno à Selva dos Solteiros, conseguir ter contato físico de qualidade com parceiros relativamente passáveis não me parecia uma má idéia e, se a noite foi boa, não consigo imaginar por que não repetir a dose. Como diria uma certa amiga, um PA (Pinto Amigo) não faz mal a ninguém.

Eu confesso que não achei que fosse ser tão difícil conseguir olhar para o mesmo sujeito duas vezes (e não porque eles fossem feios). Pelo menos nas minhas já desbotadas lembranças de solteira dos idos dos anos 90, para cada homem que não ligava nos dias subseqüentes à ficada havia pelo menos um que queria te encontrar de novo.

Aqui pelas minhas estatísticas, 66,6% dos meus “ficantes” desse retorno à vida de solteiro não se deram ao trabalho de me ligar depois da nossa primeira “ficada”. Antes que vocês se sintam otimistas a respeito dos 33,3% restantes, devo informar que o único sujeito que ligou é um homem comprometido que não demonstrou absolutamente nenhum pudor em botar chifres na provavelmente bem pesada cabeça da namorada de nove (NOVE! NO-VE!!!) anos.

Que conste nas atas que eu obviamente não sabia disso quando fiquei com ele (e que ele, com a dissimulação cafajeste de que só alguns homens são capazes, jogou na minha cara que eu não tinha por que me sentir tão espantada, já que não perguntei a ele o seu estado civil antes que ele tomasse a iniciativa de ficar comigo).

Depois que a vida, contra a minha vontade, me empurrou de volta ao mundo dos sem-parceiro (e me perdoem as repetições, mas o momento exige bastante em termos de assimilação e acomodação), logo de cara fiquei impressionada de perceber quanta coisa mudou nesses quatro anos em que estive fora do mercado. Para começar, aquelas avançadinhas de sinal que aconteciam de vez em quando lá pelos idos dos meus 20 anos, reservada apenas aos homens mais ousados, às mulheres mais liberadas e às pistas de dança mais escuras, viraram a regra nas ficadas de hoje em dia. Eu, pelo menos, já constatei que três em três caras já quiseram passar a mão em tudo logo de cara.

Com o primeiro eu assustei mas pensei: “puxa, devo estar desatualizada...”. Quase pedi desculpas pela minha antigüidade. Cheguei mesmo a verbalizar, entre constrangida e tímida: “posso te falar uma coisa? Sabe o que é, eu fico meio constrangida de você tentar passar a mão na minha bunda assim, na frente de todo mundo...”

O cara me olhou com um sorriso de orelha a orelha, pediu desculpas e acrescentou: “Nossa, adorei que você disse isso, sabia?”

Eu, do alto da minha ingenuidade, pensei com os meus botões: “então é verdade o que se diz: homem gosta de mulher recatada, que põe limites. Legal, o cara valorizou.”. Na seqüência o garanhão emendou: “A maioria das mulheres simplesmente tira a nossa mão. Eu acho isso muito chato!!!”

Peraí... o cara simplesmente pega na bunda da menina dez minutos depois de conhecê-la e se ofende quando ela tira a mão dele de lá???

Esse rapaz é um forte candidato às cabeças no campeonato de falta de noção dos homens que eu conheci até agora.

Com o segundo, que por sinal era um antigo coleguinha de escola de apenas 24 aninhos, eu, me sentindo a “tia véia” diante das investidas do ninfeto, tentei pela via do afeto: “olha, posso de falar uma coisa? Você não tem nada a ver com isso, mas eu terminei há quatro meses um namoro de quatro anos... tô meio enferrujada...”.

E o rapazola responde: “desculpa, tia... é que eu sou meio taradinho”.

Ah, desculpa, ele não disse “tia” não! Foi o meu cérebro que acrescentou.

Precisei passar por isso duas vezes para conseguir perceber que o problema não era comigo. Gente, será que os caras realmente acham que a gente vai gostar de ser bolinada na frente de 200 pessoas por um sujeito que acabou de aprender o nosso nome (SE e QUANDO aprendeu)??? Juro que o próximo cara que ficar comigo e se mostrar um perfeito cavalheiro com as mãos vai subir vários pontos no meu conceito.

Pelo menos com o último consegui estabelecer alguns limites – diga-se de passagem, a duras penas. Como é que você consegue dizer isso de um jeito educado, fazer o cara entender e não achar que você está simplesmente jogando um charme pra cima dele?

O mancebo tentava colocar as duas mãozorras por dentro da minha blusa e eu sutilmente puxava as mãos de volta para o lado onde deveriam estar, até que lá pelas tantas resolvi emitir um comando vocal-verbal (aê, Manélson!): “me deixa vestida, por favor”. O rapaz responde com meio-sorriso e cara de vilão-da-novela-das-oito: “deixo... aqui eu deixo”.

Essas questões relacionadas ao público e ao privado ainda não ficaram muito claras nessa minha reestréia. Acho que ainda preciso de algum tempo para me readequar a esses novos costumes. É o sinal dos tempos...

terça-feira, 31 de julho de 2007

Convite

Ela propôs, eu topei. Tá aí.

Queria ter escrito sobre alguma coisa mais descolada da minha realidade, mas sou que nem o Woody Allen (exceto pela genialidade), só consigo escrever sobre a minha vida. Todas as minhas histórias têm um mesmo e único personagem – eu. Paciência, paciência. Acolhamos nossas limitações, amém. Do limão à limonada, com dor e delícia e bastante gelo.

A pedido da proponente (que recebeu o convite de uma outra blogoamiga), estendo a proposta ao Gastón e à MH. Amigos, contem-nos sobre o seu “Dia perfeito”. Vale dizer: não há obrigatoriedade nem deadline. Se aceitarem o convite, basta repassá-lo depois a mais dois blogoamigos.

E vamos a ele:
Um dia perfeito

Meu pai uma vez me disse e eu nunca esqueci: “o ótimo é inimigo do bom”.

E o perfeito, seria inimigo do quê? Do possível, creio eu.

Como naquele dia. Se ele soubesse que eu havia passado praticamente três noites em claro esperando por aquele dia teria me achado louca, mais louca ainda do que poderiam fazer supor as minhas mensagens atrevidas. Acordada desde cedo, mas sem levantar da cama, segurei o telefone enquanto criava regras para tentar controlar a minha ansiedade: “se ele não ligar até as 13h15, eu ligo... não, mas vai que ele fosse ligar dali a cinco minutos... por outro lado, se ele não ligar e eu não sair para almoçar com alguém vou passar mais um dia de ansiedade, à toa. Eu não agüento isso! Mas ele também não pode perceber que eu estou tão ansiosa...”. Então me lembrei do comentário que ele fez a respeito do meu primeiro e-mail: que admirava o meu ato de coragem – mas melhor seria dizer de atrevimento, já que eu não havia arriscado nada. Esse é o espírito: por enquanto não preciso me preocupar em perder alguma coisa. Ligo. Ele me atende, simpático. Diz que sim, vamos almoçar juntos, não havia ligado antes porque acabou de acordar. Combinamos rapidamente o lugar e a hora, pergunto se ele sabe chegar lá e ele diz que se acha. Então pergunto: e como a gente se acha? Ele diz que vai me ligar de novo para dizer como está vestido. Penso em já adiantar como eu vou estar vestida – mas assim eu daria bandeira de que passei três dias escolhendo a minha roupa. Menos é mais, penso eu.

Vago pela casa entre a cozinha, o quarto e o banheiro sem conseguir começar a me arrumar. Parece que ainda falta uma eternidade para encontrar com ele. Penso em ligar para alguma amiga, mas percebo que não quero profanar esse momento com os meus próprios comentários histéricos. Quero gravidade, cerimônia. Quando consigo sair da letargia, percebo que tenho pouco tempo – muito pouco tempo – para ficar incrível. Saio de casa atrasada, é claro. Não consigo pensar em um bom caminho, é claro. Isso porque eu escolhi o restaurante. No meio do caminho ele me liga, atendo afobada: “tô atrasada!” Ele ligou para dizer que está atrasado também. Hum, pensei que ele faria o tipo pontual. Menos mal, já que sou incapaz de fugir dos meus dez minutos de atraso protocolar (será que também se atrasou se arrumando para tentar me agradar?). Aproveito para perguntar se ele conhece um caminho melhor do que o que estou fazendo. Ele tenta me explicar, mas ainda é cedo para alongar uma conversa desse tipo ao telefone e eu preciso de orientações extremamente didáticas para escolher uma rota alternativa, então digo para ele não se preocupar que eu chegarei lá.

A amiga liga no meu celular e comenta que encontrou com ele ontem, mas, como manda a discrição em situações como essa, não comentou nada. No meio da ligação toca a outra linha, é ele de novo, desligo depressa com a amiga e já vou me justificar pelo atraso novamente quando vejo um amarelinho. “Ai, já te ligo!”. Droga. É muito cedo para desligar o telefone assim na cara dele. Respiro fundo antes de ligar de novo, peço desculpas, ele já chegou e o restaurante tem meia hora de espera. Sugere outro ali perto, pede para eu pegá-lo na porta e de lá vamos juntos. Estou quase desligando, mas me lembro da pergunta-chave: “como você está vestido?” Calça verde, bota e casaco cinza chumbo. Não consigo visualizar muito bem a combinação... mas ele não sabe que a amiga me mandou uma foto deles aos doze anos, arma secreta, além do que não deve haver muitos outros homens esperando na frente do restaurante por uma perfeita desconhecida.

De longe vejo seu rosto sério, olhos grandes. Como os olhos da foto, mas hoje um pouco menos despreocupados. Ele entra no carro, nos cumprimentamos e logo passamos a tratar de assuntos práticos, talvez para tentar dissipar a tensão. Ele me explica como chegar no japonês – tem certeza de que você gosta? – digo que sim, que não se preocupe. Entramos e nos sentamos, a primeira etapa é a da escolha dos pratos. Não tenho um pingo de fome, mas preciso comer para não dar bandeira do estado do meu estômago depois de três dias de espera. Olho para ele a tempo de perceber que me observa, mas rapidamente escorrega os olhos para o cardápio, sem jeito. Terá me achado bonita? Está tentando ligar o rosto às palavras? Escolhemos o mesmo prato, mas cada um pede o seu acompanhamento. Enquanto a comida não vem, sou a primeira a comentar a cena: “que engraçado, né?”. Ele concorda.

Aos poucos começamos a conversa, o primeiro assunto parte dele. Diz que ainda não expliquei direito o meu trabalho. Repito a velha ladainha de que é impossível explicar meu trabalho em poucas palavras, ele diz que já supunha, já que eu escrevi que trabalho com educação, e não que sou professora. Digo que fracassei como professora, ele ri e percebo que entendeu rapidamente o que eu quis dizer. É reconfortante.

Ainda não consegue olhar nos meus olhos por muito tempo seguido. Percebo que é tímido. Não lembra nem um pouco o homem de palavras ríspidas da primeira mensagem que recebi. A amiga tinha razão: é preciso conhecê-lo para atribuir o sentido certo às suas palavras escritas. Aos poucos começamos a rir e ele fica mais descontraído, me olha nos olhos. A comida chega. Coisa difícil almoçar durante um primeiro encontro. Especialmente comendo com palitinhos. Levo mais de quarenta minutos para vencer metade do meu prato – sinto vergonha de fazê-lo esperar tanto tempo.

Percebo que o restaurante se esvazia, mas não quero que a conversa acabe. Não sei se ele também sente isso, mas continuamos a conversar alheios ao movimento. Me sinto tocada por ele se lembrar de pequenas passagens dos meus e-mails, comentá-las usando exatamente as minhas palavras. Eu já havia me esquecido como são os homens de carne e osso. Esses que não te olham com um olhar 46 durante vários minutos seguidos, porque também têm as suas inseguranças, porque também são gente. Não são hologramas construídos especialmente para brilhar durante a noite – têm contornos, volume, densidade... carne, ossos, sangue, enfim.

O garçom nos traz a conta sem termos pedido – explica que o caixa está sendo fechado (a cozinha já havia sido fechada antes, mas ignoramos isso). Não há constrangimento na hora da conta, cada um paga a sua parte sem que seja preciso tratar do assunto. Eu não gostaria que ele pagasse a conta para mim, ele talvez também preferisse dividi-la, então fico feliz porque pulamos uma cena dissimulada em que eu sugeriria rachar, ele insistiria em pagar, eu insistiria em rachar até ele pagar sem me deixar olhar o valor da conta. Não gosto de jogos, gosto que ele também não goste.

Caminhamos em direção ao carro, sempre conversando. Ele pergunta para que lado vou, acho que ia pedir uma carona, explica que não veio de carro, aliás, não tem carro. Arrisco um convite: “você tem alguma coisa marcada, quer tomar um café?”. Isso, boa, vamos tomar um café. Fico feliz com o aceite instantâneo (será por mim ou pelo café? Ele disse que é viciado em café, mas se não tivesse gostado de mim provavelmente deixaria para tomar em casa, não?). O trânsito na Augusta nos passa despercebido. Estacionamos e caminhamos em direção ao café, que está cheio. Ele pensa em outro lugar, depois fica em dúvida por causa do meu pé. Digo a ele que posso caminhar sem problemas, ele insiste que já paramos longe e se lembra de outro lugar mais perto. Fico feliz com essa delicadeza, embora realmente não me importasse de caminhar mais. Tudo parece mais concreto enquanto caminhamos – mais do que quando estamos sentados no meu carro.

Ele pede capuccino, eu fico com chá. Ele também está procurando apartamento. Conversamos sobre nossos planos – encontro formas de explicar um pouco o que se passa comigo sem sequer dar a entender que um dia houve um ex. É tão gostoso conversar com ele... Gosto de pessoas que sabem ouvir, mas que também são interessantes. Agora nos olhamos firme nos olhos. Me pergunto quanto tempo mais passaremos juntos – uma hora? Um dia? Um ano? Uma vida? Mas a irmã liga pela segunda vez e ele diz que agora acha que quer ir para casa, já havia combinado de encontrar com ela e faz tempo que não a vê. Tento disfarçar meu desapontamento, mas com fingida naturalidade sugiro que a gente comece a caminhar de volta para o carro.

E então, sentindo o ar de São Paulo gelar os meus dedos, meu nariz e minhas orelhas, decido ficar em silêncio. O que não falta é assunto, mas o que será que o silêncio pode trazer à tona? Não sei os motivos dele, mas me acompanha no silêncio. Tanto silêncio que chego a ouvir as batidas do meu coração, fortes, me dizendo o quanto eu queria que ele me beijasse naquele momento. Mas ele caminha com firmeza (embora devagar), olha para frente e talvez não esteja pensando no mesmo que eu. Quando chegamos no carro ele diz que vai para a direção contrária, faz menção de se despedir, mas insisto em levá-lo para casa. Não me custará nada – aliás, me dará o maior prazer.

Percebo que estamos chegando perto e já começo a antecipar o momento da despedida. Será que posso dizer alguma coisa atrevida? Hum. Talvez seja o momento de me recolher um pouco. Já fiz a minha parte, demonstrei interesse, ouvi o que não queria, dei a volta por cima, provoquei, enfrentei, ele me convidou para sair, não acreditei. Agora, no entanto, tudo isso já parece muito distante – nada do que aconteceu durante essa tarde lembra, de longe, o nosso duelo verbal. Paro o carro e ele tira o cinto e me agradece pelo passeio, diz que gostou de me conhecer. Sorrio e digo que também gostei. Ele diz que quer voltar a tocar, já que também estou cantando podemos combinar alguma coisa, diz que vai falar com a amiga. Fico feliz com a proposta – primeiro mais feliz com a possibilidade de isso ser uma demonstração de interesse. Só mais tarde me lembro o quanto também quero cantar mais, como queria que alguém me fizesse uma proposta como essa.

Quando ele desce do carro, fico sozinha com todas as minhas dúvidas. Será que ele gostou de mim? Ficou interessado? Ele realmente não parece fazer o tipo que agarraria uma mulher no meio da rua cinematograficamente... por outro lado, para onde poderemos ir depois de hoje? Será que temos um futuro? Dou a seta para a esquerda, me afasto da guia e então percebo, enquanto acelero o carro, que ele parou em frente ao portão e me vê indo embora. Aceno de dentro do carro, ele está sorrindo, acena também, sorrio também. Uma pequena luz se acende dentro do meu coração.

Como aquele dia. Perfeito? Possível. Aquilo que pôde ser. Por ora, já me basta que ele tenha existido um dia.

domingo, 29 de julho de 2007

Boca suja

Eu nunca fui das mais descoladas na hora de dar nome aos bois quando o assunto é sexo, ou mesmo me referir às recônditas regiões onde se localizam os principais pontos de envio de estímulos para a central de operações do prazer masculino e feminino. Tenho algumas amigas que usam com tranqüilidade as expressões mais chulas, ou simplesmente mais populares, para nomear os dito-cujos locais ou mesmo o “ato em si” (que a Nana deliciosamente chama de “vuco vuco”), mas eu sempre preferi eufemismos como “países baixos”, “liberar o Caribe”, “periquita(o)”, “Regininha” (nos tempos da Poltergeist) ou mesmo Marinara (explode, coração!).

Com o tempo e a maturidade, fiquei mais à vontade para usar frases do tipo “você deu?” com as amigas mais íntimas. Quem me conhece bem, aliás, sabe que eu não tenho nenhum problema de falar sobre sexo. Mas até hoje fico levemente sem graça quando alguém perto de mim usa palavras como “trepada” ou mesmo a temida que começa com a letra “b” e me recuso a grafar aqui neste blog. Eu prefiro escorregar pelas metáforas e manter uma certa reverência às minhas origens protestantes, ainda que elas sejam oficialmente negadas para todos os outros fins.

Dia desses, no entanto, conversava sobre o assunto com uma amiga que, em geral bastante fechada e um tanto formal, tem aos poucos se sentido mais à vontade para trocar algumas idéias e experiências comigo. Lá pelas tantas, ela comentou como estava satisfeita com as primeiras experiências sexuais que havia tido com o novo parceiro e o quanto era um alívio conhecer alguém que gostava de sexo e o encarava com naturalidade, como ela. Insistindo na importância da afinidade sexual para que um relacionamento vá para frente, ela me solta a seguinte pérola:

- Eu já passei pela experiência de conhecer homens que não tinham algumas características que eu considerava que eram importantes para me proporcionar prazer.

Pensei durante três segundos.

- Eles tinham pau pequeno?
- Ahan.

Depois do nosso ataque de riso, ela se encheu de uma coragem e ousadia recém-adquirida e ainda acrescentou:

- Não é bem que era pequeno... era fino, sabe? Aí não dá...

sábado, 28 de julho de 2007

No estômago

Borboletas?

Hum...

Acho que estão mais para morcegos...

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera

Relendo alguns textos que escrevi no ano passado, quando o Mulher Solteira ainda era apenas um projeto dormindo na gaveta do meu laptop, me dei conta de que, ao longo do último ano, passei por quatro fases bem definidas na minha recém-retomada solteirice.

A primeira durou uns três meses e meio e começou logo depois do término do meu último namoro. Como era de se esperar, naquele tempo eu ainda estava meio catatônica. Considero que isso é relativamente comum quando o término de um relacionamento é unilateral e inesperado, como aconteceu comigo. Por mais que eu me esforçasse para concretizar o que estava acontecendo, no fundo ainda tinha esperanças de que o fim do namoro fosse provisório, que aquela fase fosse passar. Tudo bem que menos de uma semana depois do término o ex deixou na portaria do prédio duas malas e três sacolas lotadas com todas as coisas que eu fui deixando na casa dele ao longo dos quatro anos de namoro. Foram as malas mais pesadas que eu já carreguei na minha vida – sozinha, sem ajuda do porteiro. Eu sabia que só eu podia carregá-las e mais ninguém.

Mas nem dá pra dizer que o corte do mal pela raiz tenha sido totalmente idéia do ex. Diferente do que aconteceu nas outras duas ou três vezes em que ele terminou comigo, dessa vez a conversa do término durou dez minutos. Eu já havia passado por aquela cena tantas vezes (embora a última vez tivesse sido muito tempo atrás) que de alguma forma fui me preparando ao longo dos anos para um fim digno, se um dia ele viesse. Não me rastejei, não implorei, não pedi explicações. Demonstrei, sim, o meu susto, a minha mágoa, a tristeza que eu estava sentindo. Mas não deixei a cena se estender por mais tempo do que o necessário.

E fui eu mesma quem pediu ao ex para devolver as minhas coisas. Na verdade, o que eu queria receber de volta eram as coisinhas da nossa “filha” (um mês e meio antes do término nós havíamos comprado juntos uma cachorrinha). Mandei um e-mail dizendo que havia pedido à nossa faxineira (sim, nós partilhávamos a mesma faxineira) que separasse a comida, a caminha e os brinquedos da Mimi e pedi para ele deixar tudo na portaria do prédio dele. Ele respondeu dizendo que separaria tudo ele mesmo e traria até a minha portaria. Muito cortês da parte dele.

Enfim, duas malas e três sacolas abarrotadas dos mais diversos pertences – roupas, livros, CDs, sapatos, nécessaire... – podem ser um sinal bastante claro de que o fim é definitivo. Mas nos telefonemas mensais que eu acabava fazendo ao ex nos momentos de desespero vinham sempre aquelas frases que a gente quer-mas-não-quer ouvir: “não tenho certeza do que estou fazendo”, “parece que me amputaram uma perna”, “sinto muita falta da nossa vida juntos”, “ainda te amo muito... mas preciso viver isso, passar por isso”. E então eu esperava, achando que ele passaria por aquilo e voltaria para mim.

A fase catatônica acabou quando eu descobri que ele estava namorando e, mais importante, que na verdade havia terminado comigo para ficar com essa pessoa. Outro detalhe importante é que essa mesma pessoa já havia motivado um término anterior (até então eu não sabia disso), mas na época ela não quis ficar com ele porque achou que ele ainda me amava e acabaríamos voltando. Voltamos mesmo. Fica a pergunta: Se eles tivessem começado a namorar naquela época, será que teríamos mesmo voltado? Enfim, como sempre diz minha amiga Cá, “a memória não tem caminho de volta”...

Seguiu-se a já famosa (que modéstia) cena da aliança de compromisso e mais uma e outra conversa que configuraram o término como definitivo. Foi só então que eu comecei a vislumbrar a possibilidade de voltar a ficar com outras pessoas.

A segunda fase durou outros três meses e vou chamá-la de fase de ambientação. Foi quando eu efetivamente voltei ao mercado e tive que reaprender a interpretar uma série de códigos masculinos que já haviam ficado enterrados na minha memória de 23 anos de idade. Eu cheguei a achar que os meus quatro anos de namoro haviam caminhado em paralelo a uma verdadeira reviravolta no mundo dos solteiros, pois alguns gestos e falas dos homens me deixavam absolutamente sem chão. Mas depois comecei a achar que eu havia sofrido mesmo uma profunda amnésia, recalcado algumas experiências desagradáveis e supervalorizado outras que não eram tão representativas dos meus tempos de solteira pré-namoro.

Fato é que, nesses meses de ambientação, eu precisei retomar algumas velhas questões femininas do tipo “por que ele não me ligou no dia seguinte?”, “por que nunca me interesso por quem se interessa por mim?”, “onde ele pensa que vai com essa mão?” e por aí afora. As paredes das boates presenciaram desde cenas picantes até perdidos, diálogos blogográficos, beijos sem palavras e muitas palavras sem beijos.

Mas naquela época tudo ainda era feito um pouco por obrigação. Em nenhum momento eu senti que estava desrespeitando o meu corpo ou os meus limites, mas também não sentia uma real excitação ou prazer em estar de novo no palco das seduções, olhar, ser olhada, despertar interesses, demonstrar (ou ocultar) interesses. Me parecia que aquele era o percurso natural a se seguir, por isso fui em frente, tentando reencontrar algum tipo de sentido enquanto buscava reconstruir a minha identidade que, durante quatro anos, havia se misturado tanto à vida, aos amigos, à família e aos interesses do ex.

Felizmente um gajo interrompeu esse ciclo de ajuntamento de pedaços com louvor. Foi o primeiro cara que realmente mexeu com os meus hormônios e com o meu coraçãozinho desesperançado desde o meu pé na bunda. Como pregam os manuais de auto-ajuda da mulher solteira, eu o conheci em um dia de absoluto desprendimento, quando fiquei sozinha em um bar muito querido por mim e algumas amigas depois que elas tiveram que ir embora para conseguir acordar no dia seguinte num horário de gente normal. Nesse bar a música, a cantoria e as sacudidas de esqueleto rolam soltas, por isso me senti à vontade para ficar só e, no auge da minha recém-conquistada alegria de solteira (e sem uma gota de álcool na cabeça), me misturei à multidão e cantei e dancei com os meus novos amigos. No meio deles estava essa figura meio engraçada, muito simpática, que cantava as músicas do Chico como se fossem dele.

Depois da última música (ao som da qual dançamos juntos uns três passinhos, embora não fosse uma música lenta), engatamos uma dessas conversas de gente que se conhece há anos. Em uma sentada falamos de trabalho, família, namoros, cachorros, sonhos... lá pelas tantas, antes mesmo de ter me beijado, o rapaz me convida para sair no dia seguinte. Isso provocou uma pequena pane nos circuitos elétricos. Peraí, isso ainda existe? Feliz da vida, dei o meu telefone e um beijo de presente para o rapaz.

No dia seguinte saímos, conversamos, rimos, nos divertimos e dormimos juntos. E depois ele foi comprar cigarros e nunca mais voltou.

Eu fiquei triste, confesso. Aliás, não preciso dizer que segui todo o protocolo de confirmação da mulher tira-teima (maiores detalhes no post “Eu tentei...”): liguei, liguei de novo, mandei torpedo... A história ainda teve um ou dois capítulos (como o telefonema que ele me deu, out of the blue, em plena noite de Natal, e que também contei no já citado post), mas não vingou. No entanto, rompeu paradigmas. Percebi que havia, sim, outras pessoas interessantes no mundo além do ex. Só faltava agora elas se interessarem por mim...

Mas em vez de essa experiência me fazer ficar fixada na idéia de encontrar uma cara-metade, serviu para eu desencanar de vez e me propor a viver cada experiência com total investimento e nenhuma expectativa, aproveitando ao máximo tudo o que ela pudesse me proporcionar (ou ensinar), por mais ínfimo que fosse. Em outras palavras: caí na gandaia...

Essa com certeza foi a fase mais divertida. Beijei muito, indiscriminadamente, dois na mesma noite, sem saber o nome, sem ter a ver, tendo a ver, com ou sem esticada, com ou sem interesse de reencontrar, achando bom, achando ruim mas achando bom, achando ótimo... Uma das coisas mais importantes dessa fase foi conseguir perceber, por experiência própria, o quanto sexo (ou química) e amor podem mesmo andar separados. Em uma noite conheci um homem que não atendia a simplesmente nenhum dos requisitos mínimos para sustentar algum interesse amoroso da minha parte: não gostei de como ele se vestia, não gostei do papo dele, não o achei bonito, não gostei muito do jeito como ele me tratou... ainda assim, por algum motivo, me senti extremamente atraída por ele. E, sabendo ou não o que estava fazendo, ele alimentou o meu interesse com muita ginga, levando quase três horas para finalmente me beijar e só o fazendo depois que eu praticamente me atirei em cima dele – e, rapaz!, o beijo repercutiu por todos os cantos do meu mundo.

É o tipo de coisa que faz a gente perceber que, com algumas pessoas, o que a gente tem é química, física, "elétrica", mecânica... com outras a gente tem literatura, filosofia, música... e o melhor de tudo, é claro, é quando a gente consegue ter tudo isso com uma pessoa só. Mas é tão raro...

Bom, no auge da minha desencanação e alegria de ser feliz, depois da minha resolução de ano novo de beber um pouquinho de vez em quando (e isso NÃO significa que eu vá começar a fumar no ano que vem, OK, amigas?) e os dois primeiros porres da minha vida, arranjei, quase ao mesmo tempo, os meus dois primeiros casos. Os casos, é claro, vão merecer um post a parte, quando tratarei sobre as diversas modalidades de relacionamento da pós modernidade, incluindo os PAs e os ATTs, de grande utilidade para a mulher solteira bem resolvida nos dias de hoje.

A questão é que nenhum dos dois casos passou do terceiro encontro. Um por falta de interesse de ambos os lados (e isso, acreditem, foi uma grande vitória para mim). Outro por falta de interesse do lado dele, mas, acredito eu, para o meu bem. E o fim dos dois casos quase simultaneamente acabou me jogando para a minha quarta fase, que é essa em que me encontro nesse momento.

A quarta fase é aquela em que você começa a sentir preguiça de beijar só por beijar e se cansa de conversar com homens acéfalos. Então você se lembra das histórias de amor que viveu (desde as mais breves e singelas até as mais longas e marcantes) e se pergunta: meu Deus, onde estão os homens realmente interessantes do mundo? Que saudade daquele tempo em que era possível conhecer alguém “com quem você quer falar por horas e horas e horas...”.

O bom é que essa fase começou mais ou menos na mesma época em que eu conheci a Cá, e com isso comecei a ter outras motivações para sair além dos homens: boa música, boas companhias, lugares novos, novas experiências. Justiça seja feita: boa música e boas companhias eu já tinha nas outras fases também... mas de uma hora pra outra as minhas amigas resolveram casar, ter bebê, arranjar namorado ou morar fora, todas de uma vez! Por isso a Cá foi um alento nesse momento de solidão solteira (aliás, um beijo pra Cá, que está viajando e fazendo falta por aqui!).

Nessas eu já venho há mais ou menos uns três meses... nesse meio tempo, acreditem ou não, só beijei uma vez... e, mais uma vez comprovando o que dizem os manuais de auto-ajuda da mulher solteira, foi em um dia em que eu estava cansada, com sono, sem nenhum alvo em vista e decidida a usar a noite para tentar entender o danado do jazz (esse que eu ainda não sei se é pra ser entendido ou só pra ser recebido, aceito, sentido)... E fui abordada por um mocinho que me pareceu tão diferente dos demais, e que apertou tantos botões de uma vez só e me mobilizou tanta coisa que eu nem consegui dormir direito durante umas três ou quatro noites. Pena que ele nunca respondeu o meu e-mail nem telefonema (na hora de ir embora ele me deu um cartão e não pediu o número do meu telefone – conferir o post “Mim Jane, you Tarzan”)...

Ruim para mim, bom para vocês. Foi graças a ele que o Mulher Solteira finalmente saiu da gaveta, pra dividir um pouco com o mundo todas essas emoções, angústias, dúvidas, certezas e aventuras de mulher...

terça-feira, 24 de julho de 2007

O post dentro do post

Este post começou a ser escrito na última quarta-feira, dia 18 de julho, enquanto me preparava para ser levada ao hospital pela minha amiga Marina.

A vida é assim:

Os seus pais vão passar três semanas fora do país.

A sua irmã está trabalhando em um projeto em Minas Gerais.

O contrato de aluguel do seu apartamento vence em uma semana.

No trabalho, vem a única semana de recesso do ano. Você pensa em conversar com a sua chefe e pedir uma semana de férias – quem sabe viajar?, mas decide aproveitar os dias mais calmos para procurar apartamento e resolver esse problema de uma vez por todas (afinal, já faz um ano que você está adiando essa tarefa).

E então, no fim da tarde de sábado, você resolve tirar um cochilo. E, quando acorda, ao levantar da cama, não percebe que a sua perna ainda está dormindo e quebra o pé.

Saldo: um apartamento no 11º andar com o contrato prestes a vencer, duas cachorras para alimentar (passear, afofar, limpar, educar...), um trabalho e vários freelas para administrar, aulas de yoga canceladas, pai, mãe e irmã à distância, dois sovacos assados, cinco quilos de gesso no pé direito e você tentando lutar contra a força da gravidade, com um mês inteiro pela frente sem pôr o pé no chão. Sua única chance de sobrevivência nessas condições é contar com a caridade alheia (e felizmente não faltam ofertas de motoristas, dog-sitters, baby-sitters, supermercado-sitters).

A vida é assim: não respeita os seus planos.

Ou, como disse um amigo meu: às vezes a vida te obriga a prestar atenção em algo em que você não estava pondo reparo...

Imediatamente comecei a pensar em todas as coisas que a vida andou me ensinando durante o último ano. A importância da minha família e dos meus amigos... o que significa, realmente, ser adulto... como lidar com aquilo que acontece à revelia da sua vontade, com a sua impotência, com a imprevisibilidade dos fatos, das pessoas, das relações humanas...

Eu estou me tornando especialista nesse ramo de fazer do limão uma limonada. Não vai ser uma queda dessas que vai me derrubar, não mesmo! Estou encarando tudo com o maior bom-humor. Na pior das hipóteses, terei mais tempo para escrever.

E pra pensar, mais uma vez, no que será que a danada da vida está querendo me mostrar...

Algumas horas depois, reais a menos, uma bota ortopédica e um pouco menos de crença na classe médica, volto para casa com o diagnóstico de que NÃO quebrei o pé (ao contrário do que havia me dito o primeiro doutor que me atendeu, acrescentando, com gravidade, que “por pouco eu não precisara operar”). Mais uma semana de repouso e compressas de gelo já estarei em forma novamente.

Afinal, o que será que a vida quis me mostrar dessa vez?

Hum... tenho que rever minhas anotações... Lembrei: nunca confie em ortopedistas.

domingo, 22 de julho de 2007

Sinal do meu amor e da minha fidelidade

Eu não sei se é um mero caso de controle de estímulos (a versão comportamental para o bom e velho ditado que ensina que “quando se tem um martelo na mão, qualquer coisa vira prego” – cerrrto, Manélson?), mas nunca vi tanta “xente xófen” usando aliança como nos últimos tempos. Alianças douradas, prateadas, na mão direita, na mão esquerda, anéis de compromisso ou mesmo a boa e velha aliança de casamento.

Já cheguei a pensar se o fenômeno não está saltando aos meus olhos, além das razões óbvias, pelo fato de as pessoas que hoje eu vejo como “xente xófen” corresponderem àquelas que, há dez ou quinze anos, eu considerava “xente grande”, e que usavam alianças sem que isso chamasse minha atenção.

Mas tendo a achar que não. Realmente me parece que há um fenômeno de retorno às tradições, aos rituais, aos símbolos, a uma tentativa de resgate de um formato de relacionamento mais “careta” (no bom sentido).

Eu não tenho uma opinião formada sobre alianças. Não faria questão de usar se o meu parceiro amoroso não estivesse a fim; não me importaria de usar se isso fosse importante para ele. Dentre as minhas várias amigas casadas e comprometidas, também não há consenso. Há aquelas casadas de papel passado e que não usam aliança; as juntadas que usam; as que namoram há milianos e não têm anel de compromisso; as que têm um namoro relativamente jovem e aderiram ao adereço; e todas as combinações possíveis das alternativas apresentadas até então (preguiça de esgotar a análise combinatória). Entre as que não usam, rola desde um discurso feminista pós-moderno de que “aliança é brega” ou “isso é coisa de gente insegura, não significa nada” até aquelas que confessam, sorrateiramente, que não conseguiram convencer o namorado / marido a aderir à causa. Entre as que usam, há aquelas que assumem corajosamente que tomaram a iniciativa junto ao namorado / marido e que gostam do símbolo, e aquelas que aceitaram usar para agradar ao parceiro, mais romântico do que as próprias.

Perceber tanta gente usando alianças e anéis de compromisso à minha volta às vezes me dá uma sensação triste (e absolutamente irracional) de ter perdido o bonde da História. É como se todo mundo tivesse chegado em um ponto da vida em que encontrou a sua cara-metade e eu sobrei com a vassoura no fim do bailinho. Pior, tiraram o meu par e me deixaram com a vassoura no minuto em que tocava a última música e as luzes da festa começavam a ser acesas. É bom, em momentos de irracionalidade explícita como esses, ouvir de uma pessoa em sã consciência como a MH que “o amor pode acontecer a qualquer hora, não tem idade”. É lógico que o relógio biológico das mulheres tem um despertador que começa a tocar quando vai se aproximando do final da terceira década, mas a vida é tão imprevisível e os caminhos para ser feliz são tão diversos e por vezes tão surpreendentes que não há real motivo para cortar os pulsos ouvindo um tango argentino.

Mas eu, particularmente, peguei um certo trauma de aliança de compromisso no meu passado recente. Depois de levar um pé do meu namorado de quatro anos (sem piadinhas de duplo sentido, por favor) que simplesmente morria de medo de compromisso, me enrolou durante meses antes de me assumir como namorada, que vivia imerso em dúvidas existenciais sobre realmente levar adiante um namoro sério ou ir viver outras experiências, descubro, depois de três meses, que ele terminou comigo porque estava prestes a engatar um relacionamento com uma outra mulher (e não teve coragem de me contar). Vou até a casa dele para uma conversa terminal, os últimos acertos e pingos nos iis. Ouço coisas que definitivamente não me fazem bem, desde aquelas que trazem um alívio momentâneo para o seu coração estraçalhado, mas só te amarram mais ainda a um passado que você precisa enterrar, até outras que não te espantam num primeiro momento porque você está amortecida pela dor, mas depois te fazem duvidar de que você realmente conhecesse aquele ser com quem dividiu tantos e tão importantes momentos da sua vida. Na hora de ir embora, já na porta do elevador, me dou conta de que desde o começo da conversa há um anel no “seu vizinho” da mão esquerda que não pára de me encarar. Percebo que de alguma forma isso me incomodou por não ter nenhuma lembrança de anéis nos dedos do ex durante os quatro anos de convivência (só alguns enferrujados na gaveta, de onde nunca saíram). Ainda entre surpresa e já levemente ofendida, crio coragem e pergunto:

- Isso aí na sua mão... é um anel de compromisso?

A resposta vem no rosto e depois nas palavras titubeadas:

- ... (longa pausa)... Desculpa, Trita...

Caraca. Em um mês e meio de namoro a menina conseguiu o que eu não tive em quatro anos. Não estou falando da aliança em si, que nunca foi pauta de conversa (até porque, com a fobia do ex a respeito de compromisso, não convinha colocar pressão desnecessariamente), mas do gesto de assumir, perante o universo, um compromisso com alguém.

Voltei pra casa levemente catatônica e vivi insone a pior noite da minha vida. Com todas as coisas tão duras e difíceis que eu havia ouvido e vivido mais cedo, a única que não saía da minha cabeça, que me martelava minuto-a-minuto numa repetição interminável, era a maldita aliança de compromisso no dedo anelar da mão esquerda. Ainda por cima na mão esquerda, meu Deus! Ninguém explicou pra esse casal que a mão esquerda só recebe aliança depois do casamento???

A explicação para a mudança drástica de cenário em tão pouco tempo não me compete, nem me diz respeito e muito menos me faz bem. Assim, depois de alguns dias ou semanas de pensamento obsessivo sobre o assunto, consegui finalmente abandonar o grande dilema da aliança de compromisso.

Mas desde então, confesso, me tornei mais sensível a esse objeto, o que talvez explique o “martelo” na minha mão e o “prego” na mão dos outros. E tendo vivido com tanta freqüência a situação de me interessar por um homem e, dois segundos depois, escorregar os olhos para a mão do moço e dar de cara com a tal aliança, comecei a refletir um pouco sobre o tal significado do significante.

Nos casamentos tradicionais o padre diz e os noivos repetem: “Fulano(a), receba esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. É certo que aliança no dedo não garante nem amor nem fidelidade para ninguém, a menos que as pessoas efetivamente se decidam a utilizar esse símbolo porque ele é uma extensão daquilo em que acreditam e que pretendem praticar ao longo da vida.

Porém, hoje em dia me parece que a aliança é mesmo um símbolo com uma função mais “externa” à relação do que interna. É como uma espécie de sinal de alerta: “atenção, não ultrapasse”. E quer saber? Acho que tem a sua utilidade. Apesar da sensação assustadora de que todos os homens interessantes do mundo estão comprometidos ou são gays, uma aliança evita um gasto inútil de esforços, permitindo que você faça nova varredura do ambiente em busca de outro alvo mais promissor, ou mesmo te impedindo de entrar em uma bela roubada, já que alguns homens comprometidos “se esquecem” de mencionar isso quando conhecem uma mulher, e depois são capazes de simular um cafajeste espanto com a sua ira, já que você não se deu ao trabalho de perguntar a ele o seu estado civil antes dele tomar a iniciativa de te beijar. Eu, pelo menos, não tenho a menor vocação para ser “a outra” de ninguém.

É. Com uma saturação tão grande no mercado dos solteiros e uma demanda aparentemente muito maior do que a oferta, acho que o negócio vai ser voltar esperanças e energias para outro segmento do setor (pelamor, sem querer jogar ziquizira em ninguém): os homens separados.

sábado, 21 de julho de 2007

Pára tudo

Gente,
ele existe!
Quando decidi criar esse blog em uma madrugada insone, amargando mais um famoso momento de "por que ele não me ligou?", não tinha nenhuma ilusão de que estivesse fazendo algo inédito ou original. Marte X Vênus é uma questão ancestral, atávica, que encafifa dez entre dez homens e dez entre dez mulheres. Mas, como a minha intenção não era me tornar a Danuza Leão dos blogueiros, e sim fazer um pouco de terapia da escrita, segui em frente.
Eu só não imaginei que encontraria, tão rápido, o lado escuro da força, ou seja, o blog do Homem Solteiro. Afinal, os homens nem sempre são tão pacientes para explicar às mulheres como funciona a sua mente, ou, mesmo quando têm paciência, em geral não são geneticamente equipados para falar sobre os seus sentimentos. Mas esse aqui entrega tudo de bandeja, com tanta sinceridade que chega até a emocionar.
Confiram o Manual do Cafajeste (para mulheres). Nossas vidas nunca mais serão as mesmas.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 8 – Epílogo

Ao contrário do que alguns leitores pudessem imaginar – fosse pelos rumos xerazadianos que esse post-folhetim vinha tomando, fosse por pura malícia –, aquela longa noite de sábado realmente se encerrou aqui. João me conduziu gentilmente até a minha casa onde cheguei, exausta, às quase 5 da manhã, tomei um banho e me aninhei na minha cama, ainda repassando mentalmente alguns dos bons momentos daquele sábado antes de finalmente pegar no sono.

Fico pensando no quanto a vida é muito maior, muito mais diversa do que a gente às vezes pode supor. Embora a gente não escolha certos rumos que ela toma, acaba tendo que assumir algumas escolhas como nossas para, em determinados momentos, as coisas começarem a fazer algum sentido.

Era um pouco esse o assunto da minha conversa com o João enquanto ele me levava para casa. Ainda no bar da Praça Roosevelt, fiquei sabendo que ele está no último ano da Filosofia da PUC. Eu já tive a minha traumática passagem pelo curso de Filosofia aos 18 anos e, sempre que me deparo com algum “sobrevivente”, experimento um misto de espanto e admiração, buscando entender as razões e motivações para que alguém abrace essa árida formação.

No caso do João, me chamou atenção o fato de que ele parecia ter mais ou menos a minha idade. Eu passei pela Filosofia ainda saindo da adolescência, num delírio de colegial recém-formada que achava que a vida docente se assemelhava a uma Sociedade dos Poetas Mortos, com alunos dedicados subindo sobre as mesas e dizendo, com devoção, “Oh, captain, my captain”... Naquele tempo me lembro que, dos 90 colegas que iniciaram comigo o curso naquele ano, dentre os 14 que sobraram lá pelo terceiro mês, mais da metade tinha o dobro da minha idade. E comecei a achar que a Filosofia realmente é uma segunda faculdade para se fazer quando a vida já está resolvida, os anseios básicos sobre carreira, sustento e vocação estão mais ou menos acomodados e sobra espaço para se buscar “algo mais”. De qualquer forma, hoje em dia não é algo que eu pensaria em voltar a fazer antes dos 40 anos (sem ofensa aos amantes da Filosofia, com todo respeito).

Então, quando entramos no carro de vaqueiro (o João me explica que o padrasto usa esse carro para visitar a fazenda – a Carol, vítima de uma carona entre o bar da Roosevelt e a sinuca do “Seu” Mário, já havia alertado sobre as precárias condições do veículo), antes mesmo de ele ligar o rádio ou colocar um CD, puxo o fio do novelo. João: por que Filosofia? Você pensa em dar aula?

João confessa que ainda não sabe exatamente o que vai fazer com a formação depois que terminar a faculdade. Insisto mais um pouco: mas é a sua primeira faculdade? Ele responde que não. Conta que, assim como eu, já fez alguns malabarismos universitários antes de chegar onde está. Seu primeiro curso foi de Engenharia Ambiental, em uma faculdade em outro estado do país (que a minha ausência de bússola interna me impede de recordar qual era – assim como não me lembro onde fica a fazenda do padrasto do João). Fico admirada: Engenharia Ambiental? Mas o que, exatamente, motivou essa escolha (já começo a achar a Filosofia trivial)? João me explica que não sabia exatamente o que fazer quando se formou no colegial, e acabou optando por essa faculdade porque sabia que ela lhe daria um bom retorno financeiro. Na época do vestibular a família passava por um momento difícil e ele achou que esse era um bom critério para escolher a profissão. Levou dois anos para concluir que aquela faculdade não tinha nada a ver com ele, voltar para São Paulo e decidir fazer outra coisa.

Pergunto: João... O que acontece com a nossa geração? Ele responde: Puxa, Cris... Boa pergunta... Acho que temos muitos interesses. Não sei se existe mesmo essa coisa chamada vocação. Concordo com ele, mas tantas vezes já pensei sobre o assunto (inclusive recentemente) e tantas outras já o debati com outras pessoas, que acrescento mais alguns fatores nesse caldeirão: primeiro que a nossa geração, que desde a primeira infância fez balé, judô, inglês, natação e aula de música, cresceu com a fantasia de que o trabalho deveria ser uma coisa “gostosinha”. Não é. É claro que alguns felizardos têm uma relação apaixonada com a profissão que abraçam, além de uns raros casos de talentos e vocações precoces e inequívocas que se encaminham muito cedo na profissão e acabam assimilando-a como parte fundamental de sua identidade. A maior parte dos mortais, no entanto, vive um embate diário com o trabalho, por mais capacidade e reconhecimento que se tenha e dedicação que se invista. Segundo que, pelo menos a mim, impressiona o quanto me tornei uma pessoa diferente ao longo de uma década. Aquilo que eu queria e sonhava aos 18 anos é muito diferente, sob muitos aspectos, daquilo que sonho e quero aos 28. Talvez não fosse assim se eu não tivesse escolhido os caminhos que escolhi. Mas quando eu prestei vestibular para Psicologia (além dos de Filosofia, Jornalismo, Letras e Teatro), a última coisa que queria era ser terapeuta. A Psicologia em si me interessava como objeto de estudo. Hoje em dia, tenho a impressão de que trabalhar como terapeuta me daria muito prazer. Já a Psicologia como objeto de estudo me causa certa preguiça...

Enfim, quando tive que decidir, aos 17 anos, que faculdade eu queria fazer, a questão financeira era a última das minhas preocupações. De novo, na minha fantasia da Sociedade dos Poetas Mortos, o papel decisivo que eu teria na vida dos meus alunos, mostrando-lhes o caminho da luz, do bem, do belo, da verdade, seria a minha recompensa... Um quarto-e-sala estava de bom tamanho. Hoje, aos 28, morando sozinha, pagando minhas contas e usufruindo da minha independência financeira, acho que dinheiro conta, sim. Ainda hoje eu não colocaria esse fator como o mais importante no momento da escolha, mas certamente não amarraria meu burrinho em qualquer poste apenas por uma fantasia adolescente sobre uma profissão missionária.

O curioso é que, como eu disse há pouco, nem sempre a gente escolhe muito os rumos que a vida toma, mas acaba tendo que assumir algumas escolhas como nossas, para a vida fazer algum sentido. Logo que me formei, decidida a não ser professora, recebi uma proposta de trabalho para fazer algo muito diferente do que eu já havia experimentado até então, e gostei do desafio. Em pouco tempo eu já ganhava mais do que precisava para me sustentar. Aos poucos o trabalho foi se revelando menos fascinante do que poderia parecer em um primeiro momento, mas ainda assim válido, por me ensinar coisas, me proporcionar a convivência com pessoas interessantes e, sobretudo, por me garantir um sustento.

Por motivos não relacionados ao emprego em si ou mesmo à relação com os meus pais, acabei decidindo sair de casa. E, quando esses motivos deixaram de existir, em um primeiro momento nada do que eu havia feito até então parecia fazer sentido. Por que essa casa, esse emprego, essa vida, se tudo isso era para viabilizar um plano que não é mais viável? Foi aí que a vida me deu um ultimato, e respondi a ele dizendo: essa casa é minha, esse emprego é meu e essa vida é minha. Fui eu quem escolhi, porque acredito que a independência financeira é o curso natural da vida, porque acho que todo mundo precisa aprender a conviver com a própria solidão, e porque a minha vida é o resultado de todas as escolhas que eu fiz até agora e de como abracei aquilo que não escolhi, mas me aconteceu. Disse uma vez um homem sabido: “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Grande Jota-Pê...

É assim, em meio a um papo altamente filosófico (especialmente em se considerando o adiantado da hora) que João estaciona o carro de vaqueiro na pirambeira da Paris, de onde salto agradecendo pela carona, pelo papo e pela companhia, com a promessa de repetir outras vezes essa deliciosa aventura pela cidade de São Paulo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 7 – A sinuca do “Seu” Mário

A Cá estaciona o carro em uma rua deserta e silenciosa. Olho pela janela do carro e não vejo qualquer movimento. Andamos em direção a uma fachada sem qualquer indicação, luz, sinal de estabelecimento comercial. Bem, já estou começando a me acostumar com isso, em se tratando da Cá.

Sem cerimônia ela abre uma porta, toca uma campainha e segundos depois, sem ter que dizer nenhuma senha secreta, já estamos dentro.

São quase duas da manhã e a sinuca é muito iluminada, mas também silenciosa. Não me lembro de ter ido a algum lugar parecido antes. São quatro mesas grandes e há dois grupos jogando.

“Seu” Mário é um senhor japonês, lá pelos cinqüenta anos, grisalho e de óculos. Quando chegamos na sinuca ele joga um filé com cebolas na chapa quente, limpa as mãos em um pano e vem nos cumprimentar com dois beijos no rosto. É claro que “Seu” Mário é amigo da Cá. Eles trocam figurinhas e perguntam a respeito de conhecidos em comum.

Dizem que “Seu Mário” toca a sinuca praticamente sozinho, de uma da tarde até o último freguês. Ele tem um ajudante que lhe faz até massagem, mas pediu as contas e não se sabe ainda se alguém vai substituí-lo. Calculamos que “Seu” Mário praticamente não faz outra coisa da vida a não ser dormir e cuidar da sinuca. Dizem também que ele é ótimo jogador.

A Carol e o João demoram um pouco mais para chegar. Pudera. A sinuca do “Seu” Mário é um lugar para iniciados. A Cá avisa que o Marco também está vindo se juntar a nós.

Em frente à mesa, olho para os tacos, vejo as pessoas cumprindo rituais de passar giz azul na ponta do taco e talco no gordinho entre o polegar e o indicador, “para o taco escorregar melhor”, e me pergunto quando foi a última vez que joguei uma partida de sinuca. Provavelmente num longínquo domingo na chácara de algum tio-avô, em uma lembrança desbotada de um canto escondido da memória. Sei que jogar hoje vai ser um pouco como tentar mexer as orelhas, mas encaro com bom-humor o desafio e o previsível vexame.

Quando o jogo começa rio das piadas do João, que chama a Carol de “parceira” e diz a ela que “essa bola pode, aquela não”. Minhas primeiras tacadas são honestas; não me deixam constrangida, mas também não surtem nenhum efeito significativo. Lá pela terceira rodada, encaçapo uma bola. Legal! Quase sorte de principiante.

Uma ou duas rodadas depois, o João me diz com uma cara séria que eu não posso acertar a bola em que estou mirando. Dou risada, mas vejo que todos continuam sérios. Como sou um ser randomicamente avoado (às vezes a mais ligada das criaturas, às vezes o rei dos surdos em tiroteio – e a surdez colabora para isso), começo a desconfiar da minha certeza: afinal, essa história de “bola certa” é piada ou não? Cá explica: a gente só pode acertar nas bolas pares... o João e a Carol nas bolas ímpares. Ok. Descubro na quinta rodada que tenho uma dupla e bolas certas para encaçapar. Que bom que, sem ter consciência disso, mirei e encaçapei apenas as bolas da minha dupla. Avoada é apelido.

João é o Ronaldinho da noite. Cá e Marco também são bons, mas Cá está um pouco desconcentrada e Marco sem sorte. Eu e Carol tentamos acompanhar o ritmo, mas nosso jogo é irregular: oras encaçapamos bolas inacreditáveis, oras derrubamos bolas proibidas ou damos uma tacada no ar. Ela, pelo menos, tem a desculpa de ter bebido.

A pérola da noite é: “o mais importante é onde a bola branca pára”. Adoro essas frases sobre o cotidiano que têm um sentido filosófico embutido, como quando minha professora de yoga anuncia, durante as posturas de equilíbrio: não se comprometa com o sucesso... Resta saber que significado o lugar de parada da bola branca tem na vida real.

Encerramos a sinuca às 4 da manhã e, seguindo a tradição dos “Anjos Exterminadores”, usamos o troco para fazer uma última parada na padaria do outro lado da avenida, onde meus amigos matam a cerveja derradeira. Cá e Marco comentam que já beberam cerveja nessa mesma padaria enquanto os primeiros fregueses da manhã chegavam para comprar pão.

Finalmente a noite se encaminha para um fim. Nos despedimos e embarco no “carro de vaqueiro” do João rumo à minha casa.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 6 – Do outro lado da praça

A próxima parada é um bar do lado oposto da praça (aquele pelo qual eu cheguei). Lá sentamos após eu ter sido testemunha privilegiada de uma cena que só a mais profunda intimidade, respeito e amor mútuo permitiriam acontecer.

Sentamos e conversamos, entre outras coisas, sobre o nascente “Mulher Solteira”. Aproveito para fazer anotações mentais e colher material para novos posts. Êta assunto que rende...

A noite parece estar próxima de terminar, mas eis que Cá recebe novo torpedo e nos informa que João está vindo se juntar à trupe. Tempos depois ele chega e rapidamente se incorpora à dinâmica local. Conversamos apenas alguns minutos antes que se inicie o movimento “trazer a conta, levantar as cadeiras, apagar as luzes e fechar a porta”, para tristeza dos boêmios, especialmente do grupo de pessoas da mesa ao lado que já havia sacado um violão da sacola e iniciava a cantoria da madrugada.

Alguns minutos de ginástica mental para rachar a conta na proporção certa. A essa altura o metrô já fechou há tempos. Para guardar a única folha de cheque que trouxe na bolsa e pegar um táxi até a minha casa, peço a Cá para acertar a minha parte. Digo que posso fazer uma transferência, mas ela faz questão que eu pague pessoalmente. Que bom. Mais samba pela frente!

A Cá chega a dizer: “bom... é isso... vamos embora?”, mas João acabou de começar a noite. Segue-se um diálogo do qual tenho pouca lembrança e que gerou uma certa polêmica entre o grupo (ninguém lembra exatamente de quem foi a brilhante idéia), mas em um dado momento a palavra “sinuca” é mencionada e Cá sugere imediatamente o estabelecimento do “Seu” Mário, no Jabaquara, ao lado da casa dela.

O João mora em Perdizes e depois da sinuca pode me dar uma carona. Maravilha! A Carol vai dormir na casa da mãe que fica pertinho da casa da Cá. Tudo no jeito. Partimos rumo à última (última?) parada da noite.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 5 - Caindo no samba

A Cá e a Carol (não a “minha” Carol, mas uma nova – mais uma nova amiga!) chegaram cedo e acharam que valia a pena pagar para ficar na “parte de dentro” do samba, já que havia muito espaço vazio entre o “palco” e a “parte de fora”. Pra entrar são dez reais. O samba pega fogo, aumentando o calor de veranico do sábado. Dou a volta, passo pela entrada, abro caminho por entre os mais diversos exemplares da fauna sambista e finalmente chego até o “ponto” da Cá e da Carol, ao lado dos engradados de cerveja, com bolsas e casacos pendurados sobre uma estaca. Elas conversam animadamente com dois “novos amigos”, até a Carol perder a paciência com o excesso de presteza de um deles (que compra cerveja para elas com tanta insistência que começa a incomodar). Cá acalma os ânimos com os “amigos” e eu bato um papo com a Carol. É uma daquelas conversas em pé, de pra lá de hora, em que você fala sobre todos os assuntos existenciais de uma só tacada – pais, irmãos, profissão, dinheiro, homens, bebida –, que só poderiam mesmo rolar em um samba.

Eu ainda estou anos-luz distante de me apropriar do repertório do samba (que é vastíssimo) e de conseguir acompanhar cada música saboreando a letra frase por frase, como eu tanto gosto de fazer. Mas só o fato de estar lá, respirando aquela energia, aquela atmosfera, vendo, ouvindo, dançando... que intensa percepção da minha existência!
Como não podia deixar de ser, os personagens brotam em locais como esse. No meio da minha conversa com a Carol, um sujeito se apóia na grade que separa os “de dentro” dos “de fora” e nos pergunta:

- Viu... Quem é que tá tocando?
- Não sabemos...
- É alguém famoso?
- Não...
- Mas tá bacana, né?
- Tá sim... mas tá acabando...
- Mas não paga pra entrar, né?
- Paga sim... por isso que tem que ver se vale a pena, porque vai acabar daqui a pouco...
- Quanto é?
- Dez reais.
- Só para entrar?
- Isso.
- Ahn...
- ...
- ... Beleza... valeu...
- Não por isso!

Voltamos a conversar animadamente até que o sujeito se apóia novamente na grade, e abrindo uma sacola gigante saca de dentro um objeto absolutamente estranho ao cenário local:

- Viu... vocês não querem comprar um teclado? Só tá faltando umas peças, ó...

Dentro da sacola mais uma penca de teclados sujos, velhos e quebrados.

- Er... Não... obrigada, eu... já tenho teclado...
- É? Já tem? Mas não quer mesmo assim? Olha, só tá faltando duas teclas, aqui e aqui...
- Ah, é verdade... Mas não... obrigada mesmo... já tenho, não quero outro...
- Beleza... valeu...

A figura se afasta e eu e Carol rimos da cena inusitada. Onde estará a câmera escondida?

O samba atinge seu ápice e morre bruscamente, sem chance de se pedir bis. Forma-se uma fila gigante na frente do caixa. Enquanto isso Cá dispara torpedos para os amigos, tentando acionar a famosa rede de contatos para dar continuidade à programação.

Enquanto aguardamos a fila diminuir, os “amigos” voltam à carga. Em um papo meio fruto de alegria etílica, meio tentativa de aproximação, um deles acaba contando, com uma honestidade atroz, que seu melhor amigo começou a namorar a mulher com quem ele estava saindo...

Como é que as pessoas subitamente se sentem tão próximas das outras a ponto de dividir sua dor com perfeitos desconhecidos? Bem, isso não me causa estranheza nenhuma. Se tem algo que eu conheço profundamente é dividir a minha dor com perfeitos desconhecidos, a despeito das possíveis rejeições, à revelia do protocolo social. Mundo, eis as minhas entranhas.

Na saída do samba a Cá ainda puxa papo com um italiano e seu amigo brasileiro. Grande mulher. Quando eu crescer quero ser como ela.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 4 – Odisséia – a saga continua

Doze estações de metrô, um amor nascente e o-triplo-do-tempo-que-eu-levaria-de-carro depois, chego à estação República. Achei que logo veria um guardinha ou um posto de informações para receber novas instruções (a Cá me mandou olhar na Internet para saber como chegar à Praça Roosevelt da República. Ela definitivamente não sabe como funciona a mente de uma pessoa sem bússola), mas para minha surpresa não há esse tipo de facilidade por lá.

Felizmente podemos sempre contar com os transeuntes. Ele me disse para seguir reto em direção à Igreja da Consolação e explicou que a Praça Roosevelt ficava ao lado. Paro em uma farmácia para comprar Neosaldina e uma água de coco (estava fazendo um calor completamente atípico para um começo de noite de julho!) e aproveito para cumprir o ritual de confirmação de praxe das pessoas perdidas: “moça, pra chegar à Praça Roosevelt é só seguir reto em direção à Igreja da Consolação e a Praça fica ao lado?”. Ela me confirma as coordenadas.

Ando mais um pouco até chegar ao que eu considero uma bifurcação, então resolvo repetir o ritual mais uma vez e tirar a teima com o dono de uma banca de revistas. De parada em parada, finalmente chego à Praça Roosevelt.

E onde, exatamente, na Praça Roosevelt, fica o samba da Praça Roosevelt? Caminho alguns passos e estou em frente ao Espaço dos Satyrus. Lembro que a Cá mencionou o Satyrus como um ponto de referência. Hum... talvez se eu seguir mais uns passos serei capturada pelas notas do samba como um ratinho de Hamelin.

Muitos passos depois, constato que cheguei ao fim da praça. É hora de recorrer ao bom e velho estratagema do transeunte. “Amigo, por favor: você sabe onde fica um samba que tem aqui na praça?”. “Fica do outro lado da praça, moça”. Naturalmente...

Atravesso a rua e caminho de volta para o meu ponto de origem. No meio da rua, mais uma paradinha para confirmar: a moça aponta um local a umas três casas de distância e percebo que venci todos os obstáculos que me separavam do famoso samba da Praça Roosevelt.

Agora só falta achar minha amiga Cá: na “parte de fora” do samba não tem ninguém! Tento ligar no celular dela duas, três, quatro vezes. Não atende. Será que ela recebeu meu torpedo avisando que eu estava saindo de casa? Será que ela é do tipo que some e não dá satisfação? (com amigas novas a gente nunca sabe...) Será que ela me mandou um torpedo de volta que não chegou?

Fico dando voltas em torno do samba, procurando o rosto da Cá na multidão e pensando que seria muito frustrante fazer todo o percurso do metrô de volta sem ter pelo menos aproveitado um pouco da programação original. Por fim, recurso derradeiro: resolvo mandar outro torpedo (depois de ter deixado uma mensagem de voz, me dei conta de que com aquele barulho seria impossível ouvir qualquer coisa). Uma mão aparece acenando do meio da “parte de dentro”: Cris!

Cheguei.

domingo, 15 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 3 – O amor no metrô

O Casal entra no vagão na estação Sumaré. Não é ainda um Casal constituído, mas uma promessa de Casal. Ela não é bonita. Veste uma calça jeans e uma camiseta de manga comprida preta com detalhes prateados, apesar do calor. Está ligeiramente acima do peso. O cabelo é preto e vai até um pouco abaixo dos ombros. Não tem corte e dá mostras de uma tentativa fracassada de alisamento. Ela usa óculos. No pulso esquerdo tem uma pulseira preta de muitas voltas, e é nela que ele mexe enquanto arranca dela um sorriso luminoso.

Não consigo ouvir o que ele fala nem ver seu rosto, pois está de costas para mim. Vejo que ela diz dengosamente: “dá licença? Eu gosto...” Imagino que ele a provoca dizendo algo sobre a pulseira, o que ela confirma sorrindo com os olhos e a boca: “Borracha??? Plástico???...”

Percebo que ele é um pouco mais baixo do que ela. Usa camisa branca, bermuda e tem a palavra “Liberdade” tatuada na parte de trás da perna esquerda. Fico aguardando algum contato mais íntimo que demonstre que eles já são parceiros amorosos, mas o gesto não vem. Tento imaginar em que ponto do relacionamento estão. Penso, otimista, que se estão pegando juntos o metrô é porque já têm alguma cumplicidade. Por outro lado, pode ser que estejam voltando juntos do trabalho... Como só enxergo os olhos dela, me pergunto se o interesse é correspondido. Os olhos dela parecem afagar o rosto dele.

Na estação Paraíso descemos do vagão e penso que não vou acompanhar os próximos capítulos dessa história, mas para minha surpresa, alguns minutos depois, vejo que eles entraram comigo no mesmo vagão em direção à Sé.

Dessa vez ele fica de frente para mim. Respiro aliviada: ele também está apaixonado. Inventa mil pretextos para tocar nela: tirar um fiapo da roupa, mexer no cabelo, encostar de leve enquanto fala alguma coisa. Os olhos dos dois parecem imantados, não desviam uns dos outros um minuto sequer. Meus olhos, por conseguinte, também estão imantados aos deles, mas felizmente eles não percebem. Meu coraçãozinho romântico se pergunta se terei o privilégio de presenciar o primeiro beijo do Casal.

Na estação Liberdade, porém, eles descem e fico só com meus devaneios. Ainda entre levemente nostálgica e um tanto tocada, me dou conta de que eles sabem muito bem o que estão fazendo: cozinham lentamente, em fogo brando – como um chef alquimista que escolhe ervas, busca o ponto do prato, prova a mistura com pequenas gotas colocadas sobre a mão – o momento exato de concretizarem essa paixão. Eu os invejo: nunca tive essa capacidade. Mas consigo adivinhar as borboletas no estômago dela, a boca seca, as axilas levemente suadas, uma pontada suave entre as pernas. Coisa mais bonita e privilegiada essa de ver de perto o nascimento de um amor.

sábado, 14 de julho de 2007

Um sábado na cidade

Parte 2 - Odisséia

A Cá me explica que o samba na Praça Roosevelt começa no início da tarde, mas diz para a gente chegar às cinco, porque senão vamos ter que pagar para ficar na rua (nota: boa parte do samba fica do lado de fora do bar, ao ar livre. Apenas uma espécie de cerca separa os “pagantes” dos transeuntes”. A Cá acha uma roubada pagar “dérreal” para ficar do lado de dentro da cerca, já que do lado de fora se ouve a mesmíssima coisa. Ela tem lá sua razão!). Convém também não chegar muito depois disso, pois o samba lá acaba cedo, lá pelas nove.

Pergunto se o caminho que ela vai fazer passa pela minha casa. Ela explica que vai direto pelo Centro, não passa perto daqui. Como faço para chegar à Praça Roosevelt? - pergunto. Ela me diz que é muito perto da minha casa e muito fácil de chegar de carro. Se eu sei onde fica o Espaço dos Satyrus? Sei sim, mas daí a saber chegar lá... se eu sei onde fica o Mackenzie na Consolação? Bem, teoricamente sim... mas na prática sei tanto quanto localizar as Ilhas Maldivas no Mapa Mundi (recentemente descobri que a minha incapacidade geográfica se manifesta em qualquer escala – da local à mundial).

Derrotada, pergunto se é possível chegar lá de metrô. Ela explica que a praça fica bem perto da estação República, mas adverte: é tão perto da minha casa que realmente vale a pena ir de carro! Explico para ela que, para pessoas que nasceram sem bússola interna (e não apenas para navegar na Selva dos Solteiros), o “muito perto” quase sempre vira um “muito longe”, somando-se as ruas perdidas, as referências não vistas, os retornos não encontrados e a total falta de senso de direção. Ela ainda insiste dizendo que já foi à Praça Roosevelt de ônibus mas se arrependeu. De carro se leva um terço do tempo! Ainda assim, confirmo que usar o transporte coletivo é mais garantido.

O metrô é a melhor invenção do mundo para pessoas que nasceram sem bússola interna. É quase uma mistura de xadrez e jogo de damas para crianças: você está aqui e quer chegar aqui. Pra que lados você pode andar, onde tem que mudar de sentido? Com quantos lances você consegue chegar até o seu destino? Pode levar três vezes mais tempo, mas é a garantia de que você vai chegar aonde quer chegar. Adoro o metrô.

Isto posto, nos despedimos, ela se comprometendo a mandar um torpedo para avisar o horário em que vai chegar lá.

Às seis da tarde saio da minha casa e caminho ao longo das três quadras que me separam da estação Vila Madalena. Às seis e vinte me acomodo no assento do metrô. Começo a traçar a minha rota conferindo o mapa das linhas do metrô. Só então me dou conta do tamanho da volta que estou dando: da Vila Madalena até o Paraíso são seis estações; do Paraíso à Sé mais quatro; da Sé à República mais duas. Nem sei ainda quanto tempo vou caminhar da República até a Praça Roosevelt. Até mesmo o mapa com as linhas do metrô me mostra que a República é do lado da minha casa, mas vou primeiro para baixo, depois para cima e depois para a esquerda para chegar até ela. Paciência: aproveito para olhar a paisagem e pensar sobre a vida.