sábado, 29 de março de 2008

Laurinha e a nova professora


Dia desses, dirigindo meu jipinho pelas ladeiras de Perdizes, uma seqüência de associações livres que minha memória não foi capaz de reter me levou à seguinte pergunta: por que é que eu, uma cartesiana que dança – que, aliás, ama dançar – tive minha carreira no balé clássico tão precocemente abreviada?

Ao contrário da minha irmã, que fez anos e anos de balé, chegou a dançar com sapatilha de ponta e se aposentou compulsoriamente por conta de um problema na rótula do joelho (e cujas fantasias das apresentações de fim de ano – a florista, o fogo, a hippie, anos dourados, a cegonha... – animaram muitas das nossas brincadeiras infantis ao som dos discos do Balão Mágico), eu tive aulas durante um ano, dos seis aos sete, e depois parei.

Fui puxando pela memória até me transportar àquela época e o motivo veio claro como o dia: minha professora. Não, ela não era uma bruxa. Pelo contrário: era uma fada. Nem me lembro do seu nome (minhas memórias infantis são bastante imprecisas e surrealistas), mas seguramente me lembro dos sentimentos que me acompanharam naquele episódio.

Em um desses acontecimentos banais do cotidiano que não parecem sequer dignos de nota, minha professora de balé teve que mudar os horários das suas aulas. Ela lecionava no período da tarde e teve que mudar para o período da manhã. Simples assim. Eu, que estudava no período da manhã, não podia mais fazer aulas com ela. E simplesmente não pude aceitar que qualquer outra pessoa fosse minha professora de balé, apesar de todas as tentativas de argumentação da minha mãe, de uma ida à aula da nova professora com uma amiguinha, da perspectiva de não ganhar uma nova fantasia de balé no final do ano (a minha era de bebê – dancei junto com a minha irmã que era a cegonha).

Pensando bem, pode ser que tudo isso seja apenas fruto da minha imaginação. Foi mais ou menos nessa época que minha mãe me levou ao ortopedista para fazer uma avaliação e eu comecei a fazer fisioterapia para corrigir a lordose, a cifose, a escoliose, o pé chato, a ponta do cotovelo e o branco do olho (processo que se estendeu por longos dez anos da minha vida).

Mas, independentemente do fato de eu ter parado as aulas de balé por recomendação médica ou simplesmente por desgosto, tenho uma vívida recordação de um dia ter faltado à escola (com a anuência da minha compreensiva mãe psicóloga) e ido à escola de balé para visitar a antiga professora. Comemos juntas um ovo de páscoa que levei para ela.

Já lá se vão mais de vinte anos e continuo igualmente apegada às minhas professoras. Eu devia ter me lembrado disso quando assumi a minha primeira sala de aula aos 21 anos, como professora substituta de português de uma 7ª série. Provavelmente teria causado menos danos à minha auto-estima e talvez eu não tivesse tomado a decisão de não pisar novamente em uma sala de aula durante pelo menos uma década.

Há cerca de um ano e meio, naquela fase abominável da minha vida que inspirou o nascimento deste blog, decidi que queria começar a praticar yôga. Eu já tinha ouvido muitos relatos positivos sobre os benefícios da yôga (eu confesso: escrevo yôga mas falo “yóga” – não me acostumo), inclusive da minha analista, cuja opinião respeito profundamente. Sabia que precisava ter uma atividade física regular e, para além disso, estava disposta a buscar toda a ajuda possível para me sentir melhor.

Recebi de uma amiga a recomendação de uma escola que ficava a poucas quadras da minha casa e do trabalho. Entrei no site, fucei os horários das aulas e me rendi ao conforto da comunicação escrita, enviando um e-mail solicitando informações sobre a abertura de novas turmas de iniciantes, já que os horários existentes não eram convenientes para mim.

Logo veio uma resposta simpática da professora dizendo que havia uma turma de nível intermediário com poucos alunos e eu deveria experimentá-la, pois ela poderia me dar mais atenção individual. Eu repliquei dizendo que nunca havia feito yôga na vida e certamente não acompanharia uma turma intermediária. A resposta foi singela: ligue-me e conversaremos.

No telefone com a Adri, contei sobre o meu longo histórico de fracasso escolar no que diz respeito a esportes e atividades físicas em geral. Descrevi as minhas notas vermelhas em todos os quesitos de todas as avaliações físicas que eu já tinha feito na vida: zero de força, zero de flexibilidade, zero de capacidade aeróbica. Eu síntese: eu era uma bucha.

Ela não comprou a minha história. Repetindo a singeleza da primeira resposta escrita, disse simplesmente: venha até aqui e faça uma aula, quero te conhecer.

Fui, a conheci, recebi algumas breves instruções para conseguir acompanhar a seqüência da saudação ao Sol e, alguns minutos depois, tive a minha primeira aula intermediária de yôga. Suei como uma vaca, bufei, tremi, esconjurei, esbugalhei os olhos. Mas fiz a aula inteirinha, até o fim. No relaxamento, chorei um oceano de lágrimas.

Depois nos sentamos no chão e Adri me disse: você tem totais condições de acompanhar essa turma. Precisa trabalhar força? Precisa. Falta flexibilidade? Falta, mas isso é pura ferrugem... O mais importante é que você está extremamente aberta para o trabalho. E tem uma incrível percepção sobre o seu corpo. Por mim você já é aluna do nível intermediário.

Comecei a freqüentar duas aulas semanais e a yôga causou em mim uma transformação. Finalmente descobri que sou um corpo. A yôga é suficientemente exigente para que eu me sinta desafiada e precise me dedicar e me concentrar para fazer as posturas, mas não excessivamente exigente a ponto de eu me sentir desmotivada ou incapaz. Depois de um ano, me senti quase uma menina do circo ao conseguir fazer uma invertida sobre a cabeça pela primeira vez. Eu, que nunca na vida consegui dar uma estrela sequer.

E tudo isso acontecia sob o olhar atento, amoroso e estimulante da Adri. Ela conseguiu a façanha de mudar completamente a minha auto-percepção corporal, a ponto de me exibir para as alunas novas como exemplo de uma pessoa corajosa, que tinha conseguido vencer muitos limites em um tempo surpreendentemente curto.

No início desse ano, meu espírito vampiro despertou definitivamente das catacumbas e comecei a não conseguir levantar para ir às aulas de manhã. Mais do que simplesmente acordar e levantar da cama, constatei que não gosto de estímulos sensórios nas primeiras horas do meu dia. Não gosto de ouvir gente falando alto, não gosto de falar com ninguém, não gosto nem mesmo de tomar banho. À noite, pelo contrário, a yôga cai como uma luva para mudar a freqüência do dia de trabalho e preparar o caminho para casa.

À noite, comecei a não conseguir chegar a tempo para fazer aula com a Adriana. E acabei caindo em outra turma, com outra professora.

Eu a conhecia já há algum tempo, pois logo que comecei a fazer yôga fui experimentando outros horários durante a semana por conta de imprevistos no trabalho. Logo no primeiro dia em que conheci esta outra professora, fiz aula sozinha. Achei que ela falava demais e que insistia muito em que eu fizesse os movimentos com um requinte de perfeição que me desanimava. Me fazia sentir incapaz, como todas as academias de ginástica que já freqüentei na vida.

E é incrível o que acontece quando a gente não gosta de alguém. É como o cheiro que exalam as pessoas que têm medo de cachorro. As pessoas simplesmente começam a não gostar da gente também. Pelo menos era essa a impressão que eu tinha.

A minha pequena deficiência auditiva, que foi delicadamente contornada pela Adri com a recomendação de que eu não me prendesse muito ao que ela falava e simplesmente tentasse acompanhar o fluxo da aula, virou um grande problema para a professora nova. Se eu abria os olhos para fazer leitura labial, ela achava que eu não estava me concentrando o suficiente. Se eu pedia que ela falasse mais alto, ela elevava a voz a uma altura desagradável, como se estivesse gritando ou falando asperamente com toda a turma. Se eu me confundia em alguma postura, ela me perguntava se era porque eu não tinha ouvido direito.

Além disso ela nunca, nunca tocava em mim. A Adri sempre corrigia amorosamente as minhas posturas. Será que eu era invisível? Ou era tão ruim que ela preferia não tentar me corrigir para não me desencorajar? Isso sem mencionar que ela nunca, jamais me tratou pelo nome. Eu desconfiava que ela havia se esquecido como eu chamava.

Apesar de toda a minha resistência, insisti em continuar na turma (afinal, não tenho mais seis anos de idade para desistir de um curso por causa da professora, certo?). E, aos poucos, comecei a gostar dela. Passei a valorizar os seus comentários, que antes me pareciam um pouco maçantes. Encontrei um jeito confortável de lidar com a falta de jeito dela de lidar com a minha surdez. Sobretudo, me concentrei na minha relação com o meu corpo e com a yôga, mais do que na minha relação com ela.

Retomei o ritmo das duas aulas semanais e mergulhei fundo no trabalho. A cada dia, uma nova conquista: uma postura desafiadora da qual vou conseguindo me aproximar aos poucos, minha respiração que já não fica tão ofegante, cada vez menos necessidade de recorrer à postura da criança para acalmar os batimentos cardíacos. Enquanto isso, o cultivar de uma relação crescentemente afetiva com a “nova professora”.

Na última aula, ao me despedir e virar para a porta, recebi um sorriso e um “tchau, querida!”. Isso me fez pensar que a vida é um longo exercício de aprendermos que as separações são inevitáveis, mas sempre é possível estabelecer novas e gratificantes relações.

P.S.: O título desse post faz referência ao livro infantil “A nova professora”, cuja protagonista (Laurinha, uma porca-espinha) vive o drama da substituição da sua querida professora da escola. Toda a coleção da Laurinha marcou momentos felizes da minha infância passados na casa da minha avó Helô. Vó, um beijo!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Semibreves

Estóica
Desafio qualquer um a praticar yôga com os joelhos esfolados. Haja elevação espiritual.
Silogismo
Hoje vi um cachorro perseguindo um carteiro. O que prova que as histórias em quadrinho sempre estiveram certas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um corpo que cai

Caí. De maduro.

Jovem, saudável, inteligente, descolada, independente, articulada. (Acima de tudo, modesta.)

Mesmo assim, caí. De quatro. De boca. De sola. Como diriam os cariocas: me ishhhtabaquei no chão. E ishhhhcangalhei os joelhos.

Tombo daqueles de se olhar em volta para avaliar o tamanho do vexame. De sentir pena de si mesma pela sua fragilidade, vulnerabilidade e insignificância. Aqueles tombos que machucam principalmente a moral.

Não me lembro se no momento do tombo me ocorria algum pensamento de grandiosidade, mas o contraste foi grande: em um segundo eu era a dona da rua, a musa de Perdizes, a cidadã do mundo, a senhora do meu nariz; no segundo seguinte, beijava o chão, calças rasgadas no joelho, mãos esfoladas.

Nem sabe se quer que alguém ajude ou se prefere que todo mundo finja que não viu. Dói cair e dói saber que o mundo continua girando apesar do seu tombo. Se não há platéia, o negócio é engolir o choro e continuar a caminhada. Ver a dor diminuir aos poucos, com o caminho.

Não tem jeito. Cair, todo mundo cai. A questão é como se levanta.

sábado, 15 de março de 2008

TSC

Ela sofre de um severo quadro de Transtorno da Sinceridade Compulsiva.

Sendo assim, antes de partir para os finalmentes, achou por bem informar o moço:

- Olha, é bom você saber de uma coisa. A gente pode ficar, se curtir, numa boa, mas eu estou bem enrolada,viu? Já estou saindo com três caras... Então vê aí o que você quer fazer.

O rapaz se desconcertou, que história é essa, mulher minha é só minha. Ou então, ela tinha que escolher: ou ficava só com ele ou com os quatro!

Depois, capitulou: ela era uma montanha de areia, à disposição do seu caminhãozinho pelo confortável preço de não ter absolutamente nenhum compromisso. Algum homem pode sonhar com algo além disso?

Mas o diabo é que ele gostou dela. Quando pediu o telefone ela deu, mas quando disse que não ia ligar ela nem ligou (e ainda confessa que perdeu a paciência com homem que pede número de telefone só para fazer média).

A moça deu um nó no moço e o negócio foi apelar para os SMSs, santa pós-modernidade. Faz que vai mas não vai, faz que não está estando, comparece sem fazer pressão. E ela, que além de sincera é educada, respondeu. E foi a deixa pra ele ligar.

Com voz de Fábio Jr., ela conta, meio impaciente. Cheio de frases feitas, de elogios prontos e de rouquidão sedutora puxando para o brega. Mas além de sincera e educada, ela é boa. Achou que mesmo enrolada não custava dar mais uma chance para o moço, ruim não tinha sido, ele que se quisesse encontrasse com ela na festa do Fulano no Lugar Tal.

Mas se um é pouco, dois é bom e três é demais, quatro é quase impossível de administrar. E aos 45 do segundo tempo, sabendo que um dos outros três também havia sido convidado para a festa, ela resolve se emendar por SMS: “Xi! Um dos caras com quem eu estou saindo também vem para a festa... E agora?”. Desaforado, o moço responde do alto dos seus 24 anos com topete de 17: “Fica com ele”.

Ela tenta ligar, não falou por mal, só queria que ele soubesse que ela não poderia ficar com ele naquela festa. Ele não atende. Mas chegando no Lugar Tal, ela vai ao bar tomar alguma coisa e PUMBA! Tromba o dito-cujo. O número três não veio, mas os amigos do três sim. Sendo assim, o protocolo continua valendo.

Como é que ele ainda teve coragem de vir depois daquela troca de torpedos?, as amigas perguntam. Ela explica: ele já estava encostado no balcão do bar quando recebeu a triste notícia. Amigos em punho, acampamento armado, achando que aquela noite ia faturar.

As amigas incentivam: “vai, fica com ele!”. Mas ela não quer que os amigos do alheio vejam a cena. “Vai escondida!”. “Não quero ficar escondida!”. É sincera, educada, boa e tem lá os seus brios, vejam bem. Não está fazendo nada de errado. Tudo o que ela quer é usufruir da sua liberdade feminina, pero sín perder la teruna jamás.
Na saída do bar, pede cinco minutinhos para a amiga e finalmente se despede do rapaz com a devida eloqüência. Mas esclarece: ela não vai deixar de sair com nenhum dos outros três!

E durma-se com um barulho desses.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Um grito de liberdade

Uma rajada de tiros, uma salva de palmas, uma ola, um troféu joinha e um minuto de silêncio em homenagem a Thomas Edison, o mártir, herói e inconfidente dos notívagos solitários!

(...)

[um minuto depois...]

E três vivas ao elevador, à TV, ao DVD, ao computador, à Internet, à geladeira, ao fogão, ao microondas, ao chuveiro elétrico e ao secador de cabelos! Viva! Viva! Viva!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bolsa

Então.
Aproveitei a terça-feira para ir ao Na Mata, ouvir boa música e dar uma sondada no mercado.
Minha gente: o mercado tá fraco.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Pra titia

Falando em casamentos...

Minha prima vai casar. Minha prima linda, querida e amada vai casar. A idéia original era morar junto e fazer um test-drive antes de completar o serviço, mas titia deu uma chamada e os noivos resolveram se enquadrar. O casório é em janeiro de 2008. Vivam nos noivos!

Então me dei conta de que, depois do casamento de outra prima, por parte de pai, marcado para agosto desse ano, e do casório da minha prima querida no começo do ano que vem, me tornei a próxima na linha sucessória da família. E não vejo ninguém à minha frente!...

O pior de tudo é que até hoje absolutamente todas as minhas cinco primas mais velhas (e a minha irmã) se casaram (ou casarão) exatamente como manda o figurino: com um bom homem, na igreja, em cerimônia celebrada por um pastor (as duas famílias são protestantes), de branco, com direito a aliança e festão pra mais de 200 convidados.

Quando a minha irmã se casou eu pensei secretamente: “papai, mamãe, aproveitem bem esse momento, pois ele será único na vida de vocês...”. Eu já sabia que nunca me casaria na igreja e, mesmo namorando naquela época e curtindo a idéia de rituais, também desconfiava que morar junto seria o primeiro passo antes de pensar em algum tipo de celebração. E mesmo a tal celebração, se houvesse, certamente não seguiria os moldes dos casamentos tradicionais.

Hoje em dia, porém, já fui ainda mais longe nas minhas elucubrações sobre o futuro: será que algum dia eu vou sequer juntar os meus trapinhos com alguém? E isso não é um discurso amargurado e anticasamento, é apenas uma constatação sobre a imprevisibilidade da vida. Poucas pessoas que eu conheço são tão românticas quanto eu. Quase nenhuma das minhas amigas curte tanto a idéia de “se amarrar” quanto eu curto. Quando amo (reformulando: até hoje, quando amei...), nunca lamento o fato de estar comprometida e não sinto falta da liberdade da vida de solteira. E acho que, desde sempre, a idéia de casar e ter filhos é um dos meus maiores desejos e aquilo que talvez atribua mais sentido à existência.

Ainda assim, ao longo dos últimos 22 meses da minha vida, comecei a exercitar o pensamento sobre a possibilidade de isso nunca vir a acontecer e traçar rotas alternativas para que a minha vida possa vir a ter tanto ou mais sentido quanto eu encontraria se pudesse realizar aquele meu sonho original. Por mais que se diga “que é isso! Você só tem 29 anos!”, passei a sentir uma necessidade leonina de aprender a me pensar como uma pessoa completa mesmo sozinha.

Tenho certeza de que ainda vou viver muitos encontros nessa vida, e espero que cada uma das coisas que eu vivi até hoje esteja me preparando para vivê-los cada vez mais intensamente e extrair deles o máximo de prazer, dor e ensinamento. Mas quero também ter a certeza de que, se por uma falta de sorte nenhum desses encontros for mágico o suficiente para me fazer desejar dividir a minha vida com outra pessoa, ainda assim posso me sentir feliz e realizada.

Acho que tenho feito um bom trabalho até agora. Mas é inevitável, de vez em quando, se render a essas pequenas fantasias que acompanham as meninas desde sempre: pensar no seu vestido de noiva, na música que você queria que tocasse na sua entrada triunfal, em quem seriam os seus padrinhos... Só falta mesmo um pequeno detalhe para completar o quadro: o noivo!

Por que é que nenhuma das minhas primas resolveu fazer a Revolução antes de mim, casar com uma mulher, entrar para um harém, namorar um casal (acreditem, isso existe), enfim, romper com os paradigmas? Bem, simplesmente não aconteceu... E felizmente, cada uma delas, a meu ver, encontrou a felicidade ao seu modo.

Enquanto isso, estou aqui trabalhando com afinco para encontrar o meu...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Mulheres apaixonadas

“O dia do meu casamento foi um dia muito, muito feliz na minha vida. Embora a gente já morasse junto há algum tempo, resolvemos casar no civil. Eu e ele queríamos oferecer uma festa para os amigos, e alguém precisava pagar por essa festa... Mas, além disso, muito acima disso, eu quis dar esse casamento de presente para o meu pai. Eu era a filha mais nova, a única que ainda não tinha casado. E fiz questão que o meu pai me conduzisse até o juiz de paz diante de todos os meus amigos, que me levasse pelo braço e me entregasse para o meu futuro marido. Ensaiamos essa entrada milhares de vezes. Se você me perguntasse naquela época, eu não saberia te dizer por quem estava mais apaixonada: se por ele ou pelo meu pai...”.

terça-feira, 4 de março de 2008

Loucos

Eles estão por toda parte. Às vezes vestem terno e gravata, tailleurs, exibem cargos importantes e se escondem por trás de uma grande fachada institucional. Desses eu quero distância, embora seja impossível escapar de ter pelo menos um ocupando um papel importante na sua vida.

Os que me interessam mesmo são aqueles que vivem a céu aberto, dizendo suas verdades aos transeuntes, exibindo as entranhas que todos nós, ao longo da vida, aprendemos a ocultar.

No bairro da minha mãe havia um. Estava sempre descalço, sentado no chão em frente à padaria, em uma pose infantil com as pernas esticadas e abertas e um pedaço de papelão à sua frente. Falava muito sozinho. Tinha a pele morena e a cabeça calva. Às vezes, em meio ao seu solilóquio, parecia um pouco agressivo, por isso meu coração de menina nunca teve coragem de se aproximar. O que mais me atraía e aterrorizava eram os desenhos sempre iguais que ele fazia no pedaço de papelão, com uma velha caneta esferográfica: eram bustos de seres meio-homem, meio-macaco, como as figuras de 2001 – Uma Odisséia no Espaço ou do Planeta dos Macacos.

Aqueles homens-macacos exerciam em mim o mesmo fascínio e repulsa que as cobras. Não há como não olhar, mas não há como olhar e não se sentir repelido. Ele fazia parte da paisagem, do caminho de casa. Ele e sua caneta esferográfica, seu pedaço de papelão, sua pose infantil, seu monólogo agitado e seus homens-macacos.

O louquinho do meu bairro é de outro tipo. É aquele que a gente costuma chamar de “louco manso”. Idoso, sem um dente na boca, rosto enrugado, cabelos branquinhos. Está sempre caminhando e conversando, com alguém que pode ou não estar lá. Às vezes me diz frases incompreensíveis, desconfio que faz críticas a políticos ou defende alguma teoria conspiratória.

Ele adora as minhas cachorras e, acho eu, me adora também. Lembro muito bem da primeira vez em que nos encontramos, como ele exibiu a gengiva banguela e disse como elas eram bonitinhas. Desde então, sempre que o encontro, faço questão de parar, dar bom dia/boa tarde e esperar que faça uma festinha nas cachorras e o seu mini-discurso.

Uma vez fui tomar um lanche perto de casa com minha mãe e encontramos com ele. Eu a apresentei a ele como se apresenta a mãe a qualquer amigo. A mãe-sereia estranhou um pouco, mas entrou na história. Percebeu que ele era inofensivo.

Em outro dia quente e modorrento, topei com o “meu louquinho” no caminho de volta para casa. Ele sorriu de longe as gengivas vermelhas, se abaixou para aguardar a chegada das cachorras, me olhou com olhinhos brilhantes e saudou: “as bonequinhas!”.

Quando cheguei mais perto, dei boa tarde, esperei que concluísse os afagos nas chuquinhas e então ele disse, entre tímido e galante: “são três!”. Cogitei que ele estivesse enxergando uma terceira cachorra imaginária e resolvi entrar na brincadeira: “Três bonequinhas? Cadê a terceira?”. E ele respondeu, exibindo a banguela e me apontando o dedo: “É você!”.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Tête-à-tête

Não é uma biografia sobre Sartre ou Beauvoir, a autora esclarece. Trata-se de um livro sobre a história de amor entre eles.

Se conheceram aos vinte e poucos anos, na época em que prestavam um exame de admissão ao cargo de professor de filosofia do Ensino Médio. Beauvoir flertava abertamente com Maheu, um amigo de Sartre que era bem casado e feliz. Foi Maheu quem deu a Beauvoir o apelido de “Castor” (porque “Beauvoir” se parece com “beaver”, a palavra inglesa que nomeia o roedor), apelido que Sartre e boa parte dos amigos usaram para se referir a ela durante toda a sua vida.

Sartre se interessou pela jovem Beauvoir, bela e extremamente inteligente, de fala rápida. Pediu a Maheu que marcasse um encontro entre os dois em um café. No dia marcado, Sartre sabia muito bem por que Beauvoir mandara a irmã em seu lugar para desculpar-se e dizer que ela não viria. Baixinho, zarolho e com a pele ruim, Sartre não causava uma boa primeira impressão nas mulheres. A consciência de Sartre sobre sua feiúra talvez tenha sido o primeiro passo em direção às suas concepções sobre o Existencialismo e a liberdade.

Superados os obstáculos iniciais, Sartre e Beauvoir logo viveram um encontro de almas e perceberam que se amariam durante toda a vida. Sartre, no entanto, tinha clareza de que jamais se casaria ou teria filhos. Dizia a Beauvoir que lhe daria o seu amor eterno e profundo, mas jamais poderia abrir mão de sua liberdade. Ele próprio estimulava que Beauvoir fizesse o mesmo.

Ao longo de suas vidas, Sartre e Beauvoir devotaram um amor um ao outro que consideravam “essencial”, enquanto experimentavam com outros parceiros amores “contingentes”. Para Sartre esse sempre foi o arranjo que melhor representava a ordem natural das coisas. Jamais demonstrava ciúme por Beauvoir e nunca a repreendeu por qualquer outro relacionamento.

Para Beauvoir, viver a liberdade pregada por Sartre não era tão fácil. Além de se consumir pelo ciúme, poucas vezes ela achava que as mulheres escolhidas por Sartre estavam à altura dele. De fato Sartre, um homem brilhante, costumeiramente se envolvia com mulheres frágeis ou pouco talentosas, que logo se tornavam dependentes financeiramente dele. Ele as sustentou até sua morte e chegou a adotar uma delas, que atualmente é detentora dos direitos autorais sobre toda a sua obra (e infelizmente não tem sido muito generosa para com o resto da humanidade).

Em poucas ocasiões Sartre e Beauvoir viveram sob o mesmo teto. Cada um deles viveu relacionamentos longos com outros parceiros. Beauvoir chegou a viver com um de seus homens por sete anos. Mas a condição para a sobrevivência desses relacionamentos paralelos era que os parceiros aceitassem que tanto Sartre quanto Beauvoir não eram um homem e uma mulher isentos de compromisso, livres e prontos para se entregar integralmente a uma relação. Eles tinham um ao outro e não abriam mão disso. É verdade que Beauvoir, mais do que Sartre, estava disposta a deixar tudo e todos, a qualquer momento, para estar com Sartre, e em algumas ocasiões isso lhe trouxe conseqüências amargas.

Foram parceiros sexuais durante os primeiros 15 anos dos 51 em que mantiveram o seu laço amoroso. Foram parceiros intelectuais durante os 51 anos de vida em comum. Fizeram da escrita o seu ofício. Era piada entre os amigos de Sartre e Beauvoir que “o Castor trabalhava como uma formiga”. Sartre também tinha uma urgência por escrever que jamais conseguia vencer. Durante toda a sua vida, escreveram durante seis a oito horas por dia. Sartre escreveu peças, romances, artigos e ensaios filosóficos. Beauvoir escrevia artigos, ensaios, romances e um volume significativo de obras autobiográficas.

Sartre e Beauvoir eram dotados de um enorme magnetismo. Eram admirados, lidos e venerados por pessoas ao redor de todo o mundo. Muitas das alunas de Beauvoir se tornaram suas amigas, depois amantes e, boa parte delas depois disso, amantes de Sartre também. Foi assim que Beauvoir acabou exonerada do seu cargo de professora; após a denúncia da mãe de uma de suas alunas. Todas essas pessoas com quem eles se envolviam e que, mesmo depois de findos os casos, continuavam em torno deles, dependendo financeira e emocionalmente dos dois, acabaram constituindo o que eles chamavam de “a família”.

Beauvoir, uma mulher inteligentíssima, articulada, esclarecida, cedo percebeu que a liberdade experimentada por Sartre jamais seria a mesma que ela vivia, por sua condição feminina. Abrir mão de se casar e ter filhos e viver esse relacionamento não oficial com Sartre causou grande desgosto à mãe de Beauvoir e fez com que ela não fosse considerada respeitável em muitos círculos sociais. Estimulada por Sartre a escrever sobre si mesma, sua vida, experiências e idéias, Beauvoir concebeu “O Segundo sexo”, até hoje uma de suas obras mais importantes e um grande ícone do feminismo.

Torturada por angústias permanentes que atribuía ao medo da morte, Beauvoir era dada a momentos de choro incontroláveis, que assustavam quem estivesse por perto por sua aparente fragilidade. Acostumou-se a fazer longas caminhadas para as quais dificilmente encontrava companhia. Sartre, em uma de suas cartas, chamou-a de “devoradora de quilômetros”. Essa era a maneira de Beauvoir de lidar com a sua sombra.

Alguns dos que se envolveram amorosamente ou sexualmente com Sartre e Beauvoir – particularmente as mulheres – consideravam sua forma de se relacionar doentia e destrutiva. Por vezes, Beauvoir e Sartre admitiram a si mesmos terem ido longe demais e causado danos permanentes a jovens a quem a liberdade à qual eles se dedicavam estava além do horizonte de possibilidades. Suas vidas não são impecáveis exemplos de moral e conduta; pelo contrário, refletem mais um exercício não acabado – mas profundamente vivido – de busca por essa tal liberdade, aquela que parece sempre um metro adiante de onde estamos, ou em nome da qual por vezes parecemos abrir mão daquilo que nos parece mais caro.

Tête-à-tête
não é uma biografia sobre Beauvoir ou Sartre. É sem dúvida uma história de amor. Um amor humano, tortuoso, ora egoísta, ora equivocado, mas sempre vivo. Alguém já disse que é a maior história de amor do século XX. A autora deixa ao leitor o veredicto sobre a verdade ou não dessa afirmação.

De minha parte, dentre tantas coisas que me deslumbraram nesse livro, talvez a mais cara tenha sido a velha conhecida lembrança de que existem tantas formas de amar quantas são as pessoas que amam.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Out of the closet

Se eu não posso culpá-la inteiramente, boa parte do meu sumiço se deve a uma certa ruiva. Antes de escorregar a caixa para as minhas mãos, alertou: “não abra na frente dos seus pais. Eles podem entender tudo errado...”.

E então eu descobri o fascinante mundo lésbico.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Vinte e nove

A amiga da rua. As amigas do primário e do ginásio. As amigas do colegial. As amigas do primário, do ginásio e do colegial. As amigas da faculdade. A amiga do ginásio que só ficou amiga mesmo depois da faculdade. A ex-professora da faculdade que virou amiga e sócia. A amiga da faculdade que virou colega de trabalho. A ex-namorada do amigo do ex-namorado da irmã que virou amiga e vizinha de mesa no trabalho. A amiga que não é mais do trabalho, mas continua amiga. Os amigos do ex que viraram amigos. O amigo da amiga que virou amigo e também ficou amigo da outra amiga. O amigo que veio do espaço. A irmã que virou amiga. A colega de faculdade que ficou amiga mesmo quando namorou um amigo do ex. A prima que sempre foi mais amiga do que prima. O namorado da prima que virou amigo. A mulher do amigo do ex que virou amiga, vizinha e colega de trabalho.

Um amigo para cada ano de vida. Assim é que é bom.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Dez mil

Este dia chegou mais cedo do que eu esperava. Já faz um tempo que eu comecei a ficar de olho no marcador de visitas do blog pensando “preciso preparar um post especial para os dez mil”. De repente chega um comentário da amiga e descubro que já estou nos dez mil e seis. Mesmo um pouco atrasada, estou aqui para a comemoração da marca.

O Mulher Solteira nasceu em 5 de julho de 2007, catorze meses depois do meu retorno à vida solteira, mais ou menos uma semana depois de ter vivido pela quinta vez consecutiva, em poucos meses, a famosa síndrome do “por que ele não me ligou?”. Naquela época, voltar a entender o funcionamento do “mercado” consumia boa parte da minha energia e fazia o meu cérebro ferver. Escrever era uma forma de tentar pôr um pouco de ordem no caos e apaziguar a angústia de não entender o que os homens queriam, por que agiam como agiam, o que realmente significavam as suas palavras e também os seus silêncios.

De lá pra cá a “linha editorial” mudou bastante. Afinal, o blog acompanha a minha vida de Mulher Solteira e nos últimos meses decidi sair do campo de batalha e empreender uma nova missão: aprender a ser só. De “mulher solteira navegando sem bússola pela selva dos solteiros” me coloquei “em um rinque de sumô, face a face com a solidão”. Eu bem desconfio que a melhor forma de aprender com a solidão não seja chamá-la para a briga como estou fazendo, e sim me tornar amiga dela. Mas o caminho é longo e ainda tenho muito chão pela frente.

E agora chegamos aos dez mil acessos. Talvez alguns estejam se perguntando sobre a receita do sucesso para atingir tal marca. Quero dividir generosamente com vocês o segredo dessa façanha:

De 5 de julho de 2007 a 16 de fevereiro de 2008 tivemos 227 dias. Isso significa cerca de 44 acessos diários. Vamos dizer que tenho aproximadamente cinco leitores fixos e diários (nem todos comentam, mas alguns me confessam na vida real) e outros dez flutuantes. Isso já explica mais ou menos dez acessos (porque os flutuantes se revezam) por dia. Outros cinco acessos diários são meus mesmo: entro pra ver se os textos continuam no mesmo lugar, para me convencer de que o tamanho e a cor das fontes estão bons, para reler o post do dia anterior e ver se 24 horas atrás escrevi algum absurdo de que me arrependa, para encontrar comigo mesma ou simplesmente para “lamber a cria”. Os outros cerca de 30 acessos são assim distribuídos:

- Cinco pessoas estão procurando alguma referência aos seus livros preferidos da infância ou adolescência: “Poliana” e “Poliana Moça”;

- Cinco pessoas estão querendo saber como cuidar de uma árvore da felicidade;

- Cinco pessoas estão tentando decidir se devem ou não usar aliança de compromisso;

- Cinco pessoas estão procurando informações sobre o samba da Praça Roosevelt;

- Cinco pessoas estão usando o google como oráculo, procurando respostas para perguntas como “ele vai me ligar amanhã?”;

- Cinco pessoas estão procurando pornografia e, ao digitar expressões como “mulher dando de quatro”, misteriosamente são remetidas à minha página.

Aos meus leitores fixos e flutuantes, o meu muito obrigada (não teria cabimento agradecer a mim mesma pelos meus cinco acessos diários). Aos interessados na Poliana, na árvore da felicidade, nas alianças de compromisso ou no samba da Praça Roosevelt, lamento não poder ajudá-los, mas espero que tenham usufruído de uma leitura interessante caso tenham decidido perder alguns minutos com esse blog. Àqueles que usam o google como um oráculo, espero que encontrem as respostas que estavam procurando (e que descubram logo que o google serve para quase tudo, mas certas respostas só o tempo pode trazer). Aos que procuram pornografia, não se sintam logrados pelo google. Aprendam também que as aspas são de grande ajuda para que ele não se confunda na busca. E aproveitem para parar e usufruir das confissões de uma mente feminina, que às vezes pode ser ainda mais erótica do que as partes íntimas de uma mulher.

E que venham os próximos dez mil!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Laço

- Oi, linda!
- Oi... tudo bem?
- Tudo, e você?
- Médio...
- Por quê?
- Solidão.
- Sei como é...

E isso já fez desgrudar as asas viscosas da mariposa pousada no meu coração.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Em nome da Ciência

Justificativa
Em nome do progresso científico, decidi entregar-me a um experimento. Meu interesse pelo tema surgiu de hipóteses do senso-comum que dizem que “quando menos se espera, aparece alguém interessante”, “quando você faz as coisas por você, e não pelos outros, se torna alguém irresistível” e “antes de gostar de alguém, é preciso aprender a gostar de si mesmo”. Assim, tomei a decisão de não realizar absolutamente nenhum movimento em direção à busca por um parceiro amoroso, ficante, rolo, paquera, one-night-stand, PA, ATT e similares, não significando, com isso, que eu estivesse fechada a qualquer uma dessas experiências. O coração do experimento consistia em não buscar, não procurar, não fazer nenhum esforço.

Objetivos gerais

- Fortalecimento da auto-estima
- Contemplação do vazio lúcido
- Aceitação do sentimento de solidão
- Exercício da paciência
- Aprendizado de auto-suficiência

Objetivos específicos

- Identificar se, de fato, “o universo conspira a nosso favor”
- Verificar se é possível conhecer homens interessantes na fila do banco, na padaria ou na locadora sem tomar absolutamente nenhuma iniciativa
- Investigar se “alguém de repente pode lhe oferecer flores”
- Constatar se é verdade que “o que é meu está guardado”

Metodologia

A metodologia utilizada consistiu na realização de absolutamente nada. Alguns comportamentos foram evitados:

- Entrar em sites de relacionamentos
- Sucumbir a blind dates patrocinados pelas amigas
- Enviar indiretas ao amigo gostoso da sua melhor amiga
- Procurar rolos, ficantes, one-night-stands, PAs ou ATTs do passado
- Sair para a balada com objetivos de caça
- Tentar conquistar o professor de violino da afilhada da sua amiga com um e-mail espirituoso

Resultados parciais

134 dias de seca

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Carnaval

Mulher Solteira informa: este blog está fora da área de cobertura ou desligado.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

And the Oscar goes to...

Eu sou um bicho teimoso, ou melhor, preguiçoso, ou melhor, randomicamente avoado. O vizinho cansou de buzinar no meu ouvido: Mulher, você tá marcando touca nessa 2001! A locadora da esquina de casa é muito mais barata...

E eu, afundando em dívidas e afundando a minha solidão nos filmes, levei quase um ano para finalmente me lembrar de colocar um simples comprovante de residência da bolsa para fazer o meu cadastro na locadora.

Confesso que logo de cara não notei uma diferença significativa nos preços. Pra falar a verdade, a minha ridiculamente obsessiva memória para eventos dramáticos e cultura inútil não é lá um grande prodígio na arte da comparação dos preços. Deve ser por isso que eu, afundando em dívidas e afundando a minha solidão em potes de requeijão, continuo fazendo compras no Pão de Açúcar. Ah, é. Também gosto de fazer supermercado de madrugada. Coisas de solteiros solitários.

Mas de volta aos fatos: comecei a freqüentar a locadora ocasionalmente, sem sentir, de imediato, nenhum grande alívio no bolso. Foi aí que o universo conspirou para que a minha gula de ficção atacasse em plena quarta-feira. Entrei, vasculhei as prateleiras (é verdade que a oferta não é tão variada, mas sempre há algo interessante se a gente procurar com afinco), escolhi uma fita (pra usar uma gíria em desuso e provocar raivinhas em amigas ruivas) e, ao passar pelo balcão, recebi a senha para a felicidade: não quer aproveitar e pegar mais um? Hoje é dia de promoção, cada locação por 3,50. Voltei para casa feliz da vida, com dois DVDs debaixo do braço e quarenta e oito horas para desfrutá-los, tudo pela bagatela de 7 reais.

Semana seguinte, a cena se repete. Mas dessa vez, com programação noturna na quinta-feira e intensa programação diurna no feriado de sexta, só consegui assistir a um dos filmes. Ainda assim, desfrutei do privilégio de ligar para a locadora vir buscá-lo na minha casa, sem taxa de “entrega”, e deixei para acertar tudo no dia seguinte quando fosse devolver o segundo.

Na hora de pagar, a surpresa: Deu 9,50. Como? 9,50. Sabe o que é, você está um dia atrasada... Pois é, sei disso, respondi surpresa. É que pensei que fosse ficar mais caro. Não, a diária em atraso custa 2,50. Ah... Desse jeito até vale a pena atrasar, não? Levemente constrangida, a atendente não teve como não concordar.

Hoje foi dia de cinema em casa de novo. E como a primeira sessão acabou cedo, estou me preparando para a segunda. Acontece que li em um cartaz em cima do balcão que os filmes locados na promoção de quarta, se devolvidos na quinta, saem por 2,50. Imaginem o cenário: na quarta-feira alugo quatro filmes. Com uma sessão dupla na quarta e outra na quinta-feira (uma meta conservadora para alguém que não vai para a cama antes das duas da manhã), terei assistido a quatro filmes por reles 12 reais. E o preço vale tanto para catálogo quanto lançamento!

Na pior das hipóteses, vendo um filme por dia de quarta a sábado, arremato a semana com quatro novas aquisições para o meu repertório filmográfico por apenas 4,50 cada. Calculem comigo: devolvo (ou melhor, mando buscar) o primeiro filme na quinta por 2,50; o segundo na sexta por 3,50 (não dá pra assistir e devolver um na própria sexta porque a locadora fecha às 23h); o terceiro e o quarto no sábado por 6,0 cada. Tã-dã! Conta final: 18 reais.

A quarta-feira, que costumava ser o limbo insosso entre o longínquo sábado que passou e o que ainda está por vir, acaba de receber o Mulher Solteira Award de noite mais divertida da semana.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Feira livre

Amiga 1 – Mulher, dei seu msn para um cara com quem eu estava me correspondendo no Par Perfeito! Agora que eu estou com o Sicrano, como achei que ele podia ser interessante, falei de você pra ele e ele ficou a fim de te conhecer. Ele já olhou o seu Orkut e te achou bem interessante. Ah, falando em Orkut, antes que eu me esqueça: também dei o seu Orkut para um amigo do Sicrano. Nossa, se você gostar dele vai ser ótimo, porque ele é mooooito legal!!!

Amiga 2 – Mulher! Olha só: uma amiga minha lá de Ribeirão se separou do marido há pouco tempo, não tem volta, eles ficaram amigos, tudo super bem resolvido. E o Beltrano é um partidão! Tô aqui pensando em um jeito de te apresentar para ele... Ribeirão nem é tão longe, vai!

Amiga 3 – Mulher, outro dia eu estava pensando e concluí que o professor de violino da minha afilhada é A SUA ALMA GÊMEA! Ele é interessante e bonito, tem estatura mediana, é hiper sensível, não é nada gay, me parece que não é casado nem tem namorada, é super culto, é simpático, aberto, comunicativo, e é MÚSICOOOO!!! Você acha que com o nome dele e a indicação de onde ele trabalha tem como chegar no e-mail dele???

Amiga 4 – Mulher, vem cá, quero te apresentar para o meu amigo Homem, Homem, Mulher, Mulher, Homem, pronto, estão apresentados! É que eu tava comentando com o meu irmão, vocês têm tudo a ver! Mulher, o Homem também é da USP, super inteligente, é físico, então é isso, vocês podem decidir agora se querem conversar ou não, que nem a Daniela Cicarelli, hahahahaha!!! Sabe, no Beija Sapo? Então é isso, ai gente, até eu fiquei com vergonha agora, então abafa o caso, vamos dar uma circulada e se for o caso depois vocês conversam...

Amiga 5 – Mulher, atenção! Acabaram de chegar dois amigos solteiros e super interessantes! (Algumas horas depois...) Ah, eu vou te contar! As mulheres solteiras dessa mesa não estão com nada!!! Eu trago três solteiros lindos, inteligentes, interessantes para essa balada e eles vão embora porque acharam o lugar meio parado? Vocês não estão com nada!!!

Amiga 6 – Mulher, o que você acha do meu amigo Fulano, rola??? Não??? Ah, que pena, porque eu já perguntei pra ele e ele disse que pra ele rola...

Mãe da Amiga 6 – Aê, Mulher! Vamos agitar o Fulano pra você, hein???

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Segredos de liquidificador

- Então, quebrou um ovo podre no meu carro, acredita? Agora está um cheiro péssimo...
- Hum, não faço idéia de como seja cheiro de ovo podre.
- Parece cheiro de pum.
- Ah, é? Mas cheiro de pum ruim, né? Ou cheiro de pum bom, tipo ovo frito? Não, deve ser cheiro de pum ruim, se o ovo estava podre.
- ... Cheiro de ovo frito???
- Você não acha que ovo frito tem um pouco de cheiro de pum? Mas não é ruim, é cheiroso... Cheiro de pum bom. Tem cheiro de pum ruim e cheiro de pum bom.
- ... [cara de monstra]
- ... Não tem?
- ... Sei lá!
- Quando você solta um pum, não fica com vontade de continuar sentindo o cheiro?
- ... Será???
- Ué, todo mundo gosta do cheiro do próprio pum!
- Nossa, nunca reparei! Será que o pressuposto é o mesmo que leva as pessoas a olhar para o próprio cocô?
- Ah, pode ser... Porque a gente gosta de olhar o próprio cocô, mas o cocô dos outros não, né? E com pum também é assim, o pum dos outros é sempre fedido, mas do nosso pum a gente gosta.
- Se bem que quando a gente olha o cocô é por uma certa curiosidade de saber o resultado da ingestão de certos alimentos. É, acho que quando o pum está com um cheiro diferente a gente também se sente estimulado a investigar...
- Pois é. Mas de qualquer jeito a gente gosta do cheiro do nosso pum, independente do que a gente comeu.
- ... Gente... eu nunca tinha pensado nisso!
- Nossa...
- Bom, vou começar a reparar então.
- Tá, depois você me conta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Sobre a espera

Certa vez uma prima disse que eu não deveria esperar. Esperar pelo quê? Perguntei. ‘Esperar por tudo, oras.’

Pequena Gafanhota,

Eu sei que dói, e como sei, e como dói. Dói dormir, acordar, comer, trabalhar, falar, respirar, viver. Quanta coragem é necessária para arrastar esse desarticulado conjunto de órgãos, membros, ossos e carnes para as mais banais e fundamentais atividades do cotidiano. A mais fugidia sensação de paz de espírito, experimentada em um ou outro momento de entrega a algum pensamento ou tarefa desvinculada do seu objeto de amor, parece durar poucos segundos ante toda a eternidade ainda por se viver sem a presença do ser amado. Impossível não se sentir errada, pequena, insignificante, desprovida de algum encanto fundamental que deveria ser original de fábrica e não se consegue em uma revendedora qualquer.

Mas tenha calma, cara amiga. Calma e fé. Siga a estratégia dos dependentes químicos e viva um dia de cada vez, estabeleça uma meta exeqüível de se manter a salvo pelo menos por hoje. Coloque o seu sofrimento em uma perspectiva cósmica. Pense em quantas pessoas no mundo, nesse exato momento, estão passando por essa mesma, exata e insuportável dor que parece ter sido forjada aí mesmo no seu peito. Em quantas outras já passaram por essa mesma sensação de aniquilamento e hoje podem contar que a história teve um final feliz, ainda que o roteiro original tenha sofrido significativas adaptações por força das circunstâncias. Em quantas, ainda, que nesse instante vivenciam aquela mesma intensa percepção de felicidade a dois que lhe parece ter sido roubada sem possibilidade de resgate, mas em horas, dias, semanas, meses ou anos também serão obrigadas a enfrentar a solidão em um rinque de sumô.

Aplique, ainda, a perspectiva cósmica à sua própria linha do tempo. Pense no que significa essa porção de dor no universo que representa a sua vida como um todo, visualize a sua diluição no caudaloso passar das horas, dias, meses e anos que você já viveu e ainda há de viver. Use os seus olhos, ouvidos e coração para perceber que o amor acaba a todo instante, mas também renasce a todo instante e se é assim com todos, não será diferente com você.

Não tenha a ilusão, no entanto, de que qualquer um desses pensamentos afrouxará sequer um milímetro do aperto que toma conta da sua caixa torácica. Não será nesse momento, justo agora, que você encontrará forças para fazer prevalecer a razão sobre a emoção. Eles servirão apenas para que você reúna as mínimas forças necessárias para seguir vivendo e esperando, esperando, esperando.

Sim, você precisa continuar esperando. Ainda que a idéia de tomar uma pílula mágica que te fizesse dormir durante três meses pareça agora a maior das possíveis invenções da humanidade, saiba que tal engenho seria inteiramente inútil. Você dormiria e acordaria exatamente da mesma maneira, e esse lapso de tempo nada teria feito por você. É preciso dormir e acordar em cada um dos dias desses três meses, seguir vivendo apesar de tudo, obrigar-se a executar as mais ínfimas tarefas necessárias a garantir a manutenção da sua vida, e depois fazer isso por mais três meses, e mais três, e mais três, e quantos mais sejam precisos até que finalmente o tempo tenha realizado a sua ação curativa (que só acontece na sua espera ativa, como tento agora te mostrar).

Então talvez você chegue ao ponto de poder não esperar nada. Talvez se desfaça, uma a uma, de todas as suas ilusões, submeta toda a sua existência ao crivo da sua filosofia pessoal e conclua que nada nem ninguém pode ser tomado como garantido. E, diante disso, decida viver de maneira errante e errada, tomando cada um dos seus dias como a oportunidade de se surpreender com o novo e o desconhecido sem jamais se aferrar a eles e simplesmente pulando de uma experiência a outra com a única certeza de permanente admiração em relação à vida.

Pode ser que nesse tempo você também dessacralize o seu corpo e o entregue ao bel-prazer do fluxo dessas experiências. Você vai se desapropriar de si mesma e doar-se à ciência da experimentação. Vai provar um pouco de cada coisa, abrir mão do seu gosto clássico e simplesmente colocar-se à disposição de cada um dos encontros, por mais descartáveis que eles sejam, que a vida possa te proporcionar. Em cada um deles você vai sugar até a última gota das sensações, percepções, reflexões, conclusões e também o avesso de todas elas. E a pequena dor que esses encontros poderão te infligir será apenas a taxa mínima cobrada pela vida a qualquer um dos seus usuários, simples tarifa de manutenção, franquia que cobre desde os gastos com um conserto de radiador até o desgaste do relacionamento com um chefe que muda de opinião a cada 15 minutos.

Como, até então, você talvez não tenha estado aberta a vivê-los, esses encontros trarão consigo a dose de praxe de deslumbramento. A quem nada espera, a vida presenteia com surpresas permanentes, pensará você. E se entregará cada vez mais ao exercício de não fazer planos, de não buscar encontros, de não procurar amores, de não alimentar ilusões e simplesmente apanhar nas mãos essas pequenas doses diárias de descoberta. Perceberá, com espanto, que as pessoas não entram em sua vida para garantir a sua felicidade ou apaziguar a sua dor. O que há vez ou outra é a mera coincidência entre esses estados de feliz ou infelicidade e a presença ou ausência de alguém, mas a sua dor e a sua felicidade, sabe, essas ficam por sua conta.

E aí chegará o dia em que você vai enfrentar o vazio. Porque a vida paradoxalmente é muito curta e também muito longa, e despida dos seus planos, sonhos e ilusões e disposta a se entregar também a essa vivência, as horas, dias, semanas e meses se escoarão lentamente, sem que nada se possa fazer a respeito a não ser entender mais esse momento como uma nova e importante aquisição para o seu repertório. Não há nada de mal em tomar o cinema, a música ou a literatura como companhias eventuais na vivência desse vazio. Você já tem nas mãos os seus pincéis e tintas; procure pensar como seria a representação no papel desse vazio lúcido. Alimente-se das histórias alheias, mate a sua fome de vida com a ficção. E, mais uma vez, aprenda a esperar.

Exercite a sua paciência. Ouça o ronco surdo que vem de dentro do seu coração vazio, do seu estômago vazio, da sua mente vazia. Observe. Veja que, afinal, nem mesmo o vazio é capaz de anular a sua existência. Lembra-se da História sem Fim? “O nada é o vazio que resta”. Aqui, do lado de cá, o vazio é só o vazio, o nada é só o nada. Convide-os para um bom cálice de vinho, se te apetecer, ou para aquele cafezinho de que você tanto gosta.

E depois de tudo isso, Pequena Gafanhota, o que eu mais espero é que você continue esperando, e não desista nunca de esperar. Esperar nos ponteiros do relógio que o universo conspire e esperar nos ponteiros do seu coração que os seus sonhos e desejos tão preciosos encontrem outros sonhos e desejos com os quais possam seguir viagem. Afinal, o que seria de mim, de você, dele, sem os nossos sonhos e desejos? O que é o homem sem o seu projeto? Então, espere sim. Oxalá eu possa continuar sendo sua amiga para ainda te ver roendo todas as unhas dos dedos esperando, sabe lá, por um telefonema, ou de coração acelerado esperando por um beijo, ou de boca seca esperando por uma boa notícia, ou de pés inchados esperando pela chegada de um filho.

Essa sua anatomia errada, esse seu todo-coração, é o bem mais precioso que você possui. Se você já sabe o quanto pode sofrer com a perda, tem que saber também que a única coisa que não pode perder nunca é a capacidade de amar, pois o seu amor não está nele nem em nenhum outro, mas em você. Essa capacidade é o único pré-requisito para a sua felicidade nessa vida.

Bons encontros com a sua dor e delícia. Estarei aqui.

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* Esta não é uma obra de ficção. Qualquer semelhança entre pessoas, lugares e acontecimentos terá sido fruto de uma dolorosa mas frutífera vivência pessoal e intransferível.