quarta-feira, 7 de maio de 2008

Em nome da Ciência - II

A equipe do Instituto Mulher Solteira de Pesquisa Aplicada aos Esportes Radicais de Compreensão da Mente Masculina decidiu empreender um novo experimento científico com o objetivo de verificar a topografia de resposta do sexo masculino a diferentes abordagens femininas. Para o experimento, foi utilizada a espécie masculina Arredius mutantis. Os principais dados obtidos por meio do experimento são brevemente relatados a seguir:

Abordagem A

Veículo: e-mail.
Tom da mensagem: amistoso.
Conteúdo da mensagem: pedido de informação com demonstração de interesse e afeto.
Tempo de demora da resposta: 2 dias, 20 horas e 30 minutos.
Tom da resposta: evasivo.
Conteúdo da resposta: fornecimento impreciso de informação, alusão a possível atividade sem data estabelecida.
Resultado final: nenhum.

Abordagem B

Veículo: e-mail.
Tom da mensagem: provocante.
Conteúdo da mensagem: ironia sobre a resposta evasiva e clara demonstração de interesse sexual.
Tempo de demora da resposta: 23 minutos.
Tom da resposta: direto.
Conteúdo da resposta: convite para atividade na mesma noite.
Resultado final: conteúdo impróprio para a audiência deste blog (alô, mamãe!).

Conclui-se, assim, que a Abordagem B aplicada à espécie Arredius mutantis apresentou resposta em tempo mais curto e com pleno alcance dos objetivos estabelecidos pela pesquisadora.


domingo, 4 de maio de 2008

Sempre ela

A vizinha reagiu com indignação quando eu disse que me sentia invisível e, pela primeira vez em muito tempo, finalmente começava a me sentir notada por um certo rapaz.

Ela tinha razão ao achar que a minha metáfora era um tanto autodepreciativa, mas pedi que ela não fosse tão literal e entendesse o que eu tentava lhe explicar: que em meio a uma vida tão ordinária e banal, finalmente alguém parecia ver em mim a riqueza interior que eu acreditava ter e tanto desejava compartilhar. Afinal, passamos a vida alimentando a fantasia de que somos especiais e desejando ardentemente que alguém de nosso agrado considere nossa “especialidade” irresistível. Ainda um pouco desconfiada, ela acabou engolindo a minha tese.

Só mais tarde, refletindo sobre a conversa, fui rir da minha santa ingenuidade e lembrar o que realmente nos torna visíveis perante os olhos masculinos: a bunda.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Hai kai

Tempo de falar.
Tempo de calar.
Tempo de ralar.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Enigma pós-moderno

Diz a esfinge: Queres que te devore? Torna-te tu indecifrável.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Guerra e paz

- Vó, quantos anos faz que você e o vovô são casados mesmo?
- Ih, filhinha... Séculos e séculos... Sessenta e dois anos!
- Uau... é muito tempo!
- Nem me fale, filhinha, nem me fale... Hoje em dia estamos assim: um fica aqui, o outro fica lá. Se os dois ficam juntos, ou dá sono, ou dá briga!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Marte X Vênus


Eles reclamam que nós dizemos “não” quando queremos dizer “sim”, “sim” quando queremos dizer “talvez” e “talvez” quando queremos dizer “não”.

Eu pergunto: eles nos dão alternativa?

domingo, 20 de abril de 2008

Um bonde chamado desejo


- Foi uma conjuntivite brabíssima! Deixou até seqüelas, estou enxergando embaçado e vendo pontinhos brancos com o olho direito! Ainda preciso consultar outro médico para ouvir uma segunda opinião...
- É mesmo? Que coisa!
- Pois é... Não imaginava que uma reles conjuntivite podia ser tão perigosa.
- Sim, eu ouvi falar de um caso semelhante. Mas e o Fulano, não pegou de você?
- Por enquanto não... Mas também, passamos uma semana inteira sem nos tocar, dormindo em quartos separados!
- Puxa...
- Bem... Quase uma semana... Quando não agüentávamos mais ficar longe um do outro, ele vestiu os óculos de natação e mandamos ver!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Comunicado importante

RRRRRRESPEITÁVEL PÚÚBLICOOOOO!!!!

É um prazer, um orgulho e uma honra informar que, a partir do dia de hoje, o MS passa a contar com a presença de finíssimo trato de uma distinta leitora da mais alta “catiguria”: a cenoura minha mãe!

É, portanto, nossa mais legítima obrigação, nos dias vindouros do porvir, manter elevado o nível dos debates e polêmicas, evitando a utilização leviana de termos chulos, a exposição inconseqüente de palavras de baixo calão, a ocorrência de comportamentos que possam porventura ferir a moral e os bons costumes e/ou ainda atentar contra o bom-gosto.

Façamos deste um blog de respeito, um ambiente aprazível e de bom tom, em nome da estética, da metafísica e da hermenêutica, em consideração à senhora minha Mãe Sereia.

Pela atenção, obrigada.

P.S.: Beijo, mãe!!!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Homenagem a Manélson


Há controvérsias a respeito da data exata, mas especialistas avaliam que tenha sido por volta dos idos de 1990. Vez ou outra eu a avistava caminhando pelo bairro e pensava: “que menina colorida!”. Nunca havia conhecido alguém assim: cabelo laranja-cor-de-cenoura, olhos verdes, pele branquinha e bochechas coradas. Parecia que tinha saído de dentro de um desenho animado.

Vizinhas de rua, acabamos tropicando uma na outra aqui, ali e acolá (ela e minha irmã no balé, eu e a irmã dela na natação) e nos tornamos amigas. A pré-adolescência marcou o auge da primeira fase da nossa amizade, tempos de Sítio do Carroção, primeiro amor e frio na barriga.

Aos doze anos de idade eu queria ser estilista de moda. Gostava de desenhar e, quando alguém me contou que havia uma profissão em que a pessoa ganhava dinheiro para fazer isso, achei uma opção muito digna. Minha avó tinha uma amiga dona de confecção e, quando havia desfile de coleção nova na casa dela, lá ia eu de prancheta debaixo do braço, papel sulfite e lápis de cor registrar as últimas tendências e me inspirar para as minhas próprias criações.

Mas Manélson rapidamente me demoveu da idéia. Em uma das únicas discussões dos nossos mais de dezoito anos de amizade, ela argumentou que eu precisava escolher uma profissão mais útil, que pudesse ajudar a melhorar a sociedade. Pra me defender, ridicularizei o fato de ela querer ser psicóloga (como de fato se tornou alguns anos depois) dizendo que ela ia “cuidar de louco”. Nem preciso dizer que paguei a minha língua com oito longos anos de análise...

Meu pai ainda tentou salvar a lavoura, fazendo um contraponto à ruiva tão cheia de razão. “Aposto que quando vai comprar uma roupa no shopping a dona Joana não pensa que a profissão do estilista de moda é inútil. Todas as profissões têm o seu valor social!”. Mas não teve jeito... Ela sabe que é a maior culpada pela crise vocacional dos últimos quinze anos da minha vida! E apesar de ter aprendido a relativizar as suas certezas, de vez em quando ainda confessa que não se arrepende nem um pouco de ter plantado mais essa minhoca na minha cachola já tão fertilizada.

Há um buraco negro inexplicável nos nossos tempos de colegial. Mas quando entramos na faculdade, retomamos a amizade com força total e nunca mais desgrudamos. Manélson acompanhou cada etapa da minha vida e vice-versa, como expectadoras privilegiadas. Me apresentou a dois dos cinco namorados que tive – é uma pena que nenhuma das indicações tenha sido muito promissora, mas não podemos tirar o mérito da tentativa. E como a vida pode ser bem irônica, foi ela quem apresentou ao meu ex a sua atual namorada. Mas quando foi preciso me dar a má notícia, ela assumiu a incumbência com a sua característica integridade e passou o dia todo segurando a minha mão.

Manélson é minha terapeuta-adjunta. Quando tenho dúvidas em minha auto-análise (já que, tal como um fumante, venho tentando “parar” a terapia há anos), é para ela que ligo, despejo a minha bagunça emocional e aguardo o veredicto sempre amoroso e compreensivo. Nunca deixou de responder a nenhum dos meus e-mails lacrimosos das madrugadas em crise de namoro, de pós-namoro e de ausência de namoro. Manélson agüenta as minhas mesmas ladainhas existenciais há quase duas décadas com a mesma paciência e dedicação. Mais ou menos uma vez a cada cinco anos ela se permite entrar em crise e me dá a oportunidade de retribuir com um pouco de orelhão.

Fomos companheironas de balada durante uns bons anos. Como naquele tempo eu ainda era abstêmia, ficava com a incumbência de dirigir. Cabia a ela ser a Relações Públicas da dupla. Maria Joana, Dona Maria, Tipuana, Nias, Kintamani, Básico... Desses tempos temos histórias impagáveis e impublicáveis, que vão ficar para sempre no folclore da nossa amizade. Basta dizer que naquele tempo a pista de dança do Kintamani era escura, escura...

Quando achamos que não era suficiente morar na mesma rua, estudar na mesma faculdade, sair juntas no final de semana e jantar pelo menos uma vez durante a semana, inventamos de fazer aula de jazz. Foram poucos os privilegiados que tiveram a oportunidade única de nos assistir dançando a versão de Cake para “I’ll survive”, poderosas, de vermelho e com cara de más.

Manélson já me gravou fitas e fitas com músicas “para dançar e liberar a drag queen que existe em você”, “para dar beijo na boca ou ter vontade de fazê-lo”, “para pensar na vida e/ou curtir música”, “para sentir-se batuta e/ou ‘que bom que eu liguei!’” (uma expressão cunhada especialmente para designar a sua profunda modéstia). Também me gravou um “CD Prozac” em uma época em que eu estava bem tristinha. Vive me enchendo de blusinhas descoladas e brincões cheios de penduricalhos pra eu liberar a Gisele Bünchen que habita em mim.

Não existem duas como ela. Incapaz de comer um prato de comida sem espalhar uma trilha de grãos, gotas e farelos para todos os lados. Especialista em falar ao telefone enquanto faz um belo número dois (Manélson é a otimização do tempo em pessoa! Imaginem o quanto ela não teve que exercitar a paciência com a minha incomparável velocidade...). No quesito escatologias, faz questão de anunciar e comentar todos os seus episódios de flatulência. Manélson inventou a “raivinha”, aquela irritaçãozinha absolutamente irracional que a gente não sabe explicar muito bem por que sente, mas simplesmente não consegue evitar. Também não deixou passar o “homem-coxa” (aquele que usa camisa pra dentro da calça sens-tropeito) e o “cl-cl” (acompanhado de um sinal de “ok” sincronizado com a pronúncia de cada sílaba), pra designar as coisas carésimas, supérfluas, desprovidas de qualquer funcionalidade, mas consideradas bacanérrimas pela high-society.

Manélson sempre me chamou de “a não-behaviorista mais behaviorista que ela conhece”. Eu posso dizer que assisti de camarote à transformação dessa behaviorista radical em uma terapeuta brilhante, mas que acredita piamente em espírito, cartomante e astrologia. Taí uma pessoa que não tem o menor pudor em viver plenamente as suas contradições. E não está nem aí para quem achar algum problema nisso.

Foi Manélson quem diagnosticou o meu “Transtorno de Sinceridade Compulsiva”. Ela passou anos tentando me ensinar que uma boa mentirinha de vez em quando faz mais bem do que mal, mas acho que já desistiu de tentar me tornar uma pessoa menos “cerrrtinha”. O pior é que com o tempo ela foi pegando alguns dos meus piores cacoetes, tipo dizer pro namorado absolutamente tudo o que se passa naquela cabeça ruiva ou cismar com o menor sinal de anormalidade do pobre moço (“você tá estranho...”). Ainda bem que a gente tá sempre ali uma pra outra, pra sorte dos nossos pobres namorados, lembrando que há limites para a verborragia feminina!

Eu e Manélson somos fãs incontestes de Maryan Keyes e sempre compramos o livro novo dela nas férias de janeiro. Vamos lendo juntas e mandando torpedos uma para a outra para comentar as melhores partes. Também partilhamos o vício por seriados e a compulsão pelo Big Brother.

Às vezes tenho a impressão de que andamos meio afastadas e fico me perguntando se isso significa que mudamos e já não somos mais tão parecidas quanto antigamente (embora sempre tenha sido digno de nota o quanto as nossas semelhanças se disfarçassem sob um manto de absolutas diferenças!). Também me pergunto se essas mudanças seriam de fato na essência de cada uma ou apenas o resultado de momentos de vida desencontrados – ela namorandão, eu solteiraça, ela mais behaviorista do que nunca, eu flertando com a psicanálise, ela acordando com as cotovias, eu dormindo com as corujas.

Com mudança ou sem mudança, perto ou distante, uma coisa é certa: Manélson é e sempre será um dos maiores amores da minha vida.

Parabéns, Manélson!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dia da marmota


Em um dia como outro qualquer, o seu celular toca e você treme à medida que aqueles dígitos vão se revelando horripilantemente familiares: “Estou ligando para lembrá-la da consulta com o Dr. Danilo na próxima sexta-feira”. Resignada, você anota o dia e a hora em um pedaço de papel. Parece que foi ontem! Foram os seis meses mais rápidos da sua vida.

Então começa a operação-desespero: tentar recuperar em quatro dias tudo-aquilo-que-você-está-cansada-de-saber-que-deveria-fazer-todos-os-dias-antes-de-dormir, mas na prática consegue fazer mais ou menos uma vez por mês e olhe lá. A estratégia consiste em empregar simultaneamente todas as técnicas de limpeza de dentes, gengivas e língua aprendidas ao longo de duas décadas de ida ao dentista: escovar uma vez sem pasta, com a escova seca e posicionada no sulco gengival, em um ângulo de 45º (“esquecer que está escovando”); repetir a operação com a escovinha bitufo; aplicar o fio dental “desenhando um ‘c’ para dentro da gengiva, polindo o dente”; escovar a língua; passar o limpador de língua; limpar as bochechas e gengiva com gaze; bochechar com água de ratânia (meu deus, alguém realmente faz isso TODAS AS NOITES?).

Na noite anterior à ida ao dentista, gastar o dobro do tempo para realizar o ritual e, se preciso, repetir algumas operações mais de uma vez. Dormir com a língua formigando de tanta escovação. Na manhã seguinte, leite puro, sem nescau, nada de pão (trauma desde o dia em que o dentista berrou: “o que é isso???? Tem pão no seu dente!!!”) e repetir todo o ritual feito antes de dormir. Não esquecer de levar um pacote de gaze no bolso para passá-la novamente pelas bochechas e gengivas UM MINUTO ANTES DE TOCAR A CAMPAINHA (é incrível a velocidade com que se forma a placa bacteriana).

É de praxe chegar pelo menos 10 minutos atrasada (nem precisa de Freud para explicar...) e, ainda no carro, receber a ligação da secretária confirmando a sua vinda, com o neurótico do seu dentista bufando a um metro da coitada. Na chegada, o dentista invariavelmente vai se queixar do seu atraso, perguntar se você “ainda está namorando aquele músico” e pedir que você escolha o DVD que quer assistir durante a raspagem. Não adianta explicar a ele que você não gosta de estímulos sensórios no período da manhã (nem de DVD, nem de instrumentos de tortura medievais): ele acabará escolhendo aquele DVD chatíssimo do Toquinho, que é a única coisa que passa pela cabeça das pessoas quando você diz que gosta de MPB.

Então chegará a hora da verdade e, após a aplicação do corante de placa, os resultados dos seus esforços serão ou não recompensados. É verdade que ao longo dos anos a técnica vai se aperfeiçoando e os gritos primais emitidos pelo dentista durante a sua pós-adolescência (“isso está parecendo a Guerra do Paraguai!”) poderão gradativamente ser substituídos por leves comentários de incentivo. Mas, inevitavelmente, a sentença final será sempre a mesma: “a escovação está boa, mas precisa melhorar o fio dental”. E na seqüência: “Alessandra, passa o fio dental para ela ver. Aproveita e pega uma gaze para a gente mostrar como remover a placa bacteriana da bochecha”. É inútil afirmar que você vem seguindo as mesmas orientações durante anos, até um minuto antes de entrar no consultório. Placa bacteriana funciona mais ou menos como pane no computador: na presença do técnico, o problema desaparece e você passa por otário. Só que com a placa é ao contrário: basta a presença de um dentista em um raio de cem quilômetros para ela brotar em questão de segundos, independentemente dos seus esforços para debelá-la.

Você vai ganhar uma escova Oral B e o dentista vai pedir para você segurar o espelho em forma de dente e vai te mostrar mais uma vez como proceder à escovação: “escovar uma vez sem pasta, com a escova seca e posicionada no sulco gengival, em um ângulo de 45º (‘esquecer que está escovando’); não é o dente que você escova, mas a gengiva! Repetir a operação com a escovinha bitufo – você tem escova bitufo?; aplicar o fio dental ‘desenhando um ‘c’ para dentro da gengiva, polindo o dente’; escovar a língua; passar o limpador de língua; limpar as bochechas e gengiva com gaze; já te falei para experimentar o bochecho com água de ratânia?”

Com sorte ele vai te liberar do retorno de uma semana e te deixar marcar a próxima consulta só para dali a seis meses (mas você ainda precisa ficar esperta para ter certeza de que ele não vai mandar a secretária marcar para dali a cinco). Que chegarão como se apenas um dia houvesse se passado desde a sua última visita. A assistente, mais delicada e menos repetitiva, vai finalizar o polimento e entregar que o dentista tem os mesmos problemas bucais que você, enquanto ele vai aguardar no escritório ao lado ouvindo um bom CD de jazz e procurando no Livro de Bruxaria para Dentistas uma foto bem horrenda de gengivas retraídas para te assustar.

Finalizada a tortura, você passará ao escritório e ouvirá a mesma ladainha dos últimos dez anos: “como você é minha cliente desde criança, vou te fazer um preço especial. O valor do tratamento é cinqüenta e sete milhões, duzentos e vinte e quatro mil setecentos e oito reais, mas vou te cobrar só duzentos”.

E com um suspiro adolescente, de quem nunca superou aquela paixão platônica que os seus olhos azuis não deixam esquecer, ele fatalmente vai completar: “e não esqueça de contar para a sua mãe”.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Existencial



Será que o mundo me permite um minuto de irracionalidade?

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Por que é tudo tão difícil? Por que as pessoas são tão miseráveis, por que sofrem tanto?

Por que não conseguimos ter a vida que queremos ou simplesmente nos contentar com a vida que temos?

Por que é que não conseguimos saber qual é a vida que queremos ter?

Por que é tão difícil aceitar que merecemos aquilo que temos? Ou o que queremos?

Por que, mesmo quando tudo está bem, sempre falta alguma coisa?

Por que, quando tudo está mal, ainda pode ficar pior?

Por que alguém não pode me dizer que escolhas eu devo fazer?

Por que a escrita não pode ser suficiente para apaziguar a minha angústia?

Por que precisamos tanto de dinheiro e, quando o conseguimos, ele não é o suficiente para garantir a nossa felicidade?

Por que o amor acaba? Por que tudo acaba?

Por que o tempo passa tão rápido e, ao mesmo tempo, tão devagar?

Por que entender as coisas não faz com que elas sejam mais fáceis?

Por que só somos capazes de apreciar determinadas coisas depois que elas não existem mais?

Por que temos que ter uma consciência tão aguda sobre nossa própria morte e nem assim conseguimos preencher a vida com significado?

Por que estamos todos sozinhos? Por que ninguém é capaz de compreender inteiramente o outro?

Por que nos foi dada a capacidade de perguntar se não nos são concedidas as respostas?

Antes que me perguntem, não aconteceu absolutamente nada. Estou apenas doendo a minha existência. Então com licença, deixem-me sentir um pouco de pena de mim mesma e de todos nós.

(Acabo de descobrir que minha cachorra mastigou quatro rolos novinhos de papel higiênico enquanto eu despejava as minhas mágoas existenciais no computador. Um desfecho perfeito para atestar mais uma vez a grande banalidade das indagações humanas.)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Chá de sumiço


Federico, porto-riquenho radicado nos EUA, é agente funerário, tem cerca de 30 anos, é casado e tem dois filhos pequenos. Sua mulher, Vanessa, foi sua primeira e única namorada.

Após a morte da mãe, Vanessa embarca em um longo processo depressivo, ao qual Federico assiste, confuso e impotente. A presença da irmã de Vanessa em sua casa, estimulando-a a lidar com a depressão por meio do cartão de crédito e interferindo na educação dos filhos, é a gota d’água para que ele cometa a maior besteira de sua vida: envolver-se com uma prostituta.

O resto dessa história todos conhecem: mentira tem perna curta e logo a separação é inevitável. Arrasado, Federico ainda passa alguns meses “acampado” na mesa da sala de preparação de corpos da casa funerária onde trabalha, achando que a volta para casa é uma questão de tempo. Após uma “transa de recaída”, ele e Vanessa conversam seriamente e ela finalmente pede o divórcio.

Federico procura se conformar com o novo cenário. Arranja um quarto temporário na casa de seus sócios, que é também a casa funerária onde trabalha, e embarca na onda dos encontros virtuais. Um dia, durante o trabalho, uma janela “pula” de dentro do computador e Federico conta timidamente aos sócios que se trata de uma das garotas que ele conheceu pela internet. Antes de encerrar a breve relação digitando dez palavras apressadas, Federico explica a David e Nate que não houve química com a garota. Não parece perceber o espanto dos sócios quanto à objetividade com que deu o caso por encerrado.

Tempos depois, uma nova pretendente parece finalmente fazer o tipo de Federico. Depois de um ou dois encontros, Vanessa, com quem Federico ainda mantém uma relação amigável, convence-o a chamar o seu “date” para acompanhá-lo durante o casamento de seu sócio. Eles parecem realmente feitos um para o outro.

Alguns dias depois, Federico e a namorada estão na sala de TV. George, o novo marido da dona da casa (Ruth, que abrigou Federico por conta da separação) começa a se recuperar de um surto psicótico. George entra na sala em meio a um beijo ardente e, alheio aos acontecimentos, procura companhia por meio de assuntos irrelevantes e gestos de gentileza. Federico e a namorada não conseguem se desvencilhar do velho e ela decide que já é hora de ir para casa. Federico a convida para almoçar no dia seguinte e ela pede que eles combinem por telefone.

No dia seguinte, próximo à hora do almoço, Federico tenta falar com a namorada duas, três, quatro vezes. Mais tarde, deixa outros recados, concluindo que o horário do almoço já passou e ela provavelmente teve algum imprevisto. À noite, ainda sem notícias, Federico liga para a casa de Vanessa e avisa que não poderá levar os filhos para jantar, como haviam combinado, porque sua amiga está desaparecida. Vanessa se solidariza e aconselha Federico a ligar para a polícia.

Na porta da casa da moça, nem sinal. Não há resposta à campainha. O telefone continua tocando sem parar. Finalmente, Federico procura a síndica e implora que ela abra a porta do apartamento, temendo que algo sério tenha acontecido à namorada.
Por fim, porta aberta, a moça se assusta, se espanta e se irrita com a invasão: o que diabos vocês estão fazendo dentro da minha casa? Federico responde, com convicção: você sumiu! Fiquei preocupado... Combinamos de almoçar e você não atendia as minhas ligações!

A moça responde, entre incrédula e constrangida: pensei que você leria nas entrelinhas... Federico, ainda mais constrangido: ah, sim, claro... as entrelinhas.

Na noite seguinte, Federico tenta levar os filhos para comer uma pizza, mas Vanessa diz a ele que não pode marcar e desmarcar os programas com os filhos a toda hora. Aproveita para perguntar o que havia acontecido à moça que desaparecera durante todo o dia anterior. Federico, embaraçado demais para contar a verdade, diz que ela morreu de ataque cardíaco. Vanessa mal acredita na má sorte de Federico e acaba aceitando não apenas que ele leve os filhos para jantar, mas também lhes faz companhia durante a pizza.

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A seqüência de cenas descrita acima é um excerto da série Six Feet Under. Uma série cinco estrelas, que trata com profundidade e delicadeza o tema da morte e muitas outras questões e dilemas existeciais: o amor, a sexualidade, a solidão, a verdade, a identidade, a loucura, a arte...

Se a pincei dentre inúmeras outras que também me tocaram o fundo da alma, foi porque me vi nessa pequena tragédia do cotidiano de um coração romântico que, impelido pelas tormentas da vida (às vezes provocadas pelo seu próprio barco), volta a navegar sem bússola pela selva dos solteiros.

sábado, 29 de março de 2008

Laurinha e a nova professora


Dia desses, dirigindo meu jipinho pelas ladeiras de Perdizes, uma seqüência de associações livres que minha memória não foi capaz de reter me levou à seguinte pergunta: por que é que eu, uma cartesiana que dança – que, aliás, ama dançar – tive minha carreira no balé clássico tão precocemente abreviada?

Ao contrário da minha irmã, que fez anos e anos de balé, chegou a dançar com sapatilha de ponta e se aposentou compulsoriamente por conta de um problema na rótula do joelho (e cujas fantasias das apresentações de fim de ano – a florista, o fogo, a hippie, anos dourados, a cegonha... – animaram muitas das nossas brincadeiras infantis ao som dos discos do Balão Mágico), eu tive aulas durante um ano, dos seis aos sete, e depois parei.

Fui puxando pela memória até me transportar àquela época e o motivo veio claro como o dia: minha professora. Não, ela não era uma bruxa. Pelo contrário: era uma fada. Nem me lembro do seu nome (minhas memórias infantis são bastante imprecisas e surrealistas), mas seguramente me lembro dos sentimentos que me acompanharam naquele episódio.

Em um desses acontecimentos banais do cotidiano que não parecem sequer dignos de nota, minha professora de balé teve que mudar os horários das suas aulas. Ela lecionava no período da tarde e teve que mudar para o período da manhã. Simples assim. Eu, que estudava no período da manhã, não podia mais fazer aulas com ela. E simplesmente não pude aceitar que qualquer outra pessoa fosse minha professora de balé, apesar de todas as tentativas de argumentação da minha mãe, de uma ida à aula da nova professora com uma amiguinha, da perspectiva de não ganhar uma nova fantasia de balé no final do ano (a minha era de bebê – dancei junto com a minha irmã que era a cegonha).

Pensando bem, pode ser que tudo isso seja apenas fruto da minha imaginação. Foi mais ou menos nessa época que minha mãe me levou ao ortopedista para fazer uma avaliação e eu comecei a fazer fisioterapia para corrigir a lordose, a cifose, a escoliose, o pé chato, a ponta do cotovelo e o branco do olho (processo que se estendeu por longos dez anos da minha vida).

Mas, independentemente do fato de eu ter parado as aulas de balé por recomendação médica ou simplesmente por desgosto, tenho uma vívida recordação de um dia ter faltado à escola (com a anuência da minha compreensiva mãe psicóloga) e ido à escola de balé para visitar a antiga professora. Comemos juntas um ovo de páscoa que levei para ela.

Já lá se vão mais de vinte anos e continuo igualmente apegada às minhas professoras. Eu devia ter me lembrado disso quando assumi a minha primeira sala de aula aos 21 anos, como professora substituta de português de uma 7ª série. Provavelmente teria causado menos danos à minha auto-estima e talvez eu não tivesse tomado a decisão de não pisar novamente em uma sala de aula durante pelo menos uma década.

Há cerca de um ano e meio, naquela fase abominável da minha vida que inspirou o nascimento deste blog, decidi que queria começar a praticar yôga. Eu já tinha ouvido muitos relatos positivos sobre os benefícios da yôga (eu confesso: escrevo yôga mas falo “yóga” – não me acostumo), inclusive da minha analista, cuja opinião respeito profundamente. Sabia que precisava ter uma atividade física regular e, para além disso, estava disposta a buscar toda a ajuda possível para me sentir melhor.

Recebi de uma amiga a recomendação de uma escola que ficava a poucas quadras da minha casa e do trabalho. Entrei no site, fucei os horários das aulas e me rendi ao conforto da comunicação escrita, enviando um e-mail solicitando informações sobre a abertura de novas turmas de iniciantes, já que os horários existentes não eram convenientes para mim.

Logo veio uma resposta simpática da professora dizendo que havia uma turma de nível intermediário com poucos alunos e eu deveria experimentá-la, pois ela poderia me dar mais atenção individual. Eu repliquei dizendo que nunca havia feito yôga na vida e certamente não acompanharia uma turma intermediária. A resposta foi singela: ligue-me e conversaremos.

No telefone com a Adri, contei sobre o meu longo histórico de fracasso escolar no que diz respeito a esportes e atividades físicas em geral. Descrevi as minhas notas vermelhas em todos os quesitos de todas as avaliações físicas que eu já tinha feito na vida: zero de força, zero de flexibilidade, zero de capacidade aeróbica. Eu síntese: eu era uma bucha.

Ela não comprou a minha história. Repetindo a singeleza da primeira resposta escrita, disse simplesmente: venha até aqui e faça uma aula, quero te conhecer.

Fui, a conheci, recebi algumas breves instruções para conseguir acompanhar a seqüência da saudação ao Sol e, alguns minutos depois, tive a minha primeira aula intermediária de yôga. Suei como uma vaca, bufei, tremi, esconjurei, esbugalhei os olhos. Mas fiz a aula inteirinha, até o fim. No relaxamento, chorei um oceano de lágrimas.

Depois nos sentamos no chão e Adri me disse: você tem totais condições de acompanhar essa turma. Precisa trabalhar força? Precisa. Falta flexibilidade? Falta, mas isso é pura ferrugem... O mais importante é que você está extremamente aberta para o trabalho. E tem uma incrível percepção sobre o seu corpo. Por mim você já é aluna do nível intermediário.

Comecei a freqüentar duas aulas semanais e a yôga causou em mim uma transformação. Finalmente descobri que sou um corpo. A yôga é suficientemente exigente para que eu me sinta desafiada e precise me dedicar e me concentrar para fazer as posturas, mas não excessivamente exigente a ponto de eu me sentir desmotivada ou incapaz. Depois de um ano, me senti quase uma menina do circo ao conseguir fazer uma invertida sobre a cabeça pela primeira vez. Eu, que nunca na vida consegui dar uma estrela sequer.

E tudo isso acontecia sob o olhar atento, amoroso e estimulante da Adri. Ela conseguiu a façanha de mudar completamente a minha auto-percepção corporal, a ponto de me exibir para as alunas novas como exemplo de uma pessoa corajosa, que tinha conseguido vencer muitos limites em um tempo surpreendentemente curto.

No início desse ano, meu espírito vampiro despertou definitivamente das catacumbas e comecei a não conseguir levantar para ir às aulas de manhã. Mais do que simplesmente acordar e levantar da cama, constatei que não gosto de estímulos sensórios nas primeiras horas do meu dia. Não gosto de ouvir gente falando alto, não gosto de falar com ninguém, não gosto nem mesmo de tomar banho. À noite, pelo contrário, a yôga cai como uma luva para mudar a freqüência do dia de trabalho e preparar o caminho para casa.

À noite, comecei a não conseguir chegar a tempo para fazer aula com a Adriana. E acabei caindo em outra turma, com outra professora.

Eu a conhecia já há algum tempo, pois logo que comecei a fazer yôga fui experimentando outros horários durante a semana por conta de imprevistos no trabalho. Logo no primeiro dia em que conheci esta outra professora, fiz aula sozinha. Achei que ela falava demais e que insistia muito em que eu fizesse os movimentos com um requinte de perfeição que me desanimava. Me fazia sentir incapaz, como todas as academias de ginástica que já freqüentei na vida.

E é incrível o que acontece quando a gente não gosta de alguém. É como o cheiro que exalam as pessoas que têm medo de cachorro. As pessoas simplesmente começam a não gostar da gente também. Pelo menos era essa a impressão que eu tinha.

A minha pequena deficiência auditiva, que foi delicadamente contornada pela Adri com a recomendação de que eu não me prendesse muito ao que ela falava e simplesmente tentasse acompanhar o fluxo da aula, virou um grande problema para a professora nova. Se eu abria os olhos para fazer leitura labial, ela achava que eu não estava me concentrando o suficiente. Se eu pedia que ela falasse mais alto, ela elevava a voz a uma altura desagradável, como se estivesse gritando ou falando asperamente com toda a turma. Se eu me confundia em alguma postura, ela me perguntava se era porque eu não tinha ouvido direito.

Além disso ela nunca, nunca tocava em mim. A Adri sempre corrigia amorosamente as minhas posturas. Será que eu era invisível? Ou era tão ruim que ela preferia não tentar me corrigir para não me desencorajar? Isso sem mencionar que ela nunca, jamais me tratou pelo nome. Eu desconfiava que ela havia se esquecido como eu chamava.

Apesar de toda a minha resistência, insisti em continuar na turma (afinal, não tenho mais seis anos de idade para desistir de um curso por causa da professora, certo?). E, aos poucos, comecei a gostar dela. Passei a valorizar os seus comentários, que antes me pareciam um pouco maçantes. Encontrei um jeito confortável de lidar com a falta de jeito dela de lidar com a minha surdez. Sobretudo, me concentrei na minha relação com o meu corpo e com a yôga, mais do que na minha relação com ela.

Retomei o ritmo das duas aulas semanais e mergulhei fundo no trabalho. A cada dia, uma nova conquista: uma postura desafiadora da qual vou conseguindo me aproximar aos poucos, minha respiração que já não fica tão ofegante, cada vez menos necessidade de recorrer à postura da criança para acalmar os batimentos cardíacos. Enquanto isso, o cultivar de uma relação crescentemente afetiva com a “nova professora”.

Na última aula, ao me despedir e virar para a porta, recebi um sorriso e um “tchau, querida!”. Isso me fez pensar que a vida é um longo exercício de aprendermos que as separações são inevitáveis, mas sempre é possível estabelecer novas e gratificantes relações.

P.S.: O título desse post faz referência ao livro infantil “A nova professora”, cuja protagonista (Laurinha, uma porca-espinha) vive o drama da substituição da sua querida professora da escola. Toda a coleção da Laurinha marcou momentos felizes da minha infância passados na casa da minha avó Helô. Vó, um beijo!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Semibreves

Estóica
Desafio qualquer um a praticar yôga com os joelhos esfolados. Haja elevação espiritual.
Silogismo
Hoje vi um cachorro perseguindo um carteiro. O que prova que as histórias em quadrinho sempre estiveram certas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um corpo que cai

Caí. De maduro.

Jovem, saudável, inteligente, descolada, independente, articulada. (Acima de tudo, modesta.)

Mesmo assim, caí. De quatro. De boca. De sola. Como diriam os cariocas: me ishhhtabaquei no chão. E ishhhhcangalhei os joelhos.

Tombo daqueles de se olhar em volta para avaliar o tamanho do vexame. De sentir pena de si mesma pela sua fragilidade, vulnerabilidade e insignificância. Aqueles tombos que machucam principalmente a moral.

Não me lembro se no momento do tombo me ocorria algum pensamento de grandiosidade, mas o contraste foi grande: em um segundo eu era a dona da rua, a musa de Perdizes, a cidadã do mundo, a senhora do meu nariz; no segundo seguinte, beijava o chão, calças rasgadas no joelho, mãos esfoladas.

Nem sabe se quer que alguém ajude ou se prefere que todo mundo finja que não viu. Dói cair e dói saber que o mundo continua girando apesar do seu tombo. Se não há platéia, o negócio é engolir o choro e continuar a caminhada. Ver a dor diminuir aos poucos, com o caminho.

Não tem jeito. Cair, todo mundo cai. A questão é como se levanta.

sábado, 15 de março de 2008

TSC

Ela sofre de um severo quadro de Transtorno da Sinceridade Compulsiva.

Sendo assim, antes de partir para os finalmentes, achou por bem informar o moço:

- Olha, é bom você saber de uma coisa. A gente pode ficar, se curtir, numa boa, mas eu estou bem enrolada,viu? Já estou saindo com três caras... Então vê aí o que você quer fazer.

O rapaz se desconcertou, que história é essa, mulher minha é só minha. Ou então, ela tinha que escolher: ou ficava só com ele ou com os quatro!

Depois, capitulou: ela era uma montanha de areia, à disposição do seu caminhãozinho pelo confortável preço de não ter absolutamente nenhum compromisso. Algum homem pode sonhar com algo além disso?

Mas o diabo é que ele gostou dela. Quando pediu o telefone ela deu, mas quando disse que não ia ligar ela nem ligou (e ainda confessa que perdeu a paciência com homem que pede número de telefone só para fazer média).

A moça deu um nó no moço e o negócio foi apelar para os SMSs, santa pós-modernidade. Faz que vai mas não vai, faz que não está estando, comparece sem fazer pressão. E ela, que além de sincera é educada, respondeu. E foi a deixa pra ele ligar.

Com voz de Fábio Jr., ela conta, meio impaciente. Cheio de frases feitas, de elogios prontos e de rouquidão sedutora puxando para o brega. Mas além de sincera e educada, ela é boa. Achou que mesmo enrolada não custava dar mais uma chance para o moço, ruim não tinha sido, ele que se quisesse encontrasse com ela na festa do Fulano no Lugar Tal.

Mas se um é pouco, dois é bom e três é demais, quatro é quase impossível de administrar. E aos 45 do segundo tempo, sabendo que um dos outros três também havia sido convidado para a festa, ela resolve se emendar por SMS: “Xi! Um dos caras com quem eu estou saindo também vem para a festa... E agora?”. Desaforado, o moço responde do alto dos seus 24 anos com topete de 17: “Fica com ele”.

Ela tenta ligar, não falou por mal, só queria que ele soubesse que ela não poderia ficar com ele naquela festa. Ele não atende. Mas chegando no Lugar Tal, ela vai ao bar tomar alguma coisa e PUMBA! Tromba o dito-cujo. O número três não veio, mas os amigos do três sim. Sendo assim, o protocolo continua valendo.

Como é que ele ainda teve coragem de vir depois daquela troca de torpedos?, as amigas perguntam. Ela explica: ele já estava encostado no balcão do bar quando recebeu a triste notícia. Amigos em punho, acampamento armado, achando que aquela noite ia faturar.

As amigas incentivam: “vai, fica com ele!”. Mas ela não quer que os amigos do alheio vejam a cena. “Vai escondida!”. “Não quero ficar escondida!”. É sincera, educada, boa e tem lá os seus brios, vejam bem. Não está fazendo nada de errado. Tudo o que ela quer é usufruir da sua liberdade feminina, pero sín perder la teruna jamás.
Na saída do bar, pede cinco minutinhos para a amiga e finalmente se despede do rapaz com a devida eloqüência. Mas esclarece: ela não vai deixar de sair com nenhum dos outros três!

E durma-se com um barulho desses.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Um grito de liberdade

Uma rajada de tiros, uma salva de palmas, uma ola, um troféu joinha e um minuto de silêncio em homenagem a Thomas Edison, o mártir, herói e inconfidente dos notívagos solitários!

(...)

[um minuto depois...]

E três vivas ao elevador, à TV, ao DVD, ao computador, à Internet, à geladeira, ao fogão, ao microondas, ao chuveiro elétrico e ao secador de cabelos! Viva! Viva! Viva!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bolsa

Então.
Aproveitei a terça-feira para ir ao Na Mata, ouvir boa música e dar uma sondada no mercado.
Minha gente: o mercado tá fraco.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Pra titia

Falando em casamentos...

Minha prima vai casar. Minha prima linda, querida e amada vai casar. A idéia original era morar junto e fazer um test-drive antes de completar o serviço, mas titia deu uma chamada e os noivos resolveram se enquadrar. O casório é em janeiro de 2008. Vivam nos noivos!

Então me dei conta de que, depois do casamento de outra prima, por parte de pai, marcado para agosto desse ano, e do casório da minha prima querida no começo do ano que vem, me tornei a próxima na linha sucessória da família. E não vejo ninguém à minha frente!...

O pior de tudo é que até hoje absolutamente todas as minhas cinco primas mais velhas (e a minha irmã) se casaram (ou casarão) exatamente como manda o figurino: com um bom homem, na igreja, em cerimônia celebrada por um pastor (as duas famílias são protestantes), de branco, com direito a aliança e festão pra mais de 200 convidados.

Quando a minha irmã se casou eu pensei secretamente: “papai, mamãe, aproveitem bem esse momento, pois ele será único na vida de vocês...”. Eu já sabia que nunca me casaria na igreja e, mesmo namorando naquela época e curtindo a idéia de rituais, também desconfiava que morar junto seria o primeiro passo antes de pensar em algum tipo de celebração. E mesmo a tal celebração, se houvesse, certamente não seguiria os moldes dos casamentos tradicionais.

Hoje em dia, porém, já fui ainda mais longe nas minhas elucubrações sobre o futuro: será que algum dia eu vou sequer juntar os meus trapinhos com alguém? E isso não é um discurso amargurado e anticasamento, é apenas uma constatação sobre a imprevisibilidade da vida. Poucas pessoas que eu conheço são tão românticas quanto eu. Quase nenhuma das minhas amigas curte tanto a idéia de “se amarrar” quanto eu curto. Quando amo (reformulando: até hoje, quando amei...), nunca lamento o fato de estar comprometida e não sinto falta da liberdade da vida de solteira. E acho que, desde sempre, a idéia de casar e ter filhos é um dos meus maiores desejos e aquilo que talvez atribua mais sentido à existência.

Ainda assim, ao longo dos últimos 22 meses da minha vida, comecei a exercitar o pensamento sobre a possibilidade de isso nunca vir a acontecer e traçar rotas alternativas para que a minha vida possa vir a ter tanto ou mais sentido quanto eu encontraria se pudesse realizar aquele meu sonho original. Por mais que se diga “que é isso! Você só tem 29 anos!”, passei a sentir uma necessidade leonina de aprender a me pensar como uma pessoa completa mesmo sozinha.

Tenho certeza de que ainda vou viver muitos encontros nessa vida, e espero que cada uma das coisas que eu vivi até hoje esteja me preparando para vivê-los cada vez mais intensamente e extrair deles o máximo de prazer, dor e ensinamento. Mas quero também ter a certeza de que, se por uma falta de sorte nenhum desses encontros for mágico o suficiente para me fazer desejar dividir a minha vida com outra pessoa, ainda assim posso me sentir feliz e realizada.

Acho que tenho feito um bom trabalho até agora. Mas é inevitável, de vez em quando, se render a essas pequenas fantasias que acompanham as meninas desde sempre: pensar no seu vestido de noiva, na música que você queria que tocasse na sua entrada triunfal, em quem seriam os seus padrinhos... Só falta mesmo um pequeno detalhe para completar o quadro: o noivo!

Por que é que nenhuma das minhas primas resolveu fazer a Revolução antes de mim, casar com uma mulher, entrar para um harém, namorar um casal (acreditem, isso existe), enfim, romper com os paradigmas? Bem, simplesmente não aconteceu... E felizmente, cada uma delas, a meu ver, encontrou a felicidade ao seu modo.

Enquanto isso, estou aqui trabalhando com afinco para encontrar o meu...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Mulheres apaixonadas

“O dia do meu casamento foi um dia muito, muito feliz na minha vida. Embora a gente já morasse junto há algum tempo, resolvemos casar no civil. Eu e ele queríamos oferecer uma festa para os amigos, e alguém precisava pagar por essa festa... Mas, além disso, muito acima disso, eu quis dar esse casamento de presente para o meu pai. Eu era a filha mais nova, a única que ainda não tinha casado. E fiz questão que o meu pai me conduzisse até o juiz de paz diante de todos os meus amigos, que me levasse pelo braço e me entregasse para o meu futuro marido. Ensaiamos essa entrada milhares de vezes. Se você me perguntasse naquela época, eu não saberia te dizer por quem estava mais apaixonada: se por ele ou pelo meu pai...”.