sábado, 27 de setembro de 2008

Cegueira

Foi já na primeira mirada que notou algo de diferente. Coisas que os olhos percebem antes do resto de nós.

***

Sempre a se perguntar por que a falta de assimetria lhe causava repulsa. A imagem da menina com braços diminutos, dedos onde deveriam estar os cotovelos, por anos nas suas retinas, impermeável às suas vergonhas cristãs.

***

Tudo lhe era alheio enquanto fitava aqueles olhos, irmãos, mas tão diferentes. Um era altivo, certeiro. O outro, baixo, retraído. Tentava concentrar-se nas palavras, mas o que ouvia eram os olhos.

***

Com o tempo, acostumou-se. Não a ponto do não-notar. Passou o fascínio-repulsa das cobras, ficou a vigilância farol.

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Perguntaram-lhe como era. Não soube informar. Tudo o que sabia dela era aquilo: o divórcio dos olhos. Um olho sempre nela; o outro, no nada.

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A arrefecência dos dias. Aceitou-os. Os dois: o certo e o errado.

***

Não teria sido menor o seu espanto, no dia em que finalmente percebeu. O horror. Estivera a tomar como bom o olho errado. O olho certo era o outro. O seu, morto.

***

Quantas outras vezes na vida não o seria também.

domingo, 21 de setembro de 2008

Theo em quatro tempos

(Theo, sete anos, irmão de Lia, quatro meses)

I
- Cris, você já viu como funciona uma bombinha de tirar leite?
- Não, Theo, como é?
- É assim: você põe essa parte em cima do peito, assim, enfia esse cano aqui na bomba, liga ela assim no aparelho, aí a bomba faz chup-chup-chup e depois o leite sai aqui nesta parte e você coloca na mamadeira.
- Nossa, Theo, você está bem entendido no assunto, não?
- Pois é. A minha mãe agora só fala nisso...

II
(A avó pergunta a Theo se ele não está com frio)
- Ai, vó, você se preocupa demais!
- Theo, todas as vós são assim... Sabe como se chama isso?
- Neurótica?

III
(A mãe de Theo sobe para acudir Lia que acorda do sono da tarde pela quarta vez)
- Theo, seja legal com a sua mãe. Ela está muito cansada!
- Por que, tia? Ela está de TPM?

IV
(Folheio uma revista onde há uma reportagem sobre parto)
- Cris, o que é isso, uma revista de bebê?
- Não, Theo, só esta reportagem aqui é sobre bebê.
- Olha, tem uma mulher pelada!
- Pois é, tem sim.
- Eca. ODEIO ver mulher pelada...
- É mesmo?
- É sim. Morro de nojo disso (aponta para o seio da mulher) e disso (aponta para os países baixos). E disso aqui (aponta para a foto do bebê dentro do útero materno) eu tenho nojo de tudo!

domingo, 14 de setembro de 2008

A carninha do Gabriel

Trim! Trim!

(As histórias da Mãe Sereia que envolvem conversas telefônicas sempre começam com “trim-trim”. Em nome da licença poética, a Mãe Sereia ignora os toques polifônicos e apela para onomatopéias, digamos, mais clássicas. Em homenagem a ela, assim também inicio esta narrativa.)

Trim! Trim!
- Alô, comadre!
- Comadre, alerta vermelho... Estou péssima, com infecção intestinal. Será que você pode vir aqui depois do trabalho e dar uma mão com o Gabo?
Se um amigo quiser me fazer feliz, basta pedir a minha ajuda para qualquer coisa, dando a entender que sou indubitavelmente o ser humano mais indicado da face da Terra para cumprir aquela missão, quiçá o único. Pode ser arrumar um chaveiro às 23h, fazer compra de supermercado, regar plantas, cuidar do filho ou dar remédio para o cachorro doente e, sobretudo, dar apoio moral ou sentimental em um momento de crise.
Diante da nobilíssima missão de acudir a comadre e entreter o afilhado, agora com lindos um ano e três meses, enforco a yôga e disparo para a casa dela. Brinco dez simbólicos minutos com o Gabo antes de ele ter um ataque de manha – quer “escovar” os dentes sozinho (leia-se chupar a pasta de dente da escova) e não admite interferência.
Mãe que é mãe conhece seu filho. Vendo o choro sem lágrima, a comadre diagnostica: “hora de ir pra cama”. Prepara a mamadeira enquanto eu me viro nos 30 e, em seguida, põe em prática a metodologia ultra-avançada que desenvolveu para pôr para dormir o seu pequeno: coloca-o no berço, deixa a chupeta do seu lado, encaixa a mamadeira na sua mão, dá boa-noite, apaga a luz e fecha a porta. Essa minha comadre é o meu orgulho.
De volta à sala, antes de desabar no sofá, a comadre quer me alimentar. Não existe mãe-leonina que suporte receber alguém em casa sem oferecer tudo do bom e do melhor. Estão aí a minha própria mãe-sereia, minha amiga Isadora, a comadre e até minha ex-sogra que não me deixam mentir (coincidência das coincidências, as quatro fazem aniversário no mesmíssimo dia).
Vamos até a cozinha, ela abre a geladeira e, logo depois de ter dito que “nessa casa só tem pão”, retira de lá uma farta gama de tupperwares com os mais variados quitutes: arroz, feijão, seleta de legumes, verdurinhas. “Só não tem carne, Cris...”. Mas logo se lembra da “carninha do Gabriel” no congelador.
Epa. Está certo, todo mundo tem uma verdadeira predileção por comida de nenê (conheço adulto a rodo que compra papinha da Nestlé para consumo próprio), mas comer a carninha do Gabriel é sacanagem, né? “Imagina, Cris... a Neta faz um monte e congela um pouquinho em cada tupperware. Pode comer que depois ela faz mais...”.
Olho para o minúsculo tupperware, onde três diminutos pedaços de carne congelada me perguntam, inquisidores, se eu terei coragem de comê-los. Mando os escrúpulos às favas e coloco tudo no microondas. Enquanto isso, a comadre, um pouco mais refeita, vai olhar a sua correspondência no computador.
Dois minutos depois, abro o tupperware e vejo os três pedacinhos da suculenta carninha do Gabo quentinhos, macios e esperando ser espetados pelo meu garfo. No prato com arroz, feijão e legumes, despejo graciosamente a carninha e, para fazê-la render mais, raspo bem todo o molho de dentro do tupperware em cima do feijão-com-arroz.
Sento na mesa satisfeita com a perspectiva da minha refeição. Monto a “garfada perfeita” e dirijo o garfo à boca antevendo o prazer de saboreá-la. Mas algo não corresponde à minha expectativa. Ainda sem identificar exatamente o que foi que deu errado, preparo a minha segunda garfada. Enquanto mastigo, procuro descobrir o que é que está me causando um certo incômodo, um certo tremor no corpo e arrepio nos braços. Do recôndito de minha memória, vem a lembrança de um sabor que há vinte anos eu não sentia: fígado.
A essa altura, a história já merece um parêntese. Meus santos pais penaram durante toda a minha infância para me fazer comer aquilo que se sabe necessário para que um ser humano cresça saudável: frutas, verduras, legumes, grãos, peixe etc. etc. Dentre as diversas batalhas que travaram contra o meu enjoado paladar infantil, houve uma que não conseguiram vencer. Minha aversão ao bife de fígado suplantava qualquer pequena birra infantil: era o meu corpo quem o rejeitava, com terríveis ânsias de vômito. Não houve jeito: meus pais tiveram que aceitar que fígado eu não comia e pronto.
Ainda durante a minha infância, houve uma nebulosa época certamente lembrada por boa parte dos meus familiares, em que uma cena se repetia toda vez que me ofereciam um prato com carne. Antes de qualquer coisa, eu me dirigia ao adulto responsável e perguntava: “isso é carne de vaca ou de boi?”. Se o pobre adulto desavisado desconhecesse a minha idiossincrasia e caísse na besteira de me dizer que era carne de boi, não havia Cristo que me fizesse engolir o tal bife. “Só como carne de vaca”, eu explicava, assertiva, sem dar margem a negociação.
Levei anos para entender que misterioso mecanismo psíquico havia produzido em mim tal restrição: associei “fígado de boi” a qualquer carne vermelha que me oferecessem. Se fosse de vaca, era uma carne normal. Se fosse de boi, era fígado. Portanto, carne de boi não dava jogo. (Muito tempo depois, alguém me explicou que só os bois vão para o abate, já que as vacas são produtoras de leite.)
Agora nos transportamos novamente à cozinha da comadre, onde eu, vinte anos depois do meu último episódio de ânsia de vômito diante de um bife de fígado, descubro-me mais uma vez frente a frente com o famigerado petisco. De uma hora para a outra, as três isquinhas se tornaram três bifões enormes, intransponíveis.
Sacanagem maior do que comer a carninha do Gabriel seria não comê-la, depois de já ter esquentado e colocado no prato, misturada com o resto da comida. Que pecado desperdiçar a comida de uma criança!
Enquanto enfrento o segundo pedaço (dividido em muitas e muitas garfadas), reflito sobre a condição do adulto. Aquele que, depois da dureza da vida, aprende a se haver com monstros que algum dia pareceram invencíveis aos seus olhos infantis.
O meu próprio paladar é uma prova disso. Certos alimentos que quando criança eu só era capaz de ingerir a muito custo, por mera obrigação, hoje não são apenas tolerados como apreciados pelas minhas papilas gustativas. Minha mãe desacredita de me ver comendo sushi; nunca imaginou que a menina enjoada um dia apreciaria peixe cru.
Sigo confiante para o terceiro pedaço, celebrando ditos populares como “o que não mata engorda”. Eu venci o fígado! Mas subitamente um calafrio percorre o meu corpo e descubro que cantei vitória antes do tempo. Um terrível engulho se manifesta cada vez que aproximo o garfo com o bife de fígado a menos de três centímetros da boca. Resignada, mais uma vez acedo à minha fraqueza humana e despejo o resto da carninha do Gabriel no lixo.
Vou atrás da Comadre e comento: “só você mesma para me fazer comer fígado depois de vinte anos...”. Ela parece demonstrar genuína surpresa: “Era fígado??? Ai, Cris... não acredito!”.
Episódios como esse remontam a uma longa linhagem de históricos equívocos alimentares e suas vítimas. O mais famoso da minha família aconteceu quando saboreamos, na casa da minha tia, hambúrgueres de carne com algum ingrediente secreto e deveras crocante. Só o meu primo mais novo, na mais genuína manifestação da sinceridade infantil (“O rei está nu!”), recusou-se a comer o hambúrguer por suspeitar do tal elemento crocante. Minha tia então esbugalhou os olhos e gritou: “parem de comer!”. Correu para a cozinha e confirmou a sua suspeita: a empregada usara os restos de carne comprados na feira para alimentar o cachorro (cartilagens incluídas) para confeccionar os hambúrgueres.
Passado o susto, todos sobreviveram. Eu também me recompus e não sofri maiores traumas pela ingestão desavisada da carninha do Gabriel. Chegando em casa, bati um copão de leite com nescau para tentar neutralizar o gosto que ainda insistia em me visitar de tempos em tempos. No dia seguinte, a carninha do Gabriel já tinha virado história. Ou melhor, post.
Mas eu ainda tenho cá minhas dúvidas a respeito do “equívoco”. Escolada com bolinhos de espinafre, maravilhas de cenoura e souflés de chuchu, desconfio que fui vítima de mais um golpe de uma mãe-leonina zelosa. E o pior: dessa vez, nem era a minha.
Te cuida, Gabo!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nota sobre o esquecimento

[...]
Peço tanto a Deus
Para esquecer
Mas só de pedir
Já lembro
[...]

(Amado, Vanessa da Mata)

É preciso esquecer de se lembrar para se lembrar de esquecer.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Cravinas


Faz algum tempo ganhei um vaso de flores. Não eram para mim, mas quem as ganhou achou que eu tinha feito por merecer.

Uma semana se passou, a cena se repetiu. Eu e a sombra de árvores alheias.

Eis-me com dois vasos de cravinas, eu, a mulher que matou as flores, o anti-cristo da jardinagem.

E eis que elas resistem. Ao tempo seco, à incompetência da jardineira, à falta de poesia. Não apenas resistem como se desenham no ar em graciosos arabescos.

Explico: as cravinas são particularmente sensíveis à ausência de água. (As minhas pelo menos são). Basta um dia de lapso da dona para que os caules das flores enverguem, qual as flores de história em quadrinhos. Às vezes, em um único dia particularmente seco, já lá estão as flores todas apontando para baixo, em desalento.

Rego-as com amor. Sobreviver à minha posse não é para qualquer vegetal. Elas são tenazes, convenhamos. E basta sentir o geladinho da água para que novamente os caules recuperem o vigor. Nunca, no entanto, retornam exatamente à posição original. Seja pela força da gravidade, seja pela dureza da vida, o reerguer-se sempre traz uma marca, uma curvatura, uma cicatriz.

Pode ser miopia, mas aos meus olhos elas ficam mais bonitas.

Eu, fracassada jardineira de flores, jamais deixo de colher uma metáfora que explode de madura diante dos meus olhos.

sábado, 23 de agosto de 2008

Post it

Só passei para dizer que não estou.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Minha Favorita é Pantanal

Sou uma noveleira de carteirinha e dificilmente um autor de novela consegue me tirar do sério. Até o Manoel Carlos consegue granjear a minha tolerância e, vez ou outra, alguma simpatia da minha parte.

Por isso é preciso que conste dos autos: estou revoltadíssima com a reviravolta da novela das oito. Desde que A Favorita começou, eu a defendia com unhas e dentes. Achei genial e original a proposta de abandonar o maniqueísmo das “irmãs gêmeas” e explorar a ambigüidade de duas personagens femininas, jogar com simpatias e antipatias, impressões e evidências, induções e inferências. Quando parecia ser possível começar a formar uma impressão sobre uma delas, algo inesperado acontecia e virava o jogo novamente. O resultado era que ambas, de alguma forma, contavam com a nossa simpatia e nos faziam quase torcer para os dois lados ao mesmo tempo, a despeito do antagonismo das personagens.

Aí o sujeito, pressionado pela baixa audiência, me enfia um revólver na mão da Patrícia Pilar, faz a criatura atirar em um inocente a sangue-frio, mostra e remostra flashbacks do primeiro crime que ela cometeu (e cuja autoria – até então não revelada – era a chave de toda a trama da novela) e simplesmente assassina a novela no meio do caminho. De uma hora para a outra, a pobrezinha miserável e humilde, que só queria provar a sua inocência e passava os seus dias fazendo faxina e bobó de camarão no cafofo do Silveirinha, chega no seu apê novo cheia de sacolas de compra, chama a filha que ela sonhava conquistar de “boboca” e diz que é melhor “vestir os trapinhos” antes de se encontrar com uma de suas vítimas, para não chamar atenção.

Esse tipo de solução desesperada (e nesse ponto concordo com o noveleiro da Record, apesar de nunca ter assistido a nenhum capítulo das suas novelas-mutantes) me irrita a tal ponto que começo a perder a paciência com idiotices que normalmente eu engoliria sem grande esforço, como a cena de um grupo de presas tentando cavar com as próprias mãos um buraco no chão de uma cela sem que ninguém percebesse. Pior: levando disfarçadamente a terra nos bolsos das calças jeans (!) para dispensá-la no pátio. Se não tivessem sido deduradas às carcereiras, elas certamente cumpririam pena antes de conseguir se sentar dentro do buraco que cavavam.

Fico me lembrando de uma palestra a que assisti uma vez com a Lygia Fagundes Telles lá na PUC. Naquela época eu ainda não havia lido quase nada da Lygia, mas fiquei com uma impressão fortíssima daquela mulher. Uma das coisas que guardei com mais nitidez foi um comentário seu sobre a adaptação que a Globo fez do seu conto Antes do Baile Verde. Toda a história gira em torno de uma moça que, em uma noite de carnaval, se vê dividida entre o pai enfermo, cuja morte parece iminente, e o desejo quase infantil de participar de um baile de foliões. O diálogo da protagonista com a empregada da casa revela as suas oscilações “demasiado humanas”, que vão da negação da morte ao egoísmo em seu estado mais bruto.

Lygia nos explicou, generosamente, o peso que representa a porta fechada do quarto do pai naquela história, pai cujo estado só nos é permitido supor e inferir a partir das conversas entre as outras duas personagens. A porta fechada permite que nos identifiquemos, por mais irracional que pareça, com os imaturos anseios daquela jovem. Ao mesmo tempo, é uma presença maciça, a imposição da morte, algo que jamais conseguimos esquecer.

O que me faz a dona-rede-Globo? Abre a porta da Lygia. Mostra o velho caquético, babando, respirando mal, cheio de apetrechos médicos. Uma didática lição sobre como assassinar uma obra de arte.

Não é que A Favorita fosse uma obra de arte. Mas era uma novela honesta. Agora, virou bandalheira. Não há nada que me tire mais do sério em uma novela do que a falta de sutileza. Como é que os dois vilões passam três meses falando por meias-palavras, usando subterfúgios e fazendo vagas referências ao passado e, de uma hora para a outra, estão comemorando um assassinato com champanhe e dizendo frases verossímeis como "a idéia daquele golpe que nós demos dezoito anos atrás foi genial"? Santo Deus, fechem essa porta!!!

Eu não digo que deixarei de ver A Favorita porque, em Terra de TV aberta, quem tem uma novela das oito é rei. Mas que dá desgosto, dá. Quem me salva a pátria agora é Pantanal. Taí uma novela digna. Às vezes de uma simplicidade que beira o mexicano, como nas tomadas do Rio de Janeiro que inevitavelmente antecedem uma cena de estúdio, em que as pessoas fatalmente estarão fazendo nada a não ser falar sobre a vida, como se ninguém mais tivesse nada para fazer a não ser esperar que os outros decidam alguma coisa a respeito de suas próprias vidas. (E não dá para não comentar a estratégia de marketing do SBT: anunciar que Pantanal começa assim que acaba a novela da Globo!)

Toda a ação se passa praticamente em três locações: a fazenda de Zé Leôncio, a fazenda do Seu Tenório e a casa da segunda mulher desse último no Rio de Janeiro. Se juntarmos todos os personagens de Pantanal, eles não completam um núcleo de novela das oito da Globo. Há personagens-fantasma que aparecem a cada trinta capítulos, como a avó do Joventino e seu mordomo.

E mesmo assim, a novela é mais digna. É bela. A direção é firme, correta. Mesmo os atores que já tiveram atuações bem medianas em novelas globais posteriores me surpreendem em Pantanal (destaque para o bico e o impagável “seeei lá!” de Marcos Palmeira, fazendo pela primeira vez o personagem do peão xucro que depois ele cairia na besteira de repetir ad nauseum em outras milhares de novelas).

No Pantanal também há morte, mas as pessoas não matam porque são “terrivelmente más”: matam porque assim é a vida. Porque devem matar ou morrer. Matam por terras, por amor, por fraqueza, por sina. Matam pela simples banalidade da vida. Matam, simplesmente. Só não matam para levantar a audiência.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Coisas que você não aprendeu na escola

Que o Bocage foi o poeta mais expressivo do Arcadismo em Portugal a Da. Margarida certamente te ensinou.

Que existe o “Bocage lírico” e o “Bocage satírico” é bem provável que ela também tenha te dito.

Agora, sendo a escola por excelência uma instituição conservadora (e isso não é culpa da pobre Da. Margarida), du-vi-de-o-dó que ela tenha te contado o quão boca-suja era aquele gajo.

Os livros didáticos sempre dão um jeitinho de apresentar uma poesia satírica do Bocage que não faça corar a Da. Margarida. Mas acredite: perto dele, boquinha-da-garrafa é música de igreja. Taí o próprio, que não me deixa mentir, em suas lúdicas elucubrações sobre a prisão de ventre.


Soneto da dama cagando
Manual Maria Barbosa du Bocage

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porém o ver cagar a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu àquela parte malcheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito d'amor que lisonjeiro
Afetos move, corações incita:

Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Não existe queijo ruim

No msn, ela contava ao amigo mineiro sobre a balada daquela noite. Sofrível. Acompanhara uma amiga animada a certo estabelecimento nos Jardins, de propriedade de representantes da mais fina elite paulistana, e o resultado não poderia ter sido outro: hordas de homens plastificados, robotizados, de peitorais assustadoramente definidos quase rompendo a camiseta justa, invariavelmente estampada com um brasão, corrente grossa no pescoço, cabelos duvidosamente penteados com gel. Até o cheiro daquelas criaturas era estranho. Simplesmente não pareciam desse planeta. A qualquer momento puxariam a máscara que recobria seus rostos e revelariam a sua verdadeira identidade alienígena. Sentira medo de olhar para os lados.

O amigo mineiro, ouvinte sempre atento e interessado, quis saber se havia rolado interação com o sexo oposto. Ela rebateu no ato: lera uma linha do que ela dissera? Achava que ela era mulher de dar mole para bonecos chuck? Ele assentiu, lera tudo. Mas ainda assim resolvera perguntar. Afinal, como se diz por aí, “no inferno abrace o capeta”. E completou: para mineiro, não existe queijo ruim.

Ela riu-se. Que revelação! Logo o amigo mineiro, sempre tão tímido, vira-e-mexe confessando seu sem-jeito na abordagem das mulheres, tão discreto. Não à toa se diz por aí que “mineiro come quieto”. Pois sim. Ora, ora...

De vez em vez ela se lembrava da máxima mineira: não existe queijo ruim. E ficava se perguntando quantas e tantas o amigo mineiro não devia estar aprontando, com tão poucas exigências em matéria feminina. Às vezes até se perguntava se não residiria no provérbio um tanto de sabedoria. Mas, ao lembrar dos chucks, rapidamente concluía que havia, sim, queijo de todo o tipo, mas nem todos eram para o seu paladar.

Tempos depois o amigo mineiro se aprochegou para uma visita à capital. Escolheram um bar simpático com banda de jazz ao vivo e aproveitaram para pôr em dia o assunto que o msn já não dava mais conta de atualizar. Papo vai, papo vem, voltaram ao tema dos queijos. Ele começou a teorizar sobre aqueles que, quando criança, ele julgava merecedores de ir à lata de lixo e, depois de adulto, passou a comer com gosto. Ela achou graça de ele tergiversar e comentou, maliciosa, que não era bem sobre queijo que eles falavam quando o dito veio à baila pela primeira vez...

Ele desentendeu-se. Sobre o que falavam então? Ela riu-se mais um pouco. Homem escorregadio... Tentou comer pelas beiradas: lembrava-se de uma conversa que haviam tido sobre “abraçar o capeta”? Ele lembrou, confirmou, mas garantiu que o queijo era uma coisa, o capeta era outra. Provavelmente falavam sobre comida quando ele pontificou sobre os laticínios.

Queria competir com a memória infalível da moça... Que não só se lembrava como tinha provas: guardara a conversa do msn. Assim que desse, demonstraria. E ainda arrematou: não se lembrava que tempos depois, em outra conversa ainda, ela perguntara a ele sobre a qualidade dos queijos em sua última visita a Minas? E ele respondera, malandramente, que “os queijos estavam perfeitos”? Queria agora convencê-la de que era realmente sobre queijos que eles falavam? O amigo afirmou, com patente seriedade, que da parte dele sem dúvida se tratava de queijos, laticínios, víveres, gênero alimentício.

Ela não quis dar o braço a torcer, mas encafifou-se. Seria possível que tivesse se enganado? Bem que às vezes achava o amigo mais apegado ao pé da letra do que ela... Na primeira oportunidade, correu para o histórico do msn.

Lá, no meio da conversa sobre chucks, correntes douradas, cabelos engomados, cheiros estranhos, interações com o sexo oposto e alienígenas, corria uma breve conversa paralela [entre colchetes] sobre o paladar infantil dela, que não se amigava ao álcool, e a sua preferência por um sabor de pizza que ninguém mais apreciava: catupiri com milho.

E logo depois da alusão do amigo ao amplexo no coisa-ruim, a máxima mineira [também entre colchetes]: não existe queijo ruim.

Ela teve que aceitar que Foucalt, Bakhtin, Freud & Cia. tinham razão. Impossível prever a infinidade de fatores que interferem no processo comunicativo...

O amigo mineiro? Um gentleman, é claro. Até que os queijos provem o contrário.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Caça com gato

Amiga, a dica da semana para driblar a estiagem é fazer da sua panela de pressão um poderoso umidificador de ar caseiro! Escolha legumes sortidos, de cores variadas, e faça uma sopa bem colorida! Encha a panela de pressão com água até a boca e deixe cozinhar em fogo baixo por cerca de uma hora, até o vapor umedecer todas as janelas da casa. Ao desligar o fogo e levantar o pino da panela, não deixe de aproveitar para inalar profundamente o vapor até o último minuto! Essa vale por uma receitinha da vovó, não?

domingo, 20 de julho de 2008

Amor perdido

Revirei gavetas e saudades. Levantei poeira de um amor perdido.

Não do último. Do primeiro. Se não o primeiro de todo, pelo menos o de fato e de direito. E não perdido pelo fim do amor – embora, de alguma forma, em algum momento, o amor em si também tenha se perdido –, mas perdido no mundo.

Endereço, telefone, e-mail, nada mais nos conecta. Nove anos foram suficientes para que todos os nossos pequenos pontos de contato deixassem de existir. Moramos em cidades diferentes. Em dois mundos diferentes. Não temos amigos em comum. Comum é o seu nome, tão comum que nem a velha lista telefônica é pista suficiente para reencontrá-lo. Nem mesmo o milagroso orkut.

Caberiam medidas extremas, mas em nome de quê? Tudo aconteceu há tanto tempo... O amor foi vivido inteiro, com começo, meio e fim. As vidas seguiram rumos diferentes. Enquanto ainda doía ficar sem ele, tentei mantê-lo perto de mim. Ele não quis. Foi em frente, amou de novo, guardou distância respeitosa. Eu também. Aquela que o amou é hoje um espectro, como se muitas outras vidas já houvessem se passado desde então.

Mas os e-mails empoeirados, de um tempo em que conhecer alguém pela internet ainda soava estranho aos ouvidos dos amigos, são a prova de que tudo aconteceu, e nessa vida. Fazem lembrar que o que se viveu foi muito mais do que um amor adolescente. Dois anos de um amor verdadeiro, que prevaleceu sobre uma diferença de sete anos de idade e seiscentos quilômetros de distância. Muitos dias de saudade, muitas noites de paixão. O frenesi de saber-se amada. O deslumbramento depois da primeira noite juntos. O primeiro eu-te-amo. O dormir abraçado, colado, fundido, no dia da morte do pai dele. O calor daquele quarto, daquele corpo. Tantas lágrimas derramadas pela simples inexperiência de amar e, ainda assim, a felicidade extrema. Ah...

Todos os outros estão perto, mesmo que não próximos; à distância de um amigo, sete quadras ou um telefonema. Ele não.

Fecho as gavetas e as saudades.

Assim é a vida.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Aforismo

Não existe chefe normal. Se você acha o seu chefe equilibrado e previsível, isso significa apenas que já se acostumou à loucura dele.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A psicoescatologia da vida cotidiana

Depois de trabalhar durante quatro anos no subsolo, em salas sem janela ou com janelas que davam para o mais puro ar do estacionamento, olhando para paredes com mofo ou para trilhas de formiga, mudei de emprego e literalmente subi na vida: fui para o terceiro andar, sento de frente para a janela, meu lixo é limpo três vezes por dia, trabalho com um computador novíssimo, em uma cadeira para lá de confortável.

Mas o melhor de tudo é o banheiro. Banheiros individuais são um luxo! Especialmente para pessoas que, como eu, sofrem de prisão de ventre. Quer coisa mais constrangedora do que se haver com as suas dificuldades de evacuação ouvindo conversas alheias? (E, o pior de tudo, sendo ouvida?) Isso quando a chefe não resolvia despachar lá mesmo, no banheiro. Sorte que a surdez sempre foi desculpa convincente (e real) para não prolongar muito os assuntos separados por paredes.

Além disso, o banheiro coletivo do trabalho anterior não primava pela limpeza e não era raro encontrar um “presentinho” da usuária anterior, ou mesmo experimentar na pele os problemas de relacionamento com a descarga e depender da boa vontade de uma vizinha de boxe para conseguir um balde com água e apagar as provas do crime. Felizmente, são águas passadas...

Na nova sala, além dos banheiros claramente sinalizados e próximos das estações de trabalho, há um outro, de canto, escondido, que só fui descobrir depois de alguns dias. Levei algum tempo para entender por que algumas pessoas caminhavam resolutas naquela direção e só retornavam após alguns minutos. A desvantagem é que o espelho e a pia ficam em área externa – fora do campo de visão dos colegas de sala, é verdade, mas de frente para uma das janelas que dão para a rua principal –, inibindo aquela checagem obrigatória do perfil, dentes, cabelo, olhos e sobrancelhas. Por outro lado, uma vez que você passe por aquela porta, pode se ausentar durante um tempo significativo sem que os seus colegas de trabalho desconfiem dos momentos difíceis pelos quais você pode estar passando.

Dias atrás, o banheiro feminino principal estava ocupado e me dirigi ao “privê”. Antes de desabar sobre o vaso, no entanto, notei que ele estava sem água. Ufa! Ainda bem que percebi a tempo! Imaginem que mico usar o banheiro quebrado logo nas primeiras semanas do novo emprego. Discretamente me recompus, abri a porta e me encaminhei à segurança do banheiro nosso de cada dia.

Um ou dois dias depois, a cena se repetiu. Mais familiarizada com os altos padrões de qualidade da empresa – que se refletem, inclusive, na manutenção dos banheiros –, desconfiei da minha percepção inicial sobre o vaso quebrado. Afinal, a troco do quê deixariam um banheiro descontinuado sem nenhuma sinalização, permitindo que os funcionários passassem pelo constrangimento de utilizá-lo sem condições mínimas de higiene? Ou melhor, por que esperariam mais de dois dias para mandar consertá-lo? Por via das dúvidas, antes de qualquer coisa resolvi acionar a descarga. Bingo! A água jorrou na horizontal, de um lado para o outro da cavidade sanitária, com vazão suficiente para eliminar qualquer vestígio dos aliviamentos. Satisfeita, atendi ao chamado da natureza e voltei tranqüilamente aos meus afazeres.

Na terceira tentativa de usar o banheiro, resolvi arriscar: sem testar a descarga, entreguei minha contribuição ao vaso e torci para que o princípio da uniformidade da natureza humiano não me deixasse na mão. Foi nesse ato de coragem que entendi o fascínio que o tal banheiro exerce sobre as pessoas: já imaginou ter a oportunidade diária de examinar a sua produção “in natura”?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Olhos meus

Se há algo a celebrar nos pequenos e grandes desvios é o poder que eles têm de colocar em relevo as miudezas que, outra feita, seriam invisíveis aos nossos olhos.

O metrô sempre tão cheio de poesia concreta. Lá os vi. De longe e de costas um único corpo. Vencidas distâncias, a figura ainda não encontrava equivalência nas categorias do meu conhecer. Seria uma mulher, amparada pelo companheiro, se locomovendo com o auxílio de um andador? Foi só no emparelhar que realmente os apreendi: os dois cegos, braços tão entrelaçados que eram um, as bengalas tateando o caminho em movimentos sincrônicos de pára-brisa, vup-vup, vup-vup, varrendo o chão, marcando o compasso. Ele, mais alto, protetoramente envolvendo as costas dela, mas sem hierarquia. O que lhes faltava de olhos sobrava de harmonia.

Não era eu a única a me admirar da cena. Havia quase uma suspensão coletiva dos pequenos aconteceres no olhar o casal. Se por um segundo suspeitávamos – a escada! O degrau! A coluna! – eles jamais se abalavam e nada perturbava a sua caminhada. As bengalas astutamente alertavam o porvir e seguiam, resolutas. Sem sobressaltos.

E o se dar conta de que tudo o que se poderia um-dia-pensar-dizer sobre o amor estava ali, condensado na singela, onze horas da manhã, meio da multidão.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Troféu-joinha: Dia dos namorados

Eu sou bem mais um Gitti do que um Cafa, mas esse ano o post de Dia dos Namorados do nosso amigo superou todos os concorrentes.
Já que o tempo ruge e a falta de inspiração abunda, deixo-os em boa companhia.
Leiam e se deliciem com as dicas do Cafa para as solteiras nesse 12 de junho.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Sex and the city

Dane-se que a vida não tem aquele glamour. Amei cada segundo. Ri, chorei, sofri, me apaixonei pela Carrie de novo, perdoei o Big mais uma vez.
E quem me chamou de Cris Bradshaw estava certo: também acho que o amor é a única grife que nunca sai de moda.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Assassina

Socorro! Meu cacto morreu. Existe maior evidência de incapacidade herbal?

***

Ironia das ironias: uma amiga querida foi viajar por um mês e deixou justamente quem encarregada de regar as plantas?

Se ela soubesse quantas mortes vegetais carrego nas costas, pensaria duas vezes antes de me confiar o seu jardim.

domingo, 25 de maio de 2008

Vida bandida

Você pensa que nunca vai acontecer com você (e torce para isso também), o que é bom, já que sofrer por antecipação faz mal para o fígado e não prepara ninguém para a experiência real. Mas, eventualmente, pode acabar acontecendo. Em um feriado qualquer, você está sentado tranqüilamente com um casal de amigos na mesa de um simpático restaurante do seu bairro, aguardando o seu jantar enquanto joga conversa fora, e vê um homem se aproximando da sua cadeira e dizendo algo parecido com “bolsa”, “celular”. Sem entender o que ele diz, você se vira e pergunta “como?” e então ele levanta a blusa e mostra o revólver empunhado para não deixar nenhuma dúvida: “a bolsa, o celular, rápido”. Ainda tentando juntar as sensações com os pensamentos, você abre a bolsa em busca do celular, mas ele interrompe: “dá a bolsa inteira, rápido!”. Você entrega a bolsa e passa a ver tudo em câmera lenta, imaginando se o resto do restaurante vai se dar conta do que está acontecendo. Mas em dois segundos percebe que há mais dois homens igualmente armados que já renderam as mesas de dentro e também o caixa do restaurante. Eles não falam alto, evitam levantar o revólver, mas é difícil prever se o final da história já está perto ou longe e qual vai ser o desfecho. Uma cliente desavisada atravessa a rua em direção ao restaurante rendido. Uma mulher sentada na mesa ao seu lado tenta alertá-la: “vai embora, vai embora”. A mulher não dá ouvidos e rapidamente é abordada por um dos bandidos: “passa a bolsa”. Ela reage com indignação, “não vou dar!”, e quase é possível ouvir todos dentro do restaurante prendendo a respiração ao mesmo tempo. Dois revólveres apontados em direção à mulher fazem com que ela mude de idéia. Pronto, mais algumas bolsas e celulares (inclusive o do seu amigo, mas felizmente a carteira dele e a bolsa da sua amiga ficam intactas), eles mandam todos para a área interna do restaurante e dão o fora.

Ainda sem reação por alguns instantes. As crianças choram. Os garçons continuam circulando e levando os pratos às mesas, sem saber muito bem qual é o protocolo para situações com essa. A proprietária do restaurante convida os clientes a se sentarem e terminarem a sua refeição, afirmando que isso “jamais aconteceu antes”. Mas o apetite se foi. E ainda há muito a fazer: cancelar cheques, cartão do banco, bloquear celular. Quanto mais rápido, melhor. E, sem celular, só é possível fazer isso do telefone de casa.

Mas e a chave do carro? Estava na bolsa. Bom, você tem outra em casa. Mas e a chave de casa? Também na bolsa... Ah, que sorte você ter deixado uma cópia na portaria do prédio para a faxineira. Os seus amigos te dão uma carona para casa e sobem para te fazer companhia enquanto você inicia a operação-bloqueio. Depois vão te levar de novo até o seu carro para que você possa trazê-lo para casa.

Começa a epopéia dos assaltados. Vinte minutos andando em círculos pelo menu da Claro, que pede que você aguarde para falar com a operadora para em seguida repetir todas as opções do menu ad nauseum. Melhor tentar o Itaú. Primeiro você consegue navegar pelo menu eletrônico até a opção “bloquear cartão”. A gravação informa: “para bloquear o seu cartão SEM emissão de um novo cartão, digite 3. Para bloquear o cartão COM emissão de um novo cartão, digite 4”. Bem, você precisa de um novo cartão, o mais rapidamente possível. Após apertar o 4, a gravação alerta: “atenção! A emissão de um novo cartão está sujeita a cobrança de tarifa! Confirma a operação?” Já que nenhum ser humano se oferece para trocar uma idéia com você, o jeito é confirmar e pelo menos ter a tranqüilidade de que o seu cartão não será usado pelos bandidos.

Como você não consegue bloquear os cheques pelo menu eletrônico, desliga o telefone e liga novamente, digitando inúmeras teclas até ouvir a voz de um operador. Isso leva mais alguns minutos. Ao ser atendida pelo Rafael, começa a dizer “boa noite, por gentileza, eu fui assaltada...” mas rapidamente é interrompida com “Um minuto, por favor” e retorna ao menu eletrônico. Respira fundo, põe o fone no gancho e reinicia a operação. Dessa vez quem te atende é o Moisés. Você explica tudo o que aconteceu: “fui assaltada, levaram a minha bolsa, tudo dentro, inclusive cartão de débito e cheques, acho que já consegui bloquear o cartão, mas não os cheques...”. Você espera algum tipo de empatia, de humanidade, mas o atendente dispara, tal qual um menu eletrônico: “nome completo? Endereço? Diga APENAS o dia de seu nascimento. Nome completo de sua mãe? Nome completo de seu pai? Seu CPF? Seu nome completo novamente?” e depois de responder a todas essas perguntas, você ainda ouve atônita, pela terceira vez: “com quem eu falo?”. Exausta, você implora que ele bloqueie os seus cheques. Ele pergunta se são apenas algumas folhas ou o talão inteiro. Você explica que foi o talão inteiro, mas algumas folhas já haviam sido usadas por você. Ele diz: “então o motivo do bloqueio é oposição ao pagamento?”. “Não, meu senhor. O motivo do bloqueio é ASSALTO A MÃO ARMADA”. Suspirando profundamente, o atendente insiste: “minha senhora, existem duas formas de bloqueio: o bloqueio por oposição ao pagamento é para as folhas que já foram assinadas. O outro bloqueio é para as folhas ainda não utilizadas. Qual bloqueio a senhora deseja solicitar?”. “Meu senhor: eu fui assaltada. Algumas folhas já haviam sido utilizadas, outras estavam em branco. Cabe ao senhor me dizer qual é a categoria de bloqueio que se encaixa nessa situação.”. “Nesse caso, senhora, faremos o bloqueio por oposição ao pagamento, mas a senhora deve comparecer na agência bancária em até dois dias úteis para confirmá-lo, caso contrário o talão será automaticamente desbloqueado. Quanto ao seu cartão, consta que ele já foi bloqueado!” “Sim, eu disse ao senhor no início da ligação que já havia bloqueado o cartão pelo menu eletrônico...”. “Bem, a senhora está ciente de que a opção ‘bloqueio com emissão de novo cartão’ está sujeita a cobrança de tarifa?”. “Mesmo em caso de ASSALTO?”. “Bem, se a senhora quiser posso cancelar o pedido de emissão de um novo cartão e na segunda-feira a senhora vai até a agência e conversa com sua gerente...” “Não, não, eu pago a tarifa.”. Mais um assalto, dessa vez institucional.

É a vez da Claro novamente. Você consegue navegar pelo menu eletrônico até a opção “bloqueio de celular por perda ou furto”. Uma gravação informa: “ao abrir o seu chamado, você receberá um número de protocolo. Para que o seu bloqueio seja confirmado, deve enviar o número do protocolo via torpedo para a Anatel em até 24 horas”. Tá bom, mas como mandar torpedo se o seu celular foi ROUBADO??? Você explica a situação para o simpático atendente, que aparentemente percebe o absurdo da solicitação. Passa o telefone para o seu amigo, que também precisa bloquear o celular dele. Por fim, o seu amigo informa que para habilitar o seu número em um novo aparelho, será preciso apresentar um boletim de ocorrência – mas é possível fazê-lo pela internet, segundo o atendente da Claro.

Antes de dormir, você entra na delegacia virtual e, obedecendo às instruções do menu, abre dois boletins de ocorrência: um apenas para os documentos, outro para o celular. No dia seguinte, vem a resposta por e-mail: os dois boletins foram negados. Motivo da negação do segundo: a ocorrência já havia sido relatada pelo primeiro. Motivo da negação do primeiro: a delegacia só permite o registro de ocorrência de furto. Em caso de roubo, você deve se dirigir à delegacia mais próxima portando cópia do e-mail com a recusa dos boletins eletrônicos.

Como não tem impressora em casa, você ignora a ordem do e-mail, pede cinqüenta reais emprestados para a vizinha só para não ficar inteiramente desprevenida (sem cartão e sem cheque, nada de dinheiro, e o pouco que você tinha também estava na carteira) e se dirige à delegacia da Lapa.

Na recepção, explica ao oficial de plantão: “por favor, preciso fazer um boletim de ocorrência”. “O que aconteceu?”. Bem, você não imagina que vá contar toda a ocorrência de pé na mesa da recepção, então apenas indica: “assalto”. Como se você fosse surda ou burra, o oficial repete: “O que aconteceu?”. Pacientemente, você começa a narrar: “eu estava em um restaurante ontem à noite e fui abordada por um homem armado...” O oficial interrompe: “na Aimberê?” Diante da afirmativa, ele explica, cortês: “veja, este boletim de ocorrência já foi aberto na 23ª DP... A senhora pode abrir outro aqui, mas o IDEAL é que seja incluída no boletim que já foi feito lá”. Bem, que azar, mas de fato se o melhor a fazer é isso, você se dirige à outra delegacia.

Chega junto com dois dos três policiais de plantão, carregados de sacolas de lanchonete e copos de plástico. “Pois não?” “Parece que já abriram aqui um boletim de ocorrência sobre um assalto que ocorreu ontem em um restaurante na Aimberê...”. “Pode se sentar”. O policial se dirige até a televisão, muda de canal para sintonizar no jogo que está começando e some no interior da delegacia, seguido do outro que carregava as sacolas. Alguns minutos depois, o terceiro, que mexia no computador, também se dirige aos fundos da delegacia. Sozinha na enorme sala de espera da delegacia, você fica na companhia do Hino Nacional, pensando na sua “terra adorada”, no seu “povo heróico” na “clava forte da justiça”... O relógio marca a passagem do tempo: um minuto, dois, cinco, dez. O último policial, o mais bem-vestido, volta ao seu computador e continua o seu trabalho de digitação. O segundo se senta na cadeira em frente a ele. O terceiro, entre um arroto e outro do seu guaraná gelado, senta na sua cadeira e gasta mais alguns minutos assistindo ao jogo e fazendo comentários amigáveis para os seus colegas.

Imersa em pensamentos, você ouve o policial te chamar, mas ainda duvida de que finalmente tenha chegado o momento de ser atendida. Para não deixar dúvidas, ele bate palmas. Você se dirige até a mesa dele e informa quais foram os documentos roubados, enquanto ele digita lentamente os dados no computador e acompanha mais alguns lances do jogo de futebol. Em meio àquele deserto emocional, o outro policial finalmente se dirige a você e pergunta: “quantas pessoas estavam no restaurante?” “Ah, estava cheio... umas quarenta”. “Vixe... então vai longe essa história. Hoje passamos o dia atendendo esses casos. Se não fosse por isso, tava light...” O outro emenda: “bom, mas alguns devem ir até a delegacia da Lapa...” Esclareço: “eu fui até lá, mas eles me orientaram a vir aqui porque o boletim já tinha sido aberto”. Os três trocam olhares e um resmunga: “brincadeira, viu...”. Eu pergunto: “não precisava vir até aqui?” “Não, minha filha... boletim de ocorrência você pode abrir em qualquer delegacia. O que acontece é que um sempre chuta pro outro, pra falar português claro...”. “E vocês descobriram alguma coisa?”. O policial, sem tirar os olhos da tela do computador, estala a língua e resmunga: “esquece!”. Imprime o BO em três vias, você avisa que ele digitou o número da sua agência bancária errado mas ele afirma que não tem problema, não há necessidade de consertar.

Próxima parada: a loja da Claro, a única coisa que você consegue adiantar ainda durante o final de semana. Sendo cliente há dez anos e tendo adquirido o seu último celular (também por conta de um assalto) em setembro de 2006, você supõe que tenha alguma chance de conseguir um novo aparelho com a apresentação do BO. Ao pegar a senha na porta da loja, o atendente explica: “Se a senhora quiser pode ligar para a nossa Central e tentar negociar um aparelho...”. “Mas não posso fazer isso aqui mesmo na loja?” “Bom, poder pode, mas a senhora conseguiria condições melhores se negociasse com a nossa Central”. “Bom, como MEU CELULAR FOI ROUBADO, não tenho como ligar para a Central. E como já estou aqui, vou tentar negociar com a vendedora mesmo, obrigada.”

Cinqüenta minutos depois, o seu número é chamado. Você explica a situação para a vendedora, mostra o boletim de ocorrência. Ela confirma que você tem direito a um aparelho, afinal não está mais na carência, pode tirar por um real, dez reais ou até gratuitamente dependendo do modelo. Traz as opções, você escolhe e então ela pede: “preciso do seu RG e CPF originais”. Com um suspiro e o resto da sua paciência, você explica: “Então, justamente... como eu vinha te dizendo, fui assaltada e levaram toda a minha bolsa. Minha carteira, meu RG, CPF, carteira de motorista, título de eleitor, cartão do banco, talão de cheques, tudo. Inclusive, é por isso que preciso de um novo celular.” “Ah, mas a senhora não foi ao Poupatempo?” “O Poupatempo não está funcionando hoje, fui assaltada ontem às dez da noite”. “Bem, vou verificar com a gerente...”. “Olha, tenho aqui um xerox do meu RG e o documento do meu carro... isso foi tudo o que deu para salvar”. Alguns minutos depois: “infelizmente não vai ser possível... só mesmo com o original do CPF e do RG. Mas eu posso anotar num papel o número do modelo para a senhora e...” “Não se incomode, a sua anotação não vai evitar a minha dor de cabeça de ficar sem comunicação até segunda-feira e nem pegar outros cinqüenta minutos de fila para ser atendida novamente por você após ter passado o dia no Poupatempo”.

Já que não há o que fazer até a segunda-feira chegar, o jeito é pegar uma carona e ir até a casa de uma amiga para arejar a cabeça e relaxar. Mas não sem antes, no caminho, ter o carro abordado no sinal e ouvir: “cinco reais para eu não puxar o revólver...”. Que mundo cão. De um lado, os bandidos, pra quem a sua vida não tem absolutamente nenhum valor. Do outro, a lógica do mercado, eficientíssimo na hora de vender, lentíssimo na hora de resolver o seu problema; máquinas no lugar de pessoas, indiferença no lugar de humanidade. Do outro, a polícia, para quem a sua vida vale ainda menos...

Fica o gosto amargo na boca. Como diria José Simão: “hoje, só amanhã...”. Pátria amada, Brasil.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O último sonho

Estamos no seu consultório, eu sentada em minha cadeira e você na sua, que é um trono e fica em uma espécie de mezanino, bem acima do chão.

Eu: Primeiro eu queria te perguntar: você tem se sentido confortável aí no seu trono?

Você desce do mezanino e se senta na beira da minha cama.

Você: Uma pessoa me disse que eu tenho muita dificuldade de me expressar. Achei que o trono podia ajudar...
Eu: E você ficar mais desconfortável, né? Bom, vamos lá: fiz a minha lição de casa.
Você: Você sempre faz a sua lição de casa!
Eu: Sim, mas é justamente sobre isso que eu quero falar... Estou lendo o Freud e gostando muito.
Você: E o que você está achando do Freud?
Eu: Já li quatro textos: o caso Elisabeth (você fica espantada), Uma breve descrição da psicanálise, Seis lições elementares e agora estou lendo Sobre os Sonhos.

Você se deita na cama, apoiando a cabeça sobre o braço, como se fosse uma amiga.

Você: Cristina... Cristina...

Percebo que dormi. Estou coberta. Lembro do que você me disse uma vez, quando eu comentei em uma sessão que estava como sono, vontade de deitar e dormir: “Dormir na frente de alguém é sinal de muita confiança!”.

Eu: Mas até onde eu consegui contar para você?

Encontramos minha mãe, que fala alguma coisa sobre o Charcot.

Você: E o que você acha do Charcot?
Eu: Só vi o Charcot como apoio para o Freud. Meu curso é 100% orientado para o Freud. Mas minha mãe ficou tão encantada com o Charcot que achou que o Freud é que é apoio para ele.

Enquanto falamos, estou vendo um mostruário de bijuterias. Pego na mão um par de alianças de compromisso. Fico com medo de acharem na loja que estou roubando o anel que já estava comigo. Devolvo as alianças ao mostruário.

Estamos em uma sala de espera, eu você e mais uma pessoa. Estamos vendo TV. Minha mãe está sentada na cama dela, mexendo em sua agenda. Estou de pijama. Minha irmã entra na sala com um rapaz muito magro, ela também de pijama.

Por fim, você entra no quarto da minha mãe e vocês abrem a agenda e combinam um horário para um compromisso. Penso que preciso pagá-la, lembro que estou de pijama e fico me perguntando onde está o dinheiro.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Piada interna

Roupa? Jóia? Livro?

Que nada. Arranjei um presente muito mais supimpa de Dia das Mães: uma profissão bem simplinha, que ela consegue comunicar em apenas uma palavra, e um emprego que ela vai poder resumir em uma frase. Curta.