sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Metáforas vegetais

Durante algum tempo ela floresceu. É verdade que os botões surgiam de forma intermitente e, ao lado da cravina rosa, suas pétalas brancas sempre pareciam mais tímidas. Mas o inverno chegou e foi embora, a primavera chegou e ela continuou de pé.

Um dia, sem aviso prévio, começou a morrer. A mulher mudou o vaso de lugar. “Talvez o sol direto não faça bem”, pensou. Não adiantou. Definhava. “Será que falta sol e as raízes estão mofando?”. Tentou regar mais, regar menos, podou as folhas mortas, mudou o vaso de lugar mais duas ou três vezes. Por fim, admitiu sua derrota.

Ao arrancar do vaso os últimos pedaços de raiz sem vida, algo a impediu de se desfazer dele. Deixou-o assim, vazio, sobre a mesinha da sala de estar. E, sem que ninguém soubesse, sorrateiramente passou a regar o vaso vazio todas as noites.

Não foi preciso muito tempo para os primeiros brotinhos verdes surgirem na superfície da terra. Havia ainda vida no vaso! Pequenas pontinhas que, a princípio, pareceram à mulher diminutos trevinhos da sorte. Seriam parasitas de cravinas? Predadores naturais de flores de apartamento? Mas o tempo se encarregou de provar que se tratava de legítimos ramos de cravinas – aqueles que nascem e crescem desordenados, marcados pela dureza da vida, formando bonitos arabescos no ar. De dia procuram o sol como pequenos muçulmanos em saudação a Meca; à noite, assumem formas arredondadas de cogumelos-anões.

A cravina voltou à vida. Nunca morreu, afinal. Precisava apenas do seu próprio tempo, de amor e de alguém que continuasse acreditando nela.

***

Ah, sim! Continuo falando de plantas. E recomendo a jardinagem como atividade regular e sistemática a todo aspirante a escritor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Física sentimental

Quanto espaço um homem é capaz de ocupar no pensamento de uma mulher?

domingo, 19 de outubro de 2008

O estranho

Essa vida já é outra. Já é outra.
Por mais que eu me lembre. Que eu me lembre.
Seus contornos familiares tentam me confundir. Mas basta eu esfregar os olhos e mirar de novo para concluir: não é mais você. Não sou mais eu. Não somos nós.
E é preciso lembrar, por mais que possa doer por alguns segundos: tudo está bem.
Tudo continuará bem.

Votos

Coração quente, cabeça leve, pés no chão e braços em ação.
Felicidade, sempre.
E muitos passarinhos!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Simples

Ele disse a ela que não sabia.
E que, se não sabia, provavelmente não a amava o suficiente.
Portanto, não era justo prendê-la.
E por isso estava indo embora.

Estou há tanto tempo longe do amor que já não sei mais se as coisas são complicadas demais ou simples demais.

Quem sabe de alguma coisa?
Amar o suficiente para quê?
O que é amar o suficiente?
O que é amar?
O que é ser justo?
O que é prisão e o que é liberdade?

No fim das contas, me parece que tudo se resume a isso: querer ficar ou ir embora. Nada mais.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Estilhaços

Cansada de ser julgada pela essência, decidiu: mostraria ao mundo que à frente daquele cérebro havia um rostinho bonito. E peitos e bunda e lábios sensuais e odores e olhos melindrosos e recônditos e your-waist-is-just-right, you know?

Isso depois. Antes o convite.
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O pretexto foi a língua. Dela. Dele. Só em línguas pensava.

O sangue à face: era um corpo. A carne e o interdito e a carne. Por 72 horas a sofreguidão de ser carne. Contornos que os olhos dele criaram.
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Na segunda-feira, já invisível novamente. Carne por 72 horas e um olhar.

sábado, 27 de setembro de 2008

Cegueira

Foi já na primeira mirada que notou algo de diferente. Coisas que os olhos percebem antes do resto de nós.

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Sempre a se perguntar por que a falta de assimetria lhe causava repulsa. A imagem da menina com braços diminutos, dedos onde deveriam estar os cotovelos, por anos nas suas retinas, impermeável às suas vergonhas cristãs.

***

Tudo lhe era alheio enquanto fitava aqueles olhos, irmãos, mas tão diferentes. Um era altivo, certeiro. O outro, baixo, retraído. Tentava concentrar-se nas palavras, mas o que ouvia eram os olhos.

***

Com o tempo, acostumou-se. Não a ponto do não-notar. Passou o fascínio-repulsa das cobras, ficou a vigilância farol.

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Perguntaram-lhe como era. Não soube informar. Tudo o que sabia dela era aquilo: o divórcio dos olhos. Um olho sempre nela; o outro, no nada.

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A arrefecência dos dias. Aceitou-os. Os dois: o certo e o errado.

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Não teria sido menor o seu espanto, no dia em que finalmente percebeu. O horror. Estivera a tomar como bom o olho errado. O olho certo era o outro. O seu, morto.

***

Quantas outras vezes na vida não o seria também.

domingo, 21 de setembro de 2008

Theo em quatro tempos

(Theo, sete anos, irmão de Lia, quatro meses)

I
- Cris, você já viu como funciona uma bombinha de tirar leite?
- Não, Theo, como é?
- É assim: você põe essa parte em cima do peito, assim, enfia esse cano aqui na bomba, liga ela assim no aparelho, aí a bomba faz chup-chup-chup e depois o leite sai aqui nesta parte e você coloca na mamadeira.
- Nossa, Theo, você está bem entendido no assunto, não?
- Pois é. A minha mãe agora só fala nisso...

II
(A avó pergunta a Theo se ele não está com frio)
- Ai, vó, você se preocupa demais!
- Theo, todas as vós são assim... Sabe como se chama isso?
- Neurótica?

III
(A mãe de Theo sobe para acudir Lia que acorda do sono da tarde pela quarta vez)
- Theo, seja legal com a sua mãe. Ela está muito cansada!
- Por que, tia? Ela está de TPM?

IV
(Folheio uma revista onde há uma reportagem sobre parto)
- Cris, o que é isso, uma revista de bebê?
- Não, Theo, só esta reportagem aqui é sobre bebê.
- Olha, tem uma mulher pelada!
- Pois é, tem sim.
- Eca. ODEIO ver mulher pelada...
- É mesmo?
- É sim. Morro de nojo disso (aponta para o seio da mulher) e disso (aponta para os países baixos). E disso aqui (aponta para a foto do bebê dentro do útero materno) eu tenho nojo de tudo!

domingo, 14 de setembro de 2008

A carninha do Gabriel

Trim! Trim!

(As histórias da Mãe Sereia que envolvem conversas telefônicas sempre começam com “trim-trim”. Em nome da licença poética, a Mãe Sereia ignora os toques polifônicos e apela para onomatopéias, digamos, mais clássicas. Em homenagem a ela, assim também inicio esta narrativa.)

Trim! Trim!
- Alô, comadre!
- Comadre, alerta vermelho... Estou péssima, com infecção intestinal. Será que você pode vir aqui depois do trabalho e dar uma mão com o Gabo?
Se um amigo quiser me fazer feliz, basta pedir a minha ajuda para qualquer coisa, dando a entender que sou indubitavelmente o ser humano mais indicado da face da Terra para cumprir aquela missão, quiçá o único. Pode ser arrumar um chaveiro às 23h, fazer compra de supermercado, regar plantas, cuidar do filho ou dar remédio para o cachorro doente e, sobretudo, dar apoio moral ou sentimental em um momento de crise.
Diante da nobilíssima missão de acudir a comadre e entreter o afilhado, agora com lindos um ano e três meses, enforco a yôga e disparo para a casa dela. Brinco dez simbólicos minutos com o Gabo antes de ele ter um ataque de manha – quer “escovar” os dentes sozinho (leia-se chupar a pasta de dente da escova) e não admite interferência.
Mãe que é mãe conhece seu filho. Vendo o choro sem lágrima, a comadre diagnostica: “hora de ir pra cama”. Prepara a mamadeira enquanto eu me viro nos 30 e, em seguida, põe em prática a metodologia ultra-avançada que desenvolveu para pôr para dormir o seu pequeno: coloca-o no berço, deixa a chupeta do seu lado, encaixa a mamadeira na sua mão, dá boa-noite, apaga a luz e fecha a porta. Essa minha comadre é o meu orgulho.
De volta à sala, antes de desabar no sofá, a comadre quer me alimentar. Não existe mãe-leonina que suporte receber alguém em casa sem oferecer tudo do bom e do melhor. Estão aí a minha própria mãe-sereia, minha amiga Isadora, a comadre e até minha ex-sogra que não me deixam mentir (coincidência das coincidências, as quatro fazem aniversário no mesmíssimo dia).
Vamos até a cozinha, ela abre a geladeira e, logo depois de ter dito que “nessa casa só tem pão”, retira de lá uma farta gama de tupperwares com os mais variados quitutes: arroz, feijão, seleta de legumes, verdurinhas. “Só não tem carne, Cris...”. Mas logo se lembra da “carninha do Gabriel” no congelador.
Epa. Está certo, todo mundo tem uma verdadeira predileção por comida de nenê (conheço adulto a rodo que compra papinha da Nestlé para consumo próprio), mas comer a carninha do Gabriel é sacanagem, né? “Imagina, Cris... a Neta faz um monte e congela um pouquinho em cada tupperware. Pode comer que depois ela faz mais...”.
Olho para o minúsculo tupperware, onde três diminutos pedaços de carne congelada me perguntam, inquisidores, se eu terei coragem de comê-los. Mando os escrúpulos às favas e coloco tudo no microondas. Enquanto isso, a comadre, um pouco mais refeita, vai olhar a sua correspondência no computador.
Dois minutos depois, abro o tupperware e vejo os três pedacinhos da suculenta carninha do Gabo quentinhos, macios e esperando ser espetados pelo meu garfo. No prato com arroz, feijão e legumes, despejo graciosamente a carninha e, para fazê-la render mais, raspo bem todo o molho de dentro do tupperware em cima do feijão-com-arroz.
Sento na mesa satisfeita com a perspectiva da minha refeição. Monto a “garfada perfeita” e dirijo o garfo à boca antevendo o prazer de saboreá-la. Mas algo não corresponde à minha expectativa. Ainda sem identificar exatamente o que foi que deu errado, preparo a minha segunda garfada. Enquanto mastigo, procuro descobrir o que é que está me causando um certo incômodo, um certo tremor no corpo e arrepio nos braços. Do recôndito de minha memória, vem a lembrança de um sabor que há vinte anos eu não sentia: fígado.
A essa altura, a história já merece um parêntese. Meus santos pais penaram durante toda a minha infância para me fazer comer aquilo que se sabe necessário para que um ser humano cresça saudável: frutas, verduras, legumes, grãos, peixe etc. etc. Dentre as diversas batalhas que travaram contra o meu enjoado paladar infantil, houve uma que não conseguiram vencer. Minha aversão ao bife de fígado suplantava qualquer pequena birra infantil: era o meu corpo quem o rejeitava, com terríveis ânsias de vômito. Não houve jeito: meus pais tiveram que aceitar que fígado eu não comia e pronto.
Ainda durante a minha infância, houve uma nebulosa época certamente lembrada por boa parte dos meus familiares, em que uma cena se repetia toda vez que me ofereciam um prato com carne. Antes de qualquer coisa, eu me dirigia ao adulto responsável e perguntava: “isso é carne de vaca ou de boi?”. Se o pobre adulto desavisado desconhecesse a minha idiossincrasia e caísse na besteira de me dizer que era carne de boi, não havia Cristo que me fizesse engolir o tal bife. “Só como carne de vaca”, eu explicava, assertiva, sem dar margem a negociação.
Levei anos para entender que misterioso mecanismo psíquico havia produzido em mim tal restrição: associei “fígado de boi” a qualquer carne vermelha que me oferecessem. Se fosse de vaca, era uma carne normal. Se fosse de boi, era fígado. Portanto, carne de boi não dava jogo. (Muito tempo depois, alguém me explicou que só os bois vão para o abate, já que as vacas são produtoras de leite.)
Agora nos transportamos novamente à cozinha da comadre, onde eu, vinte anos depois do meu último episódio de ânsia de vômito diante de um bife de fígado, descubro-me mais uma vez frente a frente com o famigerado petisco. De uma hora para a outra, as três isquinhas se tornaram três bifões enormes, intransponíveis.
Sacanagem maior do que comer a carninha do Gabriel seria não comê-la, depois de já ter esquentado e colocado no prato, misturada com o resto da comida. Que pecado desperdiçar a comida de uma criança!
Enquanto enfrento o segundo pedaço (dividido em muitas e muitas garfadas), reflito sobre a condição do adulto. Aquele que, depois da dureza da vida, aprende a se haver com monstros que algum dia pareceram invencíveis aos seus olhos infantis.
O meu próprio paladar é uma prova disso. Certos alimentos que quando criança eu só era capaz de ingerir a muito custo, por mera obrigação, hoje não são apenas tolerados como apreciados pelas minhas papilas gustativas. Minha mãe desacredita de me ver comendo sushi; nunca imaginou que a menina enjoada um dia apreciaria peixe cru.
Sigo confiante para o terceiro pedaço, celebrando ditos populares como “o que não mata engorda”. Eu venci o fígado! Mas subitamente um calafrio percorre o meu corpo e descubro que cantei vitória antes do tempo. Um terrível engulho se manifesta cada vez que aproximo o garfo com o bife de fígado a menos de três centímetros da boca. Resignada, mais uma vez acedo à minha fraqueza humana e despejo o resto da carninha do Gabriel no lixo.
Vou atrás da Comadre e comento: “só você mesma para me fazer comer fígado depois de vinte anos...”. Ela parece demonstrar genuína surpresa: “Era fígado??? Ai, Cris... não acredito!”.
Episódios como esse remontam a uma longa linhagem de históricos equívocos alimentares e suas vítimas. O mais famoso da minha família aconteceu quando saboreamos, na casa da minha tia, hambúrgueres de carne com algum ingrediente secreto e deveras crocante. Só o meu primo mais novo, na mais genuína manifestação da sinceridade infantil (“O rei está nu!”), recusou-se a comer o hambúrguer por suspeitar do tal elemento crocante. Minha tia então esbugalhou os olhos e gritou: “parem de comer!”. Correu para a cozinha e confirmou a sua suspeita: a empregada usara os restos de carne comprados na feira para alimentar o cachorro (cartilagens incluídas) para confeccionar os hambúrgueres.
Passado o susto, todos sobreviveram. Eu também me recompus e não sofri maiores traumas pela ingestão desavisada da carninha do Gabriel. Chegando em casa, bati um copão de leite com nescau para tentar neutralizar o gosto que ainda insistia em me visitar de tempos em tempos. No dia seguinte, a carninha do Gabriel já tinha virado história. Ou melhor, post.
Mas eu ainda tenho cá minhas dúvidas a respeito do “equívoco”. Escolada com bolinhos de espinafre, maravilhas de cenoura e souflés de chuchu, desconfio que fui vítima de mais um golpe de uma mãe-leonina zelosa. E o pior: dessa vez, nem era a minha.
Te cuida, Gabo!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nota sobre o esquecimento

[...]
Peço tanto a Deus
Para esquecer
Mas só de pedir
Já lembro
[...]

(Amado, Vanessa da Mata)

É preciso esquecer de se lembrar para se lembrar de esquecer.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Cravinas


Faz algum tempo ganhei um vaso de flores. Não eram para mim, mas quem as ganhou achou que eu tinha feito por merecer.

Uma semana se passou, a cena se repetiu. Eu e a sombra de árvores alheias.

Eis-me com dois vasos de cravinas, eu, a mulher que matou as flores, o anti-cristo da jardinagem.

E eis que elas resistem. Ao tempo seco, à incompetência da jardineira, à falta de poesia. Não apenas resistem como se desenham no ar em graciosos arabescos.

Explico: as cravinas são particularmente sensíveis à ausência de água. (As minhas pelo menos são). Basta um dia de lapso da dona para que os caules das flores enverguem, qual as flores de história em quadrinhos. Às vezes, em um único dia particularmente seco, já lá estão as flores todas apontando para baixo, em desalento.

Rego-as com amor. Sobreviver à minha posse não é para qualquer vegetal. Elas são tenazes, convenhamos. E basta sentir o geladinho da água para que novamente os caules recuperem o vigor. Nunca, no entanto, retornam exatamente à posição original. Seja pela força da gravidade, seja pela dureza da vida, o reerguer-se sempre traz uma marca, uma curvatura, uma cicatriz.

Pode ser miopia, mas aos meus olhos elas ficam mais bonitas.

Eu, fracassada jardineira de flores, jamais deixo de colher uma metáfora que explode de madura diante dos meus olhos.

sábado, 23 de agosto de 2008

Post it

Só passei para dizer que não estou.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Minha Favorita é Pantanal

Sou uma noveleira de carteirinha e dificilmente um autor de novela consegue me tirar do sério. Até o Manoel Carlos consegue granjear a minha tolerância e, vez ou outra, alguma simpatia da minha parte.

Por isso é preciso que conste dos autos: estou revoltadíssima com a reviravolta da novela das oito. Desde que A Favorita começou, eu a defendia com unhas e dentes. Achei genial e original a proposta de abandonar o maniqueísmo das “irmãs gêmeas” e explorar a ambigüidade de duas personagens femininas, jogar com simpatias e antipatias, impressões e evidências, induções e inferências. Quando parecia ser possível começar a formar uma impressão sobre uma delas, algo inesperado acontecia e virava o jogo novamente. O resultado era que ambas, de alguma forma, contavam com a nossa simpatia e nos faziam quase torcer para os dois lados ao mesmo tempo, a despeito do antagonismo das personagens.

Aí o sujeito, pressionado pela baixa audiência, me enfia um revólver na mão da Patrícia Pilar, faz a criatura atirar em um inocente a sangue-frio, mostra e remostra flashbacks do primeiro crime que ela cometeu (e cuja autoria – até então não revelada – era a chave de toda a trama da novela) e simplesmente assassina a novela no meio do caminho. De uma hora para a outra, a pobrezinha miserável e humilde, que só queria provar a sua inocência e passava os seus dias fazendo faxina e bobó de camarão no cafofo do Silveirinha, chega no seu apê novo cheia de sacolas de compra, chama a filha que ela sonhava conquistar de “boboca” e diz que é melhor “vestir os trapinhos” antes de se encontrar com uma de suas vítimas, para não chamar atenção.

Esse tipo de solução desesperada (e nesse ponto concordo com o noveleiro da Record, apesar de nunca ter assistido a nenhum capítulo das suas novelas-mutantes) me irrita a tal ponto que começo a perder a paciência com idiotices que normalmente eu engoliria sem grande esforço, como a cena de um grupo de presas tentando cavar com as próprias mãos um buraco no chão de uma cela sem que ninguém percebesse. Pior: levando disfarçadamente a terra nos bolsos das calças jeans (!) para dispensá-la no pátio. Se não tivessem sido deduradas às carcereiras, elas certamente cumpririam pena antes de conseguir se sentar dentro do buraco que cavavam.

Fico me lembrando de uma palestra a que assisti uma vez com a Lygia Fagundes Telles lá na PUC. Naquela época eu ainda não havia lido quase nada da Lygia, mas fiquei com uma impressão fortíssima daquela mulher. Uma das coisas que guardei com mais nitidez foi um comentário seu sobre a adaptação que a Globo fez do seu conto Antes do Baile Verde. Toda a história gira em torno de uma moça que, em uma noite de carnaval, se vê dividida entre o pai enfermo, cuja morte parece iminente, e o desejo quase infantil de participar de um baile de foliões. O diálogo da protagonista com a empregada da casa revela as suas oscilações “demasiado humanas”, que vão da negação da morte ao egoísmo em seu estado mais bruto.

Lygia nos explicou, generosamente, o peso que representa a porta fechada do quarto do pai naquela história, pai cujo estado só nos é permitido supor e inferir a partir das conversas entre as outras duas personagens. A porta fechada permite que nos identifiquemos, por mais irracional que pareça, com os imaturos anseios daquela jovem. Ao mesmo tempo, é uma presença maciça, a imposição da morte, algo que jamais conseguimos esquecer.

O que me faz a dona-rede-Globo? Abre a porta da Lygia. Mostra o velho caquético, babando, respirando mal, cheio de apetrechos médicos. Uma didática lição sobre como assassinar uma obra de arte.

Não é que A Favorita fosse uma obra de arte. Mas era uma novela honesta. Agora, virou bandalheira. Não há nada que me tire mais do sério em uma novela do que a falta de sutileza. Como é que os dois vilões passam três meses falando por meias-palavras, usando subterfúgios e fazendo vagas referências ao passado e, de uma hora para a outra, estão comemorando um assassinato com champanhe e dizendo frases verossímeis como "a idéia daquele golpe que nós demos dezoito anos atrás foi genial"? Santo Deus, fechem essa porta!!!

Eu não digo que deixarei de ver A Favorita porque, em Terra de TV aberta, quem tem uma novela das oito é rei. Mas que dá desgosto, dá. Quem me salva a pátria agora é Pantanal. Taí uma novela digna. Às vezes de uma simplicidade que beira o mexicano, como nas tomadas do Rio de Janeiro que inevitavelmente antecedem uma cena de estúdio, em que as pessoas fatalmente estarão fazendo nada a não ser falar sobre a vida, como se ninguém mais tivesse nada para fazer a não ser esperar que os outros decidam alguma coisa a respeito de suas próprias vidas. (E não dá para não comentar a estratégia de marketing do SBT: anunciar que Pantanal começa assim que acaba a novela da Globo!)

Toda a ação se passa praticamente em três locações: a fazenda de Zé Leôncio, a fazenda do Seu Tenório e a casa da segunda mulher desse último no Rio de Janeiro. Se juntarmos todos os personagens de Pantanal, eles não completam um núcleo de novela das oito da Globo. Há personagens-fantasma que aparecem a cada trinta capítulos, como a avó do Joventino e seu mordomo.

E mesmo assim, a novela é mais digna. É bela. A direção é firme, correta. Mesmo os atores que já tiveram atuações bem medianas em novelas globais posteriores me surpreendem em Pantanal (destaque para o bico e o impagável “seeei lá!” de Marcos Palmeira, fazendo pela primeira vez o personagem do peão xucro que depois ele cairia na besteira de repetir ad nauseum em outras milhares de novelas).

No Pantanal também há morte, mas as pessoas não matam porque são “terrivelmente más”: matam porque assim é a vida. Porque devem matar ou morrer. Matam por terras, por amor, por fraqueza, por sina. Matam pela simples banalidade da vida. Matam, simplesmente. Só não matam para levantar a audiência.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Coisas que você não aprendeu na escola

Que o Bocage foi o poeta mais expressivo do Arcadismo em Portugal a Da. Margarida certamente te ensinou.

Que existe o “Bocage lírico” e o “Bocage satírico” é bem provável que ela também tenha te dito.

Agora, sendo a escola por excelência uma instituição conservadora (e isso não é culpa da pobre Da. Margarida), du-vi-de-o-dó que ela tenha te contado o quão boca-suja era aquele gajo.

Os livros didáticos sempre dão um jeitinho de apresentar uma poesia satírica do Bocage que não faça corar a Da. Margarida. Mas acredite: perto dele, boquinha-da-garrafa é música de igreja. Taí o próprio, que não me deixa mentir, em suas lúdicas elucubrações sobre a prisão de ventre.


Soneto da dama cagando
Manual Maria Barbosa du Bocage

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porém o ver cagar a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu àquela parte malcheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito d'amor que lisonjeiro
Afetos move, corações incita:

Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Não existe queijo ruim

No msn, ela contava ao amigo mineiro sobre a balada daquela noite. Sofrível. Acompanhara uma amiga animada a certo estabelecimento nos Jardins, de propriedade de representantes da mais fina elite paulistana, e o resultado não poderia ter sido outro: hordas de homens plastificados, robotizados, de peitorais assustadoramente definidos quase rompendo a camiseta justa, invariavelmente estampada com um brasão, corrente grossa no pescoço, cabelos duvidosamente penteados com gel. Até o cheiro daquelas criaturas era estranho. Simplesmente não pareciam desse planeta. A qualquer momento puxariam a máscara que recobria seus rostos e revelariam a sua verdadeira identidade alienígena. Sentira medo de olhar para os lados.

O amigo mineiro, ouvinte sempre atento e interessado, quis saber se havia rolado interação com o sexo oposto. Ela rebateu no ato: lera uma linha do que ela dissera? Achava que ela era mulher de dar mole para bonecos chuck? Ele assentiu, lera tudo. Mas ainda assim resolvera perguntar. Afinal, como se diz por aí, “no inferno abrace o capeta”. E completou: para mineiro, não existe queijo ruim.

Ela riu-se. Que revelação! Logo o amigo mineiro, sempre tão tímido, vira-e-mexe confessando seu sem-jeito na abordagem das mulheres, tão discreto. Não à toa se diz por aí que “mineiro come quieto”. Pois sim. Ora, ora...

De vez em vez ela se lembrava da máxima mineira: não existe queijo ruim. E ficava se perguntando quantas e tantas o amigo mineiro não devia estar aprontando, com tão poucas exigências em matéria feminina. Às vezes até se perguntava se não residiria no provérbio um tanto de sabedoria. Mas, ao lembrar dos chucks, rapidamente concluía que havia, sim, queijo de todo o tipo, mas nem todos eram para o seu paladar.

Tempos depois o amigo mineiro se aprochegou para uma visita à capital. Escolheram um bar simpático com banda de jazz ao vivo e aproveitaram para pôr em dia o assunto que o msn já não dava mais conta de atualizar. Papo vai, papo vem, voltaram ao tema dos queijos. Ele começou a teorizar sobre aqueles que, quando criança, ele julgava merecedores de ir à lata de lixo e, depois de adulto, passou a comer com gosto. Ela achou graça de ele tergiversar e comentou, maliciosa, que não era bem sobre queijo que eles falavam quando o dito veio à baila pela primeira vez...

Ele desentendeu-se. Sobre o que falavam então? Ela riu-se mais um pouco. Homem escorregadio... Tentou comer pelas beiradas: lembrava-se de uma conversa que haviam tido sobre “abraçar o capeta”? Ele lembrou, confirmou, mas garantiu que o queijo era uma coisa, o capeta era outra. Provavelmente falavam sobre comida quando ele pontificou sobre os laticínios.

Queria competir com a memória infalível da moça... Que não só se lembrava como tinha provas: guardara a conversa do msn. Assim que desse, demonstraria. E ainda arrematou: não se lembrava que tempos depois, em outra conversa ainda, ela perguntara a ele sobre a qualidade dos queijos em sua última visita a Minas? E ele respondera, malandramente, que “os queijos estavam perfeitos”? Queria agora convencê-la de que era realmente sobre queijos que eles falavam? O amigo afirmou, com patente seriedade, que da parte dele sem dúvida se tratava de queijos, laticínios, víveres, gênero alimentício.

Ela não quis dar o braço a torcer, mas encafifou-se. Seria possível que tivesse se enganado? Bem que às vezes achava o amigo mais apegado ao pé da letra do que ela... Na primeira oportunidade, correu para o histórico do msn.

Lá, no meio da conversa sobre chucks, correntes douradas, cabelos engomados, cheiros estranhos, interações com o sexo oposto e alienígenas, corria uma breve conversa paralela [entre colchetes] sobre o paladar infantil dela, que não se amigava ao álcool, e a sua preferência por um sabor de pizza que ninguém mais apreciava: catupiri com milho.

E logo depois da alusão do amigo ao amplexo no coisa-ruim, a máxima mineira [também entre colchetes]: não existe queijo ruim.

Ela teve que aceitar que Foucalt, Bakhtin, Freud & Cia. tinham razão. Impossível prever a infinidade de fatores que interferem no processo comunicativo...

O amigo mineiro? Um gentleman, é claro. Até que os queijos provem o contrário.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Caça com gato

Amiga, a dica da semana para driblar a estiagem é fazer da sua panela de pressão um poderoso umidificador de ar caseiro! Escolha legumes sortidos, de cores variadas, e faça uma sopa bem colorida! Encha a panela de pressão com água até a boca e deixe cozinhar em fogo baixo por cerca de uma hora, até o vapor umedecer todas as janelas da casa. Ao desligar o fogo e levantar o pino da panela, não deixe de aproveitar para inalar profundamente o vapor até o último minuto! Essa vale por uma receitinha da vovó, não?

domingo, 20 de julho de 2008

Amor perdido

Revirei gavetas e saudades. Levantei poeira de um amor perdido.

Não do último. Do primeiro. Se não o primeiro de todo, pelo menos o de fato e de direito. E não perdido pelo fim do amor – embora, de alguma forma, em algum momento, o amor em si também tenha se perdido –, mas perdido no mundo.

Endereço, telefone, e-mail, nada mais nos conecta. Nove anos foram suficientes para que todos os nossos pequenos pontos de contato deixassem de existir. Moramos em cidades diferentes. Em dois mundos diferentes. Não temos amigos em comum. Comum é o seu nome, tão comum que nem a velha lista telefônica é pista suficiente para reencontrá-lo. Nem mesmo o milagroso orkut.

Caberiam medidas extremas, mas em nome de quê? Tudo aconteceu há tanto tempo... O amor foi vivido inteiro, com começo, meio e fim. As vidas seguiram rumos diferentes. Enquanto ainda doía ficar sem ele, tentei mantê-lo perto de mim. Ele não quis. Foi em frente, amou de novo, guardou distância respeitosa. Eu também. Aquela que o amou é hoje um espectro, como se muitas outras vidas já houvessem se passado desde então.

Mas os e-mails empoeirados, de um tempo em que conhecer alguém pela internet ainda soava estranho aos ouvidos dos amigos, são a prova de que tudo aconteceu, e nessa vida. Fazem lembrar que o que se viveu foi muito mais do que um amor adolescente. Dois anos de um amor verdadeiro, que prevaleceu sobre uma diferença de sete anos de idade e seiscentos quilômetros de distância. Muitos dias de saudade, muitas noites de paixão. O frenesi de saber-se amada. O deslumbramento depois da primeira noite juntos. O primeiro eu-te-amo. O dormir abraçado, colado, fundido, no dia da morte do pai dele. O calor daquele quarto, daquele corpo. Tantas lágrimas derramadas pela simples inexperiência de amar e, ainda assim, a felicidade extrema. Ah...

Todos os outros estão perto, mesmo que não próximos; à distância de um amigo, sete quadras ou um telefonema. Ele não.

Fecho as gavetas e as saudades.

Assim é a vida.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Aforismo

Não existe chefe normal. Se você acha o seu chefe equilibrado e previsível, isso significa apenas que já se acostumou à loucura dele.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A psicoescatologia da vida cotidiana

Depois de trabalhar durante quatro anos no subsolo, em salas sem janela ou com janelas que davam para o mais puro ar do estacionamento, olhando para paredes com mofo ou para trilhas de formiga, mudei de emprego e literalmente subi na vida: fui para o terceiro andar, sento de frente para a janela, meu lixo é limpo três vezes por dia, trabalho com um computador novíssimo, em uma cadeira para lá de confortável.

Mas o melhor de tudo é o banheiro. Banheiros individuais são um luxo! Especialmente para pessoas que, como eu, sofrem de prisão de ventre. Quer coisa mais constrangedora do que se haver com as suas dificuldades de evacuação ouvindo conversas alheias? (E, o pior de tudo, sendo ouvida?) Isso quando a chefe não resolvia despachar lá mesmo, no banheiro. Sorte que a surdez sempre foi desculpa convincente (e real) para não prolongar muito os assuntos separados por paredes.

Além disso, o banheiro coletivo do trabalho anterior não primava pela limpeza e não era raro encontrar um “presentinho” da usuária anterior, ou mesmo experimentar na pele os problemas de relacionamento com a descarga e depender da boa vontade de uma vizinha de boxe para conseguir um balde com água e apagar as provas do crime. Felizmente, são águas passadas...

Na nova sala, além dos banheiros claramente sinalizados e próximos das estações de trabalho, há um outro, de canto, escondido, que só fui descobrir depois de alguns dias. Levei algum tempo para entender por que algumas pessoas caminhavam resolutas naquela direção e só retornavam após alguns minutos. A desvantagem é que o espelho e a pia ficam em área externa – fora do campo de visão dos colegas de sala, é verdade, mas de frente para uma das janelas que dão para a rua principal –, inibindo aquela checagem obrigatória do perfil, dentes, cabelo, olhos e sobrancelhas. Por outro lado, uma vez que você passe por aquela porta, pode se ausentar durante um tempo significativo sem que os seus colegas de trabalho desconfiem dos momentos difíceis pelos quais você pode estar passando.

Dias atrás, o banheiro feminino principal estava ocupado e me dirigi ao “privê”. Antes de desabar sobre o vaso, no entanto, notei que ele estava sem água. Ufa! Ainda bem que percebi a tempo! Imaginem que mico usar o banheiro quebrado logo nas primeiras semanas do novo emprego. Discretamente me recompus, abri a porta e me encaminhei à segurança do banheiro nosso de cada dia.

Um ou dois dias depois, a cena se repetiu. Mais familiarizada com os altos padrões de qualidade da empresa – que se refletem, inclusive, na manutenção dos banheiros –, desconfiei da minha percepção inicial sobre o vaso quebrado. Afinal, a troco do quê deixariam um banheiro descontinuado sem nenhuma sinalização, permitindo que os funcionários passassem pelo constrangimento de utilizá-lo sem condições mínimas de higiene? Ou melhor, por que esperariam mais de dois dias para mandar consertá-lo? Por via das dúvidas, antes de qualquer coisa resolvi acionar a descarga. Bingo! A água jorrou na horizontal, de um lado para o outro da cavidade sanitária, com vazão suficiente para eliminar qualquer vestígio dos aliviamentos. Satisfeita, atendi ao chamado da natureza e voltei tranqüilamente aos meus afazeres.

Na terceira tentativa de usar o banheiro, resolvi arriscar: sem testar a descarga, entreguei minha contribuição ao vaso e torci para que o princípio da uniformidade da natureza humiano não me deixasse na mão. Foi nesse ato de coragem que entendi o fascínio que o tal banheiro exerce sobre as pessoas: já imaginou ter a oportunidade diária de examinar a sua produção “in natura”?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Olhos meus

Se há algo a celebrar nos pequenos e grandes desvios é o poder que eles têm de colocar em relevo as miudezas que, outra feita, seriam invisíveis aos nossos olhos.

O metrô sempre tão cheio de poesia concreta. Lá os vi. De longe e de costas um único corpo. Vencidas distâncias, a figura ainda não encontrava equivalência nas categorias do meu conhecer. Seria uma mulher, amparada pelo companheiro, se locomovendo com o auxílio de um andador? Foi só no emparelhar que realmente os apreendi: os dois cegos, braços tão entrelaçados que eram um, as bengalas tateando o caminho em movimentos sincrônicos de pára-brisa, vup-vup, vup-vup, varrendo o chão, marcando o compasso. Ele, mais alto, protetoramente envolvendo as costas dela, mas sem hierarquia. O que lhes faltava de olhos sobrava de harmonia.

Não era eu a única a me admirar da cena. Havia quase uma suspensão coletiva dos pequenos aconteceres no olhar o casal. Se por um segundo suspeitávamos – a escada! O degrau! A coluna! – eles jamais se abalavam e nada perturbava a sua caminhada. As bengalas astutamente alertavam o porvir e seguiam, resolutas. Sem sobressaltos.

E o se dar conta de que tudo o que se poderia um-dia-pensar-dizer sobre o amor estava ali, condensado na singela, onze horas da manhã, meio da multidão.