quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O belo Garrel

Mon dieu, que homem é esse???

Enquanto Rê vive sua história de amor com Gael, não posso me furtar a prestar um tributo – um tanto quanto tardio, admito – ao belíssimo Louis Garrel. Fui arrebatada por sua beleza andrógena e sua presença estonteantemente masculina em A bela Junie. Não fosse pelo título em português, ficaria evidente que La belle personne se aplica tanto à lindíssima Léa Seydoux quanto a ele.

Minha cinéfila e exigente amiga Marina tenta me convencer de que o filme é fraquinho – insiste que eu devo assistir aos outros de Honoré para confirmar essa verdade incontestável. Enquanto busco justificativas racionais para a minha aparentemente irracional “facilidade” com relação a livros e filmes (leia-se: “sou facinha”), me rendo à óbvia constatação de que a beleza, pura e simples, pode ser apaixonante. Certamente não foi esse o único motivo pelo qual Honoré me ganhou – cheguei a confessar, e não foi apelação, que ainda me identifico com alguma coisa do desespero adolescente –, mas ao acender das luzes do cinema a sensação física do arrebatamento por Léa e Garrel ainda permanecia.

Curiosamente, contrariando minha própria tese de que se trata de uma beleza involuntária, natural e imanente, descubro que já havia trombado com Garrel em outras telas, sem que ele houvesse sequer alterado meus batimentos cardíacos. Também foi assim com Jude Law. Para dizer a verdade, só prestei a devida atenção nele em Closer à segunda vista, depois de tê-lo descoberto, estonteantemente belo, em O amor não tira férias (momento TSC: vi o filme duas vezes no cinema em uma mesma semana, só para prolongar a “sensação física do arrebatamento por Jude”). Devo supor, então, que algo do ar perdido e obstinado de Nermous e do olhar frágil e doce de Graham capturou minhas retinas. E mais não suponho, porque a beleza é para ser admirada e reverenciada, e não dissecada ou entendida.

Garrel, minha nova paixão, meu novo muso: a você, minhas sinceras e despudoradas homenagens.

***

Além das homenagens aos musos, eu e Rê temos agora mais alguma coisa em comum: passei dos trinta... Bem, falemos de Garrel?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Pontes

Há coisa de um ou dois anos, uma amiga passou a me emprestar livros. Graças a ela conheci Somerset Maugham, desvendei a história de amor de Sartre e Beauvoir, descobri como ser legal com Nick Hornby, me esbaldei com mais um best-seller de Marian Keyes, entre outros.

Na sétima série a emprestadora de livros foi a minha melhor amiga, mas hoje nos vemos de forma bastante esporádica – a cada dois ou três meses, se muito. Já chegamos a ficar mais de quatro anos sem nos falar. Mas, desde que retomamos o contato, a cada vez que marcamos um novo encontro, ela invariavelmente anuncia: estou com um livro para te emprestar.

Sinto uma coceira boa quando ela me diz isso. Além do prazer certo da leitura, há algo de lisonjeiro em saber que alguém pensou em você ao ler um livro. Não?

Enquanto me entrego à viagem da leitura propriamente dita, um pensamento me acompanha ao longo das páginas e capítulos: qual terá sido o momento exato em que ela pensou “tenho certeza de que a Cris vai adorar ler isso!”? No fundo, como os meus pré-requisitos de leitura são mínimos e o meu gosto é muito eclético, pode ser que ela não tenha pensado em absolutamente nada, a não ser na grande probabilidade de uma apreciadora de livros se interessar por um livro que ela considerou bom. Mas prefiro namorar a outra hipótese. A de que há algo de muito particular, de muito especial em cada livro que faz com que ela pense em mim, e só em mim, e que isso torne o momento de empréstimo do livro algo também único e especial.

Mais inspiradora do que a minha fantasia sobre a decisão dela de partilhar a leitura comigo, no entanto, são as minhas elucubrações a respeito das páginas que ela deixa marcadas em cada livro. Quando li o primeiro, Servidão humana, de Somerset Maugham, demorei algumas páginas para perceber que as pontinhas não estavam dobradas ao acaso. Ao comentar sobre isso com minha amiga, tive de confessar também que desavisadamente eu desmarcara quase todas... Mas me comprometi a recuperá-las, uma a uma.

E foi assim, buscando restos de vincos em pontas de páginas de um livro, que descobri esse novo prazer. O prazer de, ao deparar com uma página marcada, garimpar o trecho – parágrafo, frase, palavra exata – que a houvesse inspirado. É um prazer um tanto vouyerístico. Chega a ser quase pornográfico penetrar assim na intimidade de alguém – embora, se ela não desmarcou as pontinhas antes de me emprestar o livro, tecnicamente eu não esteja fazendo nada de errado. Posso até pensar que seja um jogo que ela me propõe: deixa pistas para que eu descubra o que a toca, move, inspira, choca, seduz, liberta. E, eventualmente, sinta o mesmo.

Em meio às páginas dobradas de Nick Hornby, gasto alguns minutos relendo várias vezes um mesmo parágrafo. É um desses momentos soco-no-estômago, que revelam com crueza uma faceta nada glamourosa da vida, mas nem por isso menos merecedora de uma homenagem literária.

“Subitamente, sinto-me sem esperanças, como sempre nos sentimos quando escolhemos uma entre duas alternativas. Tenho vontade de voltar àquele outro momento, dez segundos atrás, em que eu não sabia o que fazer. Pois o negócio é o seguinte: para uma pessoa metida numa encrenca como a minha, o casamento vira uma faca cravada na barriga, e a pessoa sabe que a encrenca será grande seja qual for a decisão. Ninguém pergunta a uma pessoa com uma faca cravada na barriga o que a deixaria feliz; sua felicidade não está mais em questão. É sua sobrevivência que interessa: a pessoa arranca a faca e sangra até morrer, ou deixa-a cravada na esperança de dar sorte e a faca estar na verdade estancando o sangramento?”

Fecho o livro por alguns minutos, meditando com reverência sobre essas palavras. Algo me diz que acabo de fazer uma descoberta importante. E de fato fiz.

Descobri que pouco importa, na verdade, se localizei ou não o trecho certo. Importa a ponte que uma pontinha dobrada na página de um livro construiu entre ela e mim. Importa a ponte que eu construí para dentro de mim mesma. Sem pontes como essas, no fim das contas, só o que se faz é sobreviver estancando o sangramento com uma faca cravada na barriga.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Vertigem

De um lado, mulheres descabeladas insistem em dizer que não entendem, não entendem a mente masculina. De outro, homens resignados apenas se calam; jamais tiveram a pretensão de compreender os intricados mecanismos que regem a mente feminina.

Sabedores do seu compromisso para com a Ciência e da necessidade de perseguir a verdade dos fatos de forma imparcial e rigorosa, no afã de melhor compreender mais esta faceta da insolúvel querela entre os de Marte e as de Vênus, o Instituto Mulher Solteira de Pesquisas Avançadas em Sobrevivência na Selva dos Solteiros e o Centro de Estudos Anexos dos Esportes Radicais de Compreensão da Mente Masculina decidiram empreender um novo experimento científico: monitorar a cabeça de uma mulher solteira, linda, jovem, inteligente, independente, bem resolvida, serena, segura e natural durante o desenrolar de uma paquera na balada, assim como as quarenta e oito horas subsequentes. Os dados obtidos por nossos cientistas, submetidos a técnicas avançadas de análise qualitativa, levam a resultados surpreendentes. Ou nem tanto. Confira-os a seguir.

00h23
Hum, até que tem uns gatinhos por aqui...
00h40
Pãããããtz, acho que aqueles dois baixinhos tão vindo puxar papo comigo...
00h41
Pelamor, será possível que esses tampinhas insistem sempre na mesma abordagem? Assim que der, vou vazar daqui!
00h42
Tá, consertou... Mas pelamor!
00h45
Vá lá, não custa nada ser simpática... Vou dar uma colher de chá. Eles têm cinco minutos.
00h54
Sou mesmo muito benevolente... Só eu para dar mole para esse baixinho!
01h12
Até que o cara tem bom papo... Mas não vou beijar, não.
01h53
É... Até que ele é gatinho... Apesar de ser mais novo, mais baixo e mais saradão do que eu gostaria.
01h54
... Será que eu beijo?
01h57
Pããããtz, podia ter passado sem esse comentário... Mas vá lá, vamos abstrair.
01h55
Ah, agora ele falou direitinho...
01h57
Tá bom, vai... Vamos ver qualé a desse beijo...
02h02
Hum... Beijo bom...
02h03
Nossa, ele é bem gatinho, hein... E gostoso!
02h45
Hum, será que ele vai pedir o meu telefone?
02h54
Com certeza ele vai pedir meu telefone! Será que eu dou?
03h23
Meu! Ele não vai pedir o meu telefone???
03h41
Será que eu vou querer sair com ele de novo?
03h59
Lógico que eu vou querer sair com ele de novo! Ele é uma gracinha!!!
5h58
Ai, ai... Vou dormir pensando nele hoje...
12h27
É, até que o gatinho era bacana... Ia ser legal encontrar com ele de novo.
14h23
Será que ele vai me ligar?
14h24
Será que ele vai me ligar?
14h25
Será que ele vai me ligar?
16h34
Será que ele vai me ligar?
18h42
Não vou contar pra ninguém essa história. Não quero criar nenhuma expectativa...
19h02
Não vejo a hora de contar pras meninas amanhã!
19h27
Meu! Será que ele não vai me ligar???
23h25
Lógico que ele não vai ligar hoje. Vai ligar amanhã.
00h45
Meu! Não acredito que ele não vai me ligar!!!
11h33
Caramba... Se ele não me ligar hoje, vou ligar pra ele.
14h29
E esse telefone que não toca...
15h32
Será que o telefone desligou sozinho?
16h14
Meu... E se ele for o homem da minha vida?
17h23
Ele era tão lindo... Nunca mais vou conhecer um homem tão especial como ele...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Superfantástico

Toda mulher relativamente normal – e por relativamente normal entenda-se a mulher que apresenta os índices mínimos, inevitáveis, aceitáveis e até desejáveis de neurose, histeria, paranoia, neurastenia, hipocondria, verborragia e unha encravada recomendados pelo Ministério da Saúde – passa a vida inteira lutando para conquistar uma aparência fantástica. Lá pelas tantas, descobre o poder do blush, a força da mousse e os milagres da cintura alta e passa a reservar aqueles quinze minutos a mais de manhã para colocar os seus devidos nos conformes.

Toda mulher relativamente normal sabe que a ciranda-da-bailarina e o poema-em-linha-reta também se aplicam à busca da aparência feminina fantástica. Em outras palavras, não importa o quão fantástica ela consiga parecer, inevitavelmente em algum momento do dia será flagrada ajeitando o elástico da calcinha, tirando uma alface do dente, se livrando de uma remela insistente, disfarçando o bafinho com um Trident, limpando um resto de pasta de dente da testa. Enfim, é a aplicação da Lei de Murphy à Demanda da Santa Aparência Feminina Fantástica.
Toda mulher relativamente normal que se preze tem pelo menos uma amiga que, contrariando a sina das mulheres relativamente normais, consegue passar 24 horas por dia sem que um único fio cabelo saia do lugar. Está sempre vestindo o último grito da moda – e todas as suas roupas têm um corte impecável e um caimento de dar inveja a qualquer Gisele –, tem o cabelo sedoso, macio e cheiroso, maquiagem discreta, mas eficaz, porte elegante, graça, inexistência de manifestações acústicas ou odoras suspeitas, está sempre com cinturinha de pilão, pernas torneadas e o músculo do tchauzinho onde ele deve ficar. Além disso, em geral essa mesma amiga reúne explosivamente a irresistível capacidade de sedução feminina com aquela aura de mistério que a mulher relativamente normal passa a vida inteira tentando imitar, conseguindo, no máximo, em um efeito colateral bastante previsível, passar por antipática ou sonsa.
Toda mulher relativamente normal um dia cai na besteira de chorar as pitangas da ausência de homens à amiga superfantástica. Envolvida no seu relato dramático sobre o longo período de seca, os questionamentos existenciais que acompanham as crises de abstinência e as análises sociológicas envolvendo homens inassertivos que simplesmente não conseguem fazer frente à exuberância da mulher contemporânea, ela não se dá conta do que está por vir. E quando percebe, já é tarde: os olhos da amiga superfantástica começam a expedição desde o seu dedo mindinho até o último fio de cabelo (naturalmente fora do lugar), passando pelo pânceps, parando nas suas unhas não feitas, examinando com leve ar de desaprovação a sua blusa larguinha e espremendo os olhos ao avaliar o seu batom borrado. Logo vem o decreto – firme, mas sem perder a doçura:
- Você precisa começar a se arrumar melhor...
Nesse momento, a mulher relativamente normal, no epicentro do seu complexo de abajur, tenta em vão reunir desculpas pouco convincentes para derrubar a tese da amiga superfantástica:
- Mas eu devo te dizer que você me pegou em um dia ruim! É que todas as minhas roupas estavam sujas e tive que apelar pra essa blusa velhinha... Ah, não deu tempo de fazer a unha. E esse final de ano, menina? Impossível manter a silhueta, né? Ah, o meu batom está borrado? Nossa, se eu te contar o dia que eu tive você não vai acreditar...
Passada a fase de negação e minadas as últimas resistências, a mulher relativamente normal acaba se rendendo à superioridade da amiga superfantástica. E, sabendo das suas boas intenções e do seu bom – e impecavelmente asseado – coração, deixa-se afundar no sofá enquanto a outra examina o seu guarda-roupa e sentencia:
- Esta calça boca-de-sino está totalmente fora de moda... Essa bota até que é legal, mas tente comprar uma com o bico mais fino... Você precisa de umas camisas sociais! Esse casaco é lindo, por que você nunca usa? Você precisa realçar esses olhos, não pode desperdiçá-los assim! São a sua maior arma!
A mulher relativamente normal assente, humilde, e promete que vai se esforçar. A partir de amanhã acordará quarenta minutos mais cedo, passará base, corretor de olheiras, rímel, blush, protetor solar, protetor labial, mousse. Escolherá uma calça justa que realce suas formas e valorize o seu traseiro, comporá com uma camisa social de corte moderno, um sapato de bico fino, uma bijoux descolada e algum toque charmoso no visual. Sorrirá para os homens, rirá de suas piadas sem graça, jogará os cabelos para trás e lançará olhares misteriosos a todos à sua volta, dona de um segredo íntimo e inconfessável.
Investida de novo ânimo, a mulher relativamente normal se despede da amiga, cheia de boas intenções e renovadas esperanças. Apenas na hora de dormir, na escuridão do quarto, vestindo o seu pijama de flanela e a sua placa de morder, a mulher relativamente normal suspirará, resignada, diante da obviedade que ela não confessa nem sob a tortura de uma depilação na virilha: não importa o quanto ela se esforce, ela nunca, jamais, em tempo algum alcançará a aparência superfantástica da sua amiga superfantástica.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Entre nós

Noite dessas, rolando na cama sem conseguir dormir (foram algumas assim, essa semana), me peguei pensando em você. E uma dúvida me passou pela cabeça: será que é comum você despertar nas pessoas essa sensação que desperta em mim? Uma hora me sinto próxima, muito próxima de você. No momento seguinte, você me parece um estranho.

Aí me peguei pensando o que é que você faz de vez em quando que me dá essa sensação de tanta proximidade. Talvez seja a sua sinceridade extrema – com contornos diferentes do meu Transtorno de Sinceridade Compulsiva – que, se às vezes chega ser desconfortável, em outros momentos deixa transparecer um afeto e até uma doçura que me surpreendem.

Por outro lado, os nossos tempos são absolutamente diferentes. Se eu passo dois meses sem falar com você, quando te encontro você diz: “estava quase te mandando um e-mail”... Se marcamos de nos encontrar e não dá certo, a sua próxima visita só vai acontecer muito tempo depois, por acaso, quando eu já não estiver mais esperando. Então, talvez seja esse seu timing, tão estranho para mim, que me faça sentir a anos-luz de você em outros momentos.

Uma vez te acusei de não ser transparente e você se chateou. Acho que você tinha razão. Não é que você se esconda; simplesmente é da sua natureza ser opaco. Ou, ainda, o meu olhar, “nítido como um girassol”, não é capaz de perceber e distinguir seus matizes. E, embora eu me ressinta do meu excesso de obviedade, não posso deixar de admitir como é boa a sensação de ter sempre ainda algo a descobrir a seu respeito.

Eu confesso, às vezes também me chateio. Você sabe disso. (E pede desculpas, me desconcertando mais uma vez.) Mas faço o possível para não te julgar. Quem disse que você tem que ser igual a mim? Quem disse que ser diferente de mim é sinal de indiferença? Você sabe, continuo praticando a tolerância às diferenças. Ainda acho que ela gasta mais calorias do que uma aula de hip hop e faz bem ao coração (será que ajuda a diminuir os efeitos do prolapso na válvula mitral?).

Eu poderia mandar essa mensagem diretamente a você. Mas, sendo este um desses momentos em que me sinto distante, preferi colocá-la em uma garrafa e soltá-la no mar, esperando que ela encontre o seu destino. Afinal, não foi assim que aconteceu da primeira vez?

É isso aí. Sinto sua falta.

Inverno austral

Me disseram que fazer 30 anos não ia doer nada. Vamos fazer uma rápida retrospectiva do último mês de minha vida:

- Na manhã da minha viagem de férias ao Rio de Janeiro, minha calça nova rasgou na passagem pelos quadris (o detalhe é que ela foi comprada exatamente porque minhas calças velhas estavam apertadas)
- No metrô carioca, uma mulher educada me ofereceu um assento no metrô (ahhhh, não estou grávida, obrigada!). Maldita moda das batinhas! – uma amiga tenta me consolar
- No dia do casamento da minha prima, descobri que três rugas haviam nascido embaixo do meu olho esquerdo (e ouvi da minha prima que uma dermatologista-carniceira lhe sugeriu uma aplicação de botox pré-casamento)
- Numa conversa com uma amiga de 25 anos, ela me perguntou se a moça de quem eu falava (que tem 32 anos e namora um rapaz de 21) está “conservadinha”
- Na praia, constatei com horror que minhas coxas começaram a raspar uma na outra

Só me resta afogar as mágoas no karaokê da Mama, cantando I’ll survive ao lado do Roberto Carlos japonês.

Fast forward

Aniversário, casamento, outro casamento, velório, outro aniversário, outro casamento, outro aniversário, outro aniversário [virose]... (isso sem falar nos aniversários que eu não pude prestigiar, ou porque estava em um casamento, ou com virose...)

Minino, que esse 2009 chegou com fome de viver!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Acerto de contas

Em 2008, uma coisa maravilhosa aconteceu: descobri o que eu quero ser quando crescer. O melhor de tudo é que eu já cresci e já sou o que eu quero ser. Não é fantástico?

***

2008 também foi o ano da maior conquista amorosa da minha vida. Ela tem 1,79m, olhos azuis, cabelos claros e é dada a infinitos (e irritantes) questionamentos existenciais, mas também tem senso de humor e sabe se divertir como ninguém. Não descarto a possibilidade de ter outros relacionamentos paralelos, mas com certeza essa aí eu não largo mais.

***

Sabem qual é a diferença entre ousadia e atrevimento? Segundo me disseram uma vez, quando você arrisca alguma coisa, isso significa ser ousado. Se não tem nada a perder, não passa de um atrevido. Agora, será que é possível não ter nada a perder? E, por outro lado, não há sempre algo a se ganhar? Pelo sim, pelo não, entre ousada ou atrevida prefiro me considerar, nas palavras de uma amiga querida, uma intrépida.

***

Resolvi comprar um vestido vermelho para que o ano novo não tivesse dúvidas sobre o que eu espero dele. Ao chegar ao provador, triste constatação: o vestido era curto demais. Oh, God... São os meus 30 anos me esperando logo ali, depois da esquina...
Espero que o ano novo saiba ler nas entrelinhas do meu novo vestido branco e azul.

***

No final de 2007 eu tinha mais ilusões. No final de 2008, descubro que a lucidez da vida também dá barato. Feliz 2009!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Tradições natalinas


Eu acredito no Natal. Para mim, ele nunca deixou de ter a magia e a felicidade simples da minha infância. Não é preciso muita coisa: família reunida, comida farta, música, presentes escolhidos com amor. Pensando bem, é um bocado de coisas!
Um dos rituais que mais aqueciam o meu coração naquele tempo era montar a árvore. Tirar um por um os enfeites da caixa; distribuí-los simetricamente ao longo dos ramos, deixando os especiais para o topo; enrolar as luzinhas brancas e coloridas e acendê-las sempre que uma visita chegava em casa; salpicar pedacinhos de algodão, nosso simulacro de neve possível no Natal dos trópicos. Também havia os enfeites de porta, o presépio, as velas coloridas dentro da tigela com água. A casa inteira se transformava!
Nos tempos da minha bisa, Natal tinha até Papai Noel. Salvo engano, ele era um lutador de boxe aposentado. Convencia bem, até. Eu não me lembro de acreditar em Papai Noel, mas me lembro de achar bacana ter aquele senhor barbudo no meio da sala, distribuindo presentes para os bisnetos que aumentavam a cada ano.
Minha tia, o coração artístico da família, sempre inventava alguma performance. Aliás, reza a lenda que em um dos meus primeiros natais, escalada para representar Maria no nascimento de Jesus, chorei copiosamente... (acho eu que me senti meio esquisita por já ter um filho e ser esposa do meu primo de terceiro grau, que representava José – eu ainda tinha tanto para viver!). Também fizemos jogral, paródia, números humorísticos...
Música nunca faltou. E sempre ficou por conta da minha tia também a escolha do repertório – cuidadosamente registrado em um programa a ser distribuído para a família. Mas depois das canções do programa, sempre pedíamos para ela tocar todas as cações natalinas de que nos lembrávamos; e depois delas, era de praxe pedir pelo menos um Beatles, só para não perder a tradição. E assim continua sendo, anos após ano.
Foi só recentemente que eu descobri que nem todas as famílias cantam no Natal. Contava para uma amiga sobre um telefonema inesperado que recebi bem na hora em que cantávamos “Pinheiros! Que alegria...” e ela, rindo, achou que se tratava de uma força de expressão. Não sossegou até me pôr ao telefone cantando a música para o seu marido, e tiveram os dois um interminável ataque de riso. Ora, azar de quem não canta; a cantoria é um dos pontos altíssimos do meu Natal.
Quando eu era criança, o Natal começava muito antes do dia 24, mais ou menos quando chegavam as férias escolares. Era o tempo de contar a mesada, dividir por cinco (lá em casa éramos seis) e começar a planejar as compras natalinas. Quando ainda havia Mappin, era lá que eu resolvia a maior parte do problema. Depois, ainda nos meus tempos de João Cachoeira, eram três ou quatro excursões até que eu me sentisse satisfeita com os presentes adquiridos. Hoje em dia o remédio é me enfiar no shopping lotado na véspera do Natal... Mas, ainda assim, acredito no Natal.
Outra tradição familiar, perpetuada pela minha avó e depois por mim e pelas primas, são as bolachinhas de milão, receita tradicional de biscoitinhos amanteigados que também são a cara do nosso Natal. Todo ano a avó faz um quilo de bolachinhas e jura que foi a última vez...
Lá pelos tempos do segundo colegial, querendo juntar dinheiro com uma amiga, resolvemos transformar as bolachinhas em um empreendimento comercial. Tudo bem que os ingredientes, equipamentos e instalações eram fornecidos pelos meus pais – que, junto com os pais dela, eram nossos principais compradores. Chegamos a tentar vender os biscoitinhos na rua, mas eles não tinham muito apelo. Em compensação, resolveram o problema em dois ou três amigos secretos do trabalho dos nossos pais (jeito simpático de presentear a todos sem gastar muito dinheiro). E houve uma encomenda história para um bazar – varamos a madrugada assando as bolachinhas, que quase se perderam por causa de um ovo de pata que desapercebidamente incluímos na massa – que nos rendeu a nossa maior receita! Mesmo não tendo vendido todos os biscoitos que deixamos em consignação, a família que organizou o bazar gostou tanto deles que comprou todos os saquinhos que haviam sobrado.
Nos natais seguintes, continuamos fazendo biscoitos, dessa vez para presentear amigos e familiares (mais os da minha amiga, porque minha avó continuou fornecendo as suas bolachas para a nossa família – e não tem jeito, as bolachas da minha avó têm um sabor inimitável). Tive a idéia de comprar um pote de vidro e dar os biscoitinhos de presente para a minha então sogra; foi um sucesso absoluto. Depois dela, mais três sogras receberam o pote com os famosos biscoitinhos de milão, que viajaram o país: foram para Piracicaba, São Gonçalo, Brasília, Governador Valadares e Coronel Fabriciano.
Em tempos de Mulher Solteira, as bolachinhas também já foram deixadas em portarias de musos inspiradores; afinal, há estratégia mais antiga do que tentar conquistar um homem pelo estômago?
Seja qual for o destino das bolachinhas, anualmente eu e minha amiga lá estamos, em volta da mesa, misturando os ingredientes, falando do passado, escolhendo as forminhas, dividindo angústias, raspando a casca de limão, cantando em portunhol, polvilhando a farinha, desfiando as últimas aventuras da solteira, acendendo o forno, fazendo o balancete da vida da casada, preparando a próxima fornada, revirando um amor esquecido, fazendo suco com os limões descascados, comentando sobre as viagens que faremos, colocando os biscoitos nos saquinhos, fazendo planos para o próximo ano, amarrando fitinhas, reafirmando laços.
Ah, eu acredito no Natal!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Trieb

“Despidos somos todos iguais”, ele disse.

Fui obrigada a discordar. Se assim fosse, não haveria teoria freudiana.

“Que teoria freudiana é essa?”, quis saber.

A resposta está há mais de um mês na minha pasta de rascunho. Começava dizendo que ele desafiava o meu poder de síntese pedindo que eu explicasse esses complexos conceitos psicanalíticos; explicava, em seguida, que para Freud a percepção de meninos e meninas sobre a distinção anatômica entre os sexos é o ponto de partida para o Complexo de Édipo e de Castração, para o interdito ao desejo, para a separação da mãe, para a constituição do sujeito, para a primeira escolha de objeto, para a identificação, para a segunda escolha de objeto...

Parece que em dois ou três parágrafos consegui resumir o que queria dizer. Mas aí já se tinham passado alguns dias desde que a pergunta havia sido feita – no próprio dia eu estava mais ocupada em responder a muitas outras perguntas mais prementes e necessárias – e pareceu perder o sentido enviar a resposta.

Mesmo com a perda do timing, guardei-a lá, na pasta de rascunho.

Se alguém me perguntasse hoje, eu diria, sem sombra de dúvida: no fim das contas, é a distinção anatômica entre os sexos o que move o mundo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Lei de mercado

– Quem? Ah, aquele meu amigo alto, loiro, simpático, interessante e SOLTEIRO? Então, não te apresentei ainda porque achei que ele não fazia o seu tipo...

RÉLÔU, DESDE QUANDO MULHER SOLTEIRA TEM TIPO, DIO MIO???

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Sempre alerta


Já dizia o profeta: nunca coloque todos os ovos em um só
homem.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Simples

Fim de ano?

Dia de sol?

Sonho bom?

Desses dias em que a gente simplesmente se sente feliz por estar vivo, sem nenhuma razão em particular.

Geografia humana

Uma ilha é...
... uma mulher solteira
cercada de homens casados
por todos os lados.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Dog date

- Oi!
- Olá!
- ...
- Ele é bonzinho?
- É, sim, pode ficar tranqüila.
- Que bom...
- É shi-tzu ou lhasa?
- Shi-tzu.
- Ah...
- O seu é um whipet?
- Isso.
- Aham...
- Como é o nome delas?
- Esta aqui é a Mimi e a outra é a Lola.
- Sei.
- E o seu?
- Flash.
- Flash...
- ...
- ...
- Bom, até logo!
- Boa tarde, até a próxima!

(Sempre me pergunto quando os diálogos com homens-interessantes-passeando-com-seus-cachorros vão passar para a próxima fase.)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A distância das coisas

A distância é uma coisa engraçada.

A distância afasta? Nem sempre. Tão longe, tão perto. Se assim não fosse, não haveria paixão platônica, namoro à distância, amor que resiste a anos de separação.

A distância faz arrefecer os sentimentos? Às vezes. Longe dos olhos, longe do coração. Há aqueles amores que só se constroem no miúdo, no juntar dos corpos, nas vidas que caminham na mesma direção.

A distância é mesmo engraçada. Uma palavra atravessada pode tornar meio metro em um oceano. Uma palavra bem-dita atravessa o mundo para acariciar o ouvido.

Perto demais, o amor pode acabar. Longe demais, também.

A distância entre nove anos? O esquecimento.

A distância entre sete quadras? Uma escolha.

A distância entre dois andares? A prudência.

A distância é assim: ora estica, ora encolhe. O que ela vai fazer comigo e com você, só o tempo vai dizer.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Altas literaturas

Que o Sig me perdoe, mas verão é tempo de ler Marian Keyes.
Los Angeles, aqui vou eu!

Novas lições introdutórias sobre a jardinagem literária

Caro leitor,

Posso imaginar, a esta altura, a sua (mais do que justificada) saturação de posts versando sobre a regular e sistemática – embora absolutamente involuntária – jagunçagem de plantas protagonizada por esta que aqui escreve, assim como as inesgotáveis metáforas decorrentes desta contumaz incompetência vegetal: a crônica da violetinha suicida, a lenda da cebola que germinou na gaveta do refrigerador e sobreviveu ao plantio invertido, o hai kai do cacto falecido, a fábula da cravina endurecida pela vida, a parábola da cravina renascente. No entanto, em nome da sinceridade herbal, é mister que eu cá faça uma retratação pública e retifique informações inverídicas divulgadas neste sítio virtual.

Por ocasião de recente e ilustre visita da Mãe Sereia ao recinto de minha residência, orgulhosamente exibi a ela meu vistoso vaso sobre a mesa de centro da sala:
- Mãe, viu a minha planta que ressuscitou?
- Qual, esta Azedinha?
- Ahhhnmmfff – resmunguei, em um muxoxo (então não era mesmo uma cravina? Bem que eu desconfiei que as folhas eram redondas demais... Maldita Poliana!) – é esse o nome dela, é?
- Sim... Mas e então, você replantou a cravina neste outro vaso?
- Não, mãe, esta outra cravina já existia. Lembra-se de que eram duas, uma rosa e a outra branca? A branca morreu, tirei os restos mortais do vaso e... nasceu essa Azedinha aí.
- Sei (cara de quem já viu de tudo nessa vida). Natural, minha filha... a vida é uma eterna luta pela sobrevivência. Provavelmente a Azedinha veio de gaiato no vaso e acabou parasitando a cravina. Isso acontece o tempo todo na natureza.
- Sim, claro, naturalmente...
Hoje voltando para casa, já havendo me despido do véu de ignorância que cobria meus olhos, constatei o óbvio: a Azedinha é a planta mais ordinária que existe, daquelas que dão – com o perdão do trocadilho – em qualquer moita. Ainda assim, caro leitor, seguirei envidando esforços em prol da sobrevivência de mais este legítimo representante da natureza e das figuras de jardinagem.
Aos aspirantes a escritor (dentre os quais humildemente me incluo), a vida – e as plantas – ensinam mais uma: nem sempre a verdadeira lição é aquela que se julgou haver aprendido.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Tsé-tsé

E com o poder investido em mim por mim mesma, por Irene e por Greiscou, declaro o dia 20 de novembro o Dia Mundial do Sono. E que conste nos autos e que se revoguem todas as disposições contrárias e que tragam o meu travesseiro. E tenho dito. Amém.

domingo, 16 de novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona

Então eles se casaram e viveram felizes para sempre.
Ou quase.

Vinte anos aparentemente felizes, dois filhos criados, uma casa comprada, um negócio prosperando e muitos planos conjuntos concretizados depois, um dia ela nota algo de diferente.

- Você está bem, amor?
- Não.
- O que foi?
- Acho que não te escolhi. A vida escolheu por mim, não fui eu que te escolhi.
- ...
- Não sei se te amo. Não sei se quero continuar com você.
- ...

Ainda levaram dois anos – longos e sofridos – para se separar efetivamente.
Hoje ele caminha em busca de algo que não sabe bem o que é. Espera poder dizer um dia que algo em sua vida foi fruto de uma escolha sua. Ela, na outra direção, caminha em busca de aprender a desejar novamente, depois de quase uma vida inteira de certeza sobre o acerto da sua escolha.

Como pode ser acertada uma escolha para dois que só foi feita por um?
Como é possível viver durante vinte anos com aparente felicidade uma vida que não foi escolhida?

A cada instante, a vida vai se revelando menos exata do que nos ensinaram. Ou talvez ninguém tenha ensinado, talvez tenha sido tudo fruto da nossa própria imaginação. Talvez seja apenas um arranjo psíquico necessário para suportar a angústia de saber que não há uma única pessoa no mundo que seja sempre igual a si mesma (nem nós mesmos), que amar alguém pode ser o caminho mais curto para causar sofrimento a ele ou ela, que nem sempre as pessoas precisam de um bom motivo para deixar de se amar.
Amar. Amor. É o tipo de conceito sobre o qual não se pode ter nada além de um juízo empírico, absolutamente singular, parcial e intransferível.

Que ninguém tenha a pretensão autoritária de julgar o amor de outrem menor, menos belo, menos válido. Que ninguém se arrependa de ter vivido um amor sem higiene, independente de quais tenham sido as suas circunstâncias e o seu fim.

A vida não é exata. O amor não é exato. É algo tão complexo que acaba ficando simples.

Woody Allen que o diga.