domingo, 24 de maio de 2009

Sobre sonhos e saudades

Durmo. Durmo muito. Durmo até que não reste uma gota de consciência em mim. E no meu sonho te reencontro.

***

No começo de 2007, meu pai perdeu aquele que durante boa parte da sua vida foi o seu melhor amigo. Oito anos de luta contra o câncer, tratamentos experimentais, tumores extirpados que reapareciam em outros lugares.

Foi um câncer muito bem vivido por ele. Pois, durante esse tempo, soube tirar o máximo proveito da consciência da sua finitude. Resolveu problemas, reaproximou-se das filhas, tornou-se uma pessoa simples, passou a conviver com os cachorros, deixou de lado uma grossa camada de verniz e polidez que ele havia sido obrigado a carregar durante toda a vida.

Assim, creio eu que ensinou muito para o meu pai, antes e depois do câncer. Eles eram primos e ouso acreditar que esse laço de sangue devolveu ao meu pai o significado da palavra “família”, em muitos momentos em que parecia difícil entender o que poderia ligar pessoas tão diferentes pelo simples fato de terem nascido com o mesmo sangue. Foi com ele que meu pai mais se identificou, a quem mais admirou, por quem mais se sentiu compreendido.

E então ele se foi. E lá estava o meu pai, nos seus minutos finais, amoroso, ouvindo-o falar sobre tudo e nada, suportando o vê-lo ir, acompanhando-o até o fim. Participou dos trabalhos fúnebres, trouxe consigo suas cinzas, guardou-as para devolvê-las à sua terra natal.

Durante meses meu pai falou sobre ele. Falou, falou, falou. Precisava falar. Precisava recordar, mantê-lo vivo nas memórias, não podia desligar-se dele, não podia deixar que ele fosse esquecido. Nós, ao seu lado, ouvíamos, segurávamos sua mão, afagávamos com o nosso olhar.

Por essa época tive um sonho. Eu, meu pai e minha mãe deitados lado a lado, ele no meio e eu e minha mãe em cada um dos seus lados, de mãos dadas. Estávamos em uma espécie de bosque onde as árvores caíam violentamente ao chão, como que golpeadas por um machado. Estávamos presos ao chão, com as costas grudadas no solo, e eu e minha mãe implorávamos para que o meu pai se levantasse, para que saíssemos de lá e nos protegêssemos das árvores. Mas ele dizia simplesmente “não há tempo, não há jeito, temos que ficar aqui”. E então uma árvore caiu sobre o meu pai, perfurando o seu peito com seus galhos.

Contei o sonho aos meus pais. Minha mãe, psicanalista, logo percebeu a simbologia de estarmos todos deitados, como cadáveres. Meu pai, lendo meu sonho por seus olhos, achou que eu temia a sua morte. Eu sabia que todas essas leituras eram corretas, mas no meu íntimo sabia também que havia algo para além das nossas mortes, para além da morte do meu pai.

***
Hoje revisito tristezas e saudades de coisas que não voltam mais. Tristezas e saudades que, quando meu pai perdeu seu melhor amigo, ainda eram muito vivas para mim. Tristezas e saudades que, mesmo menores, não foram embora e talvez nunca se vão.

Então penso no meu sonho no bosque e nas mãos dadas que nos uniam, na resignação do meu pai diante da árvore que cairia sobre o seu peito. E vejo o quanto aquele sonho me falava sobre o que ele viveu e vive, sobre o que eu vivi e vivo, sobre algo que diz respeito a todos nós: há dores que são só nossas e, por mais que nos cerquemos de pessoas que nos amam e nos querem bem, essas dores são só nossas e só nós mesmos podemos carregá-las.

sábado, 23 de maio de 2009

A cura

O caso mais contundente de terapia breve de que já tive notícia foi-me relatado por uma amiga.

Depois de muito tempo de indecisão ela finalmente conseguiu vencer suas resistências iniciais e procurou um analista. Marcou hora, compareceu, achou-o agradável e confiável, expôs-lhe as suas queixas, emocionou-se a falar de sua relação com a mãe.

Ouviu-o com esperança, acreditando que tudo seria possível. Saiu de lá com a certeza de ter pela frente um processo longo e doloroso, mas significativo.

Na semana seguinte, aguardou a ligação do analista para confirmar o horário definitivo de suas sessões. A ligação não veio. Então, tomou a iniciativa de procurá-lo.

Pela secretária, descobriu que a sua análise havia chegado ao fim: o analista falecera.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A festa

Na rua, sorriso.

Entranhas, em casa.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Folhetim

De: Mulher Casada
Para: Mulher Solteira
Assunto: nhami

Mano, seguinte: falei de você pra um amigo e ele quer te conhecer. Gente fina. Gatinho. Boto fé.

De: Mulher Solteira
Para: Mulher Casada
Assunto: Re: nhami

Conta tudo. Quem é? O que você falou de mim pra ele?

De: Mulher Casada
Para: Mulher Solteira
Assunto: Re:Re: nhami

É um amigo de um trampo antigo. Perguntei se ele tava solteiro, ele disse que sim e quis saber se eu tinha uma namorada para apresentar pra ele. Falei que tinha uma amiga interessante, loira e de olhos claros. Nhami!

De: Mulher Solteira
Para: Mulher Casada
Assunto: Tic!

Isso me parece deveras auspicioso! Are, baba!!!

***

Mulher Casada: Mano, olha lá, hein... É o último amigo solteiro que eu tenho para te apresentar!
Mulher Solteira: Uia, que responsa! Tá, vou caprichar...
Mulher Casada: Eita, acho que o porteiro tá dormindo... Oi, boa noite, moço! Moço?
Porteiro: Hum...
Mulher Casada: Boa noite! A gente vai na casa do meu Amigo Solteiro.
Porteiro: Hum... Hum...
Mulher Casada: Então... A gente pode subir?
Porteiro: Hum...
Mulher Casada: Bom... É apartamento 42, né?
Porteiro: Hum... Hum...
Mulher Casada [fala para Mulher Solteira]: *Acho que eu sei o apartamento, vamos lá.* Obrigada, moço!
Porteiro: Hum... Hum...

***

Amigo Solteiro: Mulher Casada! Quanto tempo, que bom te ver!
Mulher Casada: Amigo Solteiro! Sua casa tá uma graça, mano!
Mulher Solteira: Hum...
Amigo Solteiro: Gostou? Fui eu que fiz tudo!
Mulher Casada: Sério? Que legal!
Mulher Solteira: Hum... A-ham...
Mulher Casada: Ah, sim! Amigo Solteiro, essa aqui é a minha amiga Mulher Solteira.
Mulher Solteira: Oiiiii, Amigo Solteiro, tudo bem? Prazeeeer!
Amigo Solteiro: Oi, prazer! Vamos sentar, gente!

[Patati. Patatá.]

Mulher Casada: Ô mano, você ficou com a fotógrafa do meu casamento, por acaso?
Mulher Solteira [“hello, eu tô aqui?”]:...
Amigo Solteiro: Eu não! Eu tava de olho é na sua amiga alemãzinha...
Mulher Solteira [ “viu? Ele gosta de mulher mignon!”]:...
Mulher Casada: Jura? Ué, a fotógrafa citou o seu nome... Aliás, o seu e o de outro amigo meu, hehehehehe...
Amigo Solteiro: Eu nem lembro da cara da fotógrafa! Não fiquei com ninguém no seu casamento...

[Papo vai. Papo vem.]

- Ring, ring! Ring, ring!

Amigo Solteiro: Opa, interfone! Chegou mais um.
Mulher Casada: Quem é?
Amigo Solteiro: Ah, você não conhece.
Mulher Casada [descrença]: ... Não vai me dizer que é uma peguete!
Amigo Solteiro: Hum... É uma namoradinha...
Mulher Solteira [???]:...
Mulher Casada [pânico]: Ô, mano! Não sabia que cê tava namorando!
Amigo Solteiro: Ah, pois é, nem eu!
Mulher Casada [sorriso amarelo]: Bom... Acho que vamos nessa!
Mulher Solteira [código azul]: Uhum!!!
Amigo Solteiro: Mas já??? Calma, pessoal, fica mais um pouco! Se vocês forem embora só porque ela chegou, ela vai achar estranho!
Mulher Solteira: Não se preocupa, a gente explica tudinho pra ela, viu? Até mais, muito prazer!

[vinheta de “fim da linha” do Picapau – melodia descendente a intervalos de meio tom]

– Nhéu-nhéu-nhéu-nhéu-nhéu...

***
Não percam, a qualquer momento em nossa programação, mais um emocionante episódio de nosso folhetim “Páginas da Vida de uma Mulher Solteira – Encalhada, Desiludida, Mas Cheia de Humor para Dar!”

sábado, 2 de maio de 2009

Panorâmica

Encontros, desencontros, reencontros.

E um coração vivendo de pequenas epifanias.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Hilda

Preciso fazer as sobrancelhas. Mas elas podem esperar.

A última vez que fiz as sobrancelhas foi um pouco antes do meu aniversário. Pedi a Hilda para caprichar, queria chegar aos trinta bonitona. Ela garantiu que eu não precisava me preocupar: estava na flor da idade!

Enquanto fazia o serviço – de longe a melhor do salão – me contava sobre a cachorrinha nova. Uma gracinha! Mas desconfiavam que estava grávida. Se o ultrassom confirmasse, teriam que sacrificar os filhotinhos. A cachorrinha mal completara seis meses, estava no primeiro cio e não teria chance se levasse a gravidez até o fim.

Já não me lembro se foi nesse dia ou em outro, Hilda me contou algumas passagens da sua vida. Depois de muitos anos de casamento, dois filhos, o marido a deixou para ficar com outra. Pressenti na sua fala uma solidão aguda, dessas que poderiam tê-la deixado amarga, mas que ela soube transformar em serenidade. Oxalá eu tenha a mesma sabedoria.

Em um desses dias também falou dos filhos. O menino se formou cabeleireiro e estava trabalhando no mesmo salão – que orgulho! A menina também trabalhava, estava se formando, muito bem encaminhada. Dever cumprido.

Na última quinta liguei no salão e pedi uma hora com Hilda para o sábado. Foi só então que descobri a sua morte. Teve uma dor de cabeça, foi ao médico, internou-se, entrou em coma e morreu (aneurisma). Tudo em apenas dois dias. Isso já há quase dois meses, dias depois do nosso último encontro, quando nada parecia indicar que ela estivesse de partida.

Penso na dor da família, mas para me consolar penso também que Hilda teve a melhor das mortes: aquela que não se pressente e que não causa dor nem sofrimento para quem parte.

Tenho vontade de me apresentar ao filho, dizer dos meus sentimentos por Hilda e de como ela sentia orgulho dele. Mas temo ser inconveniente. Cada um sabe da sua dor.

Lembro agora que dei de presente para uma amiga, nesse fim de semana, uma coleção de livros infantis sobre um ácaro e uma pulga. Ele, Glauber; ela, Hilda. Não havia muita razão para escolher tal presente. Acho que foi minha homenagem silenciosa a essa mulher tão delicada, tão serena, quase invisível.

Hilda se foi. Minhas sobrancelhas crescem, a despeito de sua partida. E a vida continua.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Peter Pan faz aniversário

Theo, aos oito anos:

I.
- Droga, droga, droga! A gente perdeu o cinema!
- Sério, Preto? Por quê?
- Tudo culpa desse... Moleque grande!
- Theo.............
- Que foi, mamãe? Não posso chamar o papai de moleque grande?

II.
- Tia, quer ouvir a minha banda preferida de todos os tempos e a minha música preferida de todos os tempos?
- Quero, Theo!
- Peraí que eu vou entrar no youtube...
- Tá bom.
- Aliás, peraí que eu vou te mostrar como é a dança dele no palco!
- UAU!
- Aliás, peraí que eu vou pegar a minha guitarra pra te mostrar como é o solo do Slash!
- GENIAL!
- É assim, ó: tuninuniruniruni-tuniruniruniruni, tuniruniruniruni-tuniruniruniruni... Oooooh, suitchaioma-ai!!!

III.
- Mamãe, sabe o que eu ia fazer? Eu ia te zoar, mas depois eu decidi que não!
- Ah, é?
- É! Sabe o que eu ia fazer?
- O que, Theo?
- Eu ia colocar no papel de parede do seu Ipod aquela foto sua toda “ensangrentada” do parto da Lilica! Mas depois eu decidi que não...

IV.
- Tia, a sua calcinha é branca?
- Possivelmente...
- Ué, você não olha antes de vestir???

V.
- Mamãe, posso mamar no seu peito?
- Não.
- Ah, mamãe, por favor! Deixa eu mamar que nem a Lilica! É que eu não lembro que gosto tem o seu leite...
- Nada disso, Theo... Você já mamou quando tinha idade pra isso.
- Hum... Mamãe?
- Oi, Theo.
- Já que eu não posso mamar no seu peito, mama você no meu?
.
.
.
Difícil decidir se a gente quer crescer de uma vez ou continuar criança para sempre...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Laços de família

Olha só quem está aqui! Meu primo!

Mas... Como é mesmo o nome dele?... Oh, well...

... Bom, sem dúvida que é neto de uma das irmãs da minha Vó Helô. Mas de qual delas? Da tia Heloide, da tia Heloína ou da tia Heloiny?... Será Ferrari ou será Faustini?

Ah, com certeza é neto da tia Heloiny! É ela que tem aquele monte de neto homem. Aliás, ela tem um monte de filho homem também. E agora, será que ele é filho do Flávio, do Fausto, do Fábio ou do Fernando?

Bom, salvo engano, quem tem um monte de filhos homens são o Flavio e o Fábio, apesar de que um deles tem uma menina também. Aliás, já perdi um pouco (um pouco?) o fio da árvore genealógica a partir do Fausto e do Fernando. É, realmente, para ser desse tamanho, só pode ser filho do Fábio ou do Flávio. Mas de qual deles?...

... Vejamos... Ele tem mais a cara da Adriana do que da Teco... É, deve ser filho do Fábio... Aliás, ele é a cara do Fábio! Só pode ser do Fábio, então.

Hum, como são mesmo os nomes dos filhos do Fábio? Tem a Marina e os dois meninos... Fabinho não é... Esse é do ramo da tia Heloide (nem vou queimar neurônios tentando lembrar se o Fabinho é do Ney, do Volney ou da Márcia... Ah, ele é irmão do Márcio, o meu primo que fez o José naquele antológico Natal em que me vestiram de Virgem Maria e eu abri o bocão... Márcio só pode ser filho da Márcia; Márcia é filha da tia Heloide... Não, definitivamente esse não é o Fabinho).

Rafael? Bruno? Victor? Felipe? Guilherme? Caramba, sempre confundo os nomes dos filhos do Fábio e do Flávio...

Bom, eu pelo menos já aprendi quem é a tia Heloína e quem é a tia Heloiny! Já a Feca, não sei não, hehehehehe... Opa! Lá vem ele...

- E aí, primo! Que legal te encontrar aqui! Tudo joia?
- Oi, prima! Tudo bem! Pois é, faz tempo que não nos vemos, hein? Desde o último Natal coletivo...
- Pois é, pois é... Deixa eu te apresentar para a minha amiga aqui... Bom, esse é o meu primo...
- Oi, tudo bem? Prazer! Bom, prima, deixa eu ir que meus amigos estão me esperando! Boa balada!
- Valeu, primo, pra você também!
.
.
.
Ma siamo tutti famiglia!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Odisseia

“Seu pai é um turista em minha vida”, diz a Mãe Sereia, com aquele humor resignado que o tempo lhe fez conhecer.

Eu acrescentaria que meu pai é um guia turístico em nossas vidas. É um homem de pequenas, mas consistentes obsessões temporárias – inofensivas, diga-se de passagem –: olimpíadas, eleições presidenciais, minissérie sobre Maysa, novela das oito. Não contente em devotar noites e noites à tela da tevê, a cada breve parada no “mundo de cá” ele faz questão de nos guiar por entre as sendas da sua viagem particular. Pode ser de manhã cedo, após passar algum tempo meditando sobre os caminhos das índias: “Acho que o Bahuan fez muito mal em não convidar o menino para a inauguração do restaurante”; ou após a caminhada na esteira em companhia do seu Ipod – “a Maysa cantava com absoluta afinação, é incrível”; ou, ainda, durante um almoço, às vezes de forma até autoritária: “acho impressionante como vocês se mostram alienadas em relação à tragédia da Faixa de Gaza”. Não adianta dizer a ele que, enquanto se encontra alhures, a vida também acontece aqui, entre nós. Quem estiver por perto é intimado a embarcar nessas viagens – qualquer gesto em contrário provoca um profundo sentimento de ofensa no guia.

“Sua mãe é capaz de acreditar ferreamente na mais idiossincrática das teorias que ela mesma criou”, diz meu pai, com aquela certeza inflamada que o tempo nunca lhe tira.

Em geral, fico sabendo da última “parada do sucesso” do meu pai pela Mãe Sereia, sua fiel companheira de viagem há 39 anos. Enquanto meu pai sacia a sua fome de ficção e alteridade na frente da TV, minha mãe faz a sua tapeçaria. É lazer para os fins de semana no sítio – não pode trazer para São Paulo, porque senão perde a vontade de trabalhar, só quer tecer. Faz questão de exibir o desenho que começa a se definir no retângulo de pano – “não está maravilhoso?”. Subverte todas as cores da estampa original – “imagine se eu vou usar esse rosa pálido horroroso no meu tapete...”. No meio de um ponto, opa! Uma neta canina se aboleta no seu colo, sem cerimônia. Enquanto isso ela acena para a outra com uma bolinha de lã, rindo enquanto um focinho xereta se intromete em sua sacola de costura. Não adianta contar à Mãe Sereia uma história com começo, meio e fim, esperando que ela siga o seu fio narrativo: é uma editora nata e produz uma nova versão dos fatos em simultaneidade ao relato. Além disso, tem teorias para absolutamente tudo – de plantas a unha encravada (nisso concordo com meu pai).

Meu pai e minha mãe. Ulisses e Penélope. Tenho um pouco de cada um deles. Enquanto Ulisses viaja o mundo pela tela da TV, buscando o caminho de volta a si mesmo, Penélope, serena, tece os fios dos nossos afetos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Corpo

- Não me lembro de você, anunciou altiva, espremendo das palavras o seu salvoconduto.

- Eu lembro de você. E os olhos confirmaram.

Tarde demais. Já era duas.

De fora, a bala na boca pateticamente escancarada, a recusar pipocas. Céus, precisava ter aberto o bocão? Sentiu que desfaleceria se a linguagem verbal não viesse silenciar o corpo.

Mas ser corpo é o princípio primeiro que a todo custo se tenta ocultar. As mãos se guiaram sozinhas noite adentro.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Lost in translation

- Você por aqui?
- Você sumiu. Ocupada?
- Não. Esperei você me ligar.
- Estou aqui.
- Agora já sou uma mulher de trinta.
- É verdade. Quando foi mesmo?
- Mês passado, dia dezoito. Agora a crise passou.
- Minha sobrinha nasceu essa noite. Comprei uma camiseta escrito “eu amo meu titio”.
- Sua irmã está bem?
- Passei no vestibular para fisioterapia, mas não tenho dinheiro para pagar a faculdade. Perdi a inscrição.
- Sinto muito. Minhas aulas de psicanálise recomeçaram.
- Minha mãe se ofereceu para pagar, mas não aceitei. Ela é comissionária.
- São tempos difíceis. Estou fazendo aula de salsa.
- Tá brincando? Adoro salsa! Quantas aulas você já fez?
- Umas quatro ou cinco. Não entendo esses casais que não aceitam dançar com outros parceiros. Que ilusão achar que o amor vai durar a vida inteira!
- Em 99 passei no curso de engenharia de alimentos da Mauá, mas a mensalidade era mil reais. Essa pelo menos é 300 e pouco.
- Estou trabalhando muito, estou apaixonada pelo trabalho. Tenho me sentido mais feliz trabalhando do que quando não trabalho. Isso me preocupa um pouco.
- Eu queria fazer nutrição. Depois pensei melhor e resolvi prestar fisioterapia.
- Parece que o trabalho tem trazido um sentido para a vida que eu não tenho encontrado em outras coisas.
- Ainda não arranjei emprego.
- Tenho sentido muita solidão.
- Está tarde. Tenho que ir. Vê se não some, hein.
- Preciso de uma mão para segurar na minha no domingo à noite.
- Boa semana.
- Tchau.
- Tchau.

domingo, 29 de março de 2009

A traição das imagens

("A traição das imagens" - René Magritte)
Resolvi sacudir o esqueleto em uma aula de salsa. Um pouco traumatizada desde que sofri um assalto a mão armada no ano passado, comento com minha amiga o quanto a escola de dança me parece desorganizada e vulnerável. “Se eu fosse um ladrão, entraria em uma dessas salas e faria uma rapa nas bolsas”, comento.

As neuroses urbanas nossas de cada dia ficam de lado enquanto treinamos o nosso cross simples e com giro, rimos dos mocinhos desajeitados e perfumados que sofrem para aprender os novos passos, driblamos a empáfia dos vovôs dançarinos que insistem em apontar algum defeito no nosso suingue, aprendemos a ser conduzidas e não tentar adivinhar os passos do cavalheiro antes do tempo.

Ao fim da aula, encontro vazio o gancho onde deixara pendurada a minha bolsa. Congelo por dentro, chocada: que boca, meu Deus! Esse poder de predição aplicado à megassena faria um estrago. Mas no momento só penso mesmo no transtorno de refazer todos os documentos que, menos de um ano atrás, me fizeram percorrer todo o circuito banco-poupa-tempo-cartório-eleitoral-loja-da-claro, além daqueles que eu ainda não tinha naquela época, como o cartão de ponto e o cartão da catraca de entrada para o trabalho. E a chave do carro? No primeiro assalto me levaram uma, e agora, sem a outra, teria que ir até a concessionária para fazer uma nova cópia.

Enquanto tento me consolar pensando que pelo menos dessa vez fui poupada do trauma de ver apontada em minha direção uma arma de fogo, conto a notícia para Lóris. Checamos duas vezes o banheiro e a sala de aula antes de voar até a recepção. Lá, minha solidária amiga pergunta, com um fio de esperança na voz, se alguém por acaso deixou uma bolsa sem dono para identificação. Diante da negativa da recepcionista, damos a má notícia. Ela procura imediatamente o dono da escola. Pedem que eu descreva a bolsa; faço-o em minúcias: é preta, de tecido, com delicada estampa de fios brancos bem fininhos, alça de couro cor de ouro velho, com fivelas... Nem comento que acabei de ganhá-la de aniversário de Manélson e que, além de linda, tem enorme valor afetivo para mim.

Aproveito para dizer à recepcionista e ao dono da escola que, para além do meu pequeno drama pessoal, gostaria de aproveitar a oportunidade para sugerir que melhorem a segurança. Comento a ridícula coincidência do meu comentário sobre o assunto pouco antes da aula. Eles afirmam que jamais tiveram problemas como esse, que não sabem explicar como pode ter acontecido, que não notaram nenhum desconhecido dentro da escola naquela noite. Afirmo, um tanto resignada, que certamente o responsável pelo furto é alguém conhecido. A recepcionista volta comigo até a sala, mostro a ela que a bolsa não está no gancho em que a pendurei e em nenhum outro.

Voltamos para a entrada da escola. Comento com Lóris que é melhor verificar se o meu carro está estacionado onde o deixei; vai que o ladrão já tivesse me seguido desde a chegada e, de posse da minha bolsa, tenha levado o carro junto. A recepcionista e o dono da escola comentam sobre o incidente com o vigia e também com os professores de salsa. Todos repetem os mesmos comentários: isso nunca aconteceu antes, não viram nenhum desconhecido na escola naquele dia, estão sempre de olho em quem entra e quem sai de cada sala... Mais uma vez insisto na minha tese: não se pode confiar em ninguém, certamente um dos alunos aproveitou-se da desorganização da escola para partir levando a bolsa impunemente. Lóris balança a cabeça para cima e para baixo, em concordância. Eles pedem que eu descreva a bolsa; faço-o mais uma vez: preta, de tecido, detalhes em branco, alças de couro...

Antes que eu vá até o meu carro, o professor sugere uma última olhada na escola. Talvez o ladrão tenha pego apenas o que lhe interessava e descartou a bolsa e parte do seu conteúdo em algum lugar próximo. Ele me acompanha novamente até a sala e, no caminho, comenta sobre o furto de seu carro no fim do ano passado, com um prejuízo de aproximadamente 7 mil reais. Penso que o ladrão não levou nada de valor com minha bolsa, mas me deixou uma enorme dor de cabeça para refazer todos os documentos que eu carregava nela.

Entramos na sala discretamente para não atrapalhar a aula em andamento. Mais uma vez aponto para os ganchos na parede e afirmo, com convicção: “veja, minha bolsa estava exatamente aqui”.

Para dirimir qualquer dúvida, repouso as mãos em todas as bolsas penduradas, uma a uma, confirmando: “não é essa, não é essa, não é essa, não é es...”.

Durante cerca de cinco segundos, meus olhos e meu cérebro tentam chegar a um acordo. Diz meu cérebro: “veja, nenhuma dessas é a minha bolsa”. Meus olhos comentam: “Puxa, mas esta bem que se parece com aquela de couro marrom que minha mãe me deu de Natal...”. O cérebro devolve: “sim, mas não foi com essa bolsa que eu vim para a aula de salsa”. Os olhos: “amigo, se eu vim com essa bolsa ou não eu não sei, mas que essa é bolsa é minha, isso é...”.

Nos quinze segundos seguintes, em pânico, procuro as palavras certas para anunciar a descoberta ao meu professor. Seria mais digno fazer-me de desentendida, voltar para a casa a pé e esperar que me ligassem, no dia seguinte, contando que a bolsa reaparecera. Mas como eu não poderia tirá-la do gancho e jogá-la no meio do caminho em algum lugar que confirmasse o meu álibi, fatalmente a verdade viria à tona.

Não há o que fazer a não ser assumir o vexame e, de orelhas baixas, pedir sinceras desculpas. Na sequência, voltar para casa e me enfiar embaixo dos lençóis por pelo menos sete dias.
.
.
.
Será que uma caixa de bombons da Kopenhagen é suficiente para convencê-los de que sou uma pessoa relativamente normal e inofensiva à sociedade?
.
.
.
Bom, não se pode ter tudo. Se autorizarem novamente a minha entrada na academia, já estou no lucro.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Vocação precoce

- Mamãe?
- Fala, filhinha...
- O que que é tesão?
- ... Hein?
- Tesão, mamãe.
- Ahn, sim... Tesão...
- O que que quer dizer?
- ... Tesão? Eh, bem, ahn... Gasp... Tesão é... Bom... É quando a gente... Quando a gente sente vontade de ficar, assim... bem... Bem pertinho de alguém... Entendeu, meu amor?
- Mamãe...
- Oi, meu bem.
- Tesão não é nada disso. Eu já olhei no dicionário.

Vinte anos depois, virou editora de livros didáticos e aspirante a psicanalista.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Terra de cego

Na primeira semana, repassaram adiante o zombeteiro apelido de advogado jr. “Com esse jeito engomadinho, não deve ter um pingo de senso de humor”.

Na segunda semana, riram das suas três rugas de preocupação diante do computador. “Ele deve estar zelando pela paz mundial!”

Na terceira semana, compararam seu olhar vidrado ao de um pug do Google Imagens. “E não é que parece mesmo?”

Na quarta, começaram a reparar nos seus bíceps durante a troca do galão de água. E que bunda... Essa rendeu um extintor de incêndio + uma perereca do Google Imagens, devidamente colados e disseminados pelo e-mail institucional.

Na quinta semana, perceberam que ele tinha um belo sorriso. Aliás, com o sorriso as três rugas de preocupação sumiam e ele ficava bem gatinho...

Na sexta semana, descobriram que ele era cinéfilo. E super gracinha. E dava parabéns aos aniversariantes do mês, mesmo para aqueles com quem nunca tinha trocado uma palavra. Ai, ai...

Na sétima, constataram que além do doutorado, ele também tinha feito teatro. (Dá pra pensar na vida sem Orkut?)

Na oitava, todas já suspiravam ante a sua passagem e os e-mails e bilhetes colegiais circulavam sem intervalo. “Você viu que fofo ele vindo na minha mesa falar sobre o Oscar? Puxe assunto sobre cinema com ele pra você ver como é uma gracinha.”

Na nona semana, os boatos começaram a circular. Será que o andar perderia seu primeiro espécime masculino capaz de amansar até mesmo a grande Medusa?

Na décima, ele anunciou que sairia. Arranjara colocação melhor. Mas a convivência tinha sido intensa e inesquecível! A equipe de DA veio abaixo.

Na décima primeira semana, gentilmente convidou suas viúvas para um almoço de despedida. Todas queriam sentar ao seu lado. Ninguém ficou sem um beijo, um abraço e a promessa de manter contato.

Na décima segunda, já não se via uma boca com batom, um rosto com blush, um olhar com rímel, um colo com decote. Pra quê? Ele se fora.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O belo Garrel

Mon dieu, que homem é esse???

Enquanto Rê vive sua história de amor com Gael, não posso me furtar a prestar um tributo – um tanto quanto tardio, admito – ao belíssimo Louis Garrel. Fui arrebatada por sua beleza andrógena e sua presença estonteantemente masculina em A bela Junie. Não fosse pelo título em português, ficaria evidente que La belle personne se aplica tanto à lindíssima Léa Seydoux quanto a ele.

Minha cinéfila e exigente amiga Marina tenta me convencer de que o filme é fraquinho – insiste que eu devo assistir aos outros de Honoré para confirmar essa verdade incontestável. Enquanto busco justificativas racionais para a minha aparentemente irracional “facilidade” com relação a livros e filmes (leia-se: “sou facinha”), me rendo à óbvia constatação de que a beleza, pura e simples, pode ser apaixonante. Certamente não foi esse o único motivo pelo qual Honoré me ganhou – cheguei a confessar, e não foi apelação, que ainda me identifico com alguma coisa do desespero adolescente –, mas ao acender das luzes do cinema a sensação física do arrebatamento por Léa e Garrel ainda permanecia.

Curiosamente, contrariando minha própria tese de que se trata de uma beleza involuntária, natural e imanente, descubro que já havia trombado com Garrel em outras telas, sem que ele houvesse sequer alterado meus batimentos cardíacos. Também foi assim com Jude Law. Para dizer a verdade, só prestei a devida atenção nele em Closer à segunda vista, depois de tê-lo descoberto, estonteantemente belo, em O amor não tira férias (momento TSC: vi o filme duas vezes no cinema em uma mesma semana, só para prolongar a “sensação física do arrebatamento por Jude”). Devo supor, então, que algo do ar perdido e obstinado de Nermous e do olhar frágil e doce de Graham capturou minhas retinas. E mais não suponho, porque a beleza é para ser admirada e reverenciada, e não dissecada ou entendida.

Garrel, minha nova paixão, meu novo muso: a você, minhas sinceras e despudoradas homenagens.

***

Além das homenagens aos musos, eu e Rê temos agora mais alguma coisa em comum: passei dos trinta... Bem, falemos de Garrel?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Pontes

Há coisa de um ou dois anos, uma amiga passou a me emprestar livros. Graças a ela conheci Somerset Maugham, desvendei a história de amor de Sartre e Beauvoir, descobri como ser legal com Nick Hornby, me esbaldei com mais um best-seller de Marian Keyes, entre outros.

Na sétima série a emprestadora de livros foi a minha melhor amiga, mas hoje nos vemos de forma bastante esporádica – a cada dois ou três meses, se muito. Já chegamos a ficar mais de quatro anos sem nos falar. Mas, desde que retomamos o contato, a cada vez que marcamos um novo encontro, ela invariavelmente anuncia: estou com um livro para te emprestar.

Sinto uma coceira boa quando ela me diz isso. Além do prazer certo da leitura, há algo de lisonjeiro em saber que alguém pensou em você ao ler um livro. Não?

Enquanto me entrego à viagem da leitura propriamente dita, um pensamento me acompanha ao longo das páginas e capítulos: qual terá sido o momento exato em que ela pensou “tenho certeza de que a Cris vai adorar ler isso!”? No fundo, como os meus pré-requisitos de leitura são mínimos e o meu gosto é muito eclético, pode ser que ela não tenha pensado em absolutamente nada, a não ser na grande probabilidade de uma apreciadora de livros se interessar por um livro que ela considerou bom. Mas prefiro namorar a outra hipótese. A de que há algo de muito particular, de muito especial em cada livro que faz com que ela pense em mim, e só em mim, e que isso torne o momento de empréstimo do livro algo também único e especial.

Mais inspiradora do que a minha fantasia sobre a decisão dela de partilhar a leitura comigo, no entanto, são as minhas elucubrações a respeito das páginas que ela deixa marcadas em cada livro. Quando li o primeiro, Servidão humana, de Somerset Maugham, demorei algumas páginas para perceber que as pontinhas não estavam dobradas ao acaso. Ao comentar sobre isso com minha amiga, tive de confessar também que desavisadamente eu desmarcara quase todas... Mas me comprometi a recuperá-las, uma a uma.

E foi assim, buscando restos de vincos em pontas de páginas de um livro, que descobri esse novo prazer. O prazer de, ao deparar com uma página marcada, garimpar o trecho – parágrafo, frase, palavra exata – que a houvesse inspirado. É um prazer um tanto vouyerístico. Chega a ser quase pornográfico penetrar assim na intimidade de alguém – embora, se ela não desmarcou as pontinhas antes de me emprestar o livro, tecnicamente eu não esteja fazendo nada de errado. Posso até pensar que seja um jogo que ela me propõe: deixa pistas para que eu descubra o que a toca, move, inspira, choca, seduz, liberta. E, eventualmente, sinta o mesmo.

Em meio às páginas dobradas de Nick Hornby, gasto alguns minutos relendo várias vezes um mesmo parágrafo. É um desses momentos soco-no-estômago, que revelam com crueza uma faceta nada glamourosa da vida, mas nem por isso menos merecedora de uma homenagem literária.

“Subitamente, sinto-me sem esperanças, como sempre nos sentimos quando escolhemos uma entre duas alternativas. Tenho vontade de voltar àquele outro momento, dez segundos atrás, em que eu não sabia o que fazer. Pois o negócio é o seguinte: para uma pessoa metida numa encrenca como a minha, o casamento vira uma faca cravada na barriga, e a pessoa sabe que a encrenca será grande seja qual for a decisão. Ninguém pergunta a uma pessoa com uma faca cravada na barriga o que a deixaria feliz; sua felicidade não está mais em questão. É sua sobrevivência que interessa: a pessoa arranca a faca e sangra até morrer, ou deixa-a cravada na esperança de dar sorte e a faca estar na verdade estancando o sangramento?”

Fecho o livro por alguns minutos, meditando com reverência sobre essas palavras. Algo me diz que acabo de fazer uma descoberta importante. E de fato fiz.

Descobri que pouco importa, na verdade, se localizei ou não o trecho certo. Importa a ponte que uma pontinha dobrada na página de um livro construiu entre ela e mim. Importa a ponte que eu construí para dentro de mim mesma. Sem pontes como essas, no fim das contas, só o que se faz é sobreviver estancando o sangramento com uma faca cravada na barriga.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Vertigem

De um lado, mulheres descabeladas insistem em dizer que não entendem, não entendem a mente masculina. De outro, homens resignados apenas se calam; jamais tiveram a pretensão de compreender os intricados mecanismos que regem a mente feminina.

Sabedores do seu compromisso para com a Ciência e da necessidade de perseguir a verdade dos fatos de forma imparcial e rigorosa, no afã de melhor compreender mais esta faceta da insolúvel querela entre os de Marte e as de Vênus, o Instituto Mulher Solteira de Pesquisas Avançadas em Sobrevivência na Selva dos Solteiros e o Centro de Estudos Anexos dos Esportes Radicais de Compreensão da Mente Masculina decidiram empreender um novo experimento científico: monitorar a cabeça de uma mulher solteira, linda, jovem, inteligente, independente, bem resolvida, serena, segura e natural durante o desenrolar de uma paquera na balada, assim como as quarenta e oito horas subsequentes. Os dados obtidos por nossos cientistas, submetidos a técnicas avançadas de análise qualitativa, levam a resultados surpreendentes. Ou nem tanto. Confira-os a seguir.

00h23
Hum, até que tem uns gatinhos por aqui...
00h40
Pãããããtz, acho que aqueles dois baixinhos tão vindo puxar papo comigo...
00h41
Pelamor, será possível que esses tampinhas insistem sempre na mesma abordagem? Assim que der, vou vazar daqui!
00h42
Tá, consertou... Mas pelamor!
00h45
Vá lá, não custa nada ser simpática... Vou dar uma colher de chá. Eles têm cinco minutos.
00h54
Sou mesmo muito benevolente... Só eu para dar mole para esse baixinho!
01h12
Até que o cara tem bom papo... Mas não vou beijar, não.
01h53
É... Até que ele é gatinho... Apesar de ser mais novo, mais baixo e mais saradão do que eu gostaria.
01h54
... Será que eu beijo?
01h57
Pããããtz, podia ter passado sem esse comentário... Mas vá lá, vamos abstrair.
01h55
Ah, agora ele falou direitinho...
01h57
Tá bom, vai... Vamos ver qualé a desse beijo...
02h02
Hum... Beijo bom...
02h03
Nossa, ele é bem gatinho, hein... E gostoso!
02h45
Hum, será que ele vai pedir o meu telefone?
02h54
Com certeza ele vai pedir meu telefone! Será que eu dou?
03h23
Meu! Ele não vai pedir o meu telefone???
03h41
Será que eu vou querer sair com ele de novo?
03h59
Lógico que eu vou querer sair com ele de novo! Ele é uma gracinha!!!
5h58
Ai, ai... Vou dormir pensando nele hoje...
12h27
É, até que o gatinho era bacana... Ia ser legal encontrar com ele de novo.
14h23
Será que ele vai me ligar?
14h24
Será que ele vai me ligar?
14h25
Será que ele vai me ligar?
16h34
Será que ele vai me ligar?
18h42
Não vou contar pra ninguém essa história. Não quero criar nenhuma expectativa...
19h02
Não vejo a hora de contar pras meninas amanhã!
19h27
Meu! Será que ele não vai me ligar???
23h25
Lógico que ele não vai ligar hoje. Vai ligar amanhã.
00h45
Meu! Não acredito que ele não vai me ligar!!!
11h33
Caramba... Se ele não me ligar hoje, vou ligar pra ele.
14h29
E esse telefone que não toca...
15h32
Será que o telefone desligou sozinho?
16h14
Meu... E se ele for o homem da minha vida?
17h23
Ele era tão lindo... Nunca mais vou conhecer um homem tão especial como ele...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Superfantástico

Toda mulher relativamente normal – e por relativamente normal entenda-se a mulher que apresenta os índices mínimos, inevitáveis, aceitáveis e até desejáveis de neurose, histeria, paranoia, neurastenia, hipocondria, verborragia e unha encravada recomendados pelo Ministério da Saúde – passa a vida inteira lutando para conquistar uma aparência fantástica. Lá pelas tantas, descobre o poder do blush, a força da mousse e os milagres da cintura alta e passa a reservar aqueles quinze minutos a mais de manhã para colocar os seus devidos nos conformes.

Toda mulher relativamente normal sabe que a ciranda-da-bailarina e o poema-em-linha-reta também se aplicam à busca da aparência feminina fantástica. Em outras palavras, não importa o quão fantástica ela consiga parecer, inevitavelmente em algum momento do dia será flagrada ajeitando o elástico da calcinha, tirando uma alface do dente, se livrando de uma remela insistente, disfarçando o bafinho com um Trident, limpando um resto de pasta de dente da testa. Enfim, é a aplicação da Lei de Murphy à Demanda da Santa Aparência Feminina Fantástica.
Toda mulher relativamente normal que se preze tem pelo menos uma amiga que, contrariando a sina das mulheres relativamente normais, consegue passar 24 horas por dia sem que um único fio cabelo saia do lugar. Está sempre vestindo o último grito da moda – e todas as suas roupas têm um corte impecável e um caimento de dar inveja a qualquer Gisele –, tem o cabelo sedoso, macio e cheiroso, maquiagem discreta, mas eficaz, porte elegante, graça, inexistência de manifestações acústicas ou odoras suspeitas, está sempre com cinturinha de pilão, pernas torneadas e o músculo do tchauzinho onde ele deve ficar. Além disso, em geral essa mesma amiga reúne explosivamente a irresistível capacidade de sedução feminina com aquela aura de mistério que a mulher relativamente normal passa a vida inteira tentando imitar, conseguindo, no máximo, em um efeito colateral bastante previsível, passar por antipática ou sonsa.
Toda mulher relativamente normal um dia cai na besteira de chorar as pitangas da ausência de homens à amiga superfantástica. Envolvida no seu relato dramático sobre o longo período de seca, os questionamentos existenciais que acompanham as crises de abstinência e as análises sociológicas envolvendo homens inassertivos que simplesmente não conseguem fazer frente à exuberância da mulher contemporânea, ela não se dá conta do que está por vir. E quando percebe, já é tarde: os olhos da amiga superfantástica começam a expedição desde o seu dedo mindinho até o último fio de cabelo (naturalmente fora do lugar), passando pelo pânceps, parando nas suas unhas não feitas, examinando com leve ar de desaprovação a sua blusa larguinha e espremendo os olhos ao avaliar o seu batom borrado. Logo vem o decreto – firme, mas sem perder a doçura:
- Você precisa começar a se arrumar melhor...
Nesse momento, a mulher relativamente normal, no epicentro do seu complexo de abajur, tenta em vão reunir desculpas pouco convincentes para derrubar a tese da amiga superfantástica:
- Mas eu devo te dizer que você me pegou em um dia ruim! É que todas as minhas roupas estavam sujas e tive que apelar pra essa blusa velhinha... Ah, não deu tempo de fazer a unha. E esse final de ano, menina? Impossível manter a silhueta, né? Ah, o meu batom está borrado? Nossa, se eu te contar o dia que eu tive você não vai acreditar...
Passada a fase de negação e minadas as últimas resistências, a mulher relativamente normal acaba se rendendo à superioridade da amiga superfantástica. E, sabendo das suas boas intenções e do seu bom – e impecavelmente asseado – coração, deixa-se afundar no sofá enquanto a outra examina o seu guarda-roupa e sentencia:
- Esta calça boca-de-sino está totalmente fora de moda... Essa bota até que é legal, mas tente comprar uma com o bico mais fino... Você precisa de umas camisas sociais! Esse casaco é lindo, por que você nunca usa? Você precisa realçar esses olhos, não pode desperdiçá-los assim! São a sua maior arma!
A mulher relativamente normal assente, humilde, e promete que vai se esforçar. A partir de amanhã acordará quarenta minutos mais cedo, passará base, corretor de olheiras, rímel, blush, protetor solar, protetor labial, mousse. Escolherá uma calça justa que realce suas formas e valorize o seu traseiro, comporá com uma camisa social de corte moderno, um sapato de bico fino, uma bijoux descolada e algum toque charmoso no visual. Sorrirá para os homens, rirá de suas piadas sem graça, jogará os cabelos para trás e lançará olhares misteriosos a todos à sua volta, dona de um segredo íntimo e inconfessável.
Investida de novo ânimo, a mulher relativamente normal se despede da amiga, cheia de boas intenções e renovadas esperanças. Apenas na hora de dormir, na escuridão do quarto, vestindo o seu pijama de flanela e a sua placa de morder, a mulher relativamente normal suspirará, resignada, diante da obviedade que ela não confessa nem sob a tortura de uma depilação na virilha: não importa o quanto ela se esforce, ela nunca, jamais, em tempo algum alcançará a aparência superfantástica da sua amiga superfantástica.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Entre nós

Noite dessas, rolando na cama sem conseguir dormir (foram algumas assim, essa semana), me peguei pensando em você. E uma dúvida me passou pela cabeça: será que é comum você despertar nas pessoas essa sensação que desperta em mim? Uma hora me sinto próxima, muito próxima de você. No momento seguinte, você me parece um estranho.

Aí me peguei pensando o que é que você faz de vez em quando que me dá essa sensação de tanta proximidade. Talvez seja a sua sinceridade extrema – com contornos diferentes do meu Transtorno de Sinceridade Compulsiva – que, se às vezes chega ser desconfortável, em outros momentos deixa transparecer um afeto e até uma doçura que me surpreendem.

Por outro lado, os nossos tempos são absolutamente diferentes. Se eu passo dois meses sem falar com você, quando te encontro você diz: “estava quase te mandando um e-mail”... Se marcamos de nos encontrar e não dá certo, a sua próxima visita só vai acontecer muito tempo depois, por acaso, quando eu já não estiver mais esperando. Então, talvez seja esse seu timing, tão estranho para mim, que me faça sentir a anos-luz de você em outros momentos.

Uma vez te acusei de não ser transparente e você se chateou. Acho que você tinha razão. Não é que você se esconda; simplesmente é da sua natureza ser opaco. Ou, ainda, o meu olhar, “nítido como um girassol”, não é capaz de perceber e distinguir seus matizes. E, embora eu me ressinta do meu excesso de obviedade, não posso deixar de admitir como é boa a sensação de ter sempre ainda algo a descobrir a seu respeito.

Eu confesso, às vezes também me chateio. Você sabe disso. (E pede desculpas, me desconcertando mais uma vez.) Mas faço o possível para não te julgar. Quem disse que você tem que ser igual a mim? Quem disse que ser diferente de mim é sinal de indiferença? Você sabe, continuo praticando a tolerância às diferenças. Ainda acho que ela gasta mais calorias do que uma aula de hip hop e faz bem ao coração (será que ajuda a diminuir os efeitos do prolapso na válvula mitral?).

Eu poderia mandar essa mensagem diretamente a você. Mas, sendo este um desses momentos em que me sinto distante, preferi colocá-la em uma garrafa e soltá-la no mar, esperando que ela encontre o seu destino. Afinal, não foi assim que aconteceu da primeira vez?

É isso aí. Sinto sua falta.

Inverno austral

Me disseram que fazer 30 anos não ia doer nada. Vamos fazer uma rápida retrospectiva do último mês de minha vida:

- Na manhã da minha viagem de férias ao Rio de Janeiro, minha calça nova rasgou na passagem pelos quadris (o detalhe é que ela foi comprada exatamente porque minhas calças velhas estavam apertadas)
- No metrô carioca, uma mulher educada me ofereceu um assento no metrô (ahhhh, não estou grávida, obrigada!). Maldita moda das batinhas! – uma amiga tenta me consolar
- No dia do casamento da minha prima, descobri que três rugas haviam nascido embaixo do meu olho esquerdo (e ouvi da minha prima que uma dermatologista-carniceira lhe sugeriu uma aplicação de botox pré-casamento)
- Numa conversa com uma amiga de 25 anos, ela me perguntou se a moça de quem eu falava (que tem 32 anos e namora um rapaz de 21) está “conservadinha”
- Na praia, constatei com horror que minhas coxas começaram a raspar uma na outra

Só me resta afogar as mágoas no karaokê da Mama, cantando I’ll survive ao lado do Roberto Carlos japonês.