sábado, 11 de julho de 2009

À deriva

Para Meine Liebe
No começo deste ano, fui presenteada por uma amiga com o livro Na praia, de Ian McEwan, e a seguinte dedicatória:

“Para Cris,
Um livro sobre a impossibilidade de se partilhar experiências e a filosofia do ‘Vive aí’”.

Penso que dar ou emprestar um livro é uma maneira de partilhar com uma pessoa querida a sensação de que alguém, em um momento de inspiração, foi capaz de dar forma a sentimentos, emoções e vivências que experimentamos muitas vezes sem sabermos nomear.

Neste caso, no entanto, o que minha amiga e eu partilhávamos era justamente a nossa percepção sobre o quanto as experiências podem ser “impartilháveis”. Em Na praia, um jovem casal em lua de mel partilha (!) uma refeição momentos antes da consumação carnal do casamento. Ambos se casaram por amor, sem qualquer dúvida sobre o que sentiam, sem que tivessem sido compelidos por qualquer outro motivo que não a sua própria vontade. Ainda assim, sentados de frente um para o outro naquela mesa, no quarto do hotel, cada um vivencia sentimentos absolutamente particulares em relação ao outro e àquele momento. McEwan leva ao extremo a impossibilidade de se dividir inteiramente a intimidade com alguém, mesmo que esse alguém seja justamente quem mais amamos. Essa impossibilidade leva a consequências devastadoras para os protagonistas do romance.

Eu e minha amiga pensávamos muito sobre isso na época em que ela leu esse livro e decidiu dá-lo para mim. Eu já havia contado a ela a respeito daquilo que meu pai me ensinou: que o que existe entre um casal tem sempre uma faceta invisível para quem está fora da relação. Concordamos nisso. Mas nos sentíamos especialmente espantadas com o fato de que, mesmo dentro da relação, cada indivíduo de um casal pode viver uma história absolutamente diferente da vivida pelo outro. Era algo que nos causava um impacto profundo, não exatamente por ser surpreendente, e sim por ser algo que reconhecíamos de forma clara em nossas próprias vidas, em nossas próprias relações.

A segunda parte da dedicatória – a “filosofia do ‘Vive aí’” – foi a única conduta factível que encontramos diante dessa constatação. Posto que é impossível saber o que realmente se passa no íntimo das pessoas – mesmo que essa pessoa seja alguém que se deita ao nosso lado todas as noites – só nos resta seguir vivendo, aceitando a nossa absoluta falta de controle sobre a vida, a total imprevisibilidade do nosso destino.

A impossibilidade de partilhar experiências pode se revelar para quem vive junto há anos. Basta pensar naquele casal que durante trinta anos foi incapaz de ir até a padaria sem dar as mãos para atravessar a rua. Um dia, sem mais, ele se descobre apaixonado por uma mulher trinta anos mais jovem. Sai de casa, se afasta dos filhos, sequer se dá ao trabalho de conhecer a primeira neta. Parece história de novela mexicana, mas é vida real. E a esposa, completamente perdida, só sabe se perguntar se tudo aquilo que ela achou que tinha vivido foi um sonho sonhado só. Era? Impossível saber.

Se a impermeabilidade dos sentimentos íntimos acomete um casal que se conhece há tanto tempo, é evidente que não poupa também os jovens enamorados. Foi assim comigo. Quando achei que a minha relação tinha chegado exatamente no lugar que eu esperava – um amor maduro, companheiro, equilibrado –, ela acabou. Sinal de que, do outro lado da linha, havia alguém bem menos satisfeito do que eu. Como saber? Como prever? Impossível.

Casais que vivem juntos há trinta anos, casais que namoram durante quatro anos. E quando apenas começamos a conhecer alguém? Nada se compara à tensão de tentar interpretar os primeiros passos, gestos, movimentos e palavras de alguém que nos interessou. Queremos atribuir sentido aos mais ínfimos comentários, encontrar o significado oculto de um olhar, buscar a intenção secreta de um roçar de ombros, descobrir a entonação exata de uma risada. Nós, mulheres, somos particularmente ansiosas na busca dos sinais. Não me livro disso.

E quando a desejada relação, em que tanta energia se investiu, se desfaz em meias palavras ou palavra nenhuma, é também típico das mulheres encostar os machos contra a parede – com diferentes níveis de delicadeza – esperando espremer deles as palavras que as libertarão das suas esperanças vãs. Se as palavras não vêm, elas insistem de todas as formas, até que seu orgulho as faça recolher-se novamente.

O que talvez as mulheres ainda não tenham aprendido é que o silêncio fala tanto quanto as palavras, ou, inversamente, as palavras são tão polissêmicas quanto o silêncio. As palavras, as meias palavras, as palavras mudas, todas elas falam o mesmo: da impossibilidade de partilhar experiências.

As palavras talvez criem a ilusão de que o amor que não vingou pôde, pelo menos, existir no espaço comum do entendimento. “Se ao menos pudéssemos falar sobre o que aconteceu!”. Acontece que o que aconteceu para um não aconteceu para o outro, e isso não é algo que possa ser explicado em palavras. Pode, simplesmente, ser vivido em silêncio.

O silêncio polissêmico pode conter condicionais: “Se eu tivesse te conhecido em outro momento...”. Ou adversativas: “Você é legal, mas já tenho outra pessoa”. Às vezes, alternativas: “Ou eu fico sem você, ou me perderei de mim mesmo”. Aditivas: “Nem você, nem ninguém”. Concessivas: “Apesar de tudo, valeu a pena”.

Às vezes, no entanto, o silêncio pode ser tão unívoco quanto uma palavra chapada, bidimensional, afiada e precisa como uma faca. No silêncio, ouve-se apenas um sonoro e inequívoco NÃO.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mulher Casada

Ela já começa avisando que não sabe se servirá como contraponto. E ainda comenta, possivelmente temendo uma resistência minha, que o nome pode ser mudado.

Respondo, de imediato, que não mude o nome! Eu não poderia me sentir mais lisonjeada... E acho que servirá de contraponto sim, mas não como a afirmação de que somos dois extremos opostos, e sim como confirmação de que, nas singularidades, nos encontramos. Família que escreve unida, unida permanecerá!

Não é à toa que eu sempre nos comparei a Arnold Schwartzenegger e Dany de Vitto. Tão diferentes, tão parecidas...

Mundo: conheçam minha irmã, a Mulher Casada!

domingo, 5 de julho de 2009

Nota mental aleatória em noite de domingo

Duas forças da natureza nunca deixam de me surpreender:

O poder restaurador de um dia de sol;

O poder destruidor de uma TPM.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O cheiro do ralo

Dias difíceis. A crise finalmente chegou à “firma”. Primeiro veio o anúncio (oficioso) da mudança de endereço, com a respectiva dose (oficial) de indignação. Sem se dar conta da agudeza de sua análise, uma amiga profetizou: “em tempos de crise, temos é que dar graças a Deus por estarmos apenas mudando de sede, e não sendo mandados embora”.

Uma semana depois, em um único dia, enxurrada de demissões. Amiga querida na lista dos dispensados. Fusão de equipes. Extinção de cargos. Reestruturação. Reuniões intermináveis entre diretores e gerentes – em salas-aquário que revelam rostos constritos e só aumentam a ansiedade dos peixes de fora. E-mail do diretor geral, supostamente de injeção de ânimo, pelo “tanto já alcançado”, pelo “tanto ainda a alcançar”. Exemplo vivo do “tapar o Sol com a peneira”: quem tem cabeça para isso nesse momento? Aliás, cada um só pensa mesmo em quanto tempo falta para a sua própria cabeça rolar.

Em meio à angústia dos telefonemas, da espera pelas notícias de quem sabia mais, das confabulações sobre o futuro da empresa, das análises sobre o acontecido, me peguei limpando furiosamente o ralo da pia do banheiro. Logo eu, o anti-herói das prendas domésticas, o terror das faxineiras, aquela cujo banheiro, segundo a Mãe Sereia, sempre parece ter sido perscrutado por um “filhote de São Bernardo”. Pois lá estava eu, cutucando o ralo com o que me aparecesse pela frente, esfregando-o com força, esquecida do mundo, como se daquilo dependesse toda a minha vida. Assim fiquei, minutos a fio. Só me dei por satisfeita quando ele brilhou e a água passou lisa pelo buraco, sem qualquer interrupção.

Aqui estamos nós, buscando sempre o Bom, o Bem e o Belo nas pequenas coisas, tentando extrair poesia das ausências, tentando atribuir sentidos aos espaços vazios. Mas o ralo continua sempre lá. E há horas em que temos de nos haver com ele, com a sua sujeira, e mais nada.

sábado, 20 de junho de 2009

Poetoterápico

Happy end
(Cacaso)

O meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Roll-on

O simpático Pipa-do-vovô vende cerveja na Augusta, em frente ao Studio SP. Como não bebo cerveja, talvez não tivesse tido razão suficiente para reparar nele, não fosse por um pitoresco diálogo que ele tomou a iniciativa de travar. Começou com uma escancarada conferida sobre a minha silhueta, de fio a pavio, sem a menor cerimônia. Em seguida, veio a sentença:

- Que mulherona!

Eu, que gosto de saber onde vão dar certos caminhos, dei corda:

- O senhor viu?

Rapidamente Pipa-do-vovô se sentiu na obrigação de se explicar:

- Assim... Grande, né?

Não me fiz de rogada:

- Pois é!

O espanto deu lugar a uma curiosa timidez. E, com a mão na cintura e a cabeça meio tombada para o lado, veio o pedido:

- Eu posso lhe fazer uma pergunta?

- Claro! – Respondi, curiosa.

Os olhos revirados de afetação, disparou:

- Se um homem assim, do meu tamanho, quisesse namorar com você... Você aceitava ele?

Respondi, com sinceridade:

- Lógico! – e acrescentei um dado técnico para dar mais credibilidade à minha afirmação – O senhor sabia que a média de altura do homem brasileiro é 1,68 m?
Imagine se eu fosse namorar só homem da minha altura!

- Hum... Desodorante...

Acostumada à minha surdez, sinalizei que não havia entendido o comentário. Ele completou o raciocínio:

- Aquele, de passar no sovaco...

E, com a mesma desfaçatez com que me medira no início da conversa, levantou meu braço e posicionou a cabeça na altura da minha axila, como a sublinhar a nossa diferença de altura:

- Ia ser o seu desodorante!

domingo, 14 de junho de 2009

Síntese dialética

Não são, afinal, passado, presente e futuro águas do mesmo rio caudaloso de Heráclito, aquele que é a um só tempo sempre o mesmo e sempre outro?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Elogio ao amor

Laura sempre gostou de livin' la vida loca e nunca achou que o casamento tinha sido feito para ela. Um dia, porém, conheceu Dênis. Cismou com ele, com seu jeito tímido, com seu ar misterioso. Fez tudo ao contrário do que mandam os manuais... O rapaz não deu muita bola no começo, tinha até namorada. Mas um dia acabou caindo em si, chamou-a na chincha e, desde então, nunca mais quis largar dela. Laura, a solteira convicta, acabou se casando aos 25 anos de idade, e atualmente curte com o marido a realização do primeiro grande projeto conjunto: a compra de um apartamento.

Patrícia namorou com Lúcio durante quatro anos e meio. Ele sempre foi ciumento até dizer chega e ela, bem, não era exatamente uma moça tímida. As amigas viam o tempo passando e achavam que uma hora aquele caldo ia entornar. Entornou: Patrícia foi pra Inglaterra, descobriu o mundo e achou que estava na hora de viver outras experiências. Ela e Lúcio nunca deixaram de se ver e de se falar, mas para ela aquela história tinha ficado para trás. Quatro anos e meio depois... Patrícia descobriu que Lúcio era mesmo tudo o que ela queria. Casaram, tiveram uma filha e hoje administram a saudade durante cinco dias por semana, pois o emprego de Lúcio exigiu que ele fosse morar em outra cidade.

Dana não imaginava que a vida ao lado de alguém podia ser tão boa e tranquila até conhecer Marcelo. Depois de alguns meses de namoro mudou-se para a casa dele, depois de outros tantos meses morando juntos decidiram se casar, e tudo seguia seu rumo sem previsão de chuvas nem trovoadas. Mas, quando Dana passou por uma situação difícil, Marcelo não soube estar junto. E, mesmo dividindo toda noite a mesma cama, os dois acabaram se distanciando, até chegar em um ponto em que o amor, mesmo tão grande, acabou. Dana não condena ninguém que decida manter um casamento por comodidade, pois sabe que a separação pode ser a coisa mais dura que uma pessoa enfrenta na vida. Tentando juntar os cacos, resolveu investir nos seus próprios planos: foi fazer aula de francês para tentar um emprego no Canadá. Lá reencontrou Igor, seu namorado dos tempos do colégio. A velha chama reacendeu... Dana descobriu, afinal, que o amor mais tranquilo nem sempre é o mais verdadeiro. Lá estão eles, Dana e Igor, tentando descobrir como conciliar a bagunça dele com a mania de organização dela, poucos meses depois de terem juntado os trapinhos.

Fabíola e Tim eram daqueles casais que todo mundo dava como certo que ficariam juntos para sempre. Mas, como dizia o poeta, “pra sempre sempre acaba”... Ele veio para São Paulo, ela ficou em Brasília, o namoro foi ficando morno e um dia acabaram achando que aquela história não ia mais dar samba. Cada um pra um lado, meses depois, Fabíola já curtindo a vida de solteira de novo, resolveu se consultar com o Caco, seu astrólogo. No fim da sessão, quase indo embora e meio sem saber por que, decidiu perguntar ao guru o que os astros diziam sobre Tim. Caco olhou o mapa do moço e foi enfático: se você não for atrás desse bofe, vou eu! Um mês depois, lá estava Fabíola em São Paulo, juntando as escovas de dentes com Tim, em um casamento que já dura mais de cinco anos e acabou de render um mini ser humano.

Lena comeu muita grama vivendo amores não correspondidos. Dona de um coração do tamanho do mundo, ensaiou um ou outro namoro, mas sempre acabava na mão, com os olhos inchados e a impressão de que não havia vindo ao mundo para ser feliz no amor. Um dia, sem muita explicação, começou a se sentir muito bem consigo mesma. Raspou o cabelo, viajou pela primeira vez sozinha, decidiu mudar de área. Foi nessa época que, numa festa, conheceu Roberto. E o moço, versado em senso prático e com especialização em companheirismo, nunca deixou que ela se sentisse diminuída: ligou no dia seguinte, e no outro, e no outro, e quis namorar com ela, e morar junto com ela, e casar com ela. A vida, é claro, nem sempre é um mar de rosas, mas já lá se vão sete anos juntos e eles se mantêm firmes...

Márcia sabia que Fábio não era nem de longe o bom partido que as mães desejam para suas filhas. Ainda assim, achava-o apaixonante, e com ele viveu alguns dos momentos mais mágicos da sua vida. Quando ele terminou com ela, a moça sofreu horrores, mas soube tirar proveito disso para, alguns meses depois, retomar o namoro fortalecida. Um dia, um amigo de Fábio, casado com uma amiga de Márcia, declarou-se apaixonado por ela. Márcia nem cogitava se separar de Fábio, era feliz com ele; mas o que fazer com esse novo amor que subitamente ela descobria? Foram meses de sofrimento, para os quatro. Por fim, nessas acomodações que a vida promove mesmo quando isso pareceria impossível, Márcia e Gil acabaram se acertando. Hoje não imaginam viver um sem o outro. Para Márcia, foi seguramente a experiência mais difícil da sua vida, o que mostra que vida e morte, prazer e dor, chegadas e partidas andam sempre juntas.

Elisa e Artur fizeram juntos algumas matérias no primeiro ano de faculdade, mas ele logo pediu transferência e pouco tempo depois eles perderam o contato. Naquela época, envolvido com uma ex-professora, ele viveu um relacionamento intenso que virou um casamento de três anos. Um dia não deu mais para ficarem juntos. Artur teve ainda outra namorada com quem passou bons anos. Elisa, nesse tempo, também viveu as suas histórias. A mais longa delas durou cinco anos e se espalhou por todos os cantos da sua vida: com Márcio ela trabalhava, brincava, amava, viajava, brigava, consertava. Eles eram tão igualmente diferentes que pareciam mesmo feitos um para o outro, mas tanta proximidade acabou desgastando a relação. Com o coração refeito, um dia Elisa reencontrou o amigo Artur em uma virada cultural. A paixão foi tão violenta que dava pra se perguntar como eles levaram quase dez anos para se descobrir. Namoro, ajuntamento, filha... Tudo isso em pouco mais de vinte e quatro meses! Felizes, muito felizes...

Renata não tinha tido muitas experiências no amor antes de conhecer Bruno. Pelo menos, no que diz respeito a relacionamentos não platônicos e correspondidos. Quando a história dos dois engatou, as amigas comemoraram. E não é que toda tampa tem mesmo a sua panela? Um ano se passou, e outro, e outro, e outro e mais outro... O primeiro namoro acabou virando casamento. Paciência, se Renata não teve a oportunidade de construir outros parâmetros. Tem gente que passa a vida inteira procurando uma história de amor que valha a pena; outras, encontram de primeira! O negócio é abraçar a oferta da vida e continuar acreditando que tudo, sempre, valeu a pena. Mesmo nos dias em que é difícil ser dois...

Juliana teve o primeiro namorado sério aos dezoito anos. Tempos modernos, conheceu-o no antigo IRC, junto com um monte de outros amigos virtuais que faziam questão de se tornar reais. O namoro durou dois anos e depois perdeu o prazo de validade. Dali em diante, foram muitos os rolos, ficadas, paqueras e até um ou outro namoro, mas parecia que Juliana tinha perdido a mão. Seria possível que ela não encontraria mais alguém com quem realmente valesse a pena estar junto? As amigas acompanhavam as aflições, e desacreditavam de como uma mulher com tantos predicados pudesse ser tão pouco agraciada pelo amor. Mais de dez anos depois do primeiro namorado, foi navegando novamente em águas virtuais que ela conheceu Roger. Mesmo não tendo visto fogos de artifício, investiu com graça e energia até o rapaz perder o medo e decidir pedi-la em namoro. Quase dois anos depois, os dois curtem o prazer de uma relação madura e cheia de afinidades.

Helena não sentiu nada de especial na primeira vez em que viu Felipe. Ele, por sua vez, ficou de queixo caído. Não deu descanso durante meses, colou, chegou junto, encarnou até ela decidir dar uma chance... Começaram a ficar, a namorar, a viajar junto... Um dia a mala voltou de viagem e a roupa não voltou para ser lavada em casa. Os dois já tinham trabalhado juntos e agora moravam juntos. Eles eram meio como água e vinho, mas ainda assim achavam que tinha graça tentar ajeitar aquele tanto de diferenças. E foi nesse exercício diário de tolerância que, juntos, realizaram o feito mais bem acabado de suas vidas. Infelizmente a vida depois dos bebês nem sempre é fácil para os casais, as diferenças falaram mais alto e foi preciso dividir as vidas novamente. Mas quem presenciou o parabéns do segundo aniversário desse filho, de pé em um banquinho entre a mãe e o pai separados, com o sorriso mais lindo e meigo do mundo, sabe que algumas histórias, mesmo quando não dão certo, valeram a pena.

Isabel nasceu em uma família católica e sempre foi mantida debaixo de rédea curta pela mãe. Quando veio fazer faculdade em São Paulo, deixou o namorado no interior. Naquele tempo o controle ainda era rígido e qualquer coisa que se fizesse entre quatro paredes era pecado. Um dia o namorado deu no pé. Isabel sofreu... Até que, navegando na internet com Fátima, conheceu Arnaldo. Fátima gostou de Arnaldo, mas Arnaldo gostou mesmo foi de Isabel... que também gostou de Arnaldo. A amizade não resistiu ao triângulo, mas o amor se mostrou mais forte do que a mãe católica, virou ajuntamento em poucos meses e só depois foi consagrado nos ritos da santa igreja. Com a primeira filha no colo, Isabel foi de mala e cuia com Arnaldo tentar a vida em Nova Iorque. É lá que ela aprende todo dia a ser mãe, a confiar em si e a não deixar o copo d’água virar tempestade. Foi lá, também, que ela se descobriu escritora. E que teve o seu segundo filho, criando um laço perene com aquela terra estrangeira que ela agora chama de lar.

Fabiana estudou com Alberto desde o primeiro ano da faculdade. Nunca alimentou por ele qualquer sentimento diferente de amizade; dele já não se pode dizer o mesmo. Alberto, na verdade, sempre gostou de Fabiana... Era difícil driblar as indiretas, as sabotagens, as investidas de Alberto, mas Fabiana fingia que não tinha visto e tocava o barco. Cada um teve os seus respectivos relacionamentos, Alberto chegou a morar junto com uma namorada, Fabiana foi morar em San Diego. Um dia, sem mais nem por que, Fabiana olhou para Alberto de um jeito diferente... Ainda levou uns meses para se convencer do que acabou se revelando óbvio: a amizade tinha virado amor. Quer coisa melhor do que se apaixonar por alguém que sempre esteve ao seu lado, mesmo quando ainda não era possível corresponder a esse amor? Casaram-se no começo desse ano e passam muito bem, obrigada.

Cristina já conheceu o amor. Como a última vez em que ela o encontrou não foi a primeira, também não quer supor que tenha sido a última. Quando esse amor acabou, Cristina precisou olhar muito para si mesma e redescobrir o seu prazer nas pequenezas, reassumindo as suas escolhas, reaprendendo o seu caminho. Mesmo não tendo sido o caminho que ela escolheu, soube torná-lo significativo e encontrar a sua dose de paixão em tudo aquilo que faz. Cristina ainda acredita que o amor está à espreita, esperando o melhor momento para surpreendê-la novamente. Enquanto isso, diverte-se com a paisagem...

Uma homenagem a algumas de minhas amigas (a quem agradeço, mesmo sem ter pedido licença, por me deixar contar suas histórias – com nomes devidamente trocados para preservar sua identidade) e a todas as mulheres casadas, solteiras e separadas que continuam acreditando no amor, apesar de tudo...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dalila

Decidida a deixar o passado para trás, resolveu começar pelos cabelos.

Em seguida, foi exibir o corte novo ao seu passado.

sábado, 30 de maio de 2009

Salomão, uma história de amor

A primeira vez que vi Salomão, ele era uma coisa verde e amorfa na prateleira da loja de brinquedos. Dividida entre um piupiu e uma girafa, resolvi tirar a prova puxando pela pata aquele bicho cuja identidade eu não conseguia decifrar. Não sei se por vergonha ou por falta de jeito, Salomão se enroscou na bicharada e o zoológico inteiro veio abaixo. Hoje sei que ele não fez por mal, mas naquele instante o meu embaraço só me fez olhá-lo com mais desconfiança.

Devolvida a fauna à prateleira – obrigada, desculpe, Ah, o pinguim!, obrigada! – parei para examinar a espécime que se encontrava em minhas mãos. Corpanzil de pelúcia com uma fuça gigante, olhos maiores ainda, crina vermelha de trapos de pano, pernas longas e curvadas de aranha. Salomão não se encaixava em nenhuma das categorias animais do meu repertório. Havia nele algo de patético que chegou a me comover por alguns segundos, a ponto de eu esboçar alguns passos em direção ao caixa, mas logo mudei de ideia e resolvi colocá-lo de volta no lugar. Não sei se por desespero ou falta de jeito, Salomão se enroscou de novo na bicharada e nada o fazia entrar por completo na prateleira – ora era uma pata que ficava de fora, ora os olhos esbugalhados me encaravam, ora a bunda sobrava. Comecei a ficar aflita com a falta de colaboração daquele bicho. Respirei fundo e o empurrei com força, apenas para descobrir, com o coração aos saltos, que já era tarde. Eu não podia mais deixar Salomão para trás. Ele merecia ser de alguém que pudesse amá-lo, apesar de tudo.

***

A mãe trouxe Salomão para perto de Lia com cuidado – além de desajeitado, ele tinha quase o dobro do seu tamanho – e ela pareceu não se importar. Era um sinal positivo, a mãe explicou, e a adaptação deveria ser feita aos poucos. Lia aceitou que Salomão repousasse em seu colo durante alguns segundos. Todos comentavam, satisfeitos, que ela parecia ter gostado dele, embora a maior interessada não pudesse explicar se de fato o queria ou apenas o tolerava.

Foi então que, se aproximando lentamente, Theo tomou Salomão em seus braços e, com olhos redondos e brilhantes de que só as crianças de oito anos são capazes, fez seu apelo:

- Tia, que tal você trocar o jogo que me deu de presente por um bichinho menor para a Lia? E deixa esse aqui para mim...

Surpresa com a barganha, já que supunha que bichinhos de pelúcia fossem carta fora de baralho para pré-adolescentes de oito anos, perguntei se eu não poderia trocar o jogo por outro bicho igual ao Salomão, ficando cada um deles para um dos irmãos.

Mas Theo, que já conhecia Salomão antes mesmo dele existir, que já tinha até composto um rap em sua homenagem – rap que levou a mãe às lágrimas na reunião de pais da escola, com Lia ainda na barriga –, Theo sabia que não havia dois daquele. E explicou:

- Tia, a Lilica ainda é muito pequena. Deixa esse aqui comigo e troca o meu jogo por um bichinho menor para ela.

Eu e a mãe trocamos olhares significativos e optamos pela pedagogia do meio. Explicamos que Salomão poderia ser dos dois, assim como o jogo, se ele decidisse ficar com ele, ou um outro bicho, se ele assim preferisse.

Theo olhou nos olhos de Salomão e anunciou, solene:

- Este é o Salomão, gente.

Depois, passou a noite toda com seu cavalo de pano embaixo do braço. Na hora de ir embora, fiz uma última tentativa:

- E então, Theo, qual é a sua decisão em relação ao jogo?

E ele, com a convicção infantil que deixamos para trás em algum lugar:

- Pode levar, tia. Troca por um bichinho menor para a Lilica.

Olhei para a mãe, olhei para a Lia e, diante do seu consentimento silencioso, afinal cedi, na pretensão ridícula de que uma decisão de tal porte coubesse a mim.

- Tá bem, Theo. O Salomão é seu.

Enquanto eu lhe dava um abraço de despedida, Theo me contou, em segredo:

- Mas sabe, tia, não vou levar amanhã o Salomão na viagem que a gente vai fazer. É que lá tem muita gente, e eu tenho vergonha...

Dito isso, me deu um beijo, virou as costas e subiu as escadas carregando seu velho amigo pela mão.

domingo, 24 de maio de 2009

Sobre sonhos e saudades

Durmo. Durmo muito. Durmo até que não reste uma gota de consciência em mim. E no meu sonho te reencontro.

***

No começo de 2007, meu pai perdeu aquele que durante boa parte da sua vida foi o seu melhor amigo. Oito anos de luta contra o câncer, tratamentos experimentais, tumores extirpados que reapareciam em outros lugares.

Foi um câncer muito bem vivido por ele. Pois, durante esse tempo, soube tirar o máximo proveito da consciência da sua finitude. Resolveu problemas, reaproximou-se das filhas, tornou-se uma pessoa simples, passou a conviver com os cachorros, deixou de lado uma grossa camada de verniz e polidez que ele havia sido obrigado a carregar durante toda a vida.

Assim, creio eu que ensinou muito para o meu pai, antes e depois do câncer. Eles eram primos e ouso acreditar que esse laço de sangue devolveu ao meu pai o significado da palavra “família”, em muitos momentos em que parecia difícil entender o que poderia ligar pessoas tão diferentes pelo simples fato de terem nascido com o mesmo sangue. Foi com ele que meu pai mais se identificou, a quem mais admirou, por quem mais se sentiu compreendido.

E então ele se foi. E lá estava o meu pai, nos seus minutos finais, amoroso, ouvindo-o falar sobre tudo e nada, suportando o vê-lo ir, acompanhando-o até o fim. Participou dos trabalhos fúnebres, trouxe consigo suas cinzas, guardou-as para devolvê-las à sua terra natal.

Durante meses meu pai falou sobre ele. Falou, falou, falou. Precisava falar. Precisava recordar, mantê-lo vivo nas memórias, não podia desligar-se dele, não podia deixar que ele fosse esquecido. Nós, ao seu lado, ouvíamos, segurávamos sua mão, afagávamos com o nosso olhar.

Por essa época tive um sonho. Eu, meu pai e minha mãe deitados lado a lado, ele no meio e eu e minha mãe em cada um dos seus lados, de mãos dadas. Estávamos em uma espécie de bosque onde as árvores caíam violentamente ao chão, como que golpeadas por um machado. Estávamos presos ao chão, com as costas grudadas no solo, e eu e minha mãe implorávamos para que o meu pai se levantasse, para que saíssemos de lá e nos protegêssemos das árvores. Mas ele dizia simplesmente “não há tempo, não há jeito, temos que ficar aqui”. E então uma árvore caiu sobre o meu pai, perfurando o seu peito com seus galhos.

Contei o sonho aos meus pais. Minha mãe, psicanalista, logo percebeu a simbologia de estarmos todos deitados, como cadáveres. Meu pai, lendo meu sonho por seus olhos, achou que eu temia a sua morte. Eu sabia que todas essas leituras eram corretas, mas no meu íntimo sabia também que havia algo para além das nossas mortes, para além da morte do meu pai.

***
Hoje revisito tristezas e saudades de coisas que não voltam mais. Tristezas e saudades que, quando meu pai perdeu seu melhor amigo, ainda eram muito vivas para mim. Tristezas e saudades que, mesmo menores, não foram embora e talvez nunca se vão.

Então penso no meu sonho no bosque e nas mãos dadas que nos uniam, na resignação do meu pai diante da árvore que cairia sobre o seu peito. E vejo o quanto aquele sonho me falava sobre o que ele viveu e vive, sobre o que eu vivi e vivo, sobre algo que diz respeito a todos nós: há dores que são só nossas e, por mais que nos cerquemos de pessoas que nos amam e nos querem bem, essas dores são só nossas e só nós mesmos podemos carregá-las.

sábado, 23 de maio de 2009

A cura

O caso mais contundente de terapia breve de que já tive notícia foi-me relatado por uma amiga.

Depois de muito tempo de indecisão ela finalmente conseguiu vencer suas resistências iniciais e procurou um analista. Marcou hora, compareceu, achou-o agradável e confiável, expôs-lhe as suas queixas, emocionou-se a falar de sua relação com a mãe.

Ouviu-o com esperança, acreditando que tudo seria possível. Saiu de lá com a certeza de ter pela frente um processo longo e doloroso, mas significativo.

Na semana seguinte, aguardou a ligação do analista para confirmar o horário definitivo de suas sessões. A ligação não veio. Então, tomou a iniciativa de procurá-lo.

Pela secretária, descobriu que a sua análise havia chegado ao fim: o analista falecera.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A festa

Na rua, sorriso.

Entranhas, em casa.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Folhetim

De: Mulher Casada
Para: Mulher Solteira
Assunto: nhami

Mano, seguinte: falei de você pra um amigo e ele quer te conhecer. Gente fina. Gatinho. Boto fé.

De: Mulher Solteira
Para: Mulher Casada
Assunto: Re: nhami

Conta tudo. Quem é? O que você falou de mim pra ele?

De: Mulher Casada
Para: Mulher Solteira
Assunto: Re:Re: nhami

É um amigo de um trampo antigo. Perguntei se ele tava solteiro, ele disse que sim e quis saber se eu tinha uma namorada para apresentar pra ele. Falei que tinha uma amiga interessante, loira e de olhos claros. Nhami!

De: Mulher Solteira
Para: Mulher Casada
Assunto: Tic!

Isso me parece deveras auspicioso! Are, baba!!!

***

Mulher Casada: Mano, olha lá, hein... É o último amigo solteiro que eu tenho para te apresentar!
Mulher Solteira: Uia, que responsa! Tá, vou caprichar...
Mulher Casada: Eita, acho que o porteiro tá dormindo... Oi, boa noite, moço! Moço?
Porteiro: Hum...
Mulher Casada: Boa noite! A gente vai na casa do meu Amigo Solteiro.
Porteiro: Hum... Hum...
Mulher Casada: Então... A gente pode subir?
Porteiro: Hum...
Mulher Casada: Bom... É apartamento 42, né?
Porteiro: Hum... Hum...
Mulher Casada [fala para Mulher Solteira]: *Acho que eu sei o apartamento, vamos lá.* Obrigada, moço!
Porteiro: Hum... Hum...

***

Amigo Solteiro: Mulher Casada! Quanto tempo, que bom te ver!
Mulher Casada: Amigo Solteiro! Sua casa tá uma graça, mano!
Mulher Solteira: Hum...
Amigo Solteiro: Gostou? Fui eu que fiz tudo!
Mulher Casada: Sério? Que legal!
Mulher Solteira: Hum... A-ham...
Mulher Casada: Ah, sim! Amigo Solteiro, essa aqui é a minha amiga Mulher Solteira.
Mulher Solteira: Oiiiii, Amigo Solteiro, tudo bem? Prazeeeer!
Amigo Solteiro: Oi, prazer! Vamos sentar, gente!

[Patati. Patatá.]

Mulher Casada: Ô mano, você ficou com a fotógrafa do meu casamento, por acaso?
Mulher Solteira [“hello, eu tô aqui?”]:...
Amigo Solteiro: Eu não! Eu tava de olho é na sua amiga alemãzinha...
Mulher Solteira [ “viu? Ele gosta de mulher mignon!”]:...
Mulher Casada: Jura? Ué, a fotógrafa citou o seu nome... Aliás, o seu e o de outro amigo meu, hehehehehe...
Amigo Solteiro: Eu nem lembro da cara da fotógrafa! Não fiquei com ninguém no seu casamento...

[Papo vai. Papo vem.]

- Ring, ring! Ring, ring!

Amigo Solteiro: Opa, interfone! Chegou mais um.
Mulher Casada: Quem é?
Amigo Solteiro: Ah, você não conhece.
Mulher Casada [descrença]: ... Não vai me dizer que é uma peguete!
Amigo Solteiro: Hum... É uma namoradinha...
Mulher Solteira [???]:...
Mulher Casada [pânico]: Ô, mano! Não sabia que cê tava namorando!
Amigo Solteiro: Ah, pois é, nem eu!
Mulher Casada [sorriso amarelo]: Bom... Acho que vamos nessa!
Mulher Solteira [código azul]: Uhum!!!
Amigo Solteiro: Mas já??? Calma, pessoal, fica mais um pouco! Se vocês forem embora só porque ela chegou, ela vai achar estranho!
Mulher Solteira: Não se preocupa, a gente explica tudinho pra ela, viu? Até mais, muito prazer!

[vinheta de “fim da linha” do Picapau – melodia descendente a intervalos de meio tom]

– Nhéu-nhéu-nhéu-nhéu-nhéu...

***
Não percam, a qualquer momento em nossa programação, mais um emocionante episódio de nosso folhetim “Páginas da Vida de uma Mulher Solteira – Encalhada, Desiludida, Mas Cheia de Humor para Dar!”

sábado, 2 de maio de 2009

Panorâmica

Encontros, desencontros, reencontros.

E um coração vivendo de pequenas epifanias.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Hilda

Preciso fazer as sobrancelhas. Mas elas podem esperar.

A última vez que fiz as sobrancelhas foi um pouco antes do meu aniversário. Pedi a Hilda para caprichar, queria chegar aos trinta bonitona. Ela garantiu que eu não precisava me preocupar: estava na flor da idade!

Enquanto fazia o serviço – de longe a melhor do salão – me contava sobre a cachorrinha nova. Uma gracinha! Mas desconfiavam que estava grávida. Se o ultrassom confirmasse, teriam que sacrificar os filhotinhos. A cachorrinha mal completara seis meses, estava no primeiro cio e não teria chance se levasse a gravidez até o fim.

Já não me lembro se foi nesse dia ou em outro, Hilda me contou algumas passagens da sua vida. Depois de muitos anos de casamento, dois filhos, o marido a deixou para ficar com outra. Pressenti na sua fala uma solidão aguda, dessas que poderiam tê-la deixado amarga, mas que ela soube transformar em serenidade. Oxalá eu tenha a mesma sabedoria.

Em um desses dias também falou dos filhos. O menino se formou cabeleireiro e estava trabalhando no mesmo salão – que orgulho! A menina também trabalhava, estava se formando, muito bem encaminhada. Dever cumprido.

Na última quinta liguei no salão e pedi uma hora com Hilda para o sábado. Foi só então que descobri a sua morte. Teve uma dor de cabeça, foi ao médico, internou-se, entrou em coma e morreu (aneurisma). Tudo em apenas dois dias. Isso já há quase dois meses, dias depois do nosso último encontro, quando nada parecia indicar que ela estivesse de partida.

Penso na dor da família, mas para me consolar penso também que Hilda teve a melhor das mortes: aquela que não se pressente e que não causa dor nem sofrimento para quem parte.

Tenho vontade de me apresentar ao filho, dizer dos meus sentimentos por Hilda e de como ela sentia orgulho dele. Mas temo ser inconveniente. Cada um sabe da sua dor.

Lembro agora que dei de presente para uma amiga, nesse fim de semana, uma coleção de livros infantis sobre um ácaro e uma pulga. Ele, Glauber; ela, Hilda. Não havia muita razão para escolher tal presente. Acho que foi minha homenagem silenciosa a essa mulher tão delicada, tão serena, quase invisível.

Hilda se foi. Minhas sobrancelhas crescem, a despeito de sua partida. E a vida continua.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Peter Pan faz aniversário

Theo, aos oito anos:

I.
- Droga, droga, droga! A gente perdeu o cinema!
- Sério, Preto? Por quê?
- Tudo culpa desse... Moleque grande!
- Theo.............
- Que foi, mamãe? Não posso chamar o papai de moleque grande?

II.
- Tia, quer ouvir a minha banda preferida de todos os tempos e a minha música preferida de todos os tempos?
- Quero, Theo!
- Peraí que eu vou entrar no youtube...
- Tá bom.
- Aliás, peraí que eu vou te mostrar como é a dança dele no palco!
- UAU!
- Aliás, peraí que eu vou pegar a minha guitarra pra te mostrar como é o solo do Slash!
- GENIAL!
- É assim, ó: tuninuniruniruni-tuniruniruniruni, tuniruniruniruni-tuniruniruniruni... Oooooh, suitchaioma-ai!!!

III.
- Mamãe, sabe o que eu ia fazer? Eu ia te zoar, mas depois eu decidi que não!
- Ah, é?
- É! Sabe o que eu ia fazer?
- O que, Theo?
- Eu ia colocar no papel de parede do seu Ipod aquela foto sua toda “ensangrentada” do parto da Lilica! Mas depois eu decidi que não...

IV.
- Tia, a sua calcinha é branca?
- Possivelmente...
- Ué, você não olha antes de vestir???

V.
- Mamãe, posso mamar no seu peito?
- Não.
- Ah, mamãe, por favor! Deixa eu mamar que nem a Lilica! É que eu não lembro que gosto tem o seu leite...
- Nada disso, Theo... Você já mamou quando tinha idade pra isso.
- Hum... Mamãe?
- Oi, Theo.
- Já que eu não posso mamar no seu peito, mama você no meu?
.
.
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Difícil decidir se a gente quer crescer de uma vez ou continuar criança para sempre...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Laços de família

Olha só quem está aqui! Meu primo!

Mas... Como é mesmo o nome dele?... Oh, well...

... Bom, sem dúvida que é neto de uma das irmãs da minha Vó Helô. Mas de qual delas? Da tia Heloide, da tia Heloína ou da tia Heloiny?... Será Ferrari ou será Faustini?

Ah, com certeza é neto da tia Heloiny! É ela que tem aquele monte de neto homem. Aliás, ela tem um monte de filho homem também. E agora, será que ele é filho do Flávio, do Fausto, do Fábio ou do Fernando?

Bom, salvo engano, quem tem um monte de filhos homens são o Flavio e o Fábio, apesar de que um deles tem uma menina também. Aliás, já perdi um pouco (um pouco?) o fio da árvore genealógica a partir do Fausto e do Fernando. É, realmente, para ser desse tamanho, só pode ser filho do Fábio ou do Flávio. Mas de qual deles?...

... Vejamos... Ele tem mais a cara da Adriana do que da Teco... É, deve ser filho do Fábio... Aliás, ele é a cara do Fábio! Só pode ser do Fábio, então.

Hum, como são mesmo os nomes dos filhos do Fábio? Tem a Marina e os dois meninos... Fabinho não é... Esse é do ramo da tia Heloide (nem vou queimar neurônios tentando lembrar se o Fabinho é do Ney, do Volney ou da Márcia... Ah, ele é irmão do Márcio, o meu primo que fez o José naquele antológico Natal em que me vestiram de Virgem Maria e eu abri o bocão... Márcio só pode ser filho da Márcia; Márcia é filha da tia Heloide... Não, definitivamente esse não é o Fabinho).

Rafael? Bruno? Victor? Felipe? Guilherme? Caramba, sempre confundo os nomes dos filhos do Fábio e do Flávio...

Bom, eu pelo menos já aprendi quem é a tia Heloína e quem é a tia Heloiny! Já a Feca, não sei não, hehehehehe... Opa! Lá vem ele...

- E aí, primo! Que legal te encontrar aqui! Tudo joia?
- Oi, prima! Tudo bem! Pois é, faz tempo que não nos vemos, hein? Desde o último Natal coletivo...
- Pois é, pois é... Deixa eu te apresentar para a minha amiga aqui... Bom, esse é o meu primo...
- Oi, tudo bem? Prazer! Bom, prima, deixa eu ir que meus amigos estão me esperando! Boa balada!
- Valeu, primo, pra você também!
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Ma siamo tutti famiglia!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Odisseia

“Seu pai é um turista em minha vida”, diz a Mãe Sereia, com aquele humor resignado que o tempo lhe fez conhecer.

Eu acrescentaria que meu pai é um guia turístico em nossas vidas. É um homem de pequenas, mas consistentes obsessões temporárias – inofensivas, diga-se de passagem –: olimpíadas, eleições presidenciais, minissérie sobre Maysa, novela das oito. Não contente em devotar noites e noites à tela da tevê, a cada breve parada no “mundo de cá” ele faz questão de nos guiar por entre as sendas da sua viagem particular. Pode ser de manhã cedo, após passar algum tempo meditando sobre os caminhos das índias: “Acho que o Bahuan fez muito mal em não convidar o menino para a inauguração do restaurante”; ou após a caminhada na esteira em companhia do seu Ipod – “a Maysa cantava com absoluta afinação, é incrível”; ou, ainda, durante um almoço, às vezes de forma até autoritária: “acho impressionante como vocês se mostram alienadas em relação à tragédia da Faixa de Gaza”. Não adianta dizer a ele que, enquanto se encontra alhures, a vida também acontece aqui, entre nós. Quem estiver por perto é intimado a embarcar nessas viagens – qualquer gesto em contrário provoca um profundo sentimento de ofensa no guia.

“Sua mãe é capaz de acreditar ferreamente na mais idiossincrática das teorias que ela mesma criou”, diz meu pai, com aquela certeza inflamada que o tempo nunca lhe tira.

Em geral, fico sabendo da última “parada do sucesso” do meu pai pela Mãe Sereia, sua fiel companheira de viagem há 39 anos. Enquanto meu pai sacia a sua fome de ficção e alteridade na frente da TV, minha mãe faz a sua tapeçaria. É lazer para os fins de semana no sítio – não pode trazer para São Paulo, porque senão perde a vontade de trabalhar, só quer tecer. Faz questão de exibir o desenho que começa a se definir no retângulo de pano – “não está maravilhoso?”. Subverte todas as cores da estampa original – “imagine se eu vou usar esse rosa pálido horroroso no meu tapete...”. No meio de um ponto, opa! Uma neta canina se aboleta no seu colo, sem cerimônia. Enquanto isso ela acena para a outra com uma bolinha de lã, rindo enquanto um focinho xereta se intromete em sua sacola de costura. Não adianta contar à Mãe Sereia uma história com começo, meio e fim, esperando que ela siga o seu fio narrativo: é uma editora nata e produz uma nova versão dos fatos em simultaneidade ao relato. Além disso, tem teorias para absolutamente tudo – de plantas a unha encravada (nisso concordo com meu pai).

Meu pai e minha mãe. Ulisses e Penélope. Tenho um pouco de cada um deles. Enquanto Ulisses viaja o mundo pela tela da TV, buscando o caminho de volta a si mesmo, Penélope, serena, tece os fios dos nossos afetos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Corpo

- Não me lembro de você, anunciou altiva, espremendo das palavras o seu salvoconduto.

- Eu lembro de você. E os olhos confirmaram.

Tarde demais. Já era duas.

De fora, a bala na boca pateticamente escancarada, a recusar pipocas. Céus, precisava ter aberto o bocão? Sentiu que desfaleceria se a linguagem verbal não viesse silenciar o corpo.

Mas ser corpo é o princípio primeiro que a todo custo se tenta ocultar. As mãos se guiaram sozinhas noite adentro.