quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Chame a Júpiter
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Conversas privadas em lugares públicos
Mudamos de sede. Foram-se os banheiros individuais. Durou pouco a minha alegria: voltei aos velhos tempos de proletariado, partilhando com as colegas de trabalho os odores e ruídos de nossos momentos mais íntimos.
Nada que se compare aos constrangimentos do emprego anterior, quando a chefe nos chamava para ir ao banheiro e despachava em pleno ato de, digamos, despachar. Aqui pelo menos se mantém certo decoro; respeita-se, na medida do possível, a privacidade alheia.
Ainda assim, confesso que ando tendo problemas. Não sou do tipo que se recusa a fazer o número 2 fora de casa; pelo contrário, sofrendo de prisão de ventre desde criança, aprendi a nunca ignorar um chamado da natureza (e ela se supera a cada dia na capacidade de me chamar nos lugares e momentos menos apropriados – conheci o banheiro de boa parte das livrarias, supermercados, farmácias, lojas de móveis e rodoviárias que já visitei na vida). Mas já vou para o banheiro rezando para não encontrar ninguém e, se encontro, torço para não puxar assunto. E acabo levando pelo menos o dobro do tempo que levaria no antigo banheiro individual, em radicais e surpreendentes manobras para me tornar invisível, inaudível e inodora.
O número 1 também é uma lástima. Se acontece de eu entrar em uma cabine ao mesmo tempo em que outra pessoa adentra a cabine ao lado, nunca, jamais, em tempo algum consigo iniciar os meus trabalhos antes dela. Parece até um acordo de cavalheiros: “você primeiro, por favor, faço questão!”; “que é isso, de forma alguma, tenha a bondade!”.
Tempos atrás, a situação, que já não era das mais confortáveis, ganhou um novo ingrediente. Tentei ignorá-lo o quanto pude, afastando meus pensamentos dessa perturbadora constatação. Até o dia em que o inevitável e-mail de Amiga Fanta entrou em minha caixa postal: “MEU!!! É impressão minha ou quando a luz do banheiro está acesa dá para ver o interior da cabine refletida no vidro da janela???”. Me fingi de morta: “Pois é, parece que sim...”. Mas Amiga Fanta não deixou barato: “Ai, depois desce aqui no meu andar para fazer um teste comigo? Eu entro na cabine e te dou tchauzinho e você vê até onde me enxerga?”. Desconversei, mais uma vez: “Ai, Amiga Fanta, forget about it... Vamos partir do pressuposto de que ninguém vai entrar no banheiro com intenções voyeurísticas, né?”. E lá foi ela, a nossa certificadora de qualidade, inclemente, fazer o teste do banheiro e constatar que a visão externa da cabine revelava a intimidade da usuária do pescoço para cima. Sim, um tanto quanto perturbador. Mas procuro fazer disso um exercício de crescimento espiritual.
Naquela mesma semana, em uma carona coletiva até o Metrô Vila Madalena, a tal janela indiscreta rendeu muitas e muitas anedotas sobre banheiro, chamados inconvenientes da natureza e saias-justas envolvendo o aparelho excretor. Todo mundo tem pelo menos uma história própria, ou ocorrida com alguém próximo, para contar. A minha, por exemplo, envolve uma dor de barriga tenebrosa na minha chegada ao Peru, na casa dos amigos do meu avô, quando a descarga me deixou na mão. Sorte que havia um balde embaixo da pia e, com alguma paciência e muitos baldes de água, consegui eliminar as provas do crime. Bem, essa é uma história publicável. As impublicáveis, nem aqui...
Coroei a minha fase de problemas privados em lugares públicos na última quinta-feira, durante a festa de fim de ano da “firma”. Depois de uma “atividade cultural” (a única, apesar do grandiloquente nome do evento de dia inteiro: “Jornada cultural”) de uma hora e vinte, corri para o banheiro com a bexiga em ponto de bala. Logo atrás de mim mais uma horda de mulheres igualmente precisadas daquele momento íntimo com a privada. Pronto, foi o que bastou: meu xixi não saía de jeito nenhum. Precisei me concentrar, fazer uma breve meditação e entoar alguns mantras para vencer aquela barreira psicológica. E, ao sair da cabine, ainda me senti na obrigação de dar uma satisfação “a la Costinha”: “Nossa, só de saber que tinha esse monte de gente aqui fora, esperando para usar o banheiro, fui acometida pela síndrome do pinto tímido!”
Bem na minha frente, liderando a multidão, nada mais nada menos do que ela, verdadeira força da natureza, primeira, única e inigualável: a temível Moça do Comercial. Vamos chamá-la assim para evitar constrangimentos. Se você não a conhece, posso traçar o seu perfil psicológico em poucos segundos: animada, fala alto, ri mais alto ainda, desconhece qualquer traço de timidez e é o retrato da extroversão. É claro, ela é da Equipe Comercial! É ela quem sorteia os brindes da Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho; é ela quem grita “LINDOOOO!!!! EU TE AMOOOOO!!!” para o seu colega de equipe músico que resolveu dar uma discreta palhinha no almoço da festa de fim de ano; é ela quem aproveita o descuido do garçom, que derruba uma garrafa de cerveja em cima do moço da área de TI, para cantar uma música de strip tease e tentar tirar a blusa do rapaz em frente ao Diretor Geral. Sim, senhoras e senhores! Essa é a Moça do Comercial!
Voltemos à cena que há pouco acontecia no banheiro. Antes que eu pudesse atinar quanto às consequências do meu ato, soltei a piada do “pinto tímido” em alto e bom som diante da Moça do Comercial. “PINTO TÍMIDO?????” Ela repetiu, certificando-se de que ninguém em um raio de 30 metros deixasse de ouvir. “Feminino...”, acrescentei, derrotada, com um fio de voz.
No dia seguinte, a Moça do Comercial passou algumas vezes diante da minha mesa sem dar sinais de se lembrar do ocorrido. Minhas esperanças se renovaram: nem tudo estava perdido! Mas, antes de deixar o andar, a uma distância suficiente para que todos os meus colegas de equipe a ouvissem, soltou: “Muito interessante aquela sua frase no banheiro ontem, heeeeeein?”.
Por alguma razão, pensei em empadinhas envenenadas.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Sexo seguro, questão de vida ou morte
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
O(s) dia(s) em que a Terra parou
domingo, 6 de dezembro de 2009
Cuidar do lixo
Pois essa pequena tarefa, por vezes, me é muito penosa. Confesso que frequentemente a faço só pela metade: separo caixas de leite sem lavar, potes de iogurte ainda molhados, um vidro com restos de molho de tomate... Convenço-me de que ainda é melhor separá-los assim do que simplesmente jogar tudo no lixo comum, mas às vezes tenho medo de que a minha falta de disposição para fazer o serviço completo torne os restos de embalagem inutilizáveis para a reciclagem.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Alô, Johhny!

Nem só de estudos avançados em esportes radicais de compreensão da mente masculina vive o Instituto Mulher Solteira. De tempos em tempos, realizamos em parceria com o Inmetro e o IPT testes de qualidade em aparelhos celulares.
A marca testada – e aprovada – de hoje é a Sansung, com o aparelho M2710, The Beat edition. Além de cumprimentar o fabricante, o Instituto Mulher Solteira torna público o seu agradecimento ao atendente da Claro Johnny, eleito o funcionário do ano pelo voto popular desta organização.
Além de simpático, Johnny revelou-se um funcionário ético e altamente comprometido com os interesses e a satisfação do cliente. Diante de oito aparelhos de marcas e modelos variados, todos disponíveis pela promoção de troca da operadora – e já descartados todos os modelos da marca Sony Ericsson, que haviam sido equiparados à empadinha envenenada dos piores planos de vingança da Mãe Sereia* –, Johnny foi educadamente intimado pela pesquisadora a escolher um deles como se o estivesse adquirindo para si. Seu nome e sua imagem foram devidamente registrados para reclamação posterior caso houvesse insatisfação por parte da usuária.
O aparelho Sansung já vinha apresentando desempenho altamente satisfatório em todas as categorias funcionais, com boa durabilidade de bateria, utilização amigável, ergonomia, estética, suingue e sensação. No entanto, não havia ainda sido submetido ao mais exigente dos testes – o Teste Morre, Infeliz, Morre, Infeliz ou, simplesmente, Teste Mimi.
Para maior objetividade e imparcialidade na avaliação do produto, o teste é sempre realizado durante a ausência da pesquisadora – em geral, quando esta se encontra no chuveiro. Dessa forma, o barulho da água caindo pode encobrir os ruídos dos golpes desferidos contra o sujeito avaliado, ampliando a fase conhecida como SF – Suspiros Finais. De modo a avaliar a perfomance do aparelho em condições de alta adversidade, o alarme do Teste Mimi costuma soar durante a segunda metade do banho da pesquisadora, para que ela o interrompa e recolha, ainda molhada, as partes do aparelho espalhadas ao longo da área de testes.
Segue o laudo da avaliadora: “Tendo em vista as categorias Resistência a Patadas, Resistência a Unhadas, Resistência a Mordidas, Resistência a Arremessos, Resistência a Decomposição das Partes, Resistência a Técnicas Avançadas de Tortura, Resistência a Saliva, Lambidas e Pelos, Resistência a Vandalismo Canino, Resistência a Esmagamento, Afogamento e Achatamento, uma vez recompostas as suas partes o aparelho Sansung M2710, The Beat edition voltou a funcionar normalmente, sendo, portanto, considerado APROVADO pelo Teste Mimi do Instituto Mulher Solteira”.
Valeu, Johnny!
* Ao sentir-se lesada por terceiros, a Mãe Sereia costuma apaziguar seus instintos de vingança por meio da fantasia de envio de empadinhas envenenadas aos cidadãos responsáveis pelo dolo.
sábado, 28 de novembro de 2009
Informe
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Posteridade
De fato: passado o susto, a preocupação, a angústia, e descontado o fato de se tratar de uma enorme tragédia com marcas indeléveis, hoje meu pai bem que gosta de contar com detalhes tudo o que viveu e presenciou durante aqueles dias que passou em Nova Iorque, hospedado em um hotel na periferia da cidade, aguardando o momento de poder voltar para casa. Foi uma daquelas experiências que ficam para a posteridade.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Truco, marreco!
Estamos há
(Pequeno blefe de efeito moral. O que falta de tempo sobra em malandragem, suingue e senso de humor – e modéstia, é claro)
sábado, 17 de outubro de 2009
Analfa
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Meu primeiro amor
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
A cor do meu sorriso
Percebo que não estou tão bem quando decido sair à rua de pijama. O medo de topar com o fantasma do bairro na minha pior forma física não supera a preguiça de mudar de roupa. Essa, afinal, é a grande vantagem da moda casual: a mesma calça serve para dormir, fazer ioga e comprar lâmpadas.
Estaciono o carro bem próximo à Heitor Penteado. Eu poderia ter feito isso muitas vezes antes, usando a Ponte Orca e o trem para chegar mais rápido ao trabalho. Agora, são águas passadas. Nosso novo destino é a Lapa de Baixo, a Barra Funda ou a Água Branca, a depender do gosto do freguês. Enquanto isso, o limbo: uma semana de férias forçadas que começa a agoniar quem se acostumou a fazer do trabalho o seu porto seguro.
As direções não são tão exatas. Decido começar pela esquerda. O posto de gasolina é uma das referências. Caminho alguns metros para baixo, mas nem sinal da loja de lustres naquele trecho. Decido voltar e perguntar no posto.
O fim de tarde é frio, úmido e escuro. A sensação é de ter me perdido em algum lugar do tempo e do espaço, habitando uma vida que já não é minha. No posto, mandam-me seguir em frente. Bem, é o que venho tentando fazer, penso eu.
Mais alguns passos adiante, temo que a indicação esteja errada. Decido confirmar com o jornaleiro. Sim, Lustres Primavera, algumas casas adiante. Meu ânimo começa a melhorar. Por fim, encontro o que buscava. Compro todas as lâmpadas de que preciso, volto confiante para o carro e ainda tenho alguns minutos antes que a loja de molduras se feche.
Mas não será tão fácil encontrá-la agora. Sei que passei muitas vezes em frente a ela, mas nunca a vi de verdade. Talvez até haja mais de uma, não sei. Essas ruas não são minhas, afinal. Já são seis horas e é inútil prosseguir a busca por hoje. Tento celebrar a pequena tarefa cumprida.
Percebo que não estou tão mal quando trocar a lâmpada queimada melhora definitivamente o meu humor. Que seja assim. Hoje, uma lâmpada queimada; amanhã, quem sabe?
Mas é preciso esclarecer: não se trata de uma lâmpada qualquer. É a lâmpada de um lustre azul. Um lustre azul que permaneceu apagado durante muitos e muitos meses. E como pode o mundo não se tornar melhor quando nele volta a brilhar um sorriso azul?
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Dilemas, aspirinas e urubus
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Viver é perigoso. Dor e delícia andam juntos. Só quem sabe o que pode perder é capaz de dar valor ao que ganha. Não há vida sem morte, som sem silêncio, luz sem escuridão. Ser humano é isso: eterna corda bamba, travessia entre paradoxos, frágil equilíbrio que se perde e se recupera todos os dias.
Há dias, porém, em que se alguém me oferecesse uma aspirina para a alma, eu aceitaria sem hesitar.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Travessias
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Viver sem ela
De tempos em tempos, usando meus parcos conhecimentos digitais, recorro às fartas ferramentas da pós-modernidade para descobrir pegadas no meu altar. E, em uma dessas espiadelas, encontrei entre os visitantes o nome de um blog que lembrava um filme lindo e atordoante que eu acabara de ver: Viver sem mim (o filme se chamava Minha vida sem mim).
A referência era à música do Ultraje a rigor e praticamente um hino à redescoberta de si. Entrei naquele espaço sem pedir licença. O canto era fresquinho, mas já dava para sentir no ar o cheiro da inteligência, da agudeza de espírito, da sensibilidade daquela mulher. E a dona do pedaço ainda dizia não poder mais viver sem o Mulher Solteira. Que lisonja!
Mandei e-mail; recebi resposta! Trepliquei e veio de volta mais papo do bom. Assim, de mensagem em mensagem, chegamos ao msn, aos torpedos e, apesar dos mil quilômetros que nos separam, ao café e até a um jantar. Continuo leitora assídua da moça e, a cada novo post, penso, sem um pingo de modéstia: puxa, isso poderia ter sido escrito por mim... Nós nos sentimos assim, meio “cara de uma, focinho da outra”, mesmo vivendo vidas tão diferentes. Falamos a mesma língua. Somos da mesma tribo.
Taí uma mulher corajosa, serena, esperta, generosa, flexível, “mãe de menino, passarinho que fugiu da gaiola”, pandora sem medo da própria caixa, em permanente movimento de perguntação e responsidade. É dela essa pérola da filosofia do cotidiano: “quando se trata de amor, mais vale um erro inteiro do que um acerto pela metade”. Quem quiser mais pode se servir à vontade.
Parabéns, Bela! Simplesmente continue, pois você já é.
Beijos da sua amiga e fã.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Pés de anjo

Por uma ou outra razão, Vovó quis falar sobre meus pés. E, mistério profundo, referiu-se a eles como “pés de anjo”.
Reagi imediatamente, com espanto e desconforto, rejeitando o que temia pressentir em sua voz como uma condescendência excessiva, vergonhosa, eu já tão apercebida de mim mesma:
- “Pés de anjo”, Vó? Um pezão desse tamanho?
Das palavras exatas me lembro, acompanhadas da tal inflexão de voz e da expressão tão familiar:
- E quem foi que te disse que anjo tem pé pequeno?
O resto se perdeu no tempo. O que realmente importava, no entanto, permaneceu comigo.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Eu choro em casamento
Minha primeira ideia de desenvolvimento da pesquisa surgiu durante um episódio de Candid Camera, um programa norte-americano de “pegadinhas”. Uma câmera captava a reação de pessoas que entravam em um elevador no qual um ator havia se posicionado de costas para a porta. Eu nunca havia reparado nisso, mas é de praxe, ao entrar no elevador, virar-se de frente para a porta. Às vezes, com o elevador cheio, pode-se ficar de costas; mas nunca se faz isso ao ser a primeira pessoa a entrar. E qual era a reação de quem entrava no elevador e se deparava com aquela situação pouco familiar? Bastante variada: uns fingiam que nada estava acontecendo; outros fixavam o olhar no cidadão virado para os fundos do elevador durante toda a viagem; por fim, alguns se posicionavam como ele, também de costas para a porta. Foi o ponto de partida para que eu pensasse: por que agimos como agimos? O que é nosso de fato e o que é herdado? O quanto pensamos sobre nossas crenças e atitudes?
Assim nasceu a “Caminhada para o espírito livre”, um ensaio no qual, junto com Nietzsche, passei a tentar responder a essas perguntas, enquanto respondia a outras bem mais pessoais e importantes: quem sou eu? Eu sou assim porque quero ou porque nunca tentei ser de outra forma? Eu realmente acredito no que penso que acredito? Sou capaz de contrariar os valores da minha família? Até onde posso ir na minha rejeição às convenções sociais?
Apelidei aquela minha fase de “O diário de Biloca”: nada me convencia de que aquilo que eu estava escrevendo era mais do que o diário de uma adolescente em crise com a sua identidade. Nada a não ser o encorajamento do meu orientador, que a cada semana enchia minhas páginas hesitantes de comentários eufóricos sobre as minhas “cenas de filosofia explícita!” E, justiça seja feita, descobrir “quem eu era” naquele momento era um problema filosófico e tanto!
Graças à generosidade do meu orientador, o ensaio tomou corpo e forma e foi defendido diante de uma banca igualmente entusiasmada. Para uma adolescente com (desculpem o pleonasmo) problemas de autoestima, foi uma experiência e tanto. Mesmo depois de ter amargado três semestres na faculdade de Filosofia e feito uma necessária saída lateral pela direita, nunca mais deixei de pensar filosoficamente sobre a existência.
Graças ao desenvolvimento desse “desconfiômetro” de verdades inventadas e mesmo tendo vivido boas e bonitas histórias de amor, não foi muito difícil perceber que eu não deveria esperar sentada pelo Príncipe Encantado, que um dia viria me buscar em seu intrépido cavalo branco. Assim que comecei a ganhar o suficiente, fiz as malas e vim ver como era a vida para além de debaixo da asa dos meus pais. Casar na igreja, de branco, véu e grinalda? Difícil. Mais provável simplesmente juntar as escovas de dente com alguém, no máximo assinar um recibo no cartório.
Com mais alguns anos, mais análise, mais capacidade de observação e umas tantas porradas da vida, descobri também que o casamento, o modelo de relação que aprendi a desejar observando meus pais, não era necessariamente o único ou o melhor caminho para a realização pessoal. Descobri, aliás, que dividir a vida com alguém é tão ou mais difícil do que não dividi-la com ninguém. Que o amor acaba. Que, mesmo antes de o amor acabar, as pessoas frequentemente se machucam, muitas vezes de forma irreversível. Que ninguém é capaz de prever o dia de amanhã; que boas pessoas fazem coisas ruins. Que amar não é o suficiente para uma relação dar certo. Que quase nada é suficiente, aliás, para uma relação dar certo. Que é preciso rever o conceito de “dar certo”. Que a monogamia não é algo tão simples quanto parece. Que a obsessão por estar junto com alguém é, muitas vezes, apenas uma tentativa de evitar olhar para aquilo que nos faz sofrer.
Mais um tantinho de quebradas e sacadas e fui me dar conta até mesmo de que Oh! O Amor! é uma invenção social, fruto de uma conjuntura histórica específica, e que até mesmo em nossa sociedade contemporânea o seu valor é muito diferente a depender do grupo social, das aspirações, das lutas, dos desafios... (Foi chocante descobrir isso em uma entrevista da psicanalista Maria Rita Kehl, quando ela falava sobre a diferença entre as demandas romântico-amorosas tão frequentes em sua clínica particular e aquelas relatadas em seus atendimentos a alguns integrantes do MST.)
Sendo assim, queimemos nossos vestidos de noiva, certo? Alto lá. Tudo isso aí é verdade, uma verdade bem verdadeira, mas não é toda a verdade. Eu não estaria sendo honesta se não dissesse que, a despeito de tudo isso... Bem: eu choro em casamento.
Choro mesmo! De soluçar, de sacudir e de soltar meleca. Taí minha irmã que não me deixa mentir: lá estava ela respirando fundo para não borrar a maquiagem no dia do seu casamento e eu completamente desmilinguida, com o nariz escorrendo e o bocão aberto no altar. Taí a minha Amiga Fanta, outra testemunha ocular: também passou toda a cerimônia do seu casamento linda e radiante enquanto a madrinha despenteada se desfazia em baba e lágrimas. Taí minha prima Feca que não só é testemunha como tem uma prova concreta da minha confissão: uma foto com uma meleca bem comprida saindo do meu nariz durante o cumprimento dois noivos e padrinhos. (Amigas que ainda não casaram, já sabem: se não quiserem uma madrinha babando, uivando e soltando meleca ao seu lado no altar, não me deem essa honra.) Não há nada, nada que possa frear a minha emoção diante de duas pessoas que decidem assumir publicamente o seu amor, ritualizar a sua união e dividir a sua alegria com as pessoas que fazem parte da sua vida.
E, já que estamos aqui abrindo nossos corações, devo dizer também que não consigo passar em frente a uma loja de vestidos de noiva sem escolher o meu preferido. Não consigo deixar de usar os meus rudimentares conhecimentos de genética para imaginar como seriam os meus filhos com cada homem por quem eu me apaixono. Aliás, combinar mentalmente o meu nome com o sobrenome do gajo que me dá trela é tão automático quanto piscar os olhos. (A diferença entre uma louca neurótica e eu é que disfarço bem e não conto nada disso para os mocinhos que me interessam – portanto, se algum mocinho que me interessa estiver lendo esse post, solicito a gentileza de se retirar do recinto e/ou ignorar essas revelações, pela atenção obrigada.)
Minhas amigas-mães sabem que eu tenho um fraco por bebês. Não dá para estar perto de um sem ficar com cãibra nos lábios, falar em voz de tatibitate e afundar o nariz nas dobrinhas da criatura. Se forem os filhos das minhas amigas queridas, então, o risco de sequestro é iminente.
Então, é isso: apesar de toda a pós-modernidade, da pose de descolada, do desprendimento, da lucidez, do ceticismo, da malemolência, do suingue, do gingado, da malandragem, eu sou nada mais nada menos que mais um coração romântico em busca da outra metade da laranja, que esteja disposta a ter comigo um monte de laranjinhas. Seu Nietzsche: que ingenuidade a nossa achar que seríamos capazes de separar o que é “nosso” do que é “dos outros”! O outro está em nós, nós somos o outro e ele nos é.
A vantagem de se acreditar na filosofia da metade da laranja é que facilmente se deduz um argumento lógico sobre o fato de a outra metade da laranja também acreditar em metades da laranja. E, para expandir mais um pouco a metáfora hortifrutífera, felizmente sou capaz de desafiar a matemática moderna e acreditar que cada metade da laranja pode ter muitas metades! E de torcer para que, em algum lugar desse mundo, uma dessas metades cruze o meu caminho, me dê a mão e enfrente comigo a jornada de transformar esse Oh! Amor romântico herdado, idealizado, construído, fantasiado e supervalorizado em um amor real, possível e verdadeiro.
(Em sumo: se a vida lhe der uma laranja, faça dela uma laranjada!)
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Monte seu prato
Sim, essa sou eu. E, não vou ser hipócrita, faço bom uso da maior parte das facilidades do mundo eletrônico, virtual, interativo, tecnológico e midiático da atualidade, embora não seja nenhuma profunda conhecedora de nenhum gadget eletrônico ou linguagem de programação. Mas vira e mexe tenho uma prova cabal de que nasci em outra era e não fui programada para executar algumas tarefas simples e necessárias à sobrevivência em nosso ecossistema digital.
A mais recente confirmação dessa inaptidão à era pós-moderna surgiu sobre mim como um raio (da natureza) em uma praça de alimentação do shopping, onde fui trocar o meu falecido-já-vai-tarde Sony Ericsson por um tô-pagando-pra-ver Sansung (com foto do vendedor para reclamação personalizada caso a nova aquisição me dê tanta dor de cabeça quanto a anterior). Em tempos de restrição alimentar, procurei um restaurante que oferecesse opções interessantes de salada (que vergonha, nunca pensei que um dia eu me venderia para o sistema dessa forma).
Pedi à simpática garçonete que me trouxesse um cardápio e no segundo seguinte eu tinha nas mãos um objeto-não-voador-e-não-identificado com símbolos nada familiares, diria mesmo incompreensíveis. Solícita, ela me explicou: a salada pequena são essas folhas e mais quatro ingredientes, e a grande as mesmas folhas e oito ingredientes. Pode escolher à vontade.
No centro da cartolina plastificada, imagens sobrepostas do que identifiquei como uma folha de alface, outra de rúcula, outra de agrião e mais uma de radicchio. Em volta delas, formando uma mandala, minúsculos ícones representando os ingredientes à disposição.
Travei. Daquele mato não saía uma salada. Eu olhava, olhava e olhava pra aqueles minúsculos ícones de ervilha, champignon e cebola e simplesmente não conseguia enxergar o prato que eu queria.
– Que engraçado, né? – comentei, constrangida, com a garçonete e a mocinha do caixa – Acho que algumas pessoas realmente não têm inteligência pictórica...
Dois sorrisos metálicos muito, muito solícitos se viraram na minha direção.
– Não seja por isso, a senhora pode virar o cardápio e consultar nossas opções de salada prontas.
- Ah, agora sim! – Exclamei, satisfeita, apenas para virar a cartolina e descobrir um novo criptograma. Dessa vez eram linhas horizontais que se formavam pelos mesmos ícones diminutos de tomates, alcaparras, milhos...
“Não é possível que eu não saiba ler isso”, pensei com os meus botões. Insisti: não saiu nada. Derrotada, lancei o meu melhor sorriso às mocinhas do restaurante e soltei o famoso “Obrigada, vou dar mais uma olhadinha!”.
Atravessei a praça de alimentação, li um cardápio cheio de fotos de pratos prontos com detalhadas descrições verbais dos ingredientes e rapidamente escolhi uma reconfortante salada mista com uma panqueca de queijo e outra de carne. A única opção que me deram – graças a Deus! – foi o molho da salada.
domingo, 16 de agosto de 2009
De molho
É ele quem tem consumido minhas atenções, minhas energias, meus neurônios, minha inspiração e me impedido de escrever. Mas não só.
O George também, ah, o George... Que coisinha que é o George.
E o Denny, meu Deus! Que homem! Pobre Denny...
Até o Alex, quem é que não tem um fraco pelo cafajeste que maltrata os corações das mocinhas para ocultar as suas fragilidades?
(Todos eles, é claro, não me fazem abrir mão do Raj... Meu coração tem lugar para todos.)
Ah, mas eu não sou sexista. Antes deles também houve a Bette, a Shane... Ah, a Shane...
Meus leitores têm cobrado novos posts. Bom, não lembro quantas temporadas de Grey’s Anatomy eu ainda tenho pela frente, mas já esgotei as de The L Word que eu ainda não havia visto. Então, eu calculo que a abstinência não deva durar mais muito tempo.
O quê? Ora, bolas, é claro que de vez em quando eu me entupo de seriados americanos por semanas a fio, deixando de lado minhas leituras edificantes, meu intenso processo de escrita e minhas viscerais reflexões existenciais! Ser profunda cansa, não sabiam?
Volto logo.
domingo, 26 de julho de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
À deriva
“Para Cris,
Um livro sobre a impossibilidade de se partilhar experiências e a filosofia do ‘Vive aí’”.
Penso que dar ou emprestar um livro é uma maneira de partilhar com uma pessoa querida a sensação de que alguém, em um momento de inspiração, foi capaz de dar forma a sentimentos, emoções e vivências que experimentamos muitas vezes sem sabermos nomear.
Neste caso, no entanto, o que minha amiga e eu partilhávamos era justamente a nossa percepção sobre o quanto as experiências podem ser “impartilháveis”. Em Na praia, um jovem casal em lua de mel partilha (!) uma refeição momentos antes da consumação carnal do casamento. Ambos se casaram por amor, sem qualquer dúvida sobre o que sentiam, sem que tivessem sido compelidos por qualquer outro motivo que não a sua própria vontade. Ainda assim, sentados de frente um para o outro naquela mesa, no quarto do hotel, cada um vivencia sentimentos absolutamente particulares em relação ao outro e àquele momento. McEwan leva ao extremo a impossibilidade de se dividir inteiramente a intimidade com alguém, mesmo que esse alguém seja justamente quem mais amamos. Essa impossibilidade leva a consequências devastadoras para os protagonistas do romance.
Eu e minha amiga pensávamos muito sobre isso na época em que ela leu esse livro e decidiu dá-lo para mim. Eu já havia contado a ela a respeito daquilo que meu pai me ensinou: que o que existe entre um casal tem sempre uma faceta invisível para quem está fora da relação. Concordamos nisso. Mas nos sentíamos especialmente espantadas com o fato de que, mesmo dentro da relação, cada indivíduo de um casal pode viver uma história absolutamente diferente da vivida pelo outro. Era algo que nos causava um impacto profundo, não exatamente por ser surpreendente, e sim por ser algo que reconhecíamos de forma clara em nossas próprias vidas, em nossas próprias relações.
A segunda parte da dedicatória – a “filosofia do ‘Vive aí’” – foi a única conduta factível que encontramos diante dessa constatação. Posto que é impossível saber o que realmente se passa no íntimo das pessoas – mesmo que essa pessoa seja alguém que se deita ao nosso lado todas as noites – só nos resta seguir vivendo, aceitando a nossa absoluta falta de controle sobre a vida, a total imprevisibilidade do nosso destino.
A impossibilidade de partilhar experiências pode se revelar para quem vive junto há anos. Basta pensar naquele casal que durante trinta anos foi incapaz de ir até a padaria sem dar as mãos para atravessar a rua. Um dia, sem mais, ele se descobre apaixonado por uma mulher trinta anos mais jovem. Sai de casa, se afasta dos filhos, sequer se dá ao trabalho de conhecer a primeira neta. Parece história de novela mexicana, mas é vida real. E a esposa, completamente perdida, só sabe se perguntar se tudo aquilo que ela achou que tinha vivido foi um sonho sonhado só. Era? Impossível saber.
Se a impermeabilidade dos sentimentos íntimos acomete um casal que se conhece há tanto tempo, é evidente que não poupa também os jovens enamorados. Foi assim comigo. Quando achei que a minha relação tinha chegado exatamente no lugar que eu esperava – um amor maduro, companheiro, equilibrado –, ela acabou. Sinal de que, do outro lado da linha, havia alguém bem menos satisfeito do que eu. Como saber? Como prever? Impossível.
Casais que vivem juntos há trinta anos, casais que namoram durante quatro anos. E quando apenas começamos a conhecer alguém? Nada se compara à tensão de tentar interpretar os primeiros passos, gestos, movimentos e palavras de alguém que nos interessou. Queremos atribuir sentido aos mais ínfimos comentários, encontrar o significado oculto de um olhar, buscar a intenção secreta de um roçar de ombros, descobrir a entonação exata de uma risada. Nós, mulheres, somos particularmente ansiosas na busca dos sinais. Não me livro disso.
E quando a desejada relação, em que tanta energia se investiu, se desfaz em meias palavras ou palavra nenhuma, é também típico das mulheres encostar os machos contra a parede – com diferentes níveis de delicadeza – esperando espremer deles as palavras que as libertarão das suas esperanças vãs. Se as palavras não vêm, elas insistem de todas as formas, até que seu orgulho as faça recolher-se novamente.
O que talvez as mulheres ainda não tenham aprendido é que o silêncio fala tanto quanto as palavras, ou, inversamente, as palavras são tão polissêmicas quanto o silêncio. As palavras, as meias palavras, as palavras mudas, todas elas falam o mesmo: da impossibilidade de partilhar experiências.
As palavras talvez criem a ilusão de que o amor que não vingou pôde, pelo menos, existir no espaço comum do entendimento. “Se ao menos pudéssemos falar sobre o que aconteceu!”. Acontece que o que aconteceu para um não aconteceu para o outro, e isso não é algo que possa ser explicado em palavras. Pode, simplesmente, ser vivido em silêncio.
O silêncio polissêmico pode conter condicionais: “Se eu tivesse te conhecido em outro momento...”. Ou adversativas: “Você é legal, mas já tenho outra pessoa”. Às vezes, alternativas: “Ou eu fico sem você, ou me perderei de mim mesmo”. Aditivas: “Nem você, nem ninguém”. Concessivas: “Apesar de tudo, valeu a pena”.
Às vezes, no entanto, o silêncio pode ser tão unívoco quanto uma palavra chapada, bidimensional, afiada e precisa como uma faca. No silêncio, ouve-se apenas um sonoro e inequívoco NÃO.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Mulher Casada
Respondo, de imediato, que não mude o nome! Eu não poderia me sentir mais lisonjeada... E acho que servirá de contraponto sim, mas não como a afirmação de que somos dois extremos opostos, e sim como confirmação de que, nas singularidades, nos encontramos. Família que escreve unida, unida permanecerá!
Não é à toa que eu sempre nos comparei a Arnold Schwartzenegger e Dany de Vitto. Tão diferentes, tão parecidas...
Mundo: conheçam minha irmã, a Mulher Casada!
domingo, 5 de julho de 2009
Nota mental aleatória em noite de domingo
O poder restaurador de um dia de sol;
O poder destruidor de uma TPM.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
O cheiro do ralo
Uma semana depois, em um único dia, enxurrada de demissões. Amiga querida na lista dos dispensados. Fusão de equipes. Extinção de cargos. Reestruturação. Reuniões intermináveis entre diretores e gerentes – em salas-aquário que revelam rostos constritos e só aumentam a ansiedade dos peixes de fora. E-mail do diretor geral, supostamente de injeção de ânimo, pelo “tanto já alcançado”, pelo “tanto ainda a alcançar”. Exemplo vivo do “tapar o Sol com a peneira”: quem tem cabeça para isso nesse momento? Aliás, cada um só pensa mesmo em quanto tempo falta para a sua própria cabeça rolar.
Em meio à angústia dos telefonemas, da espera pelas notícias de quem sabia mais, das confabulações sobre o futuro da empresa, das análises sobre o acontecido, me peguei limpando furiosamente o ralo da pia do banheiro. Logo eu, o anti-herói das prendas domésticas, o terror das faxineiras, aquela cujo banheiro, segundo a Mãe Sereia, sempre parece ter sido perscrutado por um “filhote de São Bernardo”. Pois lá estava eu, cutucando o ralo com o que me aparecesse pela frente, esfregando-o com força, esquecida do mundo, como se daquilo dependesse toda a minha vida. Assim fiquei, minutos a fio. Só me dei por satisfeita quando ele brilhou e a água passou lisa pelo buraco, sem qualquer interrupção.
Aqui estamos nós, buscando sempre o Bom, o Bem e o Belo nas pequenas coisas, tentando extrair poesia das ausências, tentando atribuir sentidos aos espaços vazios. Mas o ralo continua sempre lá. E há horas em que temos de nos haver com ele, com a sua sujeira, e mais nada.
sábado, 20 de junho de 2009
Poetoterápico
(Cacaso)
O meu amor e eu
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Roll-on
- Que mulherona!
Eu, que gosto de saber onde vão dar certos caminhos, dei corda:
- O senhor viu?
Rapidamente Pipa-do-vovô se sentiu na obrigação de se explicar:
- Assim... Grande, né?
Não me fiz de rogada:
- Pois é!
O espanto deu lugar a uma curiosa timidez. E, com a mão na cintura e a cabeça meio tombada para o lado, veio o pedido:
- Eu posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro! – Respondi, curiosa.
Os olhos revirados de afetação, disparou:
- Se um homem assim, do meu tamanho, quisesse namorar com você... Você aceitava ele?
Respondi, com sinceridade:
- Lógico! – e acrescentei um dado técnico para dar mais credibilidade à minha afirmação – O senhor sabia que a média de altura do homem brasileiro é 1,68 m?
Imagine se eu fosse namorar só homem da minha altura!
- Hum... Desodorante...
Acostumada à minha surdez, sinalizei que não havia entendido o comentário. Ele completou o raciocínio:
- Aquele, de passar no sovaco...
E, com a mesma desfaçatez com que me medira no início da conversa, levantou meu braço e posicionou a cabeça na altura da minha axila, como a sublinhar a nossa diferença de altura:
- Ia ser o seu desodorante!
domingo, 14 de junho de 2009
Síntese dialética
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Elogio ao amor
Patrícia namorou com Lúcio durante quatro anos e meio. Ele sempre foi ciumento até dizer chega e ela, bem, não era exatamente uma moça tímida. As amigas viam o tempo passando e achavam que uma hora aquele caldo ia entornar. Entornou: Patrícia foi pra Inglaterra, descobriu o mundo e achou que estava na hora de viver outras experiências. Ela e Lúcio nunca deixaram de se ver e de se falar, mas para ela aquela história tinha ficado para trás. Quatro anos e meio depois... Patrícia descobriu que Lúcio era mesmo tudo o que ela queria. Casaram, tiveram uma filha e hoje administram a saudade durante cinco dias por semana, pois o emprego de Lúcio exigiu que ele fosse morar em outra cidade.
Dana não imaginava que a vida ao lado de alguém podia ser tão boa e tranquila até conhecer Marcelo. Depois de alguns meses de namoro mudou-se para a casa dele, depois de outros tantos meses morando juntos decidiram se casar, e tudo seguia seu rumo sem previsão de chuvas nem trovoadas. Mas, quando Dana passou por uma situação difícil, Marcelo não soube estar junto. E, mesmo dividindo toda noite a mesma cama, os dois acabaram se distanciando, até chegar em um ponto em que o amor, mesmo tão grande, acabou. Dana não condena ninguém que decida manter um casamento por comodidade, pois sabe que a separação pode ser a coisa mais dura que uma pessoa enfrenta na vida. Tentando juntar os cacos, resolveu investir nos seus próprios planos: foi fazer aula de francês para tentar um emprego no Canadá. Lá reencontrou Igor, seu namorado dos tempos do colégio. A velha chama reacendeu... Dana descobriu, afinal, que o amor mais tranquilo nem sempre é o mais verdadeiro. Lá estão eles, Dana e Igor, tentando descobrir como conciliar a bagunça dele com a mania de organização dela, poucos meses depois de terem juntado os trapinhos.
Fabíola e Tim eram daqueles casais que todo mundo dava como certo que ficariam juntos para sempre. Mas, como dizia o poeta, “pra sempre sempre acaba”... Ele veio para São Paulo, ela ficou em Brasília, o namoro foi ficando morno e um dia acabaram achando que aquela história não ia mais dar samba. Cada um pra um lado, meses depois, Fabíola já curtindo a vida de solteira de novo, resolveu se consultar com o Caco, seu astrólogo. No fim da sessão, quase indo embora e meio sem saber por que, decidiu perguntar ao guru o que os astros diziam sobre Tim. Caco olhou o mapa do moço e foi enfático: se você não for atrás desse bofe, vou eu! Um mês depois, lá estava Fabíola em São Paulo, juntando as escovas de dentes com Tim, em um casamento que já dura mais de cinco anos e acabou de render um mini ser humano.
Lena comeu muita grama vivendo amores não correspondidos. Dona de um coração do tamanho do mundo, ensaiou um ou outro namoro, mas sempre acabava na mão, com os olhos inchados e a impressão de que não havia vindo ao mundo para ser feliz no amor. Um dia, sem muita explicação, começou a se sentir muito bem consigo mesma. Raspou o cabelo, viajou pela primeira vez sozinha, decidiu mudar de área. Foi nessa época que, numa festa, conheceu Roberto. E o moço, versado em senso prático e com especialização em companheirismo, nunca deixou que ela se sentisse diminuída: ligou no dia seguinte, e no outro, e no outro, e quis namorar com ela, e morar junto com ela, e casar com ela. A vida, é claro, nem sempre é um mar de rosas, mas já lá se vão sete anos juntos e eles se mantêm firmes...
Márcia sabia que Fábio não era nem de longe o bom partido que as mães desejam para suas filhas. Ainda assim, achava-o apaixonante, e com ele viveu alguns dos momentos mais mágicos da sua vida. Quando ele terminou com ela, a moça sofreu horrores, mas soube tirar proveito disso para, alguns meses depois, retomar o namoro fortalecida. Um dia, um amigo de Fábio, casado com uma amiga de Márcia, declarou-se apaixonado por ela. Márcia nem cogitava se separar de Fábio, era feliz com ele; mas o que fazer com esse novo amor que subitamente ela descobria? Foram meses de sofrimento, para os quatro. Por fim, nessas acomodações que a vida promove mesmo quando isso pareceria impossível, Márcia e Gil acabaram se acertando. Hoje não imaginam viver um sem o outro. Para Márcia, foi seguramente a experiência mais difícil da sua vida, o que mostra que vida e morte, prazer e dor, chegadas e partidas andam sempre juntas.
Elisa e Artur fizeram juntos algumas matérias no primeiro ano de faculdade, mas ele logo pediu transferência e pouco tempo depois eles perderam o contato. Naquela época, envolvido com uma ex-professora, ele viveu um relacionamento intenso que virou um casamento de três anos. Um dia não deu mais para ficarem juntos. Artur teve ainda outra namorada com quem passou bons anos. Elisa, nesse tempo, também viveu as suas histórias. A mais longa delas durou cinco anos e se espalhou por todos os cantos da sua vida: com Márcio ela trabalhava, brincava, amava, viajava, brigava, consertava. Eles eram tão igualmente diferentes que pareciam mesmo feitos um para o outro, mas tanta proximidade acabou desgastando a relação. Com o coração refeito, um dia Elisa reencontrou o amigo Artur em uma virada cultural. A paixão foi tão violenta que dava pra se perguntar como eles levaram quase dez anos para se descobrir. Namoro, ajuntamento, filha... Tudo isso em pouco mais de vinte e quatro meses! Felizes, muito felizes...
Renata não tinha tido muitas experiências no amor antes de conhecer Bruno. Pelo menos, no que diz respeito a relacionamentos não platônicos e correspondidos. Quando a história dos dois engatou, as amigas comemoraram. E não é que toda tampa tem mesmo a sua panela? Um ano se passou, e outro, e outro, e outro e mais outro... O primeiro namoro acabou virando casamento. Paciência, se Renata não teve a oportunidade de construir outros parâmetros. Tem gente que passa a vida inteira procurando uma história de amor que valha a pena; outras, encontram de primeira! O negócio é abraçar a oferta da vida e continuar acreditando que tudo, sempre, valeu a pena. Mesmo nos dias em que é difícil ser dois...
Juliana teve o primeiro namorado sério aos dezoito anos. Tempos modernos, conheceu-o no antigo IRC, junto com um monte de outros amigos virtuais que faziam questão de se tornar reais. O namoro durou dois anos e depois perdeu o prazo de validade. Dali em diante, foram muitos os rolos, ficadas, paqueras e até um ou outro namoro, mas parecia que Juliana tinha perdido a mão. Seria possível que ela não encontraria mais alguém com quem realmente valesse a pena estar junto? As amigas acompanhavam as aflições, e desacreditavam de como uma mulher com tantos predicados pudesse ser tão pouco agraciada pelo amor. Mais de dez anos depois do primeiro namorado, foi navegando novamente em águas virtuais que ela conheceu Roger. Mesmo não tendo visto fogos de artifício, investiu com graça e energia até o rapaz perder o medo e decidir pedi-la em namoro. Quase dois anos depois, os dois curtem o prazer de uma relação madura e cheia de afinidades.
Helena não sentiu nada de especial na primeira vez em que viu Felipe. Ele, por sua vez, ficou de queixo caído. Não deu descanso durante meses, colou, chegou junto, encarnou até ela decidir dar uma chance... Começaram a ficar, a namorar, a viajar junto... Um dia a mala voltou de viagem e a roupa não voltou para ser lavada em casa. Os dois já tinham trabalhado juntos e agora moravam juntos. Eles eram meio como água e vinho, mas ainda assim achavam que tinha graça tentar ajeitar aquele tanto de diferenças. E foi nesse exercício diário de tolerância que, juntos, realizaram o feito mais bem acabado de suas vidas. Infelizmente a vida depois dos bebês nem sempre é fácil para os casais, as diferenças falaram mais alto e foi preciso dividir as vidas novamente. Mas quem presenciou o parabéns do segundo aniversário desse filho, de pé em um banquinho entre a mãe e o pai separados, com o sorriso mais lindo e meigo do mundo, sabe que algumas histórias, mesmo quando não dão certo, valeram a pena.
Isabel nasceu em uma família católica e sempre foi mantida debaixo de rédea curta pela mãe. Quando veio fazer faculdade em São Paulo, deixou o namorado no interior. Naquele tempo o controle ainda era rígido e qualquer coisa que se fizesse entre quatro paredes era pecado. Um dia o namorado deu no pé. Isabel sofreu... Até que, navegando na internet com Fátima, conheceu Arnaldo. Fátima gostou de Arnaldo, mas Arnaldo gostou mesmo foi de Isabel... que também gostou de Arnaldo. A amizade não resistiu ao triângulo, mas o amor se mostrou mais forte do que a mãe católica, virou ajuntamento em poucos meses e só depois foi consagrado nos ritos da santa igreja. Com a primeira filha no colo, Isabel foi de mala e cuia com Arnaldo tentar a vida em Nova Iorque. É lá que ela aprende todo dia a ser mãe, a confiar em si e a não deixar o copo d’água virar tempestade. Foi lá, também, que ela se descobriu escritora. E que teve o seu segundo filho, criando um laço perene com aquela terra estrangeira que ela agora chama de lar.
Fabiana estudou com Alberto desde o primeiro ano da faculdade. Nunca alimentou por ele qualquer sentimento diferente de amizade; dele já não se pode dizer o mesmo. Alberto, na verdade, sempre gostou de Fabiana... Era difícil driblar as indiretas, as sabotagens, as investidas de Alberto, mas Fabiana fingia que não tinha visto e tocava o barco. Cada um teve os seus respectivos relacionamentos, Alberto chegou a morar junto com uma namorada, Fabiana foi morar em San Diego. Um dia, sem mais nem por que, Fabiana olhou para Alberto de um jeito diferente... Ainda levou uns meses para se convencer do que acabou se revelando óbvio: a amizade tinha virado amor. Quer coisa melhor do que se apaixonar por alguém que sempre esteve ao seu lado, mesmo quando ainda não era possível corresponder a esse amor? Casaram-se no começo desse ano e passam muito bem, obrigada.
Cristina já conheceu o amor. Como a última vez em que ela o encontrou não foi a primeira, também não quer supor que tenha sido a última. Quando esse amor acabou, Cristina precisou olhar muito para si mesma e redescobrir o seu prazer nas pequenezas, reassumindo as suas escolhas, reaprendendo o seu caminho. Mesmo não tendo sido o caminho que ela escolheu, soube torná-lo significativo e encontrar a sua dose de paixão em tudo aquilo que faz. Cristina ainda acredita que o amor está à espreita, esperando o melhor momento para surpreendê-la novamente. Enquanto isso, diverte-se com a paisagem...
Uma homenagem a algumas de minhas amigas (a quem agradeço, mesmo sem ter pedido licença, por me deixar contar suas histórias – com nomes devidamente trocados para preservar sua identidade) e a todas as mulheres casadas, solteiras e separadas que continuam acreditando no amor, apesar de tudo...
terça-feira, 9 de junho de 2009
Dalila
Em seguida, foi exibir o corte novo ao seu passado.
sábado, 30 de maio de 2009
Salomão, uma história de amor
Devolvida a fauna à prateleira – obrigada, desculpe, Ah, o pinguim!, obrigada! – parei para examinar a espécime que se encontrava em minhas mãos. Corpanzil de pelúcia com uma fuça gigante, olhos maiores ainda, crina vermelha de trapos de pano, pernas longas e curvadas de aranha. Salomão não se encaixava em nenhuma das categorias animais do meu repertório. Havia nele algo de patético que chegou a me comover por alguns segundos, a ponto de eu esboçar alguns passos em direção ao caixa, mas logo mudei de ideia e resolvi colocá-lo de volta no lugar. Não sei se por desespero ou falta de jeito, Salomão se enroscou de novo na bicharada e nada o fazia entrar por completo na prateleira – ora era uma pata que ficava de fora, ora os olhos esbugalhados me encaravam, ora a bunda sobrava. Comecei a ficar aflita com a falta de colaboração daquele bicho. Respirei fundo e o empurrei com força, apenas para descobrir, com o coração aos saltos, que já era tarde. Eu não podia mais deixar Salomão para trás. Ele merecia ser de alguém que pudesse amá-lo, apesar de tudo.
***
A mãe trouxe Salomão para perto de Lia com cuidado – além de desajeitado, ele tinha quase o dobro do seu tamanho – e ela pareceu não se importar. Era um sinal positivo, a mãe explicou, e a adaptação deveria ser feita aos poucos. Lia aceitou que Salomão repousasse em seu colo durante alguns segundos. Todos comentavam, satisfeitos, que ela parecia ter gostado dele, embora a maior interessada não pudesse explicar se de fato o queria ou apenas o tolerava.
Foi então que, se aproximando lentamente, Theo tomou Salomão em seus braços e, com olhos redondos e brilhantes de que só as crianças de oito anos são capazes, fez seu apelo:
- Tia, que tal você trocar o jogo que me deu de presente por um bichinho menor para a Lia? E deixa esse aqui para mim...
Surpresa com a barganha, já que supunha que bichinhos de pelúcia fossem carta fora de baralho para pré-adolescentes de oito anos, perguntei se eu não poderia trocar o jogo por outro bicho igual ao Salomão, ficando cada um deles para um dos irmãos.
Mas Theo, que já conhecia Salomão antes mesmo dele existir, que já tinha até composto um rap em sua homenagem – rap que levou a mãe às lágrimas na reunião de pais da escola, com Lia ainda na barriga –, Theo sabia que não havia dois daquele. E explicou:
- Tia, a Lilica ainda é muito pequena. Deixa esse aqui comigo e troca o meu jogo por um bichinho menor para ela.
Eu e a mãe trocamos olhares significativos e optamos pela pedagogia do meio. Explicamos que Salomão poderia ser dos dois, assim como o jogo, se ele decidisse ficar com ele, ou um outro bicho, se ele assim preferisse.
Theo olhou nos olhos de Salomão e anunciou, solene:
- Este é o Salomão, gente.
Depois, passou a noite toda com seu cavalo de pano embaixo do braço. Na hora de ir embora, fiz uma última tentativa:
- E então, Theo, qual é a sua decisão em relação ao jogo?
E ele, com a convicção infantil que deixamos para trás em algum lugar:
- Pode levar, tia. Troca por um bichinho menor para a Lilica.
Olhei para a mãe, olhei para a Lia e, diante do seu consentimento silencioso, afinal cedi, na pretensão ridícula de que uma decisão de tal porte coubesse a mim.
- Tá bem, Theo. O Salomão é seu.
Enquanto eu lhe dava um abraço de despedida, Theo me contou, em segredo:
- Mas sabe, tia, não vou levar amanhã o Salomão na viagem que a gente vai fazer. É que lá tem muita gente, e eu tenho vergonha...
Dito isso, me deu um beijo, virou as costas e subiu as escadas carregando seu velho amigo pela mão.